O
texto pretende ser um olhar re(de)velador de saberes,
ignorâncias e incômodos que se tecem nas
diferentes redes de saberes onde transito, e, que
me fazem sujeito dessa experiência - em palavras
de J. LARROSA (2001) o sujeito da experiência
seria algo como um território de passagem...
o espaço onde têm lugar os acontecimentos;
é nesse lugar onde as coisas acontecem que
tentarei conversar sobre táticas discursivas
(CERTEAU, 1994) constitutivas da negociação
dos desejos (FILÉ, 2000) dos/nos currículos
da inclusão, dos currículos na/da diferença,
de educação e alteridade, de currículo
e identidades: do nome do outro.
Com esse trabalho pretendo compartilhar as maneiras
como fomos negociando currículos possíveis
ou, as maneiras em que se teceram currículos
praticados (BARBOSA, 2003, p.1) entre alunos e famílias,
vizinhos e professoras de uma escola especial estadual
. Compartilhar as maneiras como fomos tecendo redes
que nos permitiram a concretização desse
currículo em ações coletivas
dentro e fora dos espaçostempos escolares,
e, acima de tudo, negociar um currículo incerto,
inacabado e atravessado pela diferença: diferenças
que, construídas intersubjetivamente, ao mesmo
tempo não puderam ser controladas, limadas,
maquiadas, ou incluídas, feitas invisíveis.
después
de haber bailado,
¿Cómo hablar del bailar...? (Sebastián
Bertucelli)
O
movimento que tenho que fazer para escrever esse
texto é de ir até a minha própria
prática como psicóloga de uma escola,
e ao narrar (me narrar) encontrar os fios das teorias
desse saber praticado, que me permita falar de práticateoríaprática.
Implica, pelo tanto um exercício de mergulho
no cotidiano. Assim, esse texto busca trabalhar
sobre as práticas curriculares reais, entendendo-as
como complexas e relacionadas a fazeres e saberes
que nem sempre constituem um todo coerente e organizado
como aquele que, supostamente, informa as propostas
curriculares oficiais (BARBOSA, 2003, p.1)
Quando
comecei a trabalhar como psicóloga na Escuela
Especial "Jerónimo L. de Cabrera"
um dos "pedidos" formais que recebi da
instituição foi realizar o diagnostico
dum grupo de alunos que estava tentando ingressar
na escola. Fazia uns dois anos, eles e suas famílias
recebiam atenção individualizada centrada
na "re-habilitação" de parte
da psicopedagoga e fonoaudióloga, num modelo
clínico. O pedido de diagnóstico denunciava
que, a pesar do tempo de trabalho, não "sabíamos"
o que era o que os meninos "tinham"? Os
informes apresentados por médicos -quando
tinham- eram imprecisos e as mães a duras
penas podiam explicar-se as condutas dos filhos;
como resumo: os alunos tinham direito de ingressar
na escola, as profissionais não sabíamos
o que fazer com eles.
Como explico melhor isso? O "diagnóstico
caracterizava" esses alunos como membros de
famílias em situação de risco
social e, como pessoas com múltiplas deficiências
se
considera una persona con multi impedimento, multi
discapacidad o necesidades múltiples a aquella
que debido a la intensidad de sus problemas físicos,
mentales, sociales y emocionales, o a la combinación
de todos ellos, necesita servicios educativos, sociales,
psicológicos y médicos más
allá de aquellos que hoy ofrecen los programas
tradicionales regulares y especiales, con el fin
de maximizar su potencial integral para su participación
más saludable en la sociedad (POLTI, 2002,
p.1)
A
escola não tinha uma historia de trabalho
(a ausência era a historia) com esse "tipo"
de aluno, diria, com esse "tipo de patologias",
e, todas as referências que tentávamos
puxar para "compreender" -no sentido de
fazer alguma coisa mais familiar- essa situação
na que ficávamos submersas, mais desestruturadas
nos volviam: era impossível atender as necessidades
dos meninos com os "padrões referenciais"
que até o momento considerávamos pertinentes.
Entre o direito deles, e a nossa incapacidade/deficiência,
uma situação "nova" onde
os "deficientes" não tínhamos
certeza de que "lado" estavam.
Começamos a pensar outras formas de aproximação
ao problema.
A primeira coisa que acordamos entre os profissionais
foi falar com os pais. Ou seja, com a mãe,
porque era a única que vinha às reuniões.
Explicamos a nossa total ignorância profissional,
e, até, as nossas angustias pessoais ao encontrarmos
de cara com um quadro que pensávamos que
"não existia" ao menos nas escolas
(ainda que fossem escolas "especiais")
Fizemos contato com profissionais de uma Fundação
, que, em parceria com o Ministerio de Educación
de la Provincia de Córdoba, Argentina, estavam
oferecendo formação para escolas que
aceitaram o desafio da inclusão escolar de
pessoas com múltiplas deficiências.
Constituímos uma equipe de trabalho formada
por professoras de educação especial,
de música e de educação física,
psicóloga, psicopedagoga, fonoaudióloga,
cozinheira, diretora e, mães e alunos. Nosso
desejo era pensar coletivamente as maneiras como
esses meninos iam ser "escolarizados".
Mediados
pelos encontros de formação que recebemos
do pessoal da Fundação, inventamos
outra maneira de aproximação diagnóstica,
que nos permitira compreender melhor os contextos
onde os alunos viviam e as maneiras com que as pessoas,
até chegar a nossa escola, tinham conseguido
"virar- se" todo o tempo. Essa consideração
é de fundamental importância já
que foi justamente quando percebemos os nossos limites
e ignorâncias, reconhecemos que outros podiam
nos mostrar suas "maneiras de fazer" (CERTEAU,
1994, p.) e, valoriza-las como saberes tão
preciosos como os nossos. Assim, estou agora refletindo-teorizando
sobre minha prática e encontro a meu grande
amigo e orientador de pesquisa na minha graduação,
Sebastián Bertucelli dizendo
los
profesionales no marcamos el camino, sino que debemos
aprender a buscar, dejarnos llevar y dar servicios
en el contexto de estructuras heterárquicas
preexistentes a nuestra llegada... aprender a integrarnos
a movimientos de búsqueda de salud ya existentes
en las poblaciones de las Américas, alternos
todavía, pero que en forma reiterada y cotidiana
dan muestra de ser eficaces, eficientes y efectivos
(BERTUCELLI, 1997, p.190)
Acreditávamos
que eles tinham coisas a falar, não só
planos com sugestões (mandatos) profissionais
para seguir; sugestões que também
seriam importantes, porém, geradas numa conversa
onde estivera permitida a negociação
dos múltiplos sentidos duma sugestão.
A "maneira" inventada pela equipe de trabalho
rompia com as formas que, até o momento,
conhecíamos: tratava-se de pensarfazer coletivamente
um currículo para esse aluno. Começamos
por tentar pensar a deficiência, nesses "casos"
as múltiplas deficiências, não
como uma propriedade privada do sujeito "nomeado"
e sim como uma construção político-social
que de certa forma nos comprometia a todos .
A "DEFICIENCIA" como um nome constituído
intersubjetivamente, nas relações
que se tecem nas diversas redes, presume uma mudança
do paradigma: o ser humano não é um
"self encapsulado" , vai se constituindo
nessas múltiplas relações que
estabelece dentro das diferentes redes sociais,
diferentes redes de saberes. Nossos conhecimentos,
re-conhecimentos, maneiras de relacionarmos, nossas
diferenças e semelhanças, nossas contradições
e coerências, nossas teorias entendidas como
meras hipóteses (ALVES, 2001) se tecem em
uma rede que atravessa o cotidiano, e é ali
onde a alteridade toma forma: a noção
de rede de conhecimentos que, como nos diz Alves
(op.cit.)
não
obedeça à linearidade de exposição,
mas que teça, ao ser feita, uma rede de múltiplos,
diferentes e diversos fios; que pergunte muito além
de dar respostas; que duvide no próprio ato
de afirmar, que diga e desdiga, que construa uma
outra rede de comunicação (p.30.)
Como
se concretizaria esse "novo" paradigma
nas práticas cotidianas da nossa escola,
nos processos de tessitura dos currículos?
Considerando que os
professores tecem suas práticas cotidianas
a partir de redes, muitas vezes contraditórias,
de convicções e crenças, de
possibilidades e limites, de regulação
e emancipação (BARBOSA, 2003, p.1)
Saímos
então do espaço-lugar formal da escola
e começamos a ter os encontros nas casas
dos alunos: conheceríamos os demais lugares
onde os alunos transitavam, os cheiros, sabores,
ruídos, músicas, texturas, que eram
familiares para eles. Nós e a família,
convidamos os demais membros da família extensa
que tinham contato com o aluno; convidamos os profissionais
que atendiam "as deficiências dos meninos"
no sistema público e/ou privado: pediatras,
fisioterapeutas, neurologistas, etc.; convidamos
os vizinhos com quem o aluno tivera algum contato:
choferes de táxi, padeiro, vizinha, etc.
A partir desse encontro tentávamos reconhecer
os saberes que ali circulavam: uma de nós,
geralmente eu, junto com a mãe explicávamos
sinteticamente por que estávamos ali, e quais
eram as expectativas sobre o nosso encontro: tentar,
coletivamente, tratar de entender: como esse aluno
tinha chegado ao diagnóstico? Como e com
quem esse aluno estava relacionado? Quantas eram
as pessoas com quem se relacionava? Qual era a "qualidade"
dessas relações? Quais eram as preferências
dele -comidas, jogos, elementos, espaços,
músicas, etc.? Quais eram as coisas que não
gostava? Como nós sabíamos/ percebíamos
que era assim? Como era um dia completo dele (desde
que acordava, tomava banho, com quem, se saía,
a onde, com quem, para que, como e com quem se alimentava,
onde e como dormia, etc.)? Quais eram os sonhos
de cada um em relação a ele? e, Quais
eram as coisas que consideravam que podíamos
começar a pensar coletivamente para ir tornando
aquele espaço-tempo num "espaçotempo
de sonhos possíveis"?
"Entre
mate y mate" , essa conversa ia sendo desenhada
sobre enormes folhas de papel penduradas nas paredes
da casa onde podíamos "ver" entre
todos como se cruzavam ou não nossos saberes:
chamamos de MAPAS essas produções
que tinham uma foto com o nome do aluno no centro
dum enorme circulo. Por ex. o mapa de relações
ou de lugares de preferências estava dividido
em três espaçostempos: família,
escola e comunidade. Dentro de cada espaçotempo,
desenhávamos as pessoas que o povoavam, e,
com líneas de diferentes cores tentamos "qualificar"
as relações entre essas pessoas e
o menino -considerando a fala de todas as pessoas
pressentes- .
Assistimos assombrados como se desenhava um forte
vínculo com a mãe e com a pessoa da
escola que trabalhava mais tempo com ele, vimos
os poucos espaços -exceto a casa, a "sala"
da escola e a casa de algum familiar- que o menino
freqüentava; vimos à qualidade das preferências
que as famílias e vizinhos podiam identificar
e que nós, desconhecíamos ; a quantidade
de gestos e sons que nós só considerávamos
"alaridos sem muito sentido", impossíveis
de compreender desde a nossa lógica onde
a linguagem escrita e a linguagem oral -nessa hierarquia-
são consideradas como únicas e válidas;
percebemos os diferentes "olhares" entre
os membros da família ou entre os professores.
Hoje, retomo essa experiência para refletir
sobre identidade e currículo, para refletir
sobre "os outros" esses outros que não
controlamos
...esse
outro existe não porque sua existência
e reconhecida, porque é aceito, cotejado,
comparado, excluído e/ou incluído,
tolerado, examinado, respeitado, considerado, etc.
O outro, aqui, sempre esteve, mas em um tempo talvez
diferente daquele que percebemos; suas historias,
suas narrativas, sua própria percepção
de ser outro, não obedece de forma submissa
à nossa ordem...(p.62)...a presença
do outro independentemente de nossa percepção...(SKLIAR,
C., 2003, p.63)
Ainda
que desbordadas , tínhamos que encontrar
alguma coisa para trabalhar na escola: e se não?
...
Então, só tentando compreender e respeitar
a lógica do outro, lógica do caos,
lógica que visibilizava a necessidade da
discussão dos currículos formais da
escola: os espaços de encontro mudariam porque
as aulas seriam a maior parte do tempo nos espaços
de preferência do aluno, tentando ampliar
os lugares da comunidade; os elementos que mediariam
as nossas relações pedagógicas
seriam escolhidos em função das preferências
do aluno: música, texturas, sabores, etc.;
as mães ou irmãos mais velhos, ou
tios seriam co-professores pelo menos duas vezes
na semana. Os vizinhos acompanhariam algum tipo
de atividade do menino, na medida do possível.
Os "conteúdos" sofreriam mudanças
a partir da consideração dos desejos
e possibilidades. Por ex. Ariel tinha 13 anos, no
ultimo Mapeo que fui -ano 2002- andava só
com ajuda, não falava, tinha sérias
disfunções visuais, usava fraldas,
e suas condutas "sociais" eram rejeitadas
pela maioria das pessoas, nós inclusive e
a própria família. Ele cuspia, arrotava,
peidava, sem discriminação de lugar,
e, cada dia ficava mais isolado na sua casa, só
com sua mãe. O pai trabalhava na roça
e suas quatro irmãs iam crescendo e fazendo
suas vidas fora do sistema familiar. Ariel no freqüentava
espaços da comunidade, exceto a escola. Mas,
Ariel, também gostava de comer, ainda que
necessitara ajuda, gostava de dançar e ouvir
música, gostava dos espaços abertos;
sua mãe reunia-se conosco, negociávamos
formas de relação com Ariel; suas
irmãs expressavam angustia mas, ao mesmo
tempo, tinham desejos de fazer alguma outra coisa.
Foi necessário conversar muito com o chofer
do táxi que finalmente aceitou pegar Ariel
na casa e na escola sem a mãe, depois de
re-significar juntos as condutas que "provocam
nojo e ao mesmo tempo culpa do nojo em mim"
dizia o chofer.
Então, durante todo um ano "acadêmico"
trabalhamos "saídas à comunidade".
As "salas de aula" foram num café,
num banco, numa praça, numa farmácia,
etc. Éramos duas profissionais da escola
e um da família acompanhando Ariel junto
com um grupo de alunos; todo o trabalho de asseio
pessoal e alimentação foi mediado
por elementos que ele gostava -ainda que econômicos-
e pelas pessoas com que ele tinha uma relação
de confiança mais forte; "os tratamentos
fonoaudiológico e psicomotor" se realizavam
ali, tentando olhar as formas de caminhar que lhe
machucavam, de usar as cadeiras, de deglutir os
alimentos, de pegar a colher, etc.
Um ponto fundamental é que as suas maneiras
comunicacionais demandaram um esforço de
nossa parte, porque nos muitos e diferentes sons,
queixas, gemidos, risos, corridas, balanceios, enojos,
gritos e silêncios havia "uma palavra
dita" , só que nós éramos
quem tentaríamos, se não compreender,
pelo menos respeitar essa sua lógica. Aprender
também a "seguir ignorando"...
a suportar o mistério. Acho que SKLIAR dá
uma dimensão das complexas formas de tecer
as subjetividades e a alteridade ao colocar a idéia
de "temporalidade disjuntiva" (SKLIAR,
2003, p.63) coloca na discussão a existência
duma subjetividade única-mesma/em/si/mesma-unívoca,
capaz de nomear e de dar conta do mundo só
através das suas próprias regras:
sua própria língua, seu próprio
espaço, seu próprio tempo, que na
realidade não seria outra coisa que inventar
ao outro do mesmo.
Ainda
que as palavras fiquem presas ao tentar contar essa
experiência, e puxar alguns fios das teorias
sobre currículo, poderia dizer que essa é
a minha consideração atual de como
foi criado o "Proyecto Educativo para Personas
con multi-déficit" , sem pretensões
de ser a única e verdadeira. Ser só
uma das possibilidades de narrar essa prácticateoríapráctica
na que estou mergulhando. Ser "apenas interpretações
ilusórias" (CERTEAU, 1994, p.73)
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Anelice Ribetto
Psicóloga - Mestranda do Programa de Pós-graduação
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anelatina@yahoo.com.ar