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::. Errar continua sendo errado
Julio Clebsch
Editor responsável da Revista Profissão Mestre
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Prezado leitor, faça uma rápida pesquisa interna em seu local de trabalho. Pergunte aos diretores, coordenadores, supervisores e demais membros da alta administração se eles não desejariam que a equipe docente fosse mais criativa. Ao mesmo tempo, pergunte aos professores se eles não desejariam ser mais criativos para a escola em que trabalham. Bingo! As respostas, certamente, serão idênticas: sim. E por que, então, essa tão desejada criatividade não aparece e acontece? Se existe essa concordância, e isso
vale para qualquer outra instituição do planeta, deveríamos estar vivenciando isso em todos os estabelecimentos de ensino!

O mesmo vale para seus discípulos. Você espera que eles sejam criativos, professor? Que bom. Isso é também o que esperam os pais deles e o mercado de trabalho. Querem que seus estudantes sejam pessoas que saibam pensar, ousar, tentar, experimentar. Que errem pelo caminho, mas que façam algo de diferente - e que traga, claro, resultados.

Mas aí, toda aquela incoerência do primeiro parágrafo se repete. Essas crianças passarão 15 anos em escolas que ensinam exatamente o contrário. Que errar é ruim. Que a disciplina é a primeira e mais desejada característica em um ser humano. Bate o sinal, forma fila, entra na sala, senta sempre na mesma carteira. Bate o sinal, fila, intervalo. Bate o sinal, fila, senta de novo no mesmo lugar. Via de regra, bico calado. Essa situação paradoxal acontece no mundo inteiro e já rendeu todo o tipo de obra.

A banda Pink Floyd usou essa situação absurda para fazer sua obra-prima The Wall. Na literatura nacional, temos Cazuza, de Viriato Correia. Até mesmo Maurício de Souza usa os absurdos desse tipo de escola como pano de fundo para muitas aventuras de Chico Bento. E há muitos outros exemplos.

A resposta é simples: pune-se quem erra. Desde a mais tenra idade somos punidos. Você sabia que ao chegar à idade dos 12 anos a maioria das crianças passa a utilizar somente cerca de 20% da sua capacidade criativa? Que ao chegar à idade de 40 anos a maioria dos adultos utiliza, em média, 3% da capacidade criativa que possuía aos 7 anos?

Punimos o erro, punimos a experiência. Queremos que nossos alunos dêem a resposta esperada, que sejam capazes de desligar o botão "Matemática" na hora certa para ligar o botão "Geografia" em seguida. Tudo para que a carga horária seja cumprida. Milimetricamente.

Existem duas coisas que o mundo todo busca desesperadamente: criatividade e motivação. A palavra criatividade (amor e sexo, também) está entre as campeãs de venda na seção auto-ajuda das livrarias ou na contratação de palestras para "capacitação". Para variar, as pessoas buscam sempre combater a dor e nunca procuram tratar as causas da doença. É como se esses livros e/ou palestras fossem "pílulas mágicas" que curariam a doença da falta de criatividade. Ah, tem mais, esses livros e/ou palestrantes têm de fornecer dicas práticas e de fácil implantação. Tudo acompanhado de muitas imagens, cores e risadas.

Entre as possíveis causas (da falta de criatividade), está o fato de que a grande maioria das escolas e das empresas prestigiam as pessoas que nunca erram. Os anúncios de emprego, então, são pródigos em exigir que os possíveis ocupantes do cargo sejam criativos. Pobres coitados, não sabem o que os esperam.

Várias instituições de ensino estão ganhando muito dinheiro, merecidamente. Foram, uma vez, pequenas e cheias de idéias de conquistar mercados. Como características principais, sobravam a elas agilidade para descobrir e ocupar rapidamente nichos de mercado e a capacidade de satisfazê-los. Cresceram, estabeleceram-se, algumas se transformaram em corporações gigantescas e, entre outras coisas, tornaram-se conservadoras e preguiçosas. Estão cheias de normas burocráticas, orçamentos anuais, políticas de expansão, interesses outros que dificultam o processo de criação. Não se incentiva o novo, o diferente, a quebra de um sistema que dá certo. Para que correr riscos? Eis a incoerência aqui, de novo. Não tem anúncio de emprego que não valorize pessoas criativas. É o que eu chamo de falácia da criatividade.

Clama-se por ela de um lado, acaba-se com ela por outro. Quer ver como a criatividade é sabotada constantemente em sua instituição? Proíba que estas frases sejam ditas, a partir de hoje, em qualquer reunião do corpo docente (meus parabéns se você conseguir):

20 . A gente já tentou isso antes e não funcionou.
07 . Isso não se adapta ao nosso sistema.
12 . Mas até que ponto isso é válido?
05 . E quem é que vai fazer?
18 . Não vai dar tempo de fazer.
01 . A gente nunca fez nada igual a isso!
15 . Isso é muito tentador, mas...
08 . Isso é muito interessante, mas...
11 . Isso é realmente fantástico, mas...
04 . Não vai funcionar.
17 . Pessoal, vamos ser realistas...
03 . Semana que vem a gente fala nisso.
19 . Essa não é sua função!
06 . (Silêncio mortal)
13 . (Risos)
02 . Eu ligo para você depois, tá?
16 . Pelo amor de Deus, Carlos!
14 . Boa idéia, mas isso implica em alguns custos.
10 . Você sabe que a gente está numa baita recessão.
09 . Você deve estar brincando!
21 . Etc.

Estas frases foram propositalmente colocadas fora de uma ordem. Incomoda, não?
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