Prezado leitor, faça uma rápida pesquisa
interna em seu local de trabalho. Pergunte aos diretores,
coordenadores, supervisores e demais membros da alta
administração se eles não desejariam
que a equipe docente fosse mais criativa. Ao mesmo
tempo, pergunte aos professores se eles não
desejariam ser mais criativos para a escola em que
trabalham. Bingo! As respostas, certamente, serão
idênticas: sim. E por que, então, essa
tão desejada criatividade não aparece
e acontece? Se existe essa concordância, e isso
vale para qualquer outra instituição
do planeta, deveríamos estar vivenciando isso
em todos os estabelecimentos de ensino!
O
mesmo vale para seus discípulos. Você
espera que eles sejam criativos, professor? Que
bom. Isso é também o que esperam os
pais deles e o mercado de trabalho. Querem que seus
estudantes sejam pessoas que saibam pensar, ousar,
tentar, experimentar. Que errem pelo caminho, mas
que façam algo de diferente - e que traga,
claro, resultados.
Mas
aí, toda aquela incoerência do primeiro
parágrafo se repete. Essas crianças
passarão 15 anos em escolas que ensinam exatamente
o contrário. Que errar é ruim. Que
a disciplina é a primeira e mais desejada
característica em um ser humano. Bate o sinal,
forma fila, entra na sala, senta sempre na mesma
carteira. Bate o sinal, fila, intervalo. Bate o
sinal, fila, senta de novo no mesmo lugar. Via de
regra, bico calado. Essa situação
paradoxal acontece no mundo inteiro e já
rendeu todo o tipo de obra.
A
banda Pink Floyd usou essa situação
absurda para fazer sua obra-prima The Wall. Na literatura
nacional, temos Cazuza, de Viriato Correia. Até
mesmo Maurício de Souza usa os absurdos desse
tipo de escola como pano de fundo para muitas aventuras
de Chico Bento. E há muitos outros exemplos.
A
resposta é simples: pune-se quem erra. Desde
a mais tenra idade somos punidos. Você sabia
que ao chegar à idade dos 12 anos a maioria
das crianças passa a utilizar somente cerca
de 20% da sua capacidade criativa? Que ao chegar
à idade de 40 anos a maioria dos adultos
utiliza, em média, 3% da capacidade criativa
que possuía aos 7 anos?
Punimos
o erro, punimos a experiência. Queremos que
nossos alunos dêem a resposta esperada, que
sejam capazes de desligar o botão "Matemática"
na hora certa para ligar o botão "Geografia"
em seguida. Tudo para que a carga horária
seja cumprida. Milimetricamente.
Existem
duas coisas que o mundo todo busca desesperadamente:
criatividade e motivação. A palavra
criatividade (amor e sexo, também) está
entre as campeãs de venda na seção
auto-ajuda das livrarias ou na contratação
de palestras para "capacitação".
Para variar, as pessoas buscam sempre combater a
dor e nunca procuram tratar as causas da doença.
É como se esses livros e/ou palestras fossem
"pílulas mágicas" que curariam
a doença da falta de criatividade. Ah, tem
mais, esses livros e/ou palestrantes têm de
fornecer dicas práticas e de fácil
implantação. Tudo acompanhado de muitas
imagens, cores e risadas.
Entre
as possíveis causas (da falta de criatividade),
está o fato de que a grande maioria das escolas
e das empresas prestigiam as pessoas que nunca erram.
Os anúncios de emprego, então, são
pródigos em exigir que os possíveis
ocupantes do cargo sejam criativos. Pobres coitados,
não sabem o que os esperam.
Várias
instituições de ensino estão
ganhando muito dinheiro, merecidamente. Foram, uma
vez, pequenas e cheias de idéias de conquistar
mercados. Como características principais,
sobravam a elas agilidade para descobrir e ocupar
rapidamente nichos de mercado e a capacidade de
satisfazê-los. Cresceram, estabeleceram-se,
algumas se transformaram em corporações
gigantescas e, entre outras coisas, tornaram-se
conservadoras e preguiçosas. Estão
cheias de normas burocráticas, orçamentos
anuais, políticas de expansão, interesses
outros que dificultam o processo de criação.
Não se incentiva o novo, o diferente, a quebra
de um sistema que dá certo. Para que correr
riscos? Eis a incoerência aqui, de novo. Não
tem anúncio de emprego que não valorize
pessoas criativas. É o que eu chamo de falácia
da criatividade.
Clama-se
por ela de um lado, acaba-se com ela por outro.
Quer ver como a criatividade é sabotada constantemente
em sua instituição? Proíba
que estas frases sejam ditas, a partir de hoje,
em qualquer reunião do corpo docente (meus
parabéns se você conseguir):
20
. A gente já tentou isso antes e não
funcionou.
07 . Isso não se adapta ao nosso sistema.
12 . Mas até que ponto isso é válido?
05 . E quem é que vai fazer?
18 . Não vai dar tempo de fazer.
01 . A gente nunca fez nada igual a isso!
15 . Isso é muito tentador, mas...
08 . Isso é muito interessante, mas...
11 . Isso é realmente fantástico,
mas...
04 . Não vai funcionar.
17 . Pessoal, vamos ser realistas...
03 . Semana que vem a gente fala nisso.
19 . Essa não é sua função!
06 . (Silêncio mortal)
13 . (Risos)
02 . Eu ligo para você depois, tá?
16 . Pelo amor de Deus, Carlos!
14 . Boa idéia, mas isso implica em alguns
custos.
10 . Você sabe que a gente está numa
baita recessão.
09 . Você deve estar brincando!
21 . Etc.
Estas
frases foram propositalmente colocadas fora de uma
ordem. Incomoda, não?