Nestes quase cinco anos de Profissão Mestre,
tive o prazer e a oportunidade de falar com professores,
coordenadores e diretores de todo o Brasil. Encontrei
muitas diferenças, e também alguns pontos
em comum.
Por
exemplo, a avassaladora maioria vê a profissão
de educador como um sacerdócio, uma missão
espiritual, de vida, a cumprir. Ótimo. Poucas
forças podem ser tão motivadoras,
podem levar a descobertas de novas idéias,
podem tocar tantas mentes e corações
como essa visão. Se você acredita nisso,
continue. Se não acredita, pense um pouco
em quão fundo você afeta seus alunos
e seus colegas.
Porém,
e aqui está um grande problema, muitas vezes
essa visão de profissão torna-se a
única visão disponível ao educador.
Se
é sacerdócio, então é
uma vida de monge. E monge penitente. Deve dar as
mesmas aulas, sem mudanças, para sempre;
da mesma forma que a vida em um monastério
muda muito pouco. E se ganha pouco, e se os alunos
são indisciplinados, e se minha escola perde
alunos para a concorrência, tudo bem. Tem
de ser com sofrimento, mesmo.
Assim,
professores e diretores compactuam com uma situação
que, em qualquer outra área da economia,
seria motivo para, no mínimo, cabeças
rolarem.
Professores
não são treinados para lidar com o
planejamento de sua própria carreira ou com
a definição de metas. Diretores e
donos de escolas, muitas vezes, não têm
os mais rudimentares conceitos de administração
de custos, marketing, retenção de
clientes (alunos).
E
aqueles que vêem um pouco mais à frente
são, via de regra, execrados pelos colegas.
Vi muita gente reclamando da viúva do Aurélio
Buarque de Holanda por ter feito um bom acordo financeiro
ao mudar o dicionário do marido de editora.
Vamos ver, a família do dicionarista ganhou
mais conforto, sua obra ganhou um fôlego novo
e o mercado educacional brasileiro ganhou com a
saudável disputa editorial entre dois grandes
dicionários e uma multidão de vernáculos
menores que se obrigam a melhorar, para acompanhar
os outros. Mas a visão de muitos educadores
é reclamar, porque "professor não
pode ganhar dinheiro".
O
professor Pasquale faz sucesso em programa de televisão,
escreve livros, faz publicidade. Com isso, coloca
o cuidado com a língua portuguesa na pauta
do dia. Crase vira conversa de mesa de bar. Poucos
são o que consideram isso um exemplo a ser
seguido em outras matérias. A maioria reclama,
pois "professor não pode ser famoso".
Grandes
grupos educacionais, para atrair mais escolas conveniadas,
investem centenas de milhares de reais em pesquisa,
em aprimoramento do material didático, em
treinamento de professores. Em um País cuja
verba governamental para pesquisas é praticamente
inexistente, é ótimo saber que há
grupos de pessoas investindo para melhorar a educação.
Ah,
mas eles melhoram apenas a educação
"deles". Usam isso só para ganhar
dinheiro. E "não se pode usar a educação
para ganhar dinheiro". O triste é que
os professores com essa mentalidade são os
mesmos que reclamam dos parcos salários ou
da diminuição de alunos em suas salas.
Pense bem, com essa mentalidade, eles têm
direito de reclamar?
Está
na hora do educador e do diretor de escola se convencerem
que eles têm direito a uma vida melhor e mais
confortável, e buscar alternativas para tal.
É
sacerdócio. Mas também não
podemos esquecer de pagar as contas.
Abraço
Júlio Clebsch