Marilú
Mourão Pereira
Fisioterapeuta - FADERS
Email:
marilumouraopereira@via-rs.net
O presente artigo pretende provocar uma análise
e reflexão a respeito das políticas de
inclusão, levando em conta os paradigmas conceituais
e princípios que vem sendo progressivamente defendidos
em documentos nacionais e internacionais.
A inclusão é um movimento mundial de
luta das pessoas com deficiências e seus familiares
na busca dos seus direitos e lugar na sociedade.
Mas
o que é de fato a inclusão? O que leva
as pessoas a terem entendimentos e significados tão
diferentes? Cabe aqui tecer algumas reflexões,
pois dessa forma estaremos contribuindo para uma prática
menos segregacionista e menos preconceituosa.
O adjetivo ”inclusivo" é usado quando
se busca qualidade para todas as pessoas com ou sem
deficiência.
Na
primeira Conferência da Rede Ibero-Americana
de Organizações Não Governamentais
de Pessoas com Deficiência e suas Famílias,
reunida em Caracas, entre os dias 14 e 18 de outubro
de 2002, considerando que é compromisso de
todos elevar a qualidade de vida de pessoas com deficiência
e suas famílias por meio de serviços
de qualidade em saúde, educação,
moradia e trabalho, declararam, 2004 como o ANO DAS
PESSOAS COM DEFICIÊNCIA E SUAS FAMÍLlAS,
almejando a vigência efetiva das Normas sobre
a Equiparação de Oportunidades para
Pessoas com Deficiências e o cumprimento dos
acordos estabelecidos na Convenção Interamericana
para Eliminação de todas as Formas de
Discriminação Contra as Pessoas com
Deficiência (Convenção da Guatemala
2001).
O
termo inclusão já trás implícito
a idéia de exclusão, pois só
é possível incluir alguém que
já foi excluído. A inclusão está
respaldada na dialética inclusão/ exclusão,
com a luta das minorias na defesa dos seus direitos.
Para
falar sobre inclusão escolar é preciso
repensar o sentido que se está atribuindo à
educação, além de atualizar nossas
concepções e resignificar o processo
de construção de todo o indivíduo,
compreendendo a complexidade e amplitude que envolve
essa temática.
Também
se faz necessário, uma mudança de paradigma
dos sistemas educacionais onde se centra mais no aprendiz,
levando em conta suas potencialidades e não
apenas as disciplinas e resultados quantitativos,
favorecendo uma pequena parcela dos alunos.
A
idéia de uma sociedade inclusiva se fundamenta
numa filosofia que reconhece e valoriza a diversidade,
como característica inerente à constituição
de qualquer sociedade. Partindo desse principio e
tendo como horizonte o cenário ético
dos Direitos Humanos, sinaliza a necessidade de se
garantir o acesso e a participação de
todos, a todas as oportunidades, independentemente
das peculiaridades de cada individuo.
O
paradigma da inclusão vem ao longo dos anos,
buscando a não exclusão escolar e propondo
ações que garantam o acesso e permanência
do aluno com deficiência no ensino regular.
No entanto, o paradigma da segregação
é forte e enraizado nas escolas e com todas
as dificuldades e desafios a enfrentar, acabam por
reforçar o desejo de mantê-los em espaços
especializados.
Contudo
a inclusão coloca inúmeros questionamentos
aos professores e técnicos que atuam nessa
área. Por isso é necessário avaliar
a realidade e as controvertidas posições
e opiniões sobre o termo.
Outro
aspecto a ser considerado é o papel do professor,
pois é difícil repensar sobre o que
estamos habituados a fazer, além do mais a
escola está estruturada para trabalhar com
a homogeneidade e nunca com a diversidade.
A
tendência é focar as deficiências
dos nossos sistemas educacionais no desenvolvimento
pleno da pessoa, onde se fala em fracasso escolar,
no déficit de atenção na hiperatividade
e nas deficiências onde o problema fica centrado
na incompetência do aluno. Isso é cultura
na escola, onde não se pensa como está
se dando esse processo ensino-aprendizagem e qual
o papel do professor no referido processo. Temos que
refletir sobre a educação em geral para
pensarmos em inclusão da pessoa com deficiência.
Há
também que se lembrar que todos os alunos vêm
com conhecimentos de realidade que não pode
ser desconsiderado, pois faz parte de sua história
de vida, exigindo uma forma diferenciada no sistema
de aprendizagem.
Mas temos que pensar que para que a inclusão
se efetue, não basta estar garantido na legislação,
mas demanda modificações profundas e
importantes no sistema de ensino. Essas mudanças
deverão levar em conta o contexto sócio.econômico,
além de serem gradativos, planejadas e contínuas
para garantir uma educação de ótima
qualidade (Bueno, 1998).
Portanto
a inclusão depende de mudança de valores
da sociedade e a vivência de um novo paradigma
que não se faz com simples recomendações
técnicas, como se fossem receitas de bolo,
mas com reflexões dos professores, direções,
pais, alunos e comunidade. Contudo essa questão
não é tão simples, pois, devemos
levar em conta as diferenças. Como colocar
no mesmo espaço demandas tão diferentes
e específicas se muitas vezes, nem a escola
especial consegue dar conta desse atendimento de forma
adequada, já que lá também temos
demandas diferentes?
Kunc
(1992), fala sobre inclusão: "o principio
fundamental da educação inclusiva é
a valorização da diversidade e da comunidade
humana. Quando a educação inclusiva
é totalmente abraçada, nós abandonamos
a idéia de que as crianças devem se
tornar normais para contribuir para o mundo".
Temos
que diferenciar a integração da inclusão,
na qual na primeira, tudo depende do aluno e ele é
que tem que se adaptar buscando alternativas para
se integrar, ao passo que na inclusão, o social
deverá modificar-se e preparar-se para receber
o aluno com deficiência.
A
inclusão também passa por mudanças
na constituição psíquica do homem,
para o entendimento do que é a diversidade
humana. Também é necessário considerar
a forma como nossa sociedade está organizada,
onde o acesso aos serviços é sempre
dificultado pelos mais variados motivos.
Jamais
haverá inclusão se a sociedade se sentir
no direito de escolher quais os deficientes poderão
ser incluídos. É preciso que as pessoas
falem por si mesmas, pois sabem do que precisam, de
suas expectativas e dificuldades como qualquer cidadão.
Mas não basta ouvi-los, é necessário
propor e desenvolver ações que venham
modificar e orientar as formas de se pensar na própria
inclusão.
A
Declaração de Madrid (2002), define
o parâmetro conceitual para a construção
de uma sociedade inclusiva, focalizando os direitos
das pessoas com deficiências, as medidas legais,
a vida independente, entre outros: ”O que for feito
hoje em nome da questão da deficiência
terá significado para todos no mundo de amanhã”.
O
marco histórico da inclusão foi em junho
de 1994, com a Declaração da Salamanca
Espanha, realizado pela UNESCO na Conferência
Mundial Sobre Necessidades Educativas Especiais: Acesso
e Qualidade , assinado por 92 países, que tem
como princípio fundamental: "todos os
alunos devem aprender juntos, sempre que possível,
independente das dificuldades e diferenças
que apresentem".
O
Brasil é Signatário de documentos internacionais
que definem a inserção incondicional
de pessoas com deficiência na sociedade - a
chamada inclusão. Muito mais do que uma idéia
defendida com entusiasmo por profissionais de diversas
áreas desde 1990 a construção
de sociedades inclusivas, nos mais diferentes pontos
do planeta, é meta do que se poderia chamar
de movimento pelos "direitos humanos de todos
os humanos". No dia 14 de dezembro foi assinada
a resolução 45/ 91da ONU, que solicitou
ao mundo "uma mudança no foco do programa
das nações unidas sobre deficiência
passando da conscientização para a ação,
com o compromisso de se concluir com êxito uma
sociedade global para todos por volta de 2010".
No
Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases em 1996, refere-se
sobre estar "preferencialmente" incluída,
mas também haverá quando necessários
serviços de apoio especializado na escola regular
para atender as peculiaridades e que o atendimento
educacional será feito em classes, escolas
ou serviços especializados, sempre que em função
das condições específicas do
aluno não for possível sua integração
nas classes comuns do ensino regular.
Com
a Resolução n.2/2001 que instituiu as
Diretrizes Nacionais para a Educação
Especial na Educação Básica,
houve um avanço na perspectiva da universalização
e atenção à diversidade, na educação
brasileira,com a seguinte recomendação:
Os sistemas de ensino devem matricular todos os alunos,cabendo
às escolas organizar-se para o atendimento
aos educandos com necessidades educacionais especiais,
assegurando as condições necessárias
para a educação de qualidade para todos.
No entanto a realidade desse processo INCLUSIVO é
bem diferente do que se propõe na legislação
e requer muitas discussões relativas ao tema.
No
Japão, em 2002, foi aprovada a declaração
de Sopporo representado por 109 países, por
ocasião da VI assembléia mundial da
Disabled Peoples International-DPI, onde fala sobre
a educação inclusiva: "a participação
plena começa desde a infância nas salas
de aulas, nas áreas de recreio e em programas
e serviços. Quando crianças com deficiência
se sentam lado a lado com muitas outras crianças,
as nossas comunidades são enriquecidas com
a aceitação de todas as crianças.
Devemos instar os governos em todo mundo a erradicarem
a educação segregada e estabelecer uma
política de educação inclusiva".
A
REALIDADE:
Nos
deparamos com freqüência com as resistências
dos professores e direções, manifestadas
através de questionamentos e queixas ou até
mesmo com expectativas de que possamos apresentar
soluções mágicas, de aplicação
imediata causando certa decepção e frustração,
pois ela não existe. O problema se agrava quando
vemos o professor totalmente dependente de apoio ou
assessoria de profissional da área da saúde,
pois nesse caso a questão clínica se
sobressai e novamente o pedagógico fica esquecido.
Com isso o professor se sente desvalorizado e fora
do processo por considerar esse aluno como doente
concluindo que não pode fazer nada por ele,
pois ele precisa de tratamento especializado da clínica.
Parece que o professor está esquecendo do seu
papel, porém não se considera, o momento
do professor, sua formação, as condições
da própria escola em receber esses alunos,
que entram nas escolas e continuam excluídos
de todo o processo de ensino-aprendizagem e social,
causando frustração e fracassos, dificultando
assim a proposta de inclusão.
Por
um lado os professores julgam-se incapazes de dar
conta dessa demanda, despreparados e impotentes frente
a essa realidade que é agravada pela falta
de material adequado, de apoio administrativo e recursos
financeiros.
Observa-se
com freqüência, a dificuldade dos professores,
a partir de suas falas carregadas de preconceitos
e estigmas, frustrações e medo: "não
sou capaz disso", "não sei por onde
começar", "é preciso ter uma
equipe técnica na escola", "a direção
não entende", "vai prejudicar os
outros alunos", "não vou beneficiar
o aluno com deficiência", "a criança
com deficiência sofre rejeição
dos outros alunos", "preciso de assessoramento
em sala de aula, tanto para os com deficiência
quanto para os de altas habilidades", ficamos
angustiados e sem ação frente a esse
aluno" , "precisamos de pessoal qualificado
que nos ajude a amenizar a angústia que temos
ao trabalhar com eles", "o professor encontra-se
perdido quanto à inclusão", "alunos
e professores despreparados para aceitá-los",
"imposto pelo MEC as escolas tem que recebê-los",
"qual as metodologias mais rápidas, eficientes
e adequadas ao nosso aluno? "," necessitamos
treinamento específico", "não
somos preparados para atuar em todas as áreas",
"como alfabetizar o deficiente? ", "
como realizar prova diferente para o aluno especial?
", que atitude tomar com a criança hiperativa
se os outros alunos não aceitam o diferente?
", "o professor encontra-se perdido diante
o aluno portador de necessidades especiais",
"como trabalhar esse aluno na parte psicológica?
", "os professores são despreparados
para atender melhor o aluno especial"...
Segundo
Figueira, (1995,) "palavras são expressões
verbais de imagens construídas pela mente.
Às vezes, o uso de certos termos, muito difundido
e aparentemente inocentes, reforça preconceitos.
Além dessas falas, temos observado, o medo
da mudança com a certeza do fracasso e medo
da diferença onde se sentem ameaçados,
os que provocam afastamento, o estigma e conseqüentemente
o preconceito. O professor desconhece quem é
este sujeito, suas possibilidades, seu desejos, suas
dificuldades e limitações".
Devemos
considerar também os conflitos que se estabelecem
nas relações frente às questões
relativas à gratificação no plano
salarial e o aumento no trabalho para os professores
do ensino regular.
Aliado
a esse contexto escolar, encontramos a dificuldade
do ponto de vista econômico, principalmente
nos pequenos municípios, que analisam o custo
benefício da acessibilidade, como, adaptar
os ônibus, com custo elevado para o número
insignificante de pessoas com deficiência. Por
trás disso, sabe-se que tem a idéia,
que as pessoas com deficiência são improdutivas
e por isso pouco se investe. Contudo esse posicionamento
dificulta a entrada na escola e no trabalho, acentuando
assim a sua condição desfavorecida em
relação a outras pessoas.
Cabe
salientar ainda que segundo a ONU, alguns fatores
ainda interferem na inclusão: ignorância
negligencia e superstição e o medo (Wernek
1997).Estes fatores são mantidos certamente
pela desinformação a respeito das deficiências
e inclusão.
Em
reunião técnica com os procuradores
da república e promotores de justiça
promovida pela COROE e Departamento dos direitos humanos
(Ministério da Justiça) e Procuradoria
Federal dos Direitos do Cidadão (Ministério
Publico Federal), que destacaram, como dificuldades
para o acesso ao sistema de ensino: as barreiras arquitetônicas,
a deficiente qualificação do profissional
da rede de ensino, a resistência do sistema
educacional em receber alunos com deficiência
em seus estabelecimentos de ensino, a inexistência
de material adequado para o atendimento do aluno,
o numero excessivo de alunos na sala de aula, dificultando
o acesso e permanência com qualidade do aluno
com deficiência, a insuficiência de transporte
publico adequado até o estabelecimento de ensino
e inexistência de dados que identifique a demanda
não atendida pelo sistema de ensino.
Com
a Declaração de Quito em 11 de abril
de 2003, os governos da América Latina defendem
uma Convenção Internacional para a proteção
e promoção dos direitos e dignidade
da ONU.
CONCLUSÃO
Portanto
as mudanças são fundamentais para inclusão,
mas exige esforço de todos possibilitando que
a escola possa ser vista como um ambiente de construção
de conhecimento, deixando de existir a discriminação
de idade e capacidade. Para isso, a educação
deverá ter um caráter amplo e complexo,
favorecendo a construção ao longo da
vida, e todo aluno, independente das dificuldades,
poderá beneficiar-se dos programas educacionais,
desde que sejam dadas as oportunidades adequadas para
o desenvolvimento de suas potencialidades. Isso exige
do professor uma mudança de postura além
da redefinição de papeis que possa assim
favorecer o processo de inclusão.
Para
que a inclusão seja uma realidade, será
necessário rever uma série de barreiras,
além da política e práticas pedagógicas
e dos processos de avaliação. É
necessário conhecer o desenvolvimento humano
e suas relações com o processo de ensino
aprendizagem, levando em conta como se dá este
processo para cada aluno. Devemos utilizar novas tecnologias
e Investir em capacitação, atualização,
sensibilização, envolvendo toda comunidade
escolar. Focar na formação profissional
do professor, que é relevante para aprofundar
as discussões teóricas práticas,
proporcionando subsídios com vistas à
melhoria do processo ensino aprendizagem. Assessorar
o professor para resolução de problemas
no cotidiano na sala de aula, criando alternativas
que possam beneficiar todos os alunos. Utilizar currículos
e metodologias flexíveis, levando em conta
a singularidade de cada aluno, respeitando seus interesses,suas
idéias e desafios para novas situações.
Investir na proposta de diversificação
de conteúdos e práticas que possam melhorar
as relações entre professor e alunos.
Avaliar de forma continuada e permanente, dando ênfase
na qualidade do conhecimento e não na quantidade,
oportunizando a criatividade, a cooperação
e a participação.
Valorização
maior das metas e não dos obstáculos
encontrados pelo caminho, priorizando as questões
pedagógicas e não apenas a questão
biológica, com expectativa de que tudo será
resolvido pela saúde.
Não
temos nenhuma proposta de inclusão que possa
ser generalizada ou multiplicada, pois ainda é
incipiente, no entanto é de consenso que esse
processo é de responsabilidade de toda a sociedade
e por tanto é preciso que a escola esteja aberta
para a "escuta", favorecendo assim, as trocas
para a construção do processo de inclusão
escolar.
Concluímos
que para o processo de inclusão escolar é
preciso que haja uma transformação no
sistema de ensino que vem beneficiar toda e qualquer
pessoa, levando em conta a especificidade do sujeito
e não mais as suas deficiências e limitações.
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CNE/CNB n.2 de 11 de setembro de 2001 - Brasília.
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Daisy Vaz de Moraes - Porto Alegre, ARTIMED, 2002.
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Juan Ignácio - Aprendizes e mestres: a nova
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trad. Emani Rosa - Porto Alegre: Artmed 2002.
Referenciais
para Construção de Sistemas Educacionais
Inclusivos-Fundamentação Filosóficos
a História a Formação-EDUCAÇÃO
INCLUSIVA Direito à Diversidade-curso de Formação
de Gestores e Educadores.