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O vestibular está morto |
Marcondes Rosa de Sousa
Professor da UFC e
da UECe, ora na residência do Conselho de Educação
do Ceará.
Email: marcondes@secrel.com.br
A democracia nos fez descobrir, primeiro, a igualdade
e, só depois, os desiguais. Que, ante a lei,
havemos todos de ter oportunidades iguais. Na prática,
a teoria é outra, deu-se ela conta. Os mais
fortes (e mais espertos) costumam transformar o "direito
de todos" no "privilégio de alguns".
E, assim, a desigualdade, ao invés de "direito",
termina sendo "exclusão". E, mais
grave que isso, sob o império dos fortes, o
direito dos desiguais torna-se coisa distante, a atender
por nomes estranhos ao cotidiano dos simples mortais:
"isonomia", "equidade", "equanimidade"
e vocábulos que tais... Quem sabe, por isso, Darcy Ribeiro
e o Congresso Nacional, com certeiro "golpe
semântico" mataram o "exame vestibular",
como porta e escala únicas, para entrada
em nossa educação superior, substituindo-o
por diferentes "formas de acesso". Com
isso, o recado: temos de preservar o direito dos
desiguais, de toda sorte e origem: os vários
tipos de "inteligência"; as diferentes
"porções da competência
humana"; os habitantes, enfim, das desigualdades
geográficas, econômicas e sociais,
como deseja a UNESCO.
Autistas, porém, no mundo
acadêmico, não demos ouvidos à
lei. E o "vestibular", mais que nunca,
continua fincado como "cultura" e poder.
Poder acadêmico, econômico, social e
político! Fora, no entanto, a sociedade,
impaciente, esboça sinais de eloqüente
insatisfação. Um "exame terminal"
(o ENEM), sob outros parâmetros, ganha crédito
e prestígio. Nos "porões da educação",
os desprivilegiados buscam atalhos, nem sempre legítimos,
de chegada à universidade, enquanto instituições
públicas de educação superior
se despovoam em nome da "competência"
e da "qualidade", sem ter aprendido, com
a Revolução Industrial (esta, quase
na quarta edição), a conciliar "qualidade"
com "larga escala". O Legislativo e o
Judiciário, furadeiras e britadeiras às
mãos, a ensaiar sucessivas aberturas de fendas,
nos muros de Academo, por onde se esgueirem os excluídos...
Em vão! Patrulheiros de enviesadas "igualdade"
e "competência", gritamos: "Não
é por aí!" Se não "por
aí", fico, temeroso, a pensar no dia em
que seremos surpreendidos, tal como com a proibição
do fumo nos vôos domésticos, com o inesperado
aviso: "Por decisão judicial, comunicamos
a todos que ... o vestibular está morto!".
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