José
Luiz de Paiva Bello
Pedagogia em Foco, Rio de Janeiro
A
legislação da educação
brasileira tem coisas interessantes que ninguém
sabe explicar. Uma delas é a divisão
da classificação da educação.
Ninguém conseguiu explicar, com uma argumentação
lógica, baseada em estudos modernos da Psicologia
do Desenvolvimento, qual a razão da Educação
Infantil ser do 0 aos 6 anos (e esta ser subdividida
em Creche, de 0 aos 3 anos e pré-escola, dos
3 aos 6 anos); o Ensino Fundamental dos 7 aos 14 (e
este, repetindo a mesma estrutura do antigo primário
e ginásio, subdividindo-se em 1º segmento,
dos 7 aos 10 anos, e 2º segmento, dos 11 aos
14 anos) e o Ensino Médio dos 15 aos 17. Está
divisão, aleatória, é explicada
somente em contextos históricos em que a Lei
muda o nome, mas não muda a estrutura (de primário
e ginásio para 1º Grau e de 1º Grau
para Ensino Fundamental). O Ensino Fundamental ainda
tem a divisão de 1º segmento (1ª
a 4ª série) e 2º segmento (5ª
a 8ª série), voltando a velha proposta
do primário e ginásio, só que
sem o exame de Admissão. A Lei diz que tem
que ser assim. E Parece que Piaget nem existiu...
Existem outras questões que podem ser abordadas
como no que se refere a estágio ou a definição
de necessidades especiais. Mas não é
isso que está interessando no momento.
O que está incomodando agora é a questão
do aumento de 180 dias de aula ao ano para 200 dias
de aula/ano. Provavelmente quem idealizou esta proposta
imaginou que o estudante, estando mais 20 dias em
sala de aula, aprenderia mais. Isto é falso!
Existem tantos fatores pedagógicos e psicológicos
envolvidos na aprendizagem dos estudantes que a interferência
de mais ou menos dias de aula é insignificante.
Se a aula é ruim, pedagogicamente falando,
pode botar "dez mil dias de aula/ano" que
a aprendizagem dos estudantes continuará sendo
sofrível.
Por outro lado o aumento de 20 dias de aula no ano
tem repercussões diretas naquele que, de forma
mais concreta, é o responsável pela
qualidade das aulas: o professor.
Em primeiro lugar representa 20 dias a menos para
seus estudos. Quem idealizou este artigo de Lei não
imaginou que é melhor para os estudantes que
os professores gastem esses 20 dias estudando, ao
invés de estar preparando aula, preenchendo
pautas e atas de prova, participando de reuniões,
corrigindo trabalhos e preparando provas ou estratégias
de avaliação.
Nos cursos superiores existe a agravante de que o
professor, além de ter que estudar e se especializar
cada vez mais, tem que produzir, já que na
avaliação da instituição
de ensino (uma louvável invenção
do próprio MEC), conta a sua quantidade de
produção. Produzir quando? Nas madrugadas?
Durante as férias? Nos fins de semana? Quem
dá sua primeira aula às sete horas da
manhã e termina sua última aula às
dez e meia da noite, para ganhar um salário
ridículo, vai produzir quando!? Será
que nenhum legislador percebeu que os dias têm
somente 24 horas? Ou será que tem algum legislador
pensando em outorgar uma Lei criando o dia de 30 horas?
Não acho que o salário dos professores
seja ruim se levarmos em consideração
a realidade dos assalariados brasileiros. Mas se levarmos
em conta a relação quantidade de trabalho
e salário recebido, aí o salário
do professor torna-se um dos piores entre as profissões.
A legislação, ao invés de contribuir
com a melhoria salarial do professor, diminuindo sua
carga direta de trabalho com os estudantes, que talvez
seja a parte mais cansativa do contexto, incluindo
as atividades correlatas (planejamento, correção
de trabalho, elaboração de avaliações,
preenchimento de pautas e atas etc.), mantém
o mesmo salário e aumenta seus dias de trabalho
direto, diminuindo as possibilidades do exercício
de outras atividades para sua reciclagem e formação.
Conversando com um amigo engenheiro sobre essa questão
de 180 ou 200 dias aula/ano, ele me respondeu que
existem outras profissões tão desgastantes
quanto a do professor. Citou o estivador do cais do
porto que carrega sacos de grãos nas costas
em seu horário de trabalho e só tem
30 dias de férias. Respondi que, se os estivadores
levassem sacos de grãos para também
carregarem em casa; tivessem que planejar em casa
como carregariam os sacos de grãos no dia seguinte;
tivessem que fazer registros diários dos sacos
que carregou; tivessem que participar de reuniões;
tivessem que se explicar porque carregou o saco de
grãos assim e não de outra forma; tivessem
que criar critérios de avaliação
e avaliar cada saco de grãos; tivessem que
levar para casa cada avaliação dos sacos
de grãos e passar noites em claro para analisar
e entregar no prazo previsto pela instituição;
tivessem que preparar um trabalho teórico sobre
grãos uma vez por ano; tivessem que se reciclar
com estudos e cursos de como se carregar sacos de
grãos; não tivesse a menor idéia
de como será seu horário de trabalho
no semestre seguinte, nem mesmo se teria trabalho,
e ganhassem um salário que mal desse para comprar
livros para se especializar em sacos de grãos,
mereceriam, então, ter também três
meses de férias e 180 dias de trabalho por
ano.
O que conta na educação é a aprendizagem
do estudante. Esse é o cerne do trabalho pedagógico:
o professor tem que ser o facilitador da aprendizagem
do estudante. Determinar que o estudante aprenderá
mais porque se aumentam os dias de aula no ano é
esquecer que por trás da sala de aula tem a
figura do professor como coordenador desse processo.
Valorizar a sala de aula como processo de aprendizagem
é desconhecer que o processo de aprendizagem
não está preso à sala de aula,
principalmente nos dias modernos onde a informação
é amplamente divulgada através dos meios
eletrônicos.
Quem sabe os professores não poderiam passar
tarefas para o período de férias dos
estudantes? Tarefas leves que pudessem ter um tom
de brincadeira. Tarefas para serem devolvidas no primeiro
dia de retorno às aulas nos moldes de uma gincana.
Nos cursos superiores poderiam ser dadas tarefas que
abateriam as horas de estágio, já que
tantos estudantes trabalham e não podem cumprir
a carga horária de estágio durante o
período letivo. Tantas coisas melhores poderiam
ser "inventadas" para esses 20 dias que,
resumir tudo isso em 20 dias a mais na sala de aula,
parece até uma idéia de extremo desconhecimento
do pedagógico. Uma idéia primária,
pedagogicamente falando.
A realidade é que quem conhece o ambiente da
escola, que vive o ambiente da escola, que faz do
ambiente da escola a sua própria casa, sabe
que estão todos cansados. Os estudantes estão
cansados, os funcionários estão cansados
e os professores estão exaustos. Quem está
presente cotidianamente na escola sabe disso; vê
isso na expressão dos colegas, nos índices
de absenteísmo, na irritação
generalizada que eclode em constates conflitos, nos
casos de doenças, na estafa denunciada por
todos. Eu mesmo já assisti uma colega desmaiar
em sala de aula e outras tantas "passarem mal"
e terem que se retirar da escola.
Isto tudo é prejudicial aos estudantes. Aumentar
os dias letivos não resolve o problema da aprendizagem.
Ao contrário: prejudica a aprendizagem.
Neste momento histórico, onde o novo presidente
da República diz que vai fazer reformas no
MEC, é preciso que a amplitude das reformas
atente para este fato.
ESTAMOS
TODOS EXAUSTOS!!!!
Pela
volta dos 180 dias letivos ao ano!!!!
No
primeiro momento desta enquete (cuja metodologia será
explicada em seu final) os resultados estão
assim definidos:
Você
é a favor da volta dos 180 dis letivos ao ano?
Sim
- 73,84% - 590 votos
Não - 26,16% - 209 votos
Total de votantes: 799
Passo
aqui as observações recebidas durante
o primeiro momento da enquete:
Aumentar
a quantidade de dias letivos não melhorou em
nada a educação no Brasil. O governo
deveria se preocupar com as condições
para que nós professores possamos trabalhar
com dignidade e qualidade. Que tal os 20 dias serem
para cursos gratuitos p/ profs.
Max Suel Dummer Coutinho
Faço
do artigo PELO FIM DOS 200 dias-aulas/ano de autoria
do Sr José Luiz de Paiva Bello, o meu. Não
saberia expressar melhor... (Imprimi e repassei para
os amigos e INIMIGOS também).
Roberto do Prado Schiante
Se
a qualidade da educação continuar nesse
patamar, nem mesmo 365 dias de aula por ano serão
suficientes. Ainda acredito na educação
por causa de alguns educadores comprometidos com a
vida. 180 dias de aula nada mais é do que a
maioria das escolas oferece
Magna Regina Tessaro Barp
Eu
descobri hoje o número de dias letivos, será
que essa é uma das causas da falha na educação,
deste meu desinteresse?
carla
Defendo
180 dias MÍNIMOS para aluno e 200 dias Mínimos
para professor, pois este deve ter espaço no
seu turno de trabalho para formação.
Nada adianta ele estar na sala de aula sem se atualizar,
pesquisar apenas repassar informações.
LIA
Aqui as observações recebidas durante
o segundo momento da enquete:
O
argumento é interessante mas a conclusão
não é verdadeira.
Minha opinião é pelos 200 dias e por
tudo o que você usa para defender os 180.
Abraços,
Marco Aurélio
É
claro que a educação não deve
ser apenas quantitativa, mas não podemos esquecer
que o ideal seria manter os alunos na escola em tempo
integral. Mas esta é uma realidade improvável
em nosso país, então reduzir os dias
letivos só iria piorar as coisas
Deiseluce Nascimento
O
ensino de qde não depende do nº de dias
trabalhados, sou a favor de 180 dias, deixando os
outros 20 para recuperação sem tirar
as ferias dos alunos
Iara Ap. Batista dos Santos
Sou
a favor: O tempo de interação do aluno
com o conteúdo escolar faz diferença,
especialmente, quando vivemos numa realidade na qual
muitos alunos tem contato com o conteúdo escolar
somente na escola. Por que não faria diferença?
Veja: 8sX20=160dias.
eugenio ost
Corrijo.
Não sou a favor da volta aos 180 dias. Veja
as razões do comentário anterior.
eugenio ost
Na
minha opinião, a educação brasileira
está bem defasada, alem de que, um país
só se tornará um país com elevado
nível cultural através da educação.
Marco Aurélio Fleury de Santana
Acho
que 180 é o suficiente se ele for bem aproveitado,
qualidade de ensino não depende de 20 dias
a mais mas sim de professores e alunos capacitados
para se dedicar ao maximo seja qual for o tempo. A
educaçao esta defasada com 200 ou 180 dias.
Quando há boa escolas não há
discussão sobre qts dias se deve ir a escola
pq há prazer nisso, então ir a escola
200 ou 180 dias se torna uma discussão desnecessária.
janice
O
fato de terem aumentado o número de dias letivos
só acarretou cansaço aos professores
e alunos.
Adenise
Sou
a favor em aumentar o comprometimento, com toda a
sociedade, ver as diversas formas de complementar
e implementar a educacao. Nao vejo ser saída
fazer "hora extra" ...
Leila
Acho
que ñ, pois os alunos iriam ficar prejudicados,
pois em 200 dias letivos ñ temos condições
de ver toda a matéria pedida nos vestibulares,
imagina se tirármos mais 20 dias da nossa carga
horáira escolar? Seria uma injustiça
contra nós, (os alunos). Saymon Yury
Sou
professsora e tenho certeza de q essa diferença
ñ faria diferenças...
Angela Rosa