Priscila Armani de Paula e Carlos Henrique
Ferreira Campos
Email:
labjol@acad.unibh.br
As cotas para negros em Universidades
trazem à tona um questionamento antigo:
somos ou não um país racista?
Da Disciplina
de Introdução aos Processos de Jornalismo
A UERJ implantou, em seu vestibular de 2003, a
reserva de cotas para negros e, desde então,
o assunto é discutido por estudantes, professores,
reitores, dentre outros. Para todos que se autodeclaram
negros, chegar as faculdades públicas é
uma verdadeira façanha. Reservar 20% das
vagas para negros garantiria sua presença
nas universidades. Mas essa não é
a única justificativa.
Segundo
Benilda Regina Britto, professora de Direitos
Humanos na Puc Minas e Coordenadora do Nzinga
– coletivo de mulheres negras de Belo Horizonte
–, a responsabilidade do Brasil para com os negros
é maior porque o país foi o último
a abolir a escravidão e além disso,
através da proibição de voto
ele legitimou a exclusão dos negros da
sociedade. As cotas fazem parte de uma política
de inclusão urgente dos negros, as chamadas
ações afirmativas.
As
Ações Afirmativas nasceram nos Estados
Unidos depois da década de 60 e consistiam
em ações positivas que objetivavam
compensar os erros do passado para com os negros,
ou seja, a violência da escravidão
e o racismo. As cotas para negros compensariam
os erros do passado e ajudariam a “nivelar” as
diferenças entre negros e brancos provocadas
pela exclusão daqueles da sociedade.
Antônio
Emílio Meliete de Araújo, coordenador
geral do vestibular da UFMG, vê problemas
nessa segunda justificativa. Ele acredita que
essa compensação gerada pelas cotas
seria falsa porque os injustiçados e os
colonizadores, vítimas e criminosos, já
morreram e então não há como
fazer essa justiça post-mortem. Ele posiciona-se
contrário às cotas porque não
acredita que elas são a melhor maneira
de incluir o negro na universidade e nem acredita
que elas gerariam o efeito esperado.
No
Vestibular 2003, a UFMG incluiu no questionário
para o candidato a pergunta “Qual sua cor?”. As
estatísticas demonstraram então
que a maior incidência de negros e alunos
de escolas públicas na UFMG se encontra
nos cursos noturnos. Essa universidade se interessa
por políticas acadêmicas de inclusão
dos negros e por isso está propondo ao
governo federal o aumento do número de
cursos noturnos com toda a infra-estrutura de
apoio necessária. Atualmente existem somente
doze cursos de graduação dos 44
que a universidade oferece no turno da noite e
Antônio acredita que a abertura de mais
vagas à noite é que traria mais
negros e pessoas de baixa renda à faculdade.
A inclusão seria feita naturalmente, sem
que se abrisse mão do teste de mérito,
o vestibular.
Antônio
Emílio acredita que as cotas promoveriam
uma inclusão sócio-econômica
de cabeça para baixo. Somente os negros
e pardos da escola particular é passariam
no vestibular. Ele argumenta: “dos 392 candidatos
da UERJ aprovados pela política de cotas,
392 eram provenientes da escola particular”. Ou
seja, os negros de baixa renda excluídos
do mercado de trabalho e da sociedade de consumo
pelo processo histórico da escravidão
seriam novamente excluídos. Ele completa:
“A UFMG não tem nenhuma intenção
de adotar a política de cotas enquanto
houver outras saídas”.
Mas
nem por isso deixam de existir projetos que busquem
uma inserção bem-sucedida do aluno
negro. O projeto Ações Afirmativas,
aprovado em um concurso nacional denominado “Cor
no Ensino Superior”, dentro do Programa “Políticas
da Cor” do laboratório de Políticas
Públicas da UERJ, existe desde agosto de
2002. Ele tem como objetivo a construção
de uma política da ação afirmativa
que busque a permanência bem-sucedida do
aluno negro, principalmente de baixa renda, nos
cursos de graduação da UFMG. O projeto
tem parceria com a FUMP e busca outras parcerias
dentro e fora da UFMG.
Complexibilidade
A
implantação das cotas nas faculdades
públicas, além de causar polêmica,
remete a uma questão muito complexa: como
definir quem é negro num país tão
miscigenado como o nosso?
Para
Benilda, essa seria uma pergunta hipócrita.
“Na hora de discriminar, todo mundo sabe quem
é o negro. Como é que na hora de
conceder os direitos ninguém sabe?”. Já
para Rosa Vani Pereira, pedagoga e técnica
da Comacon – Coordenadoria Municipal para Assuntos
da Comunidade Negra –, esse é um desafio
que pode ser enfrentado desde que existam condições
para isso. Ela cita o exemplo da Fundação
Getúlio Vargas, que com apoio da Fundação
Ford e Fundação Carlos Chagas, tem
um programa de pós-graduação
para populações historicamente excluídas
no Brasil e adota, além do critério
da cor da pele, o histórico de vida da
pessoa. Segundo ela, o único critério
não válido é o de raça,
já que se verificou cientificamente que
raça não existe. Os movimentos negros
usam a expressão “raça negra” com
conotação política e não
científica. Ela acredita que o desafio
de estabelecer critérios para as cotas
não deve ser impedimento para que elas
sejam estabelecidas.
Depois
de estabelecidos os critérios, a polêmica
continuaria. A implantação das cotas
geraria, segundo o professor de História
da Associação Pré-UFMG Geraldo
Magela Modesto, preconceito no mercado de trabalho.
Empresas ficariam mais receosas ainda de contratar
negros porque acreditariam que, se eles fizeram
faculdade no sistema de cotas, não seriam
profissionais qualificados adequadamente. Antônio
Emílio também tem essa visão.
Para ele, as cotas fariam com que a sociedade
fizesse distinção entre as pessoas
depois que elas se formassem. O empregador perguntaria
na entrevista para o emprego: “Você se formou
pela política de cotas?” e se a resposta
fosse afirmativa isso contaria ponto negativo
para o candidato ao emprego.
Além
disso, Antônio crê que instituir cotas
abalaria um pilar fundamental da instituição
universitária, que é o mérito.
A importância das pessoas dentro da comunidade
universitária decorre de seus méritos:
seus trabalhos, seus títulos acadêmicos.
Se dentro dessa comunidade passar a prevalecer
outro valor, como a raça da pessoa, a qualidade
da instituição e sua ordem poderiam
se modificar. O critério raça teria
de ser incluído em tudo e o critério
mérito, que seria o mais justo e permeia
todos os processos da faculdade, seria esquecido.
Ele completa: “se a universidade for usada para
compensar erros do passado, sua qualidade periga
acabar. Essa não é a sua função.”
Entre
vestibulandos e professores de cursos pré-vestibulares
as opiniões com relação às
cotas divergem. Aiska Rúbia de Freitas
Lacerda, aluna da Associação Pré-UFMG,
concorda com as cotas porque acredita que o Brasil
é um país preconceituoso e que os
negros, por serem classe excluída e menos
favorecida, teriam direito às cotas para
poderem modificar sua situação.
Já Isabela Marques Rocha, aluna da mesma
instituição, não concorda
com as cotas porque acredita que elas aumentariam
a discriminação contra os negros.
Para ela todos têm direitos iguais e devem
ter chances iguais. Dos 15 alunos consultados,
somente três foram a favor das cotas. O
que pesou nas opiniões foi a possibilidade
do aluno negro entrar com menos pontos e o aluno
branco fazer mais pontos e não entrar;
fato que ocorreu na UERJ. Entre os professores
do Pré-UFMG nenhum foi a favor das cotas.
Geraldo Magela destaca: “O importante é
tentar mudar a política social e econômica
do país para que os negros cheguem pelos
meios normais à universidade”.
Discutir
as cotas é discutir racismo no Brasil. Segundo
Benilda ele existe, apesar de escondido. “Nos Estados
Unidos você vê a arma apontada na sua
testa, no Brasil é pior. A arma do racismo
atira pelas costas”. O próprio governo já
assumiu que o Brasil é racista na Conferência
Internacional contra o Racismo feita pela ONU em
2001. Mas, mesmo assim, Antônio Emílio
não acredita em racismo. “Como um povo tão
miscigenado, onde negros e brancos se amam e compartilham
a mesma cama, pode ser racista?”. Rosa Vani vê
o racismo na desigualdade entre negros e brancos
que se mostra clara em pesquisa feita pelo IEPHA.
A pesquisa constatou que, desde o descobrimento
até hoje, a distância entre negros
e brancos no quesito oportunidades mantêm-se
constante. Ou seja, até hoje nada com relação
ao preconceito mudou. Geraldo Magela conclui sobre
a lei de cotas: “O preconceito brasileiro não
é resolvido dessa forma”.