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Prof.
Dr. Jorge Claudio Ribeiro
Depto. Teologia e Ciências da Religião/
PUC-SP
A recente venda nas bancas do livro "Pantaleón
e as visitadoras", escrito por Mario Vargas Llosa,
me fez lembrar do filme baseado na obra, a que assisti
faz alguns meses. Saí do cinema pensando na escola
onde leciono. Vamos com calma... não é
o que parece: é mais do que isso.
Aliás, recomendo o livro e/ou o filme a quem
ainda não o leu, ou viu. A gente lava a alma
ante o humor e senso crítico da abordagem de
uma realidade que nos diz respeito. Não vou contar
o enredo, tem cabimento! Refiro-me apenas a uma cena
que uso como mote desta reflexão. O personagem
principal é Pantaleón, um disciplinado
capitão com brilhante folha de serviços,
que recebe a missão secreta de implantar um bordel
flutuante na Amazônia peruana, como paliativo
para os crescentes casos de estupro contra mulheres
civis, praticados por soldados "a perigo".
Pantaleón - ou don Panta, como é apelidado
pelas "visitadoras", nome de guerra das prostitutas
a serviço da paz - organiza a operação
com eficiência positivista e seu sucesso supera
as previsões. Na cena, o capitão necessita
ampliar seu contingente e está prestes a contratar
aquela que seria a mais bela das visitadoras: a Colombiana,
no filme; a Brasileira, no livro. Enrabichada por don
Panta, a deliciosa Colombiana oferece a ele um exclusivo
"control de calidad" dos serviços que
passará a prestar a toda a tropa (no livro, o
capitão é que insinua à Brasileira
um "exame de admissão", mas dá
no mesmo). Corta o papo, que não estou a fim
de estragar o prazer de ninguém.
Vamos ao que interessa. O que minha docência tem
a ver com Pantaleón e sua visitadora? Fico devaneando:
"Se o controle de qualidade é praticado
até numa atividade heterodoxa como essa, por
que não o seria numa escola que se quer séria?"
Não vos amotineis, ó atenienses: meu intuito
é colaborar. Me respondam rapidinho: qual é
o principal serviço de uma instituição
educacional? Ganha um sonho da padaria quem afirmou
que a atividade-fim são as reuniões; dança
uma valsa quem respondeu que é fazer avaliação;
merece um Sonho de Valsa quem ousou dizer que se trata
da boa e velha aula. Tudo a favor da pesquisa e da extensão,
que devem articular-se com a docência (e vice-versa),
mas fico na bronca quando alguém acha que faz
graça ao proclamar que "esta escola é
muito boa, mas o que estraga são os alunos".
Qualquer microempresa que se preze tem duas preocupações
principais: controlar a qualidade de seus produtos/
serviços, e conhecer seu mercado. Pois, pergunto
se as escolas têm idéia clara sobre as
aulas que nelas são dadas. Segundo o senso comum,
lecionar é a coisa mais fácil do mundo
e não demanda "prática nem tampouco
habilidade": basta botar um giz na mão do
gajo, nomeá-lo professor e está tudo encaminhado.
E não me digam que se trata de algo de pouca
monta. Basta um cálculo em cima do joelho para
saber quantas aulas são dadas a cada dia em determinada
escola. Vinte? Cinqüenta? Cem? Já pensou
em quanto essa soma representa de envolvimento humano
e quanto forneceria de informação e base
para aperfeiçoamento? Quantas descobertas, impasses,
obstáculos e superações! Em geral,
toda essa riqueza se desvanece no ar devido à
falta de um olhar institucional voltado para o conjunto.
Eis o Sísifo-docente, condenado a um eterno recomeço.
Mesmo que soubéssemos que a maioria das aulas
é um primor, ainda assim seria necessário
identificar a razão do sucesso. Considerando
que "a aula" não é uma substância
em-si, pairando nas nuvens, mas é essencialmente
uma relação, a falta de uma visão
articulada acerca de um dos pólos (os alunos)
encerra o outro (nós, docentes) num clima enevoado
em que, tateantes e não raro desesperados, nos
apoiamos na intuição e na empiria.
De novo suplico, ó atenienses, não vos
amotineis. Sei que uma escola não é uma
fábrica, as aulas não são salsichas
à venda e os alunos não vieram para lanchar.
Sem desmerecer da produção material, a
prestação de serviços educacionais
tem uma dignidade originante das demais. Carrega, pois,
muito maior responsabilidade. Se é assim, então
por que se aprimora tão pouco nosso principal
serviço e não se aprofunda o conhecimento
da cultura, anseios e desafios de nossos parceiros na
relação educativa?
Mais que exercer um "control de calidad",
mesmo que prazeroso como o da visitadora, as escolas
deveriam antecipar-se e oferecer uma política
permanente de capacitação a seus docentes.
Algumas, poucas, oferecem laboratórios de aula,
treinamentos e atualizações e procuram
conhecer melhor a juventude com que trabalham. Essas
deveriam ser rotinas numa profissão que se congratula
anualmente pela missão sublime que intui realizar
diariamente.
Feliz Dia do Professor, professor(a).
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