Pedro
Paulo Rodrigues Cardoso de Melo
Psicólogo Clínico, Psicopedagogo, Professor
Colaborador de Psicologia e Sociologia da Faculdade
de Ciências e Letras de Campo Mourão -
Pr.
Email:
phetruspp@yahoo.com.br
A
educação especial é um tema que,
de uns tempos para cá, vem sendo mais e mais
estudada dado aos avanços das ciências
médicas e humanas de um lado e do reconhecimento
da existência de pessoas que apresentam problemas
de aprendizagem, mas que precisam estar inseridas no
contexto sócio-educativo, do outro.
Partindo dessa realidade, faz-se necessário
que analisemos os conceitos que fundamentam as condições
que delimita quem é e quem não é
peculiar à mesma e que, portanto, acabam fundamentando
filosoficamente e ideologicamente a própria
natureza da educação especial que fazemos.
Isso por uma razão bem simples: se os processos
de desenvolvimento são peculiares nas “crianças
especiais”, conseqüentemente, também o
serão os de aprendizagem e, portanto, também
devem sê-lo, os conceitos de adaptação
e de normalidade que fundamentam a educação
especial. Como diz Marcos Mazzota (1987),...A maioria
dos indivíduos diagnosticados como mentalmente
retardados revela certo grau de diminuição
nas áreas da maturação, aprendizagem
e ajustamento social.
Ao fazermos essa análise, não tardamos
em ver a importância existente na quebra desses
paradigmas que estão na base da educação
especial e, por tabela, na sua prática cotidiana,
bem como, na relação das pessoas ”normais”
com as “pessoas especiais”, em particular, as crianças,
decorrentes dessa prática.
Em primeiro lugar, é imperativo que tenhamos
a convicção da necessidade de se quebrar
os conceitos aceitos acerca da normalidade apontando,
concomitantemente, visões práticas alternativas.
Isso por ser importante uma desconstrução
ideológica deste conceito, principalmente no
que diz respeito à regra de se qualificar como
errado aquilo que não se enquadra nas normas.
Não podemos esquecer que tal regra impossibilita
o próprio conceito de construção
de conhecimento que, segundo Eunice S. de Alencar,
citando Piaget (1995), é construído
no contexto das interações sujeito-objeto,
tal que nas trocas incessantes entre ambos, algo sempre
é corrigido. O que, é lógico,
pressupõe a presença dos erros.
Fazemos,
exatamente, o contrário disso. Como afirma
Vitor da Fonseca (1991), o adulto fixa normas e facilita
ou não o acesso a elas. Quando a criança
tem dificuldade em satisfazer as normas desejadas,
o adulto elabora um julgamento sobre ela e nunca sobre
si próprio, adotando uma relação
de poder, um certo tipo de colonização
e um esquema de conformidade.
É
com essa ressignificação conceitual
que, em relação a esse ponto, podemos
ter a esperança de acreditar que a conduta
das pessoas para com os alunos especiais seja a de
absorver as diferenças dos diferentes, entendendo
que ser diferente não é ser melhor nem
pior que ninguém, mas, simplesmente, ser único
e, portanto, especial e, isso, não por ser
deficiente ou mais eficiente. Ainda citando Marcos
Mazzotta (1987), não podemos esquecer que a
educação implica um relacionamento entre
pessoas, de forma a exercerem influências recíprocas.
E, essa relação supõe que cada
um tenha o seu valor reconhecido.
Observe
que essa desconstrução de conceitos,
por si, só, transforma conceitos. Porém,
fica evidente que uma educação especial
com conceitos transformados só tem sentido
se for também, ela própria, transformadora
de conceitos, influenciando diretamente as condutas
típicas de pais, professores, educadores, técnicos
e, o mais importante, as condutas típicas dos
próprios “seres especiais”, já que,
inseridos numa sociedade, são sujeitos sociais
e sujeitos a sujeitos sociais, tal nos ensina o interacionismo
de Vygotsky (1999), ao afirmar que o aprendizado humano
pressupõe uma natureza social específica
e um processo através do qual as crianças
penetram na vida intelectual daqueles que as cercam.
Em segundo lugar, e seguindo a mesma lógica,
devemos deixar clara a necessidade de fazer a mesma
desconstrução ideológica no tocante
ao conceito de adaptação ideal a partir
dos conceitos de inadaptação existentes,
pois é essa desconstrução que
possibilitará, de imediato, uma nova visão
de aprendizagem, entendida, como a define Maria Lúcia
L. Weiss (2002), como um conjunto dinâmico que
estrutura os conhecimentos que o sujeito já
possui.
Em
relação a esse conceito, Mazzota (1991)
afirma que pensa -se mais em normas e valores sociais,
e não em termos de independência funcional.
As normas de adaptação são fixadas
em função de critérios particulares
de rendimento e eficácia.
É
a partir dessas quebras conceituais que podemos ver
que a educação especial que atualmente
é realizada, excetuando-se raras exceções,
é uma educação especial que fortalece
e perpetua a exclusão, portanto, o preconceito,
em detrimento de uma pedagogia inclusiva tão
decantada e desejada, desde que seja feita por alguém
que não seja nós. Fazemos uma educação
especial que visa a inclusão dos inadaptados,
“levando em consideração as suas especificidades”,
como se fosse possível ser diferente, tentando
trazer à nossa normalidade aqueles que não
são normais de acordo com as nossas normas.
Quem não consegue, mesmo tendo motivos justificáveis
para tal, é classificado como especial, devendo
receber uma educação singular.
É
por falta dessa desconstrução ideológica
dos conceitos de normalidade e adaptação
que perpetuamos na política educacional de
inclusão a inclusão daqueles que são
diferentes, praticando, assim, apenas uma forma diferente
de exclusão. É por falta dessa desconstrução
ideológica que continuamos colocando alunos
“especiais” em escolas regulares “preparando” professores,
pais e alunos para lidarem com ele, quando, no fundo,
apenas estamos fazendo um arranjo para continuarmos
tratando os diferentes como iguais, perpetuando na
discriminação velada, a política
preconceituosa da exclusão. Inclusão
verdadeira trata de tratar de modo desigual os desiguais
e sabe que a sua existência só é
real quando para todos e não, apenas, para
os portadores de deficiência.
Por
esses motivos, temos a convicção que
uma educação especial para o aluno especial
só é autêntica quando parte da
desconstrução ideológicas desses
conceitos que a fundamentam para, a partir daí,
ter a legitimidade necessária para adentrar
na sua realidade, levando em conta a singularidade
do desenvolvimento de quem é portador de alguma
deficiência que afeta a sua capacidade de aprender
e que precisa, portanto, de novo paradigma para o
que é ser normal e para o que é capacidade
adaptativa. Enfim, como define Laura de Monte Serrat
(2000), uma educação especial que entenda
que aprender, não se resume a aquisições
feitas na idade escolar, mas se amplia a todas as
aquisições que o homem realiza durante
a vida, no âmbito familiar, social e institucional.
BIBLIOGRAFIA
ALENCAR,
Eunice Soriano de (org). Novas Contribuições
da Psicologia aos Processos de Ensino e Aprendizagem.
3a.ed. São Paulo: CORTEZ editora, 1995.
BARBOSA,
Laura de Monte Serrat. A Psicopedagogia no âmbito
da Instituição Escolar. Curitiba: Eleotério,
2000.
MAZZOTA,
Marcos. Educação Escolar: comum ou especial.
São Paulo: Pioneira, 1987.
VITOR,
Fonseca da. Educação especial. 3a. ed.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.
VIGOTSKI,
L. S. A Formação Social da Mente: O
Desenvolvimento dos Processos Psicológicos
Superiores. 6a. ed. São Paulo: Martins Fontes,
1999.
WEISS,
Maria Lúcia. Psicopedagogia Clínica: uma
visão diagnóstica dos problemas de aprendizagem
escolar. 9a.ed. Rio de Janeiro: DP&A editora, 2002.