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::. Não podemos desistir da educação de nossas crianças
Beatriz Araújo Campos
Professora da 3ª série da Escola Novo Ser, em Bom Despacho

Sou professora (educadora?) há 20 anos e estou escrevendo para desabafar minha indignação com o que tenho presenciado.

Há pouco tempo, pedi a meus alunos que produzissem uma história, onde aparecessem elementos dos contos de fadas. O resultado? Um deles escreveu que o Lobo Mau estuprou a vovozinha; outro, que a Cinderela saiu de casa para “chifrar” seu marido e perdeu a calcinha nas escadas da boate. Seria cômico se não fosse trágico, pois são idéias saídas da cabecinha de crianças de 9 a 10 anos de idade. Será que estou ficando obsoleta e não acompanhei a evolução? Não sei. Para mim, evoluir é melhorar. E o que observo é uma piora na qualidade de vida dessas crianças. Não são capazes de conviver com os amigos e colegas respeitando-se mutuamente, estão preocupados com sexo (no mal sentido) quando deveriam estar brincando.

Já há um certo tempo que observo que as crianças não vêm recebendo transmissão de valores na maioria das casas. Chegam à escola sem conhecer sequer o significado de palavras como tolerância, respeito, humildade, compreensão, bondade e até mesmo honestidade. Então ouço colegas dizendo que “hoje os pais não educam seus filhos”. Fico pensando: será que realmente não educam? E se não o fazem, por que? Não sei. Não cabe a mim questionar a educação que cada família escolheu para seus filhos. Mas me arrisco em palpites: o mundo mudou. O ritmo da vida mudou. Hoje pais e mães trabalham e nem sempre têm tempo ou disposição para estar passando a seus filhos noções básicas de convivência. E mesmo aqueles que se dispõem a fazê-lo já não sabem bem por onde começar, ou o que é certo e o que é errado hoje. Culpa dos pais? Nem sempre. Realmente está difícil decidir quais valores e atitudes devem ser cobrados no mundo atual.

E para piorar nossa situação como pais e educadores, temos vários meios de comunicação que só confundem ainda mais nossa cabeça e a de nossos filhos/alunos. Exemplos, poderia citá-los aos montes. Mas vou me contentar com um comercial que tive o desprazer de assistir. Para mostrar a qualidade de seu produto (cera e lustra-móveis Poliflor), foi feito um comercial com cenas dignas de um filme pornográfico! Um casal se agarra dentro de casa e simula um começo do ato sexual na sala. São cenas onde o casal, afoito, se agarra derrubando móveis e objetos. No final, o texto, que tenta parecer politicamente correto, pergunta pela proteção. Em tempos de AIDS, pensamos em camisinha, mas, não. A proteção é a tal cera ou lustra-móveis. Não sou moralista, mas cenas que deveriam estar em filmes censurados, em plena luz do dia em nossas salas, realmente me incomodam. Pois, se eu, adulta, me sinto agredida com tais cenas, como ficarão as cabecinhas de nossas crianças? Se tentamos passar-lhes uma idéia de que sexo é uma coisa divina, íntima, onde o amor deveria prevalecer, como explicar-lhes tamanho mal gosto?

Talvez tanta agressividade na convivência com colegas e irmãos possa estar vindo também daí: até o amor é agressivo na televisão!

E aí? Aí, que é hora de lutarmos pelo respeito dos meios de comunicação. Se não posso ainda filtrar o que gostaria da TV aberta (e não possuo condições financeiras para assinar uma TV paga), posso, pelo menos, trocar a marca dos produtos que uso. Ou mudar de canal, ou mesmo desligar a TV. Ou quando fica difícil, assistir junto com meus filhos e conversar com eles sobre o que pensam ou entenderam de certas cenas.

O que importa é que não entreguemos os pontos! Não podemos desistir da educação de nossas crianças!
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