Cleidi Lovatto Pires / Marenize
Santos Eder
Email: cleidip@terra.com.br
A presente discussão tem como objetivo sistematizar
idéias e refletir sobre a temática "fracasso
escolar" num âmbito geral de educação,
apresentando algumas conceptualizações
históricas, culminando com o fracasso escolar
relacionado à educação de pessoas
surdas, na atualidade. Para tanto, foram analisadas
respostas de um questionário, aplicado a um grupo
de professores que atuam numa escola para surdos, com
o intuito de compreender o que estes pensam sobre educação
de surdos. Pois há uma grande necessidade de
aprofundar o conhecimento desta temática no que
se refere à surdez e, sem dúvida, estas
discussões apresentaram-se (e ainda apresentam-se)
intimamente ligadas às questões sobre
o fracasso e os problemas do ensino regular que explicam
esse fracasso.
1. DISCUSSÃO TEÓRICA
No sentido de proporcionar uma melhor
compreensão sobre o assunto, faz-se necessário
traçar alguns marcos históricos, na
tentativa de interpretar a situação
que permeia, atualmente o cotidiano dos alunos surdos.
1.1 Um breve histórico dos
problemas de aprendizagem
Durante o século XVIII e XIX
(SCOZ, 1996), havia uma grande preocupação
com a relação binária normal-anormal.
As crianças que não acompanhavam um
"ritmo" estabelecido pelo grupo de pares
eram rotuladas e estigmatizadas de incapazes.
Acompanhando essa tendência,
os psicólogos passaram a ter um papel crucial
no grupo educacional, através do uso de instrumentos
avaliativos. O problema da criança geralmente
ficava associado ao ambiente familiar (alcoolismo
do pai, divórcio, etc).
Na década de 60, a medicalização
do fracasso escolar tomou espaço dentro do
discurso pedagógico, através da Neurologia,
atribuindo à Síndrome de Disfunção
Cerebral Mínima (DCM) a responsabilidade das
dificuldades apresentadas pelo aluno. Cypel (1986)
apud SCOZ (1996, p.24) afirmou que 40% das crianças
atendidas em consultórios eram assim diagnosticadas.
Essas avaliações causavam
uma desmotivação por parte do professor,
que se sentia enfraquecido em função
da "superioridade" das falas clínicas.
Essa dimensão simbólica persiste até
hoje em nossos meios educacionais.
No sentido de rever a forma com a
qual a educação estava se delineando
em relação aos problemas de aprendizagem,
nos anos 60 surge a Escola Nova, que suscita questionamentos
relacionados à doença e ao fracasso.
Passa-se a olhar para as diferenças individuais
dos alunos, baseado no desejo da sociedade igualitária.
Entretanto, esta tendência tornou-se inviável,
pois numa sociedade dividida em classes, reforçam-se
as diferenças no sentido de pobre/rico, capaz/incapaz
(DOTTI, 1994).
Já nos anos 80, a Psicopedagogia,
formada por equipes multidisciplinares, apresenta
um novo corpo de conhecimento e postura em relação
aos problemas de aprendizagem e ao fracasso escolar.
Há uma revisão de situações,
onde a pobreza deixa de ser considerada a causa do
fracasso. Os psicopedagogos, à luz de alguns
teóricos, passam a compreender melhor o fracasso
de aprendizagem pelo qual a criança passa.
Basicamente, seus trabalhos fundamentaram-se em estudos
de autores como Piaget, que se ocupa do sujeito inteligente;
Vygotsky, que enfoca o sujeito social; Wallon, que
se concentra no sujeito desejante e Freire, com idéias
centradas na antropologia da aprendizagem, vinculando
o aprender à vida.
Esse repensar do fracasso escolar, hoje, faz com que
redimensionemos o estigma e o preconceito em relação
aos alunos. Conforme afirma DOTTI (1992, p.27),
[...] sabe-se que a questão
do fracasso escolar está mais ligada aos preconceitos
que temos a respeito da criança e da pobreza.
Procurando ver as crianças e as classes populares
sob a ótica de uma matriz dialética,
ver o que a criança tem de feio e bonito, viver
a diversidade, com crianças diversas, dismitificando
os nossos estereótipos positivistas de que
existe o "bom" aluno e o professor "padrão".
Temos que ir contra esse maniqueísmo
para não classificarmos os nossos alunos, não
esteriotipá-los, não rotulá-los.
Na visão psicopedagógica,
faz-se necessário compreender a inter-relação
de vários fatores, sejam eles hereditários,
sociais, culturais, pedagógicos, psicológicos
e/ou médicos. Isso se quisermos compreender
globalmente o desenvolvimento da criança e
não fazer avaliações superficiais
que estigmatizem o aluno, reforçando uma baixa
auto-estima e pré-conceitos do professor com
relação a ele.
1.2 Fracasso escolar e relação
com os sujeitos surdos
Através da revisão bibliográfica
sobre o fracasso escolar e os problemas de aprendizagem,
percebe-se que a educação de surdos
concomitante à educação regular
tem sofrido uma sustentação teórica
muito ligada à clinicalização
dos fracassos. As crianças são avaliadas
por médicos, psicólogos, etc, que diagnosticam
seus "problemas"; e o professor, passivo,
não consegue resolver os impasses em sala de
aula, pois, afinal, o caso é médico.
Em relação à surdez, essa tendência
reforça ainda mais, pois os surdos realmente
apresentam uma "privação",
um "impedimento" , um "déficit",
são "deficientes auditivos". Esse
diagnóstico dificilmente é questionado,
porque o déficit auditivo é real.
A partir daí, a tendência
de perceber a surdez como deficiência firma-se
no cotidiano desses alunos, dentro das escolas e no
relacionamento com seus pais. Pois a criança
necessita ser normalizada , ou seja, é preciso
tornar sua vida o mais parecida possível com
a dos ouvintes.
Trata-se do "ouvintismo"
a que se refere SKLIAR (1998); na ascendência
política dos ouvintes sobre os surdos, manifesta-se
o poder daqueles sobre estes. Nesse sentido, todas
as práticas pedagógicas e políticas
tornam-se para os surdos um momento não deles.
Pois sentem-se isolados em sala de aula, pela falta
do feedback necessário nesse ambiente. Não
interagem durante as atividades escolares e sentem-se
estrangeiros ali.
A escola propõe atividades
mecanizadoras, treinos auditivos e leitural-labial,
tudo isso visando a "reprodução
da fala". Os surdos não aprendem a sua
língua natural, a língua de sinais (LS),
pois lhes é proibida; a língua da maioria
ouvinte é a única permitida. Com isso,
as crianças surdas não aprendem a estruturar
seu pensamento, pois lhes falta uma língua
que o instrumentalize.
Falando sobre a colocação
de Vygotsky, SLOBIN (1980, p.203-204) diz que o pensamento
se atualiza através da fala: "Na evolução
humana, a fala pode servir ao pensamento e o pensamento
pode ser revelado na fala". Para os psicólogos
cognitivistas, entre os quais Vygotsky, "o uso
interno da linguagem não precisa necessariamente
se refletir nos movimentos articulatórios do
aparelho vocal". E, poderíamos acrescentar,
não precisa ser necessariamente verbal. Essa
mesma função é desempenhada pela
LS no surdo.
A possibilidade de falar parte da
intenção de contato social, que tem
início nos primeiros meses da criança.
Através da fala egocêntrica, dá-se
a transição entre fala em voz alta e
pensamento silencioso. Este tem a função
de orientação mental da criança;
vivenciando as dificuldades, a fala finalmente se
interioriza, transformando-se em pensamento verbal.
No cotidiano escolar, os alunos não
conseguem aprender porque a privação
lingüística do surdo torna-se uma barreira
para os professores,.
Assim, reforçam-se os estereótipos
na relação professor-aluno; surgem os
julgamentos rotulantes "esta criança é
agressiva", ou "deve estar com problemas
no convívio familiar", "ela tem baixa
auto-estima", etc.
Esses preconceitos delinearam uma
representação instituída através
dos ouvintes, de que os sujeitos surdos apresentam
sérios problemas psicológicos, reforçando
a freqüência destes alunos aos consultórios
médicos e a terapeutas. Os estereótipos
assim mantêm-se conjugados a atitudes de alguns
familiares e profissionais da área.
Segundo Allport apud BOTELHO (1998,
p.86),
Os estereótipos são
imagens em relação a uma categoria,
invocadas para justificar o preconceito de amor e
de ódio. Pode-se desenvolver em contradição
com todas as evidências. Alguns carecem totalmente
de base na realidade, outros muitas vezes porque ocorreram
experiências desagradáveis na interação,
e por meio da memória e da atenção
seletiva, foram generalizados em excesso.
O discurso pedagógico geralmente
está relacionado com as interferências
sócio-afetivas do aluno, onde as causas apontadas
do fracasso são situações do
contexto familiar, como superproteção
dos pais, falta de estímulos, pobreza, falta
de conhecimento dos pais sobre a LS, remetendo a estes
o impedimento do processo de ensino-aprendizagem.
Essa visão reforça entre
os profissionais uma controvérsia de conceitos,
hipóteses, teorias que em nada auxilia a organização
do fazer pedagógico. O respeito ao aluno surdo
deve ser baseado na compreensão das causas
e conseqüências do fracasso escolar, permitindo
um entendimento mais sistemático sobre a temática
em questão. É preciso dismitificar a
dúvida de o surdo possuir ou não pensamento
abstrato ou como opera esse pensamento.
À luz da concepção
sócio-interacionista de Vygotsky, o desenvolvimento
da criança parte de uma maturação
biológica para interações sociais,
no sentido de desenvolver habilidades cognitivas que
são mediadas por adultos. Com esse auxílio,
a criança passa a internalizar as operações,
contribuindo assim para formação do
conhecimento e consciência de si e do mundo.
Assim, o processo de aprendizagem
se dá através de uma inter-relação
de dois níveis de desenvolvimento: o real,
relacionado ao nível de desenvolvimento mental
em que a criança está; e o potencial,
que determina aquilo que a criança pode construir
com auxílio de um adulto ou de um colega. A
distância entre estes dois níveis chama-se
zona de desenvolvimento proximal, que se caracteriza
por processos que a criança poder vir a desenvolver
com a mediação de um adulto e, posteriormente,
sem este auxílio.
A zona de desenvolvimento proximal
(SCOZ, 1996) leva a questionamentos sobre avaliações
restritas a quantificação de dados.
Pois se o mediador escolar (o professor) não
interatuar nesse sentido, o problema não será
do aluno, ou seja, o problema não será
de aprendizagem, mas sim um problema escolar. Os rótulos
que sempre estão relacionados à criança
que não aprende, deslocam-se para a escola,
que não se ocupa de uma mediação
efetiva.
É necessário compreender
que a aprendizagem é um processo social, com
meios facilitadores e variados para mediar o aprender,
respeitando o desenvolvimento dos alunos. Cabe ao
professor rever métodos tradicionais, reducionistas
e inviabilizadores do prazer em aprender. Para muitos
autores, as discussões em torno da surdez,
como a questão da LS, o pensamento e a cognição
do aluno surdo, já se esgotaram. É hora
de a discussão avançar.
Entretanto, na fala dos profissionais entrevistados
neste trabalho, são detectadas deficiências
como: a falta de um marco teórico inicial,
o despreparo e o desconhecimento em relação
às temáticas de surdez e ao próprio
fracasso escolar. Assim sendo, ainda é pertinente
retomar, em alguns casos, as discussões básicas
sobre a educação das pessoas surdas.
A crença na deficiência do aluno surdo
está marcada nas respostas dos professores,
que não compreendem as causas do fracasso intolerável
dos alunos surdos, da ineficiência continuada
dos professores ouvintes e da inviável integração
dos surdos em escolas regulares.
Há necessidade de um olhar
diferente para a educação de surdos,
talvez a partir de políticas efetivas, iniciando
com uma escola para surdos. Não uma escola
de ouvintes que também recebe surdos, mas uma
escola especial sem nenhuma conotação
da que conhecemos como especial, mas local de valorização
da cultura surda, permitindo aos surdos o ambiente
lingüístico necessário para que
desabrochem suas potencialidades lingüísticas
e comunicativas. Onde possam assumir suas identidades,
sem que os ouvintes usurpem seus papéis, administrando-os.
Essa possibilidade prevê escolas
com estruturas diferentes daquelas do passado, uma
escola que dismitifique a postura de que a escola
é a única responsável pela integração
social. Cabem à escola as iniciativas que forcem
a integração social através de
medidas políticas em nível de estados
e municípios, proporcionando assim a desescolarização
das questões que envolvem a integração
social.
Hoje não há como se
falar em fracasso escolar das pessoas surdas, remetendo
esse fracasso, obsessivamente, à pessoa surda,
às famílias e professores, como seus
determinantes qualitativos. Há que partir para
um debate pautado em revisão desses conceitos
e dos modelos pedagógicos usados, refletindo
sobre a escola que se quer para os surdos, com a participação
dos surdos nos projetos político-pedagógicos.
2. EXPLICAÇÃO DOS DADOS
Conforme os dados obtidos nas entrevistas
com professores de surdos, tendo como foco de pesquisa
o fracasso escolar, estes professores posicionam-se
frente à existência ou não deste
fracasso na educação de surdos e no
seu local de trabalho, a escola de surdos.
No que se refere ao questionamento
sobre a existência ou não do fracasso
escolar na educação de surdos, 87,5%
dos professores acreditam que existe fracasso escolar.
Justificam que este ocorre devido à dificuldade
de comunicação, no sentido de que os
surdos não conhecem a língua dos ouvintes,
a língua portuguesa oral e escrita (de modalidade
oral-auditiva), e ao mesmo tempo apresentam dificuldades
para o aprendizado da língua de sinais (de
modalidade viso-espacial).
Neste sentido, as relações
são superficiais, há dificuldade no
processo de ensino/aprendizagem dos alunos surdos,
evidenciando uma interação comunicativa
truncada, pobre e deficitária. Os professores
utilizam o modo comunicativo bimodal e/ou o português
sinalizado, códigos que em nada respeitam a
estrutura própria da língua de sinais.
Na segunda justificativa, 18,18% dos
professores afirmam que existe uma estrutura escolar
incompatível com as necessidades do educando.
No entanto, percebe-se que para os professores essa
estrutura não está clara, não
compreendem o que é, e de que maneira pode
ser viabilizada. Somente há o desejo de mudança.
Entre os professores que afirmam que
a escola analisa o fracasso, 68,41% justificam que
tal análise se dá a partir da reprovação
dos alunos e de uma analise superficial, preocupando-se
mais com os dados quantitativos do que com os qualitativos,
mais com o produto, através de um processo
mecânico de aprendizagem, do que com o aspecto
social. Há evidência do uso de rótulos
para explicar o fracasso escolar, a idéia de
classe homogênea, num sentido reducionista de
educação.
Em outro sentido, 66,66% dos professores
apontam que não há análise do
fracasso, devido à falta de tempo e espaço
para reuniões, e resistência em assumir
o fracasso. Conforme TONINI (1997, p.56),
[...] o desafio que se coloca é
para os professores envolvidos, inclusive a escola,
de renunciar aos privilégios da visão
tradicional e conservadora oferecidos, e começar
a atuar de forma mais aberta, para descobertas de
novos conceitos, atuações, visando sempre
um estudo integrado que busque uma compreensão
global do [fracasso].
Realmente, esse compromisso se torna
um desafio, na medida em que os professores têm
uma trajetória unilateral e solitária
de atuação pedagógica.
Observa-se esta visão quando
os professores manifestam-se em relação
às suas perspectivas quanto à educação
dos alunos surdos, no momento em que 40,74% afirma
que a integração social é o ponto
crucial do processo educacional. Essa posição
se reafirma quando são questionados a que e
a quem serve a escola de surdos, quando expressam
seu papel de facilitadores da aprendizagem e da integração
social garantidas pelo uso de técnicas específicas.
Essa postura frente à integração
social permanece quando os professores relatam, em
um número expressivo (21,73%), ser essa integração
o principal objetivo da escola. No momento em que
os professores colocam a integração
social como resposta a vários questionamentos,
em número significativo, revelam uma postura
conservadora de educação, como se isso
fosse unicamente de responsabilidade da escola. Entretanto,
sabemos que deveria ser uma ação conjunta
entre municípios e estados, através
das parcerias entre universidades (como centros de
pesquisas) e escolas.
Ao mesmo tempo em que os professores
entrevistados privilegiam a integração
social em suas respostas, afirmam existir uma dificuldade
de comunicação com os alunos. O que
nos leva a refletir: como pode haver integração
onde não há uma relação
dialógica? Como falar em integração
social onde a maioria das pessoas não possui
conhecimento sobre a língua de sinais e existe
dificuldade no acesso aos intérpretes, mediadores
entre as duas modalidades lingüísticas?
Estes aspectos culminam com o grande
fator de resistência à integração
social, a visão medicalizadora dos professores
frente aos problemas da aprendizagem. Essa visão
existe não somente na educação
de pessoas surdas, mas na educação como
um todo (SCOZ, 1996), quando muitos médicos
e psicólogos iniciam o processo de classificação
das potencialidades das crianças através
do uso de instrumentos avaliativos de ordenação
e rotulação, que geram uma tradição
ainda persistente sobre a oposição binária,
"bom e mau" aluno, onde o problema não
é visto como escolar, mas sim como de aprendizagem
(problemas familiares, de gestação...).
As considerações da
autora acima reporta-nos a SKLIAR (1998, p.18), quando
este afirma que o fracasso na educação
de surdos se deu a partir das representações
ouvintistas à cerca do que é o sujeito
surdo, de quais serão seus direitos lingüísticos
e de cidadania, de quais as teorias de aprendizagem
que refletem as condições cognitivas
dos surdos, quais as epistemologias do professor ouvinte
na sua aproximação com os alunos surdos,
quais os mecanismos de participação
das comunidades surdas no processo educativo.
Essa situação evidencia uma condição
de colonialismo e supremacia dos ouvintes sobre os
surdos, reduzindo a escola unicamente a um espaço
de ensino-aprendizagem, como se este fosse seu único
ou seu principal objetivo.
Entende-se essa condição
quando os professores foram questionados sobre a participação
dos alunos surdos na escola e a perspectiva de os
surdos refletirem sobre o fracasso escolar de seus
pares e de seu próprio fracasso. Os professores
omitem-se ou simplesmente aceitam, mas não
sabem como deve se dar essa participação,
o que reflete uma situação de paternalismo,
um visão unilateral sobre o desenvolvimento
global do aluno.
Os professores desconhecem a profunda
necessidade de a pessoa surda participar dos projetos
e das decisões sobre sua vida escolar, denotando
uma visão na qual os ouvintes ditam regras
e decidem sobre a vida das pessoas surdas que lhes
são subordinadas, devido ao bloqueio comunicativo
que possuem. Uma relação que os torna
incapacitados, marginalizados e até mesmo doentes.
Esses dados, associados à questão
sobre a consciência por parte dos professores
em relação aos objetivos escolares,
demonstram um entendimento superficial das discussões
atuais sobre a experiência escolar dos surdos.
As respostas dos professores trazem
argumentos que denotam falta de clareza sobre a área
trabalhada, insegurança quanto aos papéis
do professor de surdos e, sobretudo, revelam a falta
de um projeto sócio-político que resgate
medidas efetivas sobre os problemas referentes ao
fracasso escolar das pessoas surdas.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo teve como objetivo analisar
a questão do fracasso escolar de alunos surdos,
a partir das falas de alguns professores sobre as
possíveis causas desse fracasso e de como refletem
sobre o fracasso.
O trabalho partiu das entrevistas
com os professores, que basearam suas colocações
numa concepção medicalizadora do fracasso,
ou seja, a maioria deles acredita haver o fracasso
na escola e atribuem este a causas familiares, psicológicas
e à comunicação deficitária.
As falas dos entrevistados estão presas a fortes
seqüelas do modelo escolar ouvintista.
Acredita-se na necessidade de revisitar
antigos pressupostos teóricos, delinear um
novo projeto pedagógico e refletir sobre as
discussões atuais em torno dos sujeitos surdos,
compreendendo o interjogo das teorias que permeiam
hoje a educação de surdos.
4. Referências Bibliográficas
BOTELHO, Paula. Segredos e silêncios
na educação dos surdos. Belo Horizonte:
Autêntica, 1998.
DOTTI, Corina. Fracasso escolar e
classes populares. In GROSSI, E. BORDIN, J. Paixão
de aprender. 6.ed. Petrópolis: Vozes, 21-28,
1994.
SCOZ, Beatriz. Psicopedagogia e realidade
escolar. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 1996.
SKLIAR, Carlos (org.). A surdez: um
olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Mediação,
1998.
SLOBIN, Dan. Psicolingüística.
São Paulo. EDUSP, 1980.
TONINI, Andréa. Dificuldades
de aprendizagem: uma realidade crescente nas instituições
escolares. Cadernos de Educação Especial.
Universidade Federal de Santa Maria, 1997. 9, 48-57.
WRIGLEY, Owen. The polítics of
deafness. Washington, D.C.: Gallaudet University Press,
1996.