"É
preciso criar oportunidades para que as pessoas
reflitam sobre suas idéias, sentimentos e
conflitos na área da sexualidade e envolvam
a totalidade do seu ser na re-interpretação
e reconstrução da realidade".
Tereza
Cristina Pereira C. Fagundes
Ao
tratar do tema educação sexual, busca-se
considerar a sexualidade como algo inerente à
vida e à saúde, que se expressa desde
cedo no ser humano. Engloba o papel do homem e da
mulher, o respeito por si e pelo outro, as discriminações
e os estereótipos atribuídos e vivenciados
em seus relacionamentos, o avanço da AIDS
e da gravidez indesejada na adolescência,
entre outros que são problemas atuais e preocupantes.
Todos esses fatores denotam uma necessidade cada
vez maior da inclusão da temática
sexual no currículo escolar. A família,
que deveria ser responsável por esse encaminhamento,
não se sente preparada o suficiente para
abordar o assunto não propiciando uma abertura
para a conversa em casa. Sendo assim, os pais transferem
para a escola mais essa responsabilidade.
A sexualidade sempre foi um tema de difícil
discussão, sobretudo para crianças
e adolescentes; a curiosidade, a percepção
das diferenças no próprio corpo e
no corpo do outro, a descoberta das carícias
e a fonte incontestável de prazer que o sexo
representa, fizeram do assunto um tabu e algo que
"não é conversa para crianças"
contribuindo ainda mais para aguçar a imaginação
de cabecinhas ávidas por informações.
Como essas informações não
são conseguidas em casa, entram em ação
os "colegas sabe-tudo" que, na maioria
das vezes, sabem muito pouco e acabam deturpando
fatos e informações, criando dúvidas
ainda maiores.
Como agravante, estamos vivendo a "era do show
do sexo" onde a erotização invade
as casa através de jornais, revistas, rádio,
internet e, principalmente, a televisão.
Influenciadas pelos ídolos, as crianças
estão cada vez mais erotizadas e os jovens
iniciam a vida sexual cada vez mais cedo, muitas
vezes sem a devida preocupação, resultando,
em muitas ocasiões, em gravidez indesejada
de garotas recém-saídas da infância.
Por
todos esses motivos se torna tão necessária
a presença da escola como orientadora através
de educadores preparados para esclarecer as dúvidas
dos alunos, lidando, inclusive, com questões
como preconceito no que diz respeito à preferência
sexual.
É
importante que o professor demonstre que as manifestações
da sexualidade infantil são prazerosas e
fazem parte do desenvolvimento saudável de
todo ser humano, dessa forma o professor estará
contribuindo para que o aluno reconheça como
legítimas suas necessidades e desejos de
obtenção de prazer, ao mesmo tempo
em que processa as normas de comportamento próprias
do convívio social.
VISÃO
DO SEXO NA SOCIEDADE
Na
antigüidade e na Idade Média, as crianças
européias falavam abertamente de sexo. A
partir do século XVI os europeus passaram
a redefinir a criança como um ser inocente
o que se perdurou até hoje.
O
sexo foi ligado a algo "sujo" e "mau".
Apesar de reconhecermos a sexualidade como prazerosa,
o sexo também é usado em nossa sociedade
como fonte de lucro e opressão como em propagandas
de televisão, prostituição,
pornografia etc. Com isto procuramos afastar nossos
filhos desse meio esquecendo-nos mesmo dos prazeres
pessoais que o sexo nos proporciona.
Antigamente os valores mudavam muito lentamente.
A partir do surgimento dos meios de comunicação,
o processo de mudança de concepções
e quebra de tabus ficou bastante acelerado. As novelas,
os filmes e propagandas colocaram o sexo como chamada
de atenção para seus produtos. Os
pais, em meio a tantas mudanças, ficaram
meio perdidos visto que, no seu tempo, como dizem,
não havia tanta liberdade cuja educação
era mais rígida e tradicional.
Atualmente, urge uma necessidade maior de se conversar
com os filhos e alunos, no caso da escola, sobre
sexo, um assunto tão relevante e que bem
sabemos, faz parte do cotidiano de todos, seja de
forma direta no caso dos casais, seja de forma indireta
no caso das crianças que são diariamente
expostos a propagandas e novelas que se usam desta
ferramenta para aumentar sua audiência. O
mais agravante é que as crianças menores
não compreendem o significado destas mensagens
na televisão, construindo assim conceitos
distorcidos e fantasiosos sobre a sexualidade.
O sexo também não é mais visto
como pecado por muitos. A virgindade deixou de ser
tabu para se tornar uma opção. Existem
muitas fontes de informação e um ambiente
mais favorável onde o tema já é
discutido em muitas famílias e escolas, ainda
que seja com restrições e preocupações.
Os adolescentes conquistam cada vez mais a liberdade
de escolher o momento da própria iniciação
sexual.
Mas, paralelo a este sexo despojado de preconceitos
surge a era do sexo perigoso, diante do qual faz-se
necessário alertar para perigos como doenças,
gravidez precoce e indesejada e muitos outros fatores
conseqüentes da falta de informação.
No entanto, informar apenas não basta. Sentimentos
como afeto, fantasias, medos, não são
compartilhados entre pais e filhos porque ainda
existe um clima de vergonha no ar.
FREUD
E A SEXUALIDADE INFANTIL
Inicialmente,
Freud acreditava que a sexualidade humana só
se desenvolvia na puberdade, período em que
o organismo poderia procriar. Entretanto ele começou
a rever estas questões com estudos sobre
a sexualidade infantil.
Freud fala das pulsões sexuais que são
vividas livremente pelas crianças e experimentadas
à parte não havendo ainda um objeto
sexual. A pulsão sexual tal como vemos em
ação em um adulto é composta
de pulsões parciais, cuja ação
se observa nas preliminares do ato sexual. Cada
pulsão se liga ao prazer extraído
do órgão a que estiver vinculado.
Exemplo: olho, no caso da contemplação;
genital próprio, no caso da masturbação;
boca, no caso da sucção do polegar;
ânus, no caso da defecação.
Será uma pulsão dirigida ao próprio
corpo que não buscará um outro corpo,
como acontecerá na puberdade. (KUPFER, P.
41, 1997).
Como há ausência do objeto sexual,
a pulsão sexual não possui outros
fins senão os propriamente sexuais e é
passível de sublimação. É
aí que interessa ao educador cuja educação,
segundo Freud, terá seu papel primordial.
O indivíduo, havendo a "dessexualização"
do objeto poderá voltar-se para atividades
sexualmente elevadas, tais como, produção
científica, artística e tudo aquilo
que proporcionar bem estar. Essas atividades serão
impulsionadas pela libido, mas a antiga ânsia
sexual ainda permanece só que de modo mais
brando, terno, prazeroso.
Para entendermos a sublimação tomaremos
como exemplo a pulsão parcial anal: quando
esta fase está sendo construída a
criança volta-se para tudo que diz respeito
a esta região do corpo. Descobre que dela
se desprendem as fezes. É natural que desejem
manipulá-las. Mais tarde, parte dessa pulsão
será reprimida, parte irá compor a
sexualidade genital e parte será sublimada,
transformando-se, por exemplo, na atividade de esculpir
argila, havendo dessexualização do
objeto no caso, a argila.
Crianças
de tenra idade sentem prazer ao urinar ou defecar
querendo brincar ou pegar. Podem querer examinar
seus genitais ou dos amiguinhos. Os pais ao ver
qualquer destas cenas, não devem surpreender-se
ou aborrecer-se. Os pais ou pessoas que trabalham
com crianças devem ter em mente que a masturbação
é normal e faz parte do processo de conhecimento
de seu corpo. O problema é que isto nos traz
um certo desconforto porque é muito provável
que nossos pais tenham nos dito que isto era feio
ou para não fazer isto de novo.
Realmente é difícil para os pais lidarem
com situações como estas, mas é
necessário aprender para não serem
severos. Não devemos olhar os atos infantis
comparando-os com a dos adultos. A criança
não faz nenhuma relação com
o "sexo em si", ela apenas sente prazer.
Mais tarde poderá sentir-se culpada por ter
sido desaprovada pelos pais ou pessoas que trabalham
com elas e esta culpa poderá ser levada para
sua própria experiência sexual.
Freud coloca os pais como pessoas incompetentes
para a tarefa da educação sexual preferindo
que estes não se ocupem desta tarefa. Para
ele, os pais esqueceram-se da sexualidade infantil
e, se esqueceram, é porque houve repressão.
(KUPFER, p. 47, 1997). Se houve repressão
inevitavelmente algum recalque ainda permanece.
Então como agir mesmo com todas as nossas
frustrações, recalques e conflitos
ainda que inconscientes?
A
PRIMEIRA EDUCAÇÃO
É
no lar que o ser humano deveria ter sua primeira
educação sexual. De acordo com a sexóloga
Marta Suplicy,
Uma
criança falante e curiosa pode começar
a mostrar interesse pelo sexo aos 2-3 anos, mesmo
sem o uso da palavra. A maioria o fará com
4-5 anos de idade (Suplicy, 1983, p. 36).
Nesta
fase o que a criança quer saber é
muito pouco, não é preciso explicar
detalhes, mas também não minta, não
brigue, não desconverse, explique o básico
na linguagem que ela puder entender.
Muitos pais acreditam que as crianças não
devem fazer perguntas sobre sexo por acreditar que
não possuem idade suficiente para entender,
considerando, portanto, um absurdo qualquer menção
a este assunto. Muitos adultos se escondem, sentem
vergonha e a causa pode estar numa infância
mal orientada.
No texto de Freud "Esclarecimento sexual das
crianças" em resposta a uma carta de
Dr. M. Fürst, ele afirma que as crianças
devem receber educação sexual assim
que demonstrem algum interesse pela questão
(KUPFER, p. 46, 1997).
A criança que tem idade para perguntar também
tem idade para ouvir. Os pais nunca devem dar respostas
imaginárias e irreais como, por exemplo:
se a criança perguntar como nasceu o pai
responder que foi a cegonha que trouxe, ao invés
de falar a verdade na linguagem adequada para cada
idade.
Quando a criança descobre que os pais estão
mentindo ela se sente enganada como afirma Suplicy,
"No momento que seu filho descobrir que você
o engana você não será mais
um pai ou mãe perguntável. Você
perde a credibilidade, mas seu filho continua curioso
e perguntará aos colegas" (1983, p.
36).
Não adianta falar sobre espermatozóides
e óvulos com uma criança de 2 ou 3
anos, nesta idade muita explicação
pode confundir e o tempo de concentração
é muito pequeno, portanto os pais devem ser
breves, seguros e sobretudo falar com naturalidade.
As primeiras perguntas feitas pelas crianças
geralmente são: porque o pipi do papai maior
que o meu? Porque ele tem esses pelinhos e eu não?
Onde está o pipi da mamãe? Por onde
saem os bebês? Isto acontece porque nas primeiras
perguntas infantis a criança faz uma constatação
do que observa, segundo Suplicy. A mesma autora
ainda observa que conforme a criança vai
crescendo as perguntas vão se sofisticando,
e ao redor dos quatro-cinco anos ela já quer
saber como o bebê sai da barriga da mãe.
E, provavelmente a pergunta seguinte será
como entrou". (SUPLICY, 1983, p. 36)
Estas perguntas devem ser respondidas da forma mais
natural possível. Se os pais a repreendem,
a criança nunca mais lhes perguntará
e continuará tão curiosa quanto antes,
afinal está numa fase de descobertas. Sem
a ajuda deles ela poderá interpretar o sexo
de forma errada, acreditando, por exemplo, que seu
pênis tem algum problema por ser menor que
o do pai, que o pênis da mamãe ou da
irmã foi cortado.
Muitos pais não sabem como responder a este
interrogatório. Uma das perguntas mais difíceis
dos pais responderem é "como o bebê
entrou na barriga da mamãe?" O livro
Mamãe botou um ovo!, de Babette Colle, apresenta
uma alternativa de resposta: "A mamãe
tem ovos dentro da barriga. O papai tem sementes
nos saquinhos que ficam fora do seu corpo. O papai
tem um tubo. As sementes que estão nos saquinhos
saem por ali. O papai encaixa na mamãe e
o tubo entra na barriga dela por um pequeno buraco.
Então as sementes nadam lá dentro
com a ajuda de seus rabinhos até o ovo. Quando
os dois se juntam formam o bebê".
Explicações como esta já podem
ser dadas a crianças de 4 a 6 anos. Antes
disso é difícil compreender e depois
disso já é necessário uma linguagem
mais próxima do real para evitar distorções,
mesmo porque eles já ouvem comentários
dos colegas e já estão mais ligados
em algumas cenas de novelas ou filmes.
Surgindo o interesse, não antes disso para
não precipitar sua maturidade, os pais poderão
utilizar um livro de sexo para crianças como
recurso, utilizando o nome correto dos órgãos
genitais como pênis, vagina e não pinto,
cocota, piriquita e outras expressões.
Da mesma forma e sempre, as respostas devem ser
verdadeiras e claras. Alguns pais acreditam que
a criança ficará assustada com palavras
como pênis, vagina, espermatozóide.
A partir de 4 anos já é possível
falar sobre o parto natural ou cesárea, sobre
a relação do papai e da mamãe,
lembrando-se sempre: na linguagem adequada e nada
de assombros.
É muito comum a professora ouvir risadinhas
quando, numa aula de ciências, são
mostradas figuras dos órgãos genitais
no estudo do corpo humano e o aparelho urinário.
Observamos espantos, murmúrios, indignações.
Isto acontece, muitas vezes, por falta de orientação
dos pais em casa. Muitas meninas só ficam
sabendo que vão menstruar quando conversam
com outras colegas que já tiveram esta experiência.
Muitas sentem vergonha dos seios que começam
a crescer usando como alternativa uma camiseta por
baixo da farda ao invés de pedir um sutiã
à mãe, e esta, por sua vez, não
percebe o constrangimento da filha. Tudo isso mexe
com a cabeça do adolescente que além
de sofrer todas estas transformações
no corpo ainda não contam com o apoio e orientação
adequada dos pais.
Se uma criança não tem desde cedo
um esclarecimento sobre assuntos ligados ao sexo,
não compartilha seus medos e ansiedade com
seus pais, se os pais não lhe dão
apoio nas suas descobertas, certamente ela será
um adolescente carregado de dúvidas buscando
em revistas e conversas com amigos o entendimento
deste processo e provavelmente um adulto com complexos,
culpas e preconceitos, como observa Fagundes: "A
sexualidade infantil estabelece as bases para a
sexualidade na adolescência e para a sexualidade
na vida adulta".
CONVERSANDO
COM ADOLESCENTES
Para
chegarmos à adolescência recorreremos
à psicanálise para ratificar a afirmação
de Fagundes feita no parágrafo anterior,
monstrando as fases do desenvolvimento sexual infantil:
Fase oral ou fase da libido oral, ou hedonismo bucal
- a criança dos 0 aos 2 anos, através
da estimulação da zona oral (sucção,
mastigação, satisfação
da fome) sente sensações agradáveis
de prazer. Nesta fase tudo que vê quer levar
à boca.
Fase anal ou fase da libido ou hedonismo anal -
nesta fase a criança entre 2 e 3 anos sente
prazer em poder controlar parte de seu corpo retendo
ou liberando as fezes, começa então
a controlar suas vontades e tomar decisões.
Sente prazer em brincar com massas de modelar, argilas,
barro.
Fase fálica ou fase genital, ou fase da libido
ou hedonismo genital- quando começa a interessar-se
pelo corpo e manipular seus órgãos
genitais. É nesta fase que se inicia o complexo
edipiano. No complexo de Édipo o menino sente
um amor intenso pela mãe, identificando-se
com o pai, sente desejo em ocupar seu lugar sentindo
então raiva, medo e culpa. Imagina então
que o pai pode cortar seu pênis (complexo
de castração). A menina também
vive este complexo, mas neste caso sente inveja
do pênis. Para a psicanálise o complexo
de Édipo é um período fundamental
na estruturação da personalidade e
a base da identidade do indivíduo.
Inicia então um período de latência
que vai até a puberdade e caracteriza-se
por uma diminuição das atividades
sexuais. A criança entre 6 e 10 anos tem
sua sexualidade parte reprimida e parte sublimada,
deslocando a energia para atividades e aprendizagens
intelectuais e sociais.
Fase genital - é a chegada da puberdade,
da adolescência no qual o complexo de Édipo
reaparece, porém mais perigoso já
que o desejo incestuoso pelo pai/mãe agora
pode ser realizado com o surgimento da sexualidade
genital. Mas paralelo a isto o superego é
organizado e surge como uma barreira ao incesto
reprimindo os pensamentos perigosos e censurando
o ego que é responsável pelo controle
dos instintos. Ocorre então o deslocamento
das fantasias de dentro para fora da família,
o que gera muita ansiedade e culpa. Juntamente a
este deslocamento surge o processo de desligamento
da autoridade dos pais.
Segundo Becker, esta necessidade de separação
levaria à rejeição e hostilidade
aos pais, apresentando comportamentos e atitudes
diferentes das dos genitores para diferenciar-se
da família. Passa então a buscar uma
pessoa acessível para satisfazer seus impulsos,
que será ele mesmo. Afirma ainda que a masturbação
é importante não só para descarga
dos impulsos, mas para que ele tenha contato com
o próprio corpo preparando-o para as relações
sexuais.
Muitos jovens passam por conflitos e crises e se
apresentam com comportamentos rebeldes e hostis.
É difícil para os pais entenderem
esta fase de transição, pois a rebeldia
os machuca. Até então tinha seu filho
sob sua proteção, em baixo de seus
olhos, obedecendo-os e lhes dando satisfações
sobre o que ocorria na escola, com os colegas etc.
Agora têm em sua casa um estranho que quase
não pára em casa, e quando não
está na rua está pendurado ao telefone
ou trancado no quarto ouvindo o som nas alturas.
Já não quer compartilhar momentos
em família porque esta lhe parece careta.
Todo este processo está ligado à sua
sexualidade, ao desejo de mostrar-se independente
e, não sabendo lidar com estas mudanças,
muitos acabam tendo um baixo rendimento escolar.
Podemos encontrar adolescentes e adultos perturbados,
frustrados, medrosos. O medo está no momento
do desempenho sexual e suas dúvidas muitas
vezes ligadas ao uso correto dos métodos
anticoncepcionais e doenças sexualmente transmissíveis.
Para muitos adolescentes, hoje, quem é virgem
é careta. Querem aproveitar a vida e ao mesmo
tempo receiam contrair a AIDS. Muitas vezes a empolgação
do momento, o calor da paixão, os faz esquecer
das conseqüências e do ditado que diz:
quem vê cara não vê aids. Alguns,
sequer, possuem conhecimento das DST (doenças
sexualmente transmissíveis) e como são
transmitidas.
"Ao contrário do que muita gente pensa,
as DST são doenças graves que podem
causar disfunções sexuais, esterilidade,
aborto, nascimento de bebês prematuros com
problemas de saúde, deficiência física
ou mental, alguns tipos de câncer e até
a morte. Uma pessoa com DST também tem mais
chance de pegar outras DST, inclusive a aids (http://www.aids.gov.br/final/prevencao/dst.htm).
Por todos estes problemas os pais sabem que devem
conversar com os filhos, mas não sabem como
fazê-lo. De um lado estão os adolescentes
que sentem vergonha, não querem que entrem
na sua intimidade, preferem conversar com amigos
trocando experiências obtendo muitas vezes
informações distorcidas e errôneas
sobre a relação sexual. Do outro lado
estão os pais angustiados, com medo da aids,
de uma gravidez indesejada e que querem de uma hora
para outra ser amigo ou orientador.
O que os pais devem saber é que ninguém
abre seu mundo de repente. Este é um processo
de confiança e ajuda que deve ser iniciado
na infância e acompanhado sempre com amor,
compreensão, paciência, cautela e sem
dúvida boas informações.
Se os pais sempre evitaram ter estas conversas desde
a infância, poderá encontrar grande
resistência para um diálogo quando
chegar na adolescência, mas nunca devem desistir.
É necessário aproveitar as oportunidades
que surgem naturalmente para iniciar um diálogo,
sem forçar nada.
Arantangy observa que "Vejo pais forçando
uma intimidade que incomoda os filhos. É
preciso que os pais falem de si, pois a intimidade
é partilhar emoções numa via
de mão dupla". (1995, p. 94)
Entretanto é necessário que haja limites
na conversa entre pais e filhos. O respeito deve
sempre existir. Pai e mãe não são
coleguinhas que trocam figurinhas, mas sim pessoas
adultas que devem se mostrar como seres humanos
que sentem, erram, acertam como qualquer outro.
É isto que os pais devem demonstrar, não
precisam necessariamente falar sobre tudo que já
passaram, desta forma estarão evitando que
sejam apontados como culpados caso os filhos cometam
algum erro igual ao do passado dos pais. O adolescente
pode pensar: se meu pai fez, eu também posso
fazer.
Pais que tiveram uma educação rígida
normalmente possuem dificuldade em lidar com este
tipo de assunto. Muitos possuem uma sexualidade
problemática, mal resolvida e não
sabem como ajudar seus filhos. Como diz Marta Suplicy:
"A grande maioria dos pais buscam uma receita,
uma resposta fácil para baixar sua ansiedade
diante da situação que eles estão
vivendo" (Suplicy, 1983, p. 34).
De um lado podemos encontrar aqueles pais que fingem
nada estar acontecendo com receio de enfrentar a
situação. De outro estão os
superprotetores que querem saber tudo sobre o filho.
Os pais devem ter em mente que não existe
uma receita pronta. É importante buscar informação
de como orientar os filhos, mas uma boa dose de
intuição sempre ajuda.
Para falar de sexo com o filho é preciso,
antes de tudo, criar um ambiente favorável,
onde ele se sinta seguro, tendo liberdade sem correr
o risco de ser reprimido.
A hora para estas conversas também deverá
ser observada. Não se pode querer conversar
num momento de um flagra da filha com o namorado,
por exemplo, ambos estarão exaltados demais
para trocar idéias. Também não
precisa ser algo tão formal como fazer uma
reunião com este destino. O ideal é
aproveitar uma observação feita pelo
filho diante de alguma cena na tv, ou se nada for
comentado a mãe/pai/parente poderá
perguntar: o que você acha disso?
Os pais devem estar atentos porque muitos adolescentes,
com vergonha utilizam um colega como pivô
da história falando na verdade de si mesmo,
por exemplo: "mãe, fulana me disse que
está afim de um garoto que ela acha que também
está afim dela, mas ela não sabe como
agir, o que ela deve fazer?". Ao invés
de responder prontamente, é interessante
que a mãe devolva a pergunta: o que você
faria? Ou: o que você acha que ela deveria
fazer? Desta forma, você terá oportunidade
de saber o que seu filho está sentindo e
observar como pensa. Entretanto, se policie para
não invadir onde não foi chamada.
Não aproveite esta dúvida para perguntar
coisas do tipo: "E você, está
afim de alguém?" Espere até que
ela sinta confiança em você para se
abrir. Se isto não acontecer, reveja seus
conceitos, atitudes e respostas.
Para o adolescente obter melhores informações
sobre o sexo, a melhor opção seria
levá-lo a um especialista. Um médico
poderá orientá-lo sobre os métodos
contraceptivos, riscos de doenças etc. É
uma forma mais segura de aprender, pois nem sempre
os pais saberão orientar bem nestas questões.
Se o adolescente não se sentir à vontade
com a presença dos pais é importante
que ele seja respeitado e que entre sozinho no consultório.
O
PAPEL DO PROFESSOR
O professor também exerce um importante papel
na sexualidade da criança, orientando-os
no dia-a-dia. A sexualidade deve ser orientada de
forma a preparar o indivíduo para a vida.
Porém, para educar é preciso que o
educador esteja preparado para tal tarefa.
Encontramos na maioria das escolas, grande deficiência
na didática utilizada pelo professor. Muitas
escolas que incorporaram no seu currículo
a educação sexual, não se encontram
preparados para assumir tal responsabilidade. Podemos
constatar tal afirmativa no seguinte relato:
"Resultados
de uma pesquisa que realizamos com professores sobre
educação sexual, apontaram para a
necessidade de sua formação exigindo,
desta forma, o desenvolvimento de programas adequados
à sua capacitação nesta área.
Obviamente tais resultados eram esperados, uma vez
que as Faculdade de Educação e os
cursos de formação de professores
de 1º e 2º graus pouco ou nenhum preparo
propiciam em relação à sexualidade
humana, com enfoques multidisciplinares" (Fagundes,
1995, p. 21).
Antes de começarmos a falar da sala de aula,
abordaremos uma situação diante da
qual muitas escolas ainda não se prepararam
para enfrentar e que, acontecendo e não havendo
a orientação adequada, haverá
uma repercussão bastante negativa na vida
do aluno. Vejamos: como reage um funcionário
da limpeza que pega duas crianças no banheiro,
por exemplo, mexendo em seus órgãos
genitais, ou um mexendo no outro, ou quando pega
duas meninas se beijando, ou um casal se acariciando?
Será que esta pessoa está preparada
para lidar com esta situação? Que
procedimento ela deveria tomar? Uma pessoa despreparada
teria como reação imediata gritar,
espantar-se, mencionar palavras que possam humilhar,
ou mesmo espalhar entre outros funcionários
ao invés de encaminhá-los ao setor
de orientação para que o orientador
possa conversar, explicar as diferenças entre
meninos e meninas, falar da homossexualidade, enfim,
o que ocorrer.
A escola deverá estar atenta a estas situações,
que poderão ocorrer em qualquer idade, e
preparar seus funcionários para enfrentá-las
sem espanto, desde os auxiliares da limpeza, porteiros,
recepcionistas, secretárias enfim, todo corpo
de funcionários.
Lembro-me de uma amiga que me ligou desesperada
porque a escola a chamou para contar que sua filha
de cinco anos estava na casinha do parque da escola
com um menino e uma menina da mesma idade, abaixando
o short e mostrando seus órgãos genitais.
Esta mãe disse que chorou muito e não
sabia o que fazer. Disse-lhe então que isto
era normal nesta idade, que era uma fase de descobertas
das diferenças sexuais, que a curiosidade
era natural. Sugeri que comprasse um livro infantil
sobre sexo e que mostrasse, através das ilustrações,
as diferenças entre meninos e meninas entre
homens e mulheres, e sempre que a criança
mostrar interesse, conversar sem fazer alarmes.
É difícil falar, em sala de aula,
sobre homossexualidade, quando há um aluno
homossexual e cujos colegas ainda não estão
amadurecidos para aceitá-lo ocorrendo, desta
forma, piadas e risos que machucam e levam à
baixa auto-estima, podendo ter, como conseqüência,
baixa no rendimento escolar. O orientador deverá
incluir na sua fala temas como respeito e preconceito.
Bem como é difícil também falar
sobre abuso sexual quando se sabe que alguém
já foi vítima deste drama. Em sua
grande maioria, a vítima não sabe
reconhecer o abuso e conseqüentemente não
saberá proteger-se. A vítima sente
vergonha, insegurança, medo e culpa pela
situação achando que ela provocou
o abuso. A maioria das pesquisas mostra que este
tipo de abuso parte de pessoas muito próximas
como padrastos e até mesmo o pai ou irmão.
Os danos causados não ficam apenas no âmbito
físico. Ocorrem danos principalmente psicológicos
prejudicando o desenvolvimento de sua personalidade.
Em geral os sintomas são aparentes: relaciona-se
mal e pouco com outras crianças, demonstra
timidez, depressão e insegurança;
apresenta, muitas vezes, nervosismo, comportamento
compulsivo e distúrbios de sono.
Entretanto o orientador não poderá
deixar-se intimidar. É necessário
informar, discutir, ouvir e orientar falando de
forma clara para que possam compreender que é
algo errado, que a pessoa não deve se sentir
culpada pelo que está acontecendo e a importância
da denúncia, sem, no entanto mencionar o
nome da vítima, é claro. Desta forma
espera-se que o aluno que estiver passando por esta
situação, adquira confiança
no orientador a ponto de se abrir em particular
e pedir ajuda.
O objetivo da educação sexual na escola
consiste em colocar professores com um preparo adequado
e desempenhar de forma significativa seu papel,
ajudando os alunos a superarem suas dúvidas,
ansiedades, angústias, pois "A criança
chega na escola com todo tipo de falta de informação
e geralmente com uma atitude negativa em relação
ao sexo. As dúvidas, as crendices e posições
negativas serão transmitidas aos colegas".
(SUPLICY, 1983, p. 49)
Educação sexual não significa
apenas passar informações sobre sexo.
Significa também o contato pessoa / pessoa,
transmissão de valores, atitudes, comportamentos.
É importante observar se estes educadores
estão preparados psicologicamente para falar
sobre sexo. A maioria não fez nenhum tipo
de curso. O que sabem é baseado em curiosidades
de revistas e troca de informações
com colegas, ou na leitura de livros que só
traduz o biológico sem levar em conta respeito,
sentimentos e emoções como já
foi dito.
Muitos destes orientadores não possuem a
própria sexualidade bem resolvida, tendo
problemas com seu parceiro ou consigo mesmo em relação
ao sexo. Em seu discurso, certamente passarão
um tom de frustração e inquietação.
De acordo com Teles "As pessoas encarregadas
de orientação sexual na escola devem
ter autenticidade, empatia e respeito. Se o lar
está falhando neste campo, cabe à
escola preencher lacunas de informações,
erradicar preconceitos e possibilitar as discussões
das emoções e valores" (1992,
p. 51).
Os professores também devem evitar emitir
seus próprios juízos de valores e
opiniões como verdade absoluta. Sabemos que
é impossível ficar totalmente isentos
de opinar e nem devemos, mas é importante
que as questões sejam lançadas, refletidas,
discutidas, sem que apenas uma resposta fique como
a correta.
Esclarecer os limites também faz parte do
papel do orientador. Este deve mencionar algumas
questões importantes como o que se pode fazer
em locais públicos e privados para que a
intimidade seja preservada. Isso cabe principalmente
às crianças que ainda não possuem
esta noção bem definida.
Falar sobre a aprovação das brincadeiras
sexuais, do consentimento do outro, é muito
importante. Explicar que tais brincadeiras não
devem ser feitas entre adultos e crianças
ou entre crianças e adolescentes.
Deve existir também uma efetiva parceria,
ou seja, os pais não devem delegar e restringir
este assunto apenas no âmbito escolar. Para
que isto aconteça é necessário
que a escola dê um retorno aos pais do que
está sendo visto, as reações
dos alunos, temas que estão em pauta, convite
aos pais para assistirem debates juntamente com
os alunos e estar aberta aos pais para orientá-los
no caso de não saberem como lidar com os
questionamentos dos filhos.
Alunos com desempenhos ruins podem estar passando
por problemas ou crises, o que é muito comum
na adolescência. Com um olhar mais aguçado,
o professor poderá perceber a inquietação
do aluno. Situações como encontrar
pornografias nas portas dos banheiros, nas carteiras,
agressividade utilizando-se de palavrões
relativos ao sexo já merece uma atenção
especial. São formas que o adolescente utiliza
para expressar seus medos, angústias e distorções.
Cabe ao professor, esclarecido e consciente de seus
deveres, ajudá-los na superação
desta fase tão difícil para muitos
tendo como objetivo o esclarecimento e amadurecimento
do indivíduo.
A escola deve informar aos pais sobre o projeto
de orientação sexual para que os pais
concordem e estejam cientes, evitando serem pegos
de surpresa com frases ditas pelos filhos como:
"hoje a professora mostrou um pênis e
uma vagina".
De acordo com o PCN´s - Orientação
Sexual, escolas que tiveram bons resultados com
a orientação sexual, relatam resultados
como aumento do rendimento escolar, devido ao alívio
de tensão e preocupação com
questões da sexualidade e aumento da solidariedade
e do respeito entre os alunos. Para crianças
menores relatam que informações corretas
ajudam a diminuir a angústia e agitação
em sala de aula (p. 122, 1997).
CONCLUSÃO
Desde
1989 em seu livro Etiologia Sexual das Neuroses,
Freud já mencionava a necessidade de mudanças
dizendo que: "Seria necessário mudar
muitas coisas... Mas é preciso, sobretudo
dar lugar à discussão dos problemas
da vida sexual junto à opinião pública.
Terá que ser possível falar dessas
coisas sem sermos considerados um fator de problemas
ou alguém que explora os instintos mais baixos.
E aqui também há muito o que fazer
para que no decorrer dos próximos cem anos
nossa civilização aprenda a se compor
com as exigências de nossa sexualidade".
(BETTS, p. 48, 1995)
A educação para a sexualidade deve
considerar que para o indivíduo viver com
plenitude no mundo que o cerca, é preciso
estar sensibilizado para respeitar a si mesmo e
aos outros, saber relacionar-se, ter responsabilidade,
crer na vida e procurar vivê-la com prazer,
conhecendo seus próprios direitos inclusive
o de ser feliz.
Toda educação sexual precisa fundamentar-se
nos alicerces da vida do ser humano, marcada pelos
registros inconscientes dos primeiros contatos e
experiências. Os pais e educadores devem estar
conscientes de que a educação sexual
correta desde a infância promove o desenvolvimento
de um ser humano saudável mentalmente e fisicamente.
O indivíduo aprende a refletir sobre seus
valores, distinguindo o conceito de certo e errado
diante do mundo em que vive. Aprenderá a
respeitar a individualidade e a opção
sexual de cada um, pois o importante é viver
e estar bem resolvido consigo mesmo.
Fagundes nos diz que "É preciso criar
oportunidades para que as pessoas reflitam sobre
suas idéias, sentimentos e conflitos na área
da sexualidade e envolvam a totalidade do seu ser
na re-interpretação e reconstrução
da realidade".
Este indivíduo terá maiores chances
de crescer como um ser dotado de maturidade suficiente
para saber conduzir cada momento novo que vive,
cada problema de forma consciente e segura.
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