Márcia Lise Lunardi
Esse artigo pretende relacionar o discurso da surdez
com as práticas de inclusão e exclusão
que configuram as atuais discussões no campo
da educação especial. O texto procura
problematizar, através de algumas ferramentas
do pensamento de Michael Foucault, a noção
de normalidade que atravessa os discursos das políticas
de inclusão e das pedagogias especiais. Para
isso, discute o conceito de anormalidade, isto é,
entender como a anormalidade é construída,
como o outro é narrado e representado pelo discurso
do colonizador em uma rede de saberes e poderes. Finalmente,
problematiza o binômio inclusão/exclusão
como uma oposição, como uma situação
contraditória que dialeticamente se supera e
sugere que esse processo possa ser entendido como fazendo
parte de uma mesma matriz de poder.
Abordar a questão da inclusão/exclusão
não significa vê-la como algo experienciado
somente por grupos culturalmente diferentes ou, no
caso, por grupos rotulados como deficientes. Atualmente,
a problemática da inclusão/exclusão
vem atingindo a todos nas suas mais diversas formas,
ou seja, todos podem ser excluídos de alguma
situação e incluídos em outra.
Não existe alguém completamente incluído
ou completamente excluído (Pinto, 1999), o
que há são jogos de poder em que, dependendo
da situação, da localização
e da representação alguns são
enquadrados e outros não.
As políticas de inclusão
escolar, que hoje vem configurando o campo da educação,
definem e fixam quem é o anormal - categoria
cada vez mais inventada pela modernidade: loucos,
surdos, homossexuais, paraplégicos, meninos
e meninas de rua, enfim, os "estorvos" -
e a partir disso decidem se eles participam ou não
dos espaços escolares junto com os normais.
No entanto, essa lógica vem atravessada pela
noção do sujeito pedagógico moderno:
um sujeito transcendental e único, um sujeito
que na definição kantiana é,
simultaneamente, sujeito cognoscente e objeto de seu
próprio conhecimento.
É esse sujeito que, a partir
da Filosofia Iluminista , constituiu-se como centro
dos processos sociais: como um sujeito descoberto
e derivado das práticas sociais, políticas,
culturais e econômicas. Para Veiga-Neto (2000),
o sujeito compreendido pelo pensamento moderno representa
as concepções de sujeito instauradas
pela filosofia platônica e pela tradição
hebraica, que mais tarde foram retomadas pelo Cristianismo,
Humanismo e Idealismo Alemão. Segundo esse
autor, "o sujeito passou a ser visto como uma
unidade racional que ocupa o centro dos processos
sociais; mas dado que sua racionalidade não
estaria completa, faz-se necessário um projeto
pedagógico que o tire da menoridade e o transforme
num dono de sua própria consciência e
um agente de sua própria história"
(2000, p.50).
Portanto, na perspectiva da modernidade,
o sujeito inacabado, incompleto, alcançará
através do projeto educativo moderno - e aí
está a escola para efetivá-lo - sua
plenitude, sua essência, constituindo-se assim
no modelo instituído pela filosofia ocidental:
um sujeito consciente, centrado, reflexivo, crítico
e, por que não dizer, normal, já que
o projeto moderno opera no sentido de fabricar o sujeito
de seu projeto.
Nesse sentido, a escola especial e
a escola inclusiva, ambas entendidas no seu conjunto
de práticas discursivas, acabam instituindo
o próprio sujeito de quem falam, a quem representam.
Portanto, esse artigo quer alertar para o quanto esses
espaços pedagógicos, muito mais que
descobrir e desvelar, inventam e produzem seus sujeitos.
Esse texto pretende apresentar essa
discussão em duas partes: na primeira, discutirei
a construção da deficiência a
partir do discurso da normalidade no campo da educação
especial. Para isso, utilizarei algumas noções
de Michel Foucault quanto à compreensão
da anormalidade. Na segunda, farei um deslocamento
dessas compreensões para as práticas
de inclusão/exclusão a partir das noções
de poder/saber, entendo-as como duas faces da mesma
moeda.
Incluir para normalizar: estratégias
de poder
Quando falamos da surdez ou, de outras
áreas de grupos culturalmente diferentes -
cegos, paralisados cerebrais, paraplégicos,
crianças com problemas de aprendizagem -, logo
nos reportamos para o cenário da educação
especial. Esse espaço apresenta a existência
de uma linha contínua de sujeitos deficientes,
dentro o qual os surdos são forçados
a existir (Skliar, 1997).
A educação especial
é um dos locus privilegiados onde se travam
as discussões e representações
acerca das políticas educacionais para os sujeitos
deficientes. No entanto, é entendida pelos
teóricos como uma subárea da educação,
um local "menor", que trata de forma caridosa
e benevolente aqueles sujeitos que de uma forma ou
de outra caíram na desgraça da deficiência.
A partir dessa perspectiva, os sujeitos deficientes
são descaracterizados de sua condição
social de sujeitos, cidadãos, pertencentes
a uma nação, possuidores de sexualidade,
idade, gênero, etnia.
A educação especial,
como disciplina formal, em seu discurso e suas práticas
hegemônicas, é descontínua em
seus paradigmas teóricos; anacrônica
em seus princípios e finalidades; relacionada
mais com a caridade, a beneficiência e a medicalização
que com a pedagogia; determinada por técnicas
discriminatórias e segregacionistas; distanciada
do debate educacional geral e produtora/reprodutora,
também ela, de uma falsa oposição
entre inclusão e exclusão (Skliar, 1999,
p. 17).
Nesse contexto, percebe-se qual é
a representação de sujeito esperada
pelo discurso pedagógico praticado pela educação
especial - um sujeito doente, anormal, que necessita
de uma re-educação, ou seja, de uma
educação entendida e praticada enquanto
terapia. Larossa (1999), coloca que o discurso pedagógico
e o discurso terapêutico estão intimamente
relacionados, isto é, o dispositivo pedagógico/terapêutico
define e constrói o que é ser uma pessoa
formada e sã e, nesse mesmo movimento, define
e constrói o que é uma pessoa não
formada e insana.
Portanto, é esse sujeito definido
a partir da sua deficiência, da sua falta, do
seu desajuste, que está sendo alvo das políticas
de educação especial, entre elas e talvez
a mais perigosa, a política de inclusão/exclusão.
No entanto, antes de discutir essa política,
interessa compreender a construção da
normalidade a partir da sua relação
com a deficiência. Segundo Pinto (1999, p.38),
Foucault fala de normalização, e é
disso que a inclusão trata, mas através
de seu reverso; ou seja, é descrevendo, incessantemente,
o anormal que o discurso chega à noção
de normalidade sexual. Foucault (1997; 2000), abordou
a questão da anormalidade através de
um estudo arqueológico sobre o homem anormal
do século XIX: o monstro humano, o indivíduo
corrigível, e o onanista.
O indivíduo anormal do século
XIX seguirá marcado - e muito tardiamente,
na prática médica, na prática
judicial, tanto no saber quanto nas instituições
que o rodearão - por essa espécie de
monstruosidade cada vez mais difusa e diáfana,
por essa incorrigibilidade retificável e cada
vez mais cercada por certos aparatos de retificação.
E, por último, está marcado por este
segredo comum e singular que é a etiologia
geral e universal das piores singularidades (Foucault,
2000, p.65).
Aproximando-nos desse estudo de Foucault,
é possível problematizar a naturalização
da anormalidade no interior das pedagogias especiais
e das políticas de inclusão. Em outras
palavras, questionar a representação
de surdez que é constituída pelo olhar
clínico da educação especial
e das políticas de inclusão, isto é,
pelos discursos produzidos pelos sujeitos ouvintes
ou, talvez, pelos sujeitos normais. Aqui inscreve-se
o caráter binário com que são
pensadas e articuladas as propostas educativas e curriculares
das escolas de surdos e escolas inclusivas.
A educação especial
conserva para si um olhar iluminista sobre a identidade
de seus sujeitos, isto é, vale-se das oposições
de normalidade/anormalidade, de racionalidade/irracionalidade
e de completude/incompletude, como elementos inclusão/exclusão
a partir das noções de poder/saber de
Michel Foucault centrais na produção
de discursos e práticas pedagógicas.
Os sujeitos são homogeneizados, infantilizados
e, ao mesmo tempo, naturalizados, valendo-se de representações
sobre aquilo que está faltando em seus corpos,
em suas mentes e em suas linguagens (Skliar, 1999,
p. 19).
Tanto as políticas educativas
quanto as práticas pedagógicas dos espaços
institucionais abordam a questão da diferença
a partir do olhar da normalidade. Segundo Davis (apud
Silva, 1997, p. 8), a noção de norma
e normalidade é uma invenção
relativamente recente. Embora, como diz Davis, a tendência
a fazer comparações seja muito antiga,
a gênese da idéia de norma e normalidade
localiza-se nos séculos XVIII e XIX, em conexão
com o processo de industrialização e
de transformação capitalista. Desenvolveu-se
aí, em conexão com noções
sobre nacionalidade, raça, gênero, criminalidade
e orientação sexual, um conjunto de
práticas e discursos centrados ao redor da
noção de norma e de normalidade. O conceito
de norma nasce ligado ao conceito de "média".
Este, por sua vez, está conectado ao nascimento
da Estatística como uma ciência das coisas
do "Estado", como uma espécie de
aritmética política. O objetivo dessa
estatística é descrever as populações
através do cálculo da média de
algumas características vitais. A partir desse
cálculo podia-se chegar ao "homem médio",
que se torna então uma espécie de ideal.
Nesse sentido, a norma se estabelece
a partir do controle, da regulação da
população, ou seja, através do
biopoder. O interesse em uma população
saudável, perfeita, normal, incide em uma questão
mercantilista de produção, ou seja,
sujeitos governados e adestrados para a produção
e o consumo. Portanto, segundo Foucault (1997, p.
86),
Para gerir essa população,
é preciso, entre outras coisas, uma política
de saúde que seja suscetível de diminuir
a mortalidade infantil, prevenir as epidemias e fazer
baixar as taxas de endemia, intervir nas condições
de vida para modificá-las e impor-lhes normas
(quer se trate da alimentação, do habitat
ou da organização das cidades) e assegurar
os equipamentos médicos suficientes.
A normalidade é o local onde
a possibilidade de governar os corpos se materaliza,
pois, considera os sujeitos a partir da normalização,
possibilitando o controle, e exercendo o bio-poder,
o poder sobre a vida. Nessa perspectiva, "a normalidade
não é o grau zero da existência,
mas um local de bio-poder" (Silva, 1997).
Aqui inscrevem-se o discurso e a prática
da medicalização na vida do sujeito
surdo. Esta medicalização não
refere-se somente ao corpo deficiente, ela é
praticada sobretudo, em sua vida e em sua escolarização.
Para a maioria dos ouvintes, a surdez está
relacionada com a incapacidade de comunicação,
representada por um mundo de silêncio e escuridão,
e a partir dessa matriz representacional se praticam
diferentes formas de controle e governo de suas vidas,
ou seja, de seu corpo, de sua linguagem e de sua mente.
Observa-se isso em diferentes momentos e práticas
da história dos surdos: a busca frenética
para fazê-los falar; a centralidade da oralização
como marco principal na definição de
políticas pedagógicas para a sua educação;
a proibição do uso da língua
de sinais, língua essa constituidora de identidades
e comunidades; isolamento comunitário entre
crianças e adultos surdos; práticas
de colonização e controle de seus corpos
e mentes, como a experiência biônica dos
implantes cocleares.
Todas essas formas de controle e regulação
da surdez constituem-se em estratégias de poder
utilizadas pelos especialistas/experts na produção
de políticas de inclusão para os sujeitos
surdos. No entanto, inclusão/exclusão
são faces da mesma moeda, ou seja, elas operam
simultaneamente, não se resolvem dialeticamente,
fazem parte de um mesmo sistema de representação,
ou seja, fazem parte de uma mesma matriz de poder.
Inclusão/Exclusão: educar
especialmente para quê?
A inclusão e a exclusão
podem ser entendidas a partir de diferentes campos
conceituais; no entanto, não podem ser entendidas
fora do exercício de poder. Ao tratar do poder,
entendo-o, a partir de Foucault, como uma ação
produtiva sobre outras ações - não
como uma propriedade, uma sanção negativa,
mas como uma estratégia das redes de relações
sempre tensas, sempre em atividade.
Esse poder, por outro lado, não
se aplica pura e simplesmente como uma obrigação
ou uma proibição aos que "não
têm"; ele os investe, passa por eles através
deles; apoia-se neles, do mesmo modo que eles, em
sua luta contra esse poder, apoiam-se por sua vez
nos pontos em que eles o alcançam. O que significa
que essas relações aprofundam-se dentro
da sociedade, que não se localizam nas relações
do Estado com os cidadãos ou na fronteira das
classes e que não se contentam em reproduzir,
ao nível dos indivíduos, dos corpos,
dos gestos e dos comportamentos, a forma geral da
lei ou do governo (Foucault, 1999, p. 26).
As discussões atuais sobre
igualdade e justiça para todos giram em torno
do problema da inclusão/exclusão, que
por meio de estratégias de poder definem quais
são os grupos que participam dessa relação.
Isso envolve um imperativo no qual campanhas, políticas
públicas, documentos oficiais, entre outros
artefatos, acabem por identificar quais são
os grupos não representados, não beneficiados
pelo bem público, para em seguida encontrar
maneiras de incluí-los. Essa inclusão
é atravessada pelas idéias de participação,
ou seja, "uma noção que emergiu
nos últimos tempos, construída a partir
de conceitos burgueses europeus de democracia e capitalismo
e, mais recentemente, nos EUA, a partir da administração
pelo Estado das questões sociais, tais como
as da 'pobreza'" (Popkewitz, 1998, p. 164).
Nesse contexto, um outra leitura pode
ser feita em relação aos processos de
inclusão/exclusão, ou seja, a crise
do Estado-providência, as transformações
do mundo do trabalho - crise salarial, desemprego,
precarização das condições
mínimas de sobrevivência - juntamente
com a tendência da política neoliberal
fragilizam as fronteiras da exclusão. Essas
"aparecem, desaparecem e voltam a aparecer, se
multiplicam se disfarçam; seus limites se ampliam,
mudam de cor, de corpo, de nome e de linguagem"
(Skliar, 1999, p. 16).
Assim, o binômio inclusão/exclusão,
não pode ser mais pensado como forma antagônica,
onde a exclusão sustenta-se pelo seu contrário,
pela sua oposição; onde ser excluído
é o antônimo de ser incluído.
Incluídos e excluídos fazem parte de
uma mesma rede de poder, isto é, excluídos
em alguns discursos e incluídos em outras ordens
discursivas. Neste contexto, percebemos que ser surdo
e participar de um processo de escolarização
juntamente com os sujeitos ouvintes não significa
estar incluído e gozar de todos os benefícios
que esta suposta inclusão o proporcionaria.
Vejamos isso mais de perto.
Na educação de surdos,
os processos de inclusão referem-se em grande
parte, única e exclusivamente, à experiência
de alunos surdos dividindo a mesma sala de aula com
aqueles chamados de normais. Nesse sentido, as discussões
em torno da educação de surdos travam-se
em um incansável questionamento: incluir os
surdos na escola regular ou deixá-los na escola
especial?
A resposta a essa questão remete
à compreensão que se tem dos processos
de inclusão no discurso das políticas
oficiais: a inclusão é caracterizada
por uma fronteira institucional.
A crítica ao discurso dominante
de inclusão nada tem que ver com uma cega afinidade
ou com uma defesa desnecessária das escolas
e das pedagogias especiais. Não é essa
a interpretação que se deve fazer. A
aparente oposição entre escola especial
e escola comum somente remete a um aspecto que é
o da institucionalização ou, dito de
outro modo, o da localização -melhor
ou pior- dos deficientes nos sistemas de ensino oficiais
e não oficiais (Skliar, 1999, p. 26).
Tanto as escolas especiais quanto
as escolas regulares não se questionam à
respeito da representação da escola
para a comunidade surda. Questões como - o
que significa para uma criança surda conviver
afastada de seus pares? Qual a compreensão
do conhecimento e dos saberes que circulam pela escola
sem que esses passem pela experiência visual?
Qual o espaço ocupado pela língua de
sinais nos discursos curriculares e pedagógicos
das instituições que têm em seu
corpo docente alunos surdos? - parecem estar implicadas
no campo das representações acerca dos
surdos e da surdez.
Essas representações
de dão a partir de diferentes eufemismos: deficiente
auditivo, incapacitado, portador de necessidades educativas
especiais, anormal, doente. Para tanto, a educação
desses sujeitos é analisada como uma prática
de normalização e de controle social,
em que as diferenças são disfarçadas,
mascaradas e obscurecidas por um conjunto de acepções
que entendem as políticas de diferenças
culturais como pluralidades e diversidades. Esses
eufemismos acabam encobrindo e legitimando estratégias
conservadoras em que a referência torna-se sempre
a norma, o ideal. Sendo assim, os processos de exclusão/inclusão
são pensados e executados a partir da idéia
da falta, da carência de algum atributo que
impossibilitaria ou, no caso da inclusão -
através de uma pedagogia terapêutica
-, possibilitaria ao indivíduo participar do
processo de escolarização.
Afinal, incluir para excluir ou excluir
para incluir?
Se tentasse responder a esse trocadilho,
diria dois sim. Um porque a inclusão enquanto
processo de normalização é uma
forma de dominação, de controle e de
governo. Governo que não é só
dos outros, mas governo de si. Ou seja, a inclusão
não controla somente a população,
o próprio excluído/incluído se
autogoverna. Para Foucault, a questão do governo
está fortemente imbricada com a questão
do autogoverno. Para o autor, essas questões
estão relacionadas com o poder pastoral , que
tem suas origens na "pastoral cristã,
característica da sociedade de lei"( Veiga-Neto,
1996). Nesse sentido, o poder pastoral é exercido
pelo pastor sobre seu rebanho, assegurando-lhe alimentação,
segurança e salvação. "O
poder pastoral supõe uma atenção
individual a cada membro do rebanho" (Foucault,
1990, p. 100).
A metáfora do pastor pode ser
utilizada para entender o processo de inclusão/exclusão,
pois ambos já se consolidam sem o controle
e a vigilância do Estado, isto é, o rebanho
não necessita mais do controle, do olhar vigilante
do pastor, pois tanto o sujeito quanto a população
já estão regulados por esse olhar dentro
si. Eles não necessitam mais do olhar cuidadoso
do pastor, já o incorporaram tanto na sua forma
individualizante (cada um) quanto totalizante (população).
Nesse contexto, o próprio excluído é
pastor de si, ou seja, ele mesmo se controla, se regula,
através dos processos de subjetivação.
Seu comportamento como sujeito é resultado
da disciplina, que não se estabelece na forma
pela qual o Estado programa a conduta total de seus
cidadãos; antes, a disciplina "é
o meio pelo qual o governo equipa os indivíduos"
(Hunter, 2000, p. 57).
Assim, através das tecnologias
de poder e saber, os anormais, entre eles os surdos,
são incluídos para serem tratados e
reformados, ou seja, normalizados, criando assim as
condições necessárias para supervisioná-los
e administrá-los.
O segundo sim, em relação
a resposta ao trocadilho, faz referência a expansão
da normalidade a partir da anormalidade, ou seja,
construindo a surdez, os ouvintes constituem a oralidade
como norma e esta passa a ser seguida pelas diferentes
instâncias sociais, entre elas a escola. A escola,
nessa perspectiva, pode ser entendida a partir da
noção de panoptismo trabalhado por Foucault:
"panopticon não é apenas uma técnica
altamente eficaz e astuta de controle dos indivíduos;
é também um laboratório para
sua eventual transformação" ( Dreyfus
e Rabinow, 1995, p. 208).
As escolas de surdos, sendo elas especiais
ou não, na busca de categorizar, nomear e situar
os surdos na rede da deficiência, usam a tecnologia
do panoptismo. O controle e a medicalização
da surdez instituíram uma ortopedia dos corpos
e das mentes dos sujeitos surdos, constituindo uma
fronteira de inclusão/exclusão.
No entanto, percebe-se que essa fronteira
se fragiliza se compreendermos esses processos a partir
de uma mesma matriz de poder. Inclusão e exclusão
não são produtos de causa e conseqüência
o fato de ser surdo e não ouvir não
significa estar excluído do mundo auditivo,
nem tampouco a protetização ou a oralização
dariam o greencard para a inclusão. Em uma
rede de poder, os discursos se deslocam, se fragmentam,
se constituindo em outras formas de poder e representação.
Portanto, aquilo que deve ser posto em discussão
não é o caráter binário
das políticas de inclusão/exclusão,
mas os argumentos, as condições de possibilidade
que fundamentam essas políticas, como também
quais os significados e representações
que se produzem e reproduzem nestas propostas.
Enfim, fazemos, como sujeitos, parte
do ballet das inclusões e exclusões,
que percorrem a história do país, dos
grupos a que pertencemos, das classes em que nascemos
ou em que somos jogados ao longo da vida. Inclusões
e exclusões que estão inscritas na vida
e na morte de cada sujeito (Pinto, 1999, p. 55).
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