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A
educação de indivíduos que
apresentam seqüelas motoras: Uma questão
histórica |
Rosalba
Maria Cardoso Garcia
Mestranda em Educação pela Universidade
Federal de Santa Catarina.
RESUMO:
O artigo se propõe a discutir a educação
das pessoas consideradas portadoras de deficiência,
focalizando mais detidamente a educação
dos indivíduos que apresentam seqüelas motoras.
Nesse sentido, discute as possibilidades de acesso ao
conhecimento sistematizado, a partir de uma contextualização
histórica. Aborda a relação dos
homens com o conhecimento ao mesmo tempo em que relaciona
a educação com a categoria trabalho. Discute
o movimento de integração das pessoas
consideradas portadoras de deficiência à
rede regular de ensino em meio às políticas
neoliberais.
Palavras-chave: educação, seqüela
motora, história
Introdução
A
proposta deste artigo é discutir como os indivíduos
que apresentam seqüelas motoras vêm relacionando-se
com o conhecimento. Quais são suas possibilidades
de acesso ao conhecimento sistematizado em uma sociedade
que privilegia os "normais"?
Nos
últimos dez anos, venho trabalhando como fisioterapeuta
com indivíduos que apresentam seqüelas motoras
em decorrência de lesões cerebrais. Eles
recebem, via de regra, diagnósticos e prognósticos
que determinam que "coisas" poderão
ou não fazer durante suas vidas em virtude de
suas seqüelas. Em muitos casos, as seqüelas
— os efeitos que a lesão inicial tem sobre os
movimentos corporais, a linguagem e a locomoção
— podem se modificar, ampliando as possibilidades de
esses indivíduos objetivarem-se com movimentos
e formas de comunicação comuns. Em outros
casos, por motivos diversos, tais possibilidades são
mais remotas, configurando singularidades, principalmente
no que se refere à motricidade e à comunicação.
Em qualquer dos casos, o prognóstico nem sempre
é visto como possibilidade, mas como algo determinado
pela localização e pela extensão
da lesão. Dessa forma, o diagnóstico,
a lesão inicial, influenciará as relações
entre a sociedade em geral e esses indivíduos.
O diagnóstico inicial exerce uma forte influência
sobre a vida futura dos indivíduos, não
só em relação a seus movimentos
corporais, mas também em outros aspectos, tais
como o acesso à escolarização e
ao trabalho. Tais influências podem vir a justificar
uma série de acontecimentos em sua vida que,
possivelmente, girarão em torno da segregação,
da exclusão e do preconceito.
Uma
abordagem centrada no indivíduo apresenta muitos
limites para a educação do aluno portador
de seqüela motora, desencadeando relações
de perpetuação de suas dificuldades. Com
tais relações, esse aluno vai aprender
de que maneira se comportar como deficiente e que é
preciso esperar o momento em que vai estar maduro, após
muita estimulação do ambiente, para realizar
um repertório mínimo de atividades condizentes
com sua lesão e seu grau de deficiência.
Nessa abordagem há uma cristalização
do papel de portador de seqüela motora que se generaliza
para outros aspectos de sua vida, em que a tônica
é o "limite", é o "não
ser capaz de".
Interações
sociais
Quando
consideramos que há uma correlação
direta entre diagnóstico e prognóstico,
sem considerarmos a multiplicidade de determinações
que nos cercam, promovemos um distanciamento do indivíduo
que apresenta seqüela motora em relação
a diversas situações de vida, entre elas
o contato com o conhecimento sistematizado. Há
um predomínio do entendimento de que é
preciso primeiro amadurecer para depois se desenvolver,
desenvolver-se para depois aprender, assimilar os conteúdos
para depois responder às questões apresentadas
pelo professor, estudar para depois de anos de escola
adquirir qualificação profissional com
capacidades, habilidades e destrezas.
Os
indivíduos que apresentam seqüelas motoras
utilizam-se de modalidades de respostas e desenvolvem
as atividades cotidianas de modos diferentes daquilo
que conhecemos como sendo comum para os homens e que
acaba sendo considerado natural. Em virtude disso, muitos
recebem diagnósticos de deficiência mental.
Esses diagnósticos oficializam ainda mais, através
do parecer de profissionais especializados, a condição
de portador de deficiência. Conseqüentemente,
há um grande número de indivíduos
que apresentam seqüelas motoras que freqüentam
instituições de ensino especial e um número
talvez maior dos que não têm qualquer contato
com uma instituição de ensino.
Como
as relações educativas não se dão
somente dentro da escola, mas em todas as relações
sociais que travamos, os indivíduos que apresentam
seqüelas motoras estão imersos em um caldo
de relações cuja base está centrada
em mantê-los deficientes. As mediações
predominantes feitas para esses indivíduos são
encaminhadas nesse sentido, tanto pela sociedade em
geral, como na prática de muitos profissionais
da educação. Para o senso comum, os indivíduos
que apresentam seqüelas motoras são frágeis,
dependentes, incapazes, improdutivos, defeituosos, limitados
etc. O entendimento da deficiência como limitação,
falha ou defeito leva-nos a pensar na concepção
do homem como máquina, com uma correlação
mecanicista entre órgãos e funções.
Para uma determinada lesão corresponderia, então,
uma determinada limitação.
Opondo-me
a essa forma de pensar, tomo por base o pressuposto
de que é a partir das interações
sociais que nos desenvolvemos, que as mediações
com as quais estamos envolvidos, nosso meio social,
são desencadeadoras de nosso desenvolvimento
individual. Essas mediações podem ser
feitas em sentidos diversos, promovendo a autonomia
ou a dependência dos sujeitos. Uma visão
que considera a história do indivíduo,
e a história em geral, contextualizada, não-fragmentada,
não-compartimentada leva ao entendimento de que
as singularidades dos indivíduos que apresentam
seqüelas motoras, suas características,
são expressões da totalidade da espécie
humana. Segundo Marx e Engels (1984), os homens produzem-se
uns aos outros, produzem sua vida material e, dessa
forma, produzem suas consciências, no próprio
processo histórico. Os indivíduos considerados
portadores de deficiência também fazem
parte da história. A utilização
de formulações tais como limitação,
déficit, e outras que têm sido atribuídas
a eles, pode significar a negação de homens
históricos.
Considerando
que os indivíduos se constituem através
das relações sociais, que se individualizam
nos grupos em que interagem, os indivíduos que
apresentam seqüelas motoras estariam se produzindo
e sendo produzidos dessa forma, individualizando-se
como deficientes. A deficiência, portanto, é
uma produção social. Mesmo as questões
orgânicas - como a paralisia cerebral, uma das
principais causas de seqüela motora - estão
ligadas à produção e à reprodução
da vida humana. A humanidade produz socialmente um grande
número de indivíduos com características
designadas como deficiências na medida em que
não resolve questões de saúde pública
como doenças infecciosas, cuidados com gestantes,
em particular, e questões sociais no geral, como
distribuição de renda, acesso aos direitos
básicos da cidadania, como saúde, educação,
habitação, alimentação básica.
As origens orgânicas das seqüelas motoras
não estão sendo aqui negadas ou negligenciadas,
porém são tratadas num contexto sócio-histórico.
No século XVIII, por exemplo, as causas orgânicas
de seqüelas motoras eram também causadoras
de mortalidade infantil. Na atualidade, as crianças
que sofrem anoxia no parto sobrevivem em números
muito superiores. O modo predominante de relação
social em torno da deficiência, em outros momentos
históricos, constituiu-se ora na exposição,
ora na segregação institucional. Atualmente,
vivemos tentativas de integração social.
O modo como a sociedade resolve seus problemas, como
permite ou não que as causas orgânicas
incidam, a partir de um conhecimento já produzido,
constitui-se numa produção social.
A
educação de indivíduos que apresentam
seqüelas motoras
A
escola da rede regular de ensino tem sido a instituição
responsabilizada pela mediação entre os
homens e o conhecimento sistematizado, em nossa sociedade.
A relação com o conhecimento concretiza-se
na relação entre professores e alunos.
As mediações que ocorrem nessas relações
têm a ver com a apropriação do conhecimento
sistematizado e com sua finalidade. Dessa forma, as
pessoas que ingressam e permanecem no ensino regular
objetivam-se como alunos, tendo como possibilidade a
objetivação como trabalhadores qualificados.
Embora
possamos ponderar sobre a riqueza de relações
que encontramos fora da escola, e mesmo em todas as
suas dificuldades estruturais, não podemos descartar
sua função de socialização
do conhecimento e de qualificação para
o trabalho, bem como a valorização social
dessa qualificação. É importante,
nesta sociedade, que se tenha um diploma, seja de um
curso profissionalizante ou de um curso superior, para
ocupar um lugar social que possibilite a subsistência
e o acesso aos recursos materiais.
Porém,
sabemos que a relação dos homens com o
conhecimento nem sempre foi a que conhecemos hoje e
que nos parece tão natural. Na Idade Média,
por exemplo, tínhamos um ensino dominado pela
Igreja, sendo diferenciado para indivíduos de
classes sociais diferentes: para os ricos, preceptores
individuais e o ensino das línguas clássicas
e da lógica; para os pobres, o ensino dos ofícios.
Com
as mudanças na forma de produção
da riqueza, modificou-se também a educação.
Quando o trabalho manual individual foi substituído
pelo trabalho coletivo das fábricas, e as ferramentas
pelas máquinas da grande indústria, o
ensino deixou de ser o dos ofícios, para se constituir
na forma que conhecemos hoje: um professor para muitos
alunos, conteúdos abstratos, correlação
entre currículo e faixa etária etc.
O
surgimento das fábricas ocasionou uma modificação
no modo de produção e de relação
entre os homens. O conhecimento em torno da produção
incorporou-se nas máquinas. O trabalhador individual
foi deixando de ter acesso aos conhecimentos relacionados
a seu trabalho, havendo uma fragmentação
do trabalhador e do conhecimento. O resultado foi a
separação entre o saber e o fazer, e aprender
tornou-se aprender intelectualmente.
Mas
qual o papel social dos indivíduos que apresentam
seqüelas motoras? Não há notícias
de máquinas que tenham sido projetadas para trabalhadores
com essas características. O mercado não
tem projetos para essas pessoas na produção,
ou seja, elas estão fora da produção
da riqueza. Mas, então, por que educá-las?
Pela lógica capitalista não faz sentido
investir na formação de um profissional
que não vai atuar na produção de
mais-valia, que não vai repor esse investimento.
Carmo
(1991), ao entrevistar trabalhadores portadores de deficiência
física, cita um depoimento no qual o entrevistado
relacionou integração social com estar
empregado, ter um salário, mesmo que o emprego
implicasse realizar tarefas mecânicas e repetitivas,
simples e alienantes, e reconhecendo que era preciso
aceitar esse emprego por não ter uma boa escolarização
ou uma formação especializada. Estar empregado
tornava-o menos deficiente aos olhos da sociedade. Tornando-se
útil, aproximava-se do modelo de eficiência
requerido pela forma de produção capitalista.
Seu pensamento expressa a ação da concepção
hegemônica.
Mas
então há projetos do mercado para utilizar
as pessoas portadoras de deficiência na produção?
É preciso observar a forma como o capital absorve
essa mão-de-obra "desqualificada".
Há um aproveitamento de trabalhadores considerados
portadores de deficiência em razão de suas
próprias deficiências: é o caso
dos surdos trabalhando nas gráficas, dos cegos
nas câmaras escuras, dos deficientes físicos
em funções que exigem que o trabalhador
saia o menos possível de seu local de trabalho
etc.
Já
quanto à escolarização, Carmo (op.
cit.) caracteriza diferenças entre as pessoas
portadoras de deficiência física, tendo
como parâmetro a causa de sua deficiência:
"deficientes congênitos" ou que tenham
adquirido sua seqüela nos primeiros anos de vida;
e "deficientes traumáticos" ou que
tenham adquirido uma seqüela no decorrer de sua
vida, já tendo sido incluídos no processo
escolar. Quanto aos indivíduos do primeiro grupo
o autor se posiciona da seguinte forma:
...necessitam,
geralmente, para obter os conhecimentos sistematizados
e veiculados pela escola, percorrer todas as etapas
da escolarização, convivendo e superando
não somente as barreiras e limitações
próprias da "deficiência", mas,
também, as impostas pela sociedade.
O
autor, aqui, faz referência a "limitações
próprias da deficiência". Ele refere-se
às características físicas, dificuldades
de mobilidade, entre outros aspectos. Mas, se buscarmos
entender a deficiência em seu contexto sócio-histórico,
penso que não poderemos fazer essa distinção
entre "limitações próprias
da deficiência" e "limitações
impostas pela sociedade". O indivíduo considerado
portador de deficiência convive com limitações
porque a sociedade atribui aos homens um caráter
idealizado, com base no qual distingue como limitações
tudo o que foge a seu padrão. O que é
chamado de limite corporal, sensorial ou cinestésico
seria primordial se os homens não vivessem em
coletividade. Um homem sozinho, com limites sensoriais
ou cinestésicos, poderia ter dificuldades de
resolver algumas situações em seu cotidiano.
Porém, o viver coletivo dos homens coloca como
primordial a compreensão do repertório
social e tecnológico. É necessário
apropriar-se de símbolos, códigos e significados
sociais, antigos e novos, bem como dos processos cognitivos,
para poder viver nesta sociedade. Conforme nos diz Kozulin
(1990):
Aunque
no cabe duda de que la ceguera, la sordera o la parálisis
cerebral congénitas son de naturaleza orgánica,
las consecuencias que tienen para el niño están
mediadas por los factores sociales y psicológicos
del desarrollo alterado.
Para
compreendermos melhor a educação dos indivíduos
que apresentam seqüelas motoras, vamos buscar na
história dados que elucidem como ela vem ocorrendo.
O
registro de instituições para deficientes
físicos é dado por Mazzotta(1996) em 1832,
na Alemanha, e no século XX, no Brasil. Cruickshank
e Johnson (1979) referem que surgiram escolas e programas
para essa clientela no final do século XIX nos
Estados Unidos. É importante destacar que, desde
o século XVI, já existiam instituições
e programas voltados ao atendimento de outros tipos
de deficiência, sendo que a deficiência
física, e dentro desta os indivíduos que
apresentam seqüelas motoras, só mais tarde
recebeu atenção. O tipo de trabalho realizado
nas instituições não tinha, necessariamente,
um caráter educacional. Mesmo na atualidade,
encontramos maior valorização da reabilitação
do que da apropriação de conhecimentos.1
Bueno
(1993) destaca que a institucionalização
dos indivíduos considerados "deficientes"
teve um caráter de isolamento daqueles elementos
que interferiam numa organização social
baseada na homogeneização e na racionalização.
Esse caráter excludente da sociedade capitalista
influenciou a educação regular e a especial.
No
Brasil, o ensino especial desenvolveu-se em meio às
políticas sociais do Estado de Bem-estar Social
que não passou de um "arremedo" comparado
aos países desenvolvidos. E, mesmo assim, atendeu
uma pequena minoria de pessoas consideradas portadoras
de deficiências.
Atualmente,
na versão neoliberal do capitalismo, que descarta
absolutamente medidas que atenuem os problemas sociais
por parte do Estado, estamos convivendo com o movimento
chamado de Integração da Pessoa Portadora
de Deficiência na Rede Regular de Ensino. Esse
movimento implica que os alunos, até então
exclusivos da educação especial, possam
freqüentar, tenham direito a vagas na Rede Regular
de Ensino. Esta, por sua vez, vem passando por um processo
de descentralização que se encaminha para
a semipublicização, por meio do qual poderá
ser gerenciada por setores privados da sociedade, tornando-se
uma instituição que cobra seus serviços.
Levando em conta que a maioria da população
considerada portadora de deficiência pertence
às classes populares, elas devem continuar a
sofrer uma exclusão do sistema de ensino.
Se
para os alunos considerados normais, sem maiores dificuldades
físicas para realizar atividades profissionais,
já não há garantia de emprego,
quais as possibilidades de um aluno portador de seqüela
motora tornar-se um trabalhador, considerando que provavelmente
terá maiores dificuldades em ter êxito
na escola?
Integração
Para
compreendermos melhor esse movimento de integração
de pessoas consideradas portadoras de deficiências
à rede regular de ensino vamos analisar um documento
que trata desse assunto.
Com
base no Princípio de Integração,
a Declaração de Salamanca e Linha de Ação
Sobre Necessidades Educativas Especiais foi produzida
na cidade espanhola de mesmo nome, por mais de 300 representantes
de 92 governos e de 25 organizações internacionais,
em 1994, durante o evento chamado Conferência
Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais: Acesso
e qualidade.
O
objetivo desta Conferência era
promover
a Educação para Todos, analisando as mudanças
fundamentais de políticas necessárias
para favorecer o enfoque da educação integradora,
capacitando realmente as escolas para atender todas
as crianças, sobretudo as que têm necessidades
especiais. (p. 5)
Nesse
sentido, a Conferência aprovou a Declaração
de Salamanca e uma linha de ação que apoiou-se
em outros documentos como: Declaração
Universal de Direitos Humanos, de 1948; Conferência
Mundial de Educação para Todos, de 1990;
Declaracão das Nações Unidas -
Normas uniformes sobre igualdade de oportunidades para
as pessoas com deficiência: resolução
48/96 - Assembléia Geral das Nações
Unidas, Dezembro/1993.
Em
seu segundo item, a Declaração de Salamanca
defende que toda criança tem direito à
educação e ao acesso aos conhecimentos.
O documento defende uma idéia, porém não
apresenta propostas para concretizar o acesso ao conhecimento
com relações educativas que dêem
conta do processo de sua apropriação por
parte dos alunos. A forma como busca concretizar a matrícula
dos alunos considerados portadores de necessidades educativas
especiais não parece ser muito integradora, quando,
no terceiro item, conclama os governos a "adotar,
com força de lei ou como política, o princípio
da educação integrada que permita a matrícula
de todas as crianças em escolas comuns, a menos
que haja razões convincentes para o contrário"
(p. 10).
Na
medida em que não fica definido o que seriam
essas "razões convincentes", abre-se
a possibilidade de diversas interpretações.
As "razões convincentes" para um aluno
que apresenta seqüela motora não ter acesso
à rede regular de ensino podem ser o transporte
para a escola, se a família não tiver
carro próprio e ele não puder andar de
ônibus; um equipamento que necessite para freqüentar
as aulas, como uma cadeira de rodas; barreiras arquitetônicas
no prédio da escola; o preconceito da professora
em relação às pessoas consideradas
portadoras de deficiências; a exigência
da escola de um familiar acompanhar o aluno em sala
de aula, no caso de a família não poder
atendê-la. Esses exemplos aqui colocados como
possíveis "razões convincentes"
para que um aluno não possa ter acesso à
rede regular de ensino podem ser compreendidos de outra
forma, como necessidades concretas dos alunos que apresentam
seqüelas motoras. Não há possibilidades
de esses indivíduos objetivarem-se como alunos
de uma rede regular de ensino, sem que sejam atendidas,
entre outras, essas necessidades de base concreta —
material e simbólica. O atendimento dessas necessidades,
que não são "especiais", faz
parte da luta pelo acesso e pela permanência.
Já
a Linha de Ação sobre Necessidades Educativas
Especiais tem como princípio fundamental que
"as escolas devem acolher a todas as crianças,
independentemente de suas condições físicas,
intelectuais, sociais, emocionais, lingüísticas
ou outras" (p. 17). E destacamos também
seu entendimento das necessidades educativas especiais:
"a expressão `necessidades educativas especiais'
refere-se a todas as crianças e jovens cujas
necessidades decorrem de sua capacidade ou de suas dificuldades
de aprendizagem" (p.18).
Nessas
afirmações do documento podemos encontrar
uma concepção de desenvolvimento humano
centrada no indivíduo. Embora utilize a expressão
"necessidades especiais" ao contrário
da já pejorativa "portador de deficiência",
entende que a necessidade é fruto da limitação
da criança e não do conjunto das relações
sociais em que a criança vive. Modifica-se a
expressão, mas continua sendo uma visão
individualizada do desenvolvimento humano. Para atender
às "necessidades educativas especiais"
propõe uma "pedagogia centralizada na criança",
o que deixa claro mais uma vez que as relações
sociais, para esse documento, não se pautam em
princípios como as diferenças de classe
e a história. Há aí uma opção
pelo entendimento de um desenvolvimento individualizado
que encaminha para desempenhos e méritos individualizados,
afirmando as diferenças humanas como "normais".
Um
discurso sedutor, que aparenta buscar uma sociedade
mais justa e mais igualitária, menos discriminatória,
mas que se trai quando "força" uma
harmonia incompatível com o sistema neoliberal.
Esse sistema social caracteriza-se pela sua dualidade,
o que gera um processo de marginalização
da maioria da população. Conforme Gentili
(1995),
as
sociedades dualizadas - sociedades de "ganhadores"
e "perdedores", de insiders e outsiders, de
"integrados" e "excluídos"
-, longe de se apresentarem como um desvio patológico
do aparentemente necessário processo de integração
social que deveria caracterizar as sociedades modernas,
constituem hoje uma evidência indisfarçável
da normalidade que regula o desenvolvimento contemporâneo
das sociedades "competitivas".
A
educação das pessoas que apresentam seqüelas
motoras precisa ser pensada, a partir dessa contextualização,
como uma questão histórica, buscando superar
uma leitura abstrata da mesma. É preciso que
consideremos mais do que um conjunto de características
físicas ao interagirmos com indivíduos
que apresentam seqüelas motoras. É preciso
que consideremos a história, o contexto no qual
estamos nos relacionando. É preciso que saibamos
diferenciar as idéias difundidas socialmente
que favorecem e desfavorecem seu desenvolvimento como
ser humano. Caso contrário, estaremos contribuindo
para o desenvolvimento da deficiência.
Estou
encaminhando esta discussão, portanto, no sentido
do desenvolvimento humano, com base em uma concepção
vygotskiana segundo a qual desenvolvimento e aprendizagem
estão interligados desde os primeiros dias de
vida do indivíduo, sendo que a aprendizagem impulsiona
e promove o desenvolvimento. Nessa concepção,
aprender e ensinar têm relação com
apropriar-se.
Não
basta, portanto, que os indivíduos que apresentam
seqüelas motoras tenham garantia de matrícula.
Não basta, tampouco, que possam freqüentar
uma escola regular. É fundamental que se promova
a apropriação dos conhecimentos produzidos
pela humanidade, dos signos, dos valores culturais e
dos processos cognitivos superiores, pois é aí
que encontramos o especificamente humano.
Notas
1.
Bueno (1993, p.90) observa, no Brasil do século
XX, a criação das seguintes entidades:
Pavilhão Fernandinho Simonsen, na Santa Casa
de Misericórdia, em São Paulo, 1931; Lar-escola
São Francisco, em São Paulo, 1943; Escola
Nossa Senhora de Lourdes, em Santos, 1949; e ainda a
Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação
- ABBR, no Rio de Janeiro, 1954. Mazzotta (1996, p.31)
cita, além destas, as seguintes instituições:
Escola Rodrigues Alves, no Rio de Janeiro, 1905; e a
Associação de Assistência à
Criança Defeituosa - AACD, em São Paulo,
1950.
Education
of the handicapped — a historical matter
ABSTRACT:
This paper discusses the education of people considered
handicapped and their possibilities of having access
to systematic knowledge. Therefore, it approaches the
school organization and the relationship with knowledge,
connects education with work and, at last, discusses
the integration of this questions in a neoliberal politics
context, avoiding and abstract reading and defending
a historicas approach.
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