Renato
Paula Vieira Lopes
Reinoldo Marquezan
O aluno da Educação Especial é
tão especial quanto qualquer pessoa. A família
é a principal responsável pelas ações
do seu filho com necessidades especiais. É ela
que lhe oferece a primeira formação. Na
integração/inclusão escolar, o
aluno, com a orientação dos profissionais
e da família, poderá adquirir competência
profissional e pessoal. Este artigo é resultado
do trabalho de pesquisa realizado para identificar o
envolvimento da família no processo de integração/inclusão
escolar da pessoa com necessidades especiais.
Inspirados em experiências concretizadas na
Europa e Estados Unidos da América do Norte,
alguns brasileiros iniciaram, já no século
XIX, a organização de serviços
para atendimento a cegos, surdos, deficientes mentais
e deficientes físicos. MAZZOTTA (1996). Durante
um século, tais providências caracterizaram-se
como iniciativas oficiais e particulares isoladas,
refletindo o interesse de alguns educadores pelo atendimento
educacional de pessoas com necessidades especiais.
A partir de 1854, a Educação Especial
começou sua trajetória no Brasil, com
base nos estudos desenvolvidos na Europa, com modelos
de internatos e de escolas especiais, e nos Estados
Unidos, com a inserção de classes especiais
na escola comum e as conquistas dos movimentos organizados
de pais de pessoas com necessidades especiais, que
levaram avante progressos na legislação,
no amparo financeiro e na melhora dos serviços
necessários a seus filhos. Na Suécia,
toma a forma de "conselhos familiares" e,
na França, a de "ação interfamiliar".
Após
1960, começaram, no Brasil, a surgir as escolas
especiais, os centros de habilitação
e de reabilitação, as oficinas protegidas
de trabalho, os clubes sociais especiais e as associações
desportivas especiais.
A
Educação Especial surgiu, então,
como cuidados assistenciais às pessoas com
necessidades especiais, separados da educação
comum. Atualmente, uma nova tendência propõe
uma abordagem diferenciada para essa modalidade de
Educação.
A
Educação Especial, em conformidade com
a Política Nacional de Educação
Especial do MEC (1994, p. 17), ...
"...é
um processo educacional que visa promover o desenvolvimento
das potencialidades de pessoas com necessidades especiais,
condutas típicas, altas habilidades, e que
abrange os diferentes níveis e graus do sistema
de ensino. Fundamenta-se em referenciais teóricos
e práticos compatíveis com as necessidades
específicas de seu alunado".
O
processo deve ser integral, fluindo desde a estimulação
essencial até os graus superiores de ensino.
Sob o enfoque sistêmico, a educação
especial integra o sistema educacional vigente, identificando-se
com sua finalidade, que é a de formar cidadãos
conscientes e participativos.
Os
alunos da Educação Especial, segundo
RAIÇA (1990, p. 10),
...
são vivos, sentem, observam, têm as mesmas
necessidades que as outras crianças. Não
se pode confiná-los em um mundo à parte.
O
deficiente é produzido pelo ambiente de carências
afetivas, sociais, econômicas e culturais.
Nem
um louco, nem um bobo. Um ser humano que requer, talvez,
mais que os outros, orientação, apoio
e carinho.
Por
natureza, toda pessoa tem suas necessidades. Aqueles
que apresentam desvio físico, intelectual,
sensorial, social e de comportamento muito acentuado,
que não podem beneficiar-se dos programas da
educação comum, necessitam de ensino
ou serviços especiais, através da modificação
ou apoio ao programa educacional comum, de maneira
que eles próprios se tornem capazes de satisfazer
suas necessidades. É preciso adequar a estrutura
do ensino, os conteúdos e os métodos
ao ritmo e as características do aluno, a fim
de lhe facilitar a construção de conhecimentos.
Neste
contexto, surgem as propostas de educação
inclusiva e de sociedade inclusiva, ou seja, a educação
e a sociedade caminhando juntas para promover o que
se chama de uma sociedade para TODOS, sem distinções
de raça, cor, religião ou necessidades.
No entanto, acredita-se que a sociedade não
esteja preparada para promover a inclusão da
pessoa com necessidades especiais. Por isso, devemos
trabalhar, ainda mais, a integração/inclusão.
Tanto
no discurso geral como no discurso da escola, a integração
das populações diferentes e das crianças
deficientes é ponto pacífico. Se em
ambos os discursos reconhece-se que esta integração
na sociedade dos adultos ou na das crianças
nem sempre é plenamente realizada, a integração
daqueles que são diferentes dos outros é
considerada em todos os casos como uma finalidade
a atingir. VAYER (1989, p. 61).
Os
movimentos integracionistas/inclusivistas visam à
plena participação de TODAS as pessoas
em todos os setores da sociedade e a busca por parte
de ambos - sociedade e pessoas com necessidades especiais
- de maneiras práticas de correlacionar seus
direitos e deveres na construção de
uma sociedade para todos, objetivando o pleno exercício
de uma cidadania, à qual todos nós temos
direito. Para que este movimento ganhe mais força
e venha a se concretizar, é preciso que a sociedade
conheça melhor a realidade da Educação
Especial, esse complexo universo que ainda é
desconhecido, para melhor acompanhamento e interação.
Neste sentido, hoje já se tem um melhor controle
de fatores biomédicos, aconselhamento genético,
planejamento familiar, detecção de problemas
metabólicos, controle de fatores da mãe
e outros, mas a população de crianças
vulneráveis e com dificuldades de aprendizagem
tende a aumentar por carências afetivas, falta
de esclarecimentos, relações familiares
perturbadas, entre outras causas. A conscientização
da família, no sentido de que ela faz parte
de um contexto social, que exerce influências
sobre o indivíduo, preparando-o para o mundo
escolar é essencial. Também a conscientização
dos educadores não só em saber trabalhar
com o aluno, mas também em promover o desenvolvimento
familiar, de forma que a família se torne um
agente ativo no processo de integração/inclusão,
deve ser buscada.
Segundo
Miranda (1999, p. 44),
Na
efervescencência do momento pós-impacto
do Documento de Salamanca sobre os círculos
de debate brasileiros e internacionais que discutem
os direitos das pessoas com necessidades especiais,
bem como as formas de exercer e garantir esses direitos,
notadamente nos anos de 1996 a 1999, uma série
de pensamentos sobre a questão da inclusão
se explicitaram, seja através de artigos publicados,
seja através de eventos para discussão
A
família e a escola devem encontrar formas criativas
e arregimentadoras de convencer a comunidade a participar,
através de parcerias, da manutenção
para a integração/inclusão.
Quando
há a conscientização das pessoas
envolvidas, o destino toma seu rumo, ou seja, quando
os alunos estão bem integrados/incluídos
nas salas de aula, é por que isto está
acontecendo.
Algumas
das questões mais preocupantes em relação
à integração/inclusão,
hoje, são que:
-
ao invés de os alunos especiais estarem integrados/incluídos,
estejam segregados ou excluídos ;
-
a falta de preparação de professores
de classe comum pode trazer prejuízos aos alunos
especiais;
-
nem todos os portadores de necessidades especiais
são aptos para a integração/inclusão,
alguns precisam de atendimento individual e especializado;
-
a atenção dos governantes para com a
educação é escassa;
-
a participação da família, que
é de grande relevância, tem ficado aquém
do necessário.
A
família é o primeiro e talvez o principal
grupo social em que vivemos. É nela que aprendemos
a construir nossa individualidade e independência.
Por isso é muito importante o contato com outras
famílias que enfrentam, ou não, problemas
com necessidades especiais.
Os
pais precisam estar conscientes e mobilizados para
participar, apoiar, trabalhar em conjunto, com união
e harmonia. Devem também cuidar para que não
haja, em relação ao filho com necessidades
especiais, superproteção, posto que
esta em pouco ou nada contribuirá para o desenvolvimento
da autonomia da pessoa.
Para
SASSAKI (1997, p. 31),
O
princípio da normalização "tinha
como pressuposto básico a idéia de que
toda pessoa com necessidades especiais, especialmente
aquela portadora de deficiência mental, tem
o direito de experienciar um estilo ou padrão
de vida que seria comum ou normal à sua própria
cultura". A idéia inicial foi, então,
a de normalizar, mas isto foi confundido com a noção
de "tornar normais as pessoas com necessidades
especiais".
A
partir da década de 70, a educação
especial deu um salto, possibilitando que a pessoa
com necessidades especiais tivesse mais oportunidades
de sociabilidade, embora se todos têm suas necessidades,
por que marginalizar o mais necessitado? Será
que a sociedade está preparada para receber
o mais necessitado, ou é a sociedade que está
em déficit para normalizar esta situação?
Às
vezes é criado um mundo à parte para
as pessoas com necessidades especiais. Porém
elas podem ter sua casa, sua escola, seu trabalho,
seu lazer como qualquer outra pessoa. Nesse sentido,
muitos pais e educadores procuram fazer um trabalho
de integração. Deve-se ter o cuidado
para não excluir a pessoa com necessidades
especiais.
Num
passado ainda próximo, a exclusão ocorria
em seu sentido total, as pessoas com necessidades
especiais eram excluídas da sociedade para
qualquer atividade porque "antigamente"
elas eram consideradas inválidas, sem utilidade
para a sociedade e incapazes de trabalhar, características
essas atribuídas indistintamente a todos que
tivessem alguma necessidade especial.
Se
algumas culturas simplesmente eliminavam essas pessoas,
outras adotavam a prática de interná-las
em instituições de caridade, com doentes,
idosos e outros. Essas instituições
eram grandes e serviam, basicamente, para dar abrigo,
alimentos, medicamentos e algumas atividades para
ocuparem o tempo ocioso.
As
instituições foram se especializando
para atender pessoas por tipo de necessidade, passando-se
a praticar uma segregação institucional.
A idéia era a de dispor, dentro das instituições,
de todos os serviços possíveis já
que a sociedade não aceitava receber pessoas
com necessidades especiais nos serviços existentes
na comunidade.
Sempre
que nos deparamos com casos diferentes na vida é
que nossos valores irão se somar às
grandes qualidades e nos tornaremos modelos para as
decisões do futuro.
Com
o objetivo de identificar o envolvimento da família
no processo de integração/inclusão
escolar do filho/aluno com necessidades especiais,
foi realizada uma pesquisa com dez famílias.
Os resultados encontrados evidenciam que:
a)
Quanto ao envolvimento da família nas atividades
escolares do filho/aluno, de dez casos, nove são
conscientes de que os filhos serão beneficiados
pelas atividades escolares. Dos nove, três são
sabedores que o desenvolvimento é muito lento.
Dos três, um diz que já fez tudo o que
seria necessário para o desenvolvimento do
filho com dezoito anos de idade. Então, fica
na expectativa de que poderá despertar algum
desenvolvimento. Uma família torna-se um caso
à parte, porque a professora afirma que a aluna
não tem condições de acompanhar
e simplesmente os pais encaminham-na para classe especial
sem outro atendimento.
b)
Quanto ao relacionamento da família com os
professores, conclui-se que há relacionamento,
pelo mínimo, com um membro da família.
Portanto, as dez famílias pesquisadas têm
relacionamento com os professores. No caso em que
os pais encaminharam a filha da classe comum para
a classe especial, a aluna relaciona-se muito bem
com todos. A mãe participa das reuniões
convocadas pelos professores.
c)
Quanto ao relacionamento da família com outras
famílias: sete delas têm esse tipo de
convivência normalmente. Das três que
não interagem com outras famílias, uma
sente o abandono do pai, a mãe alega que não
tem como relacionar-se com outras famílias,
pois a dela está incompleta. A família
em que os pais têm mais idade é humilde
e, às vezes, o filho é rejeitado pelos
colegas. Assim, estes pais alegam ser difícil
o relacionamento de seu filho com as outras pessoas.
Em um caso, que a mãe é solteira, sente
vergonha de relacionar-se com outras famílias.
Estes
resultados evidenciam que, entre as famílias
pesquisadas, há envolvimento destas com a escola
dos filhos, com seus professores e das famílias
entre si. Esse envolvimento partiu da integração/inclusão
que as famílias tiveram com a escola. Houve
casos em que os pais, embora um pouco inibidos, conseguiram
fazer um bom trabalho para seus filhos. Nos casos
em que os pais estavam sempre ativos e participantes,
foi observado um maior desenvolvimento dos filhos/alunos.
Isso
mostra que, no momento em que estavam envolvidas,
independente da obrigação, desejo, inspiração,
conseguiram alcançar os objetivos indicados
para seus filhos. Independente da participação
das famílias, todas ficaram satisfeitas com
a atuação da escola.
Por
outro lado, destaca-se que a escola brasileira ainda
não está suficientemente preparada para
atuar com alunos de classe especial. Cada caso, é
um caso diferente. Para o professor (a) é um
grande desafio, mas com competência e a boa
vontade da família, onde cada um colabora como
pode, farão muito para a Educação
Especial. Na certeza de que todos precisam de estímulo,
apoio, compreensão e amadurecimento, principalmente
as pessoas especiais, isto é, as pessoas que
trabalham com os portadores de necessidades especiais,
é que a comunidade deve elevar seu pensamento
e ajudar os mais necessitados.
Queremos
concluir este trabalho ressaltando que a participação
da família do filho com necessidades especiais
é decisiva no processo de integração/inclusão
e indispensável para um construir-se pessoal
e participante da sociedade. As relações
entre famílias de filhos com necessidades especiais
oportunizam suporte recíproco para o fortalecimento
necessário à convivência saudável
entre seus membros. A escola, em conjunto com a família,
deverá implementar as melhores estratégias
de ensino-aprendizagem para que o aluno portador de
necessidades especiais dela se beneficie e nela permaneça.
Não
se pode prescindir, no processo de integração/inclusão,
das pessoas com necessidade especiais na participação
do Estado. Participação na formulação
e implementação de políticos,
na alocação e destinação
de recursos, na mobilização da sociedade.
A
integração/inclusão das pessoas
com necessidades especiais é um processo que
requer, para sua consolidação, a concorrência
de múltiplos esforços e a participação
de todos os segmentos da sociedade de forma que se
crie uma consciência social.
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