Dr.
Luís Carlos Calil - E-mail
: lc.calil@terra.com.br
Professor da Disciplina de Psiquiatria da Faculdade
de Medicina do Triângulo Mineiro, Uberaba MG
"Enquanto
a autoridade inspirar temor reverencial, a confusão
e o absurdo irão consolidar as tendências
conservadoras da sociedade. Primeiramente, porque
o pensamento claro e lógico conduz à
acumulação de conhecimentos (cujo
melhor exemplo é fornecido pelo progresso
das ciências naturais), e o avanço
do conhecimento cedo ou tarde solapa a ordem tradicional.
Pensamento confuso, por outro lado, leva a lugar
nenhum e pode ser tolerado indefinidamente sem produzir
nenhum impacto no mundo"
Stanislav Andreski, Social Sciences as Sorcery
A
história de Mateus, o estudante de medicina
que metralhou algumas pessoas em um cinema em São
Paulo, há algum tempo, nos remete a algumas
reflexões como educadores.
Educar implica em disciplinar, dar limites, nortear.
Difere de tripudiar, triunfar sobre a ignorância
dos alunos (se eles não ignorassem o que
sabemos para ensinar, estaríamos desempregados).
Para os humanos comuns que pretendem ensinar o que
sabem e ajudar os alunos a não desenvolverem
aversão pelo aprendizado, um bom começo
é sermos mais tolerantes com nossas próprias
limitações e por extensão com
as dos alunos. Assim, possivelmente não tornaremos
piores do que são, as pessoas com as quais
compartilhamos nossas vidas e carreiras.
A história contada por Mary Shelley, uma
garota de 19 anos quando escreveu seu thriller,
provavelmente mais citado que lido. Habitualmente
vemos referência a Frankenstein como sendo
o monstro, quando na história original, ele
é o cientista criador do monstro.
Pensando então no Dr. Frankenstein, cientista,
desejoso de dar vida à matéria morta,
como tem sido nosso papel como educadores? Que criadores
somos nós?
Tem havido na Faculdade desde sempre o culto à
intolerância. Talvez isto reflita o desejo
de manter afastado, o que mais nos assusta, pois
se próximos, estaremos nos relacionando,
e pensando a respeito de valores e dúvidas
que angustiam.
Para evitar tais dissabores, vamos fomentar a intolerância
para nos refugiarmos com nosso bando.
Intolerância aos de cor diferente da nossa,
de condição sexual diferente, de condição
econômica diferente, de crença religiosa,
de concepção política. Intolerância
aos casados, aos com amantes, aos sem amantes, aos
descasados, aos pais solteiros, aos assediadores
de alunos. Aos pesquisadores, aos que não
pesquisam. Intolerância aos chefes incompetentes,
aos competentes, aos não chefes. Intolerância
aos que tomam cafezinho, aos que não freqüentam
a sala de café. Intolerância aos "Dedicação
Exclusiva", aos que tem múltiplos empregos,
aos felizes e aos descontentes com o que recebem
pelo trabalho.
Aqueles que estão acima do bem e do mal e
não se incluem em nenhum destes grupos, sugiro
que fomentem os ritos de passagem. Que chamem os
alunos de burros, que mantenham o propósito
de incitar o terror, ensinar a temer e não
ajudar a aprender cada Disciplina.
Fomentando a intolerância possivelmente contribuiremos
para que se tornem piores do que são, as
pessoas com as quais interagimos. Aumentaremos as
chances de criarmos nossos próprios monstros
locais que poderão repetir as mesmas experiências
com seus futuros pacientes, alunos e quem sabe venham
a ser médicos de nós mesmos.
Quem estimula tais intolerâncias, age como
adolescente, projetando em colegas e alunos, sua
fragilidade. Ou não estão qualificados
para serem professores, ou não fazem uso
do conhecimento que seria esperado de sua qualificação.
Por outro lado, conviver com intolerantes, pode
mobilizar o melhor de nós, para não
nos tornarmos intolerantes iguais.
"Uma
palavra contundente é algo que pode matar
ou humilhar, sem que se sujem as mãos. Uma
das grandes alegrias da vida é humilhar seus
semelhantes"
Pierre Despragues In: Assédio Moral. Hirijoyen,
MF. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001