João Pedro Alcantara Gil
Carine Scheeren
Helen Denise Daneres Lemos
Simone De Mamann Ferreira
www.ufsm.br
O presente artigo pretende discutir o significado do
jogo e do brinquedo como metodologia dentro do processo
de inclusão de crianças com necessidades
especiais em escolas de ensino fundamental - educacação
infantil e séries iniciais . Procura relatar
os diferentes modelos históricos da deficiência
na sociedade, bem como as progressivas relações
entre o jogo e a educação nesses períodos.
Trata brevemente de alguns conceitos como necessidades
especiais e necessidades educativas especiais, sobre
inclusão e suas inúmeras particularidades,
assim como conduz a algumas conclusões obtidas
pelo grupo de pesquisadores neste trabalho.
Palavras Chave: jogo, brinquedo, metodologias
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Nos últimos tempos, tem se desenvolvido grande
interesse muitos projetos e trabalhos acadêmicos,
envolvendo metodologias que mais se identificam com
o universo infantil: os jogos e os brinquedos.
Herdeiros de uma sociedade onde o
brincar é radicalmente diferenciado do trabalhar
sob o aspecto da seriedade e da dificuldade, fomos
arrebatados por uma série de preconceitos que
nos impedem de explorar a brincadeira como recurso
indispensável ao aprender.
Quando SAMPLES (1990:24) refere-se
ao brinquedo, evidencia tal experiência por
parte da criança como sendo essencial ao seu
crescimento físico e psíquico e totalmente
desvinculado ao que os adultos consideram como certo
ou errado dentro do processo de aprendizagem. Segundo
o autor : “brincadeira” foi-se ampliando até
abranger a idéia de “ trabalho alegre”.
Pesquisas recentes destacam o papel
do jogo na formação completa da criança.
Inúmeras bibliografias são oferecidas
a respeito do assunto, entretanto, com algumas exceções,
ainda não existem reflexões aprofundadas
sobre os resultados efetivados desses recursos dentro
da sala de aula.
As escolas, bem como os professores
do futuro, não serão iguais aos atuais.
A emergência de mudanças no mundo nos
leva a tal conclusão. As escolas deverão
estabelecer novos perfis , transformando muitas de
suas idéias e aprendendo a viver com as incertezas
que a realidade lhes impõe.
Uma dessas grandes incertezas vivenciadas
pela escola atualmente é a inclusão
de crianças com necessidades especiais junto
à classe ditas “normais”. São grandes
as dúvidas e receios por parte dos profissionais
em educação. Percebe-se a enorme confusão
até mesmo na conceitualização
e diferenciação de termos como necessidade
educativa especial , necessidade especial e dificuldade
de aprendizagem. A palavra inclusão é
muito falada, mas pouco compreendida. As diferentes
formas de desenvolvimento do processo inclusivo ainda
são fatores desconhecidos pela maioria dos
professores que tentam trabalhar da melhor maneira
possível, mas totalmente desamparados em termos
de referenciais não só dentro da escola
como também fora dela.
A idéia de desenvolver jogos
e brinquedos para pessoas com necessidades especiais
não é nova. Nem foi nossa intenção
desenvolver um trabalho inédito. Entretanto,
sentimos urgência em investigar o verdadeiro
significado dos materiais lúdicos juntos a
esses alunos, bem como sua capacidade de diminuir
as diferenças existentes dentro dos grupos
observados. Pode o brinquedo e o jogo serem facilitadores
do processo inclusivo? Terão estes recursos
possibilidades concretas de aceitação
entre as crianças especiais, as crianças
“normais” e professores dentro da sala de aula? Podem
ser significativos enquanto causadores de novas experiências
no convívio , no aprendizado e no desenvolvimento
de valores éticos como o respeito às
diferenças, espírito de equipe, criatividade,
responsabilidade e imaginação? Qual
o papel do professor no processo de desenvolvimento
dos jogos? Possibilitarão o desenvolvimento
da auto - imagem desses alunos e de seus colegas?
São tantas as perguntas e outras
tantas as possibilidades de resposta. É importante
que se conheça os jogos e os brinquedos, suas
alternativas de exploração e suas especificidades,
assim como o histórico social das crianças
especiais com as quais se esteja trabalhando ,a fim
de realizar uma pesquisa eficiente e que propicie
resultados confiáveis que possam estabelecer
novos rumos do trabalho pedagógico com alunos
incluídos. Este artigo propõe-se a discutir
e analisar essas questões que foram referenciais
para todo o trabalho desenvolvido no projeto de pesquisa.
Para tanto é imprencindível que se percorra
um caminho histórico sobre a condição
da deficiência na sociedade, bem como sobre
o desenvolvimento da ludicidade no processo educativo
que se deu paralelamente a essa evolução.
HISTÓRICO DA DEFICIÊNCIA
: ALGUNS CONCEITOS
A compreensão sócio
- histórica da deficiência em âmbito
mundial sugere o entendimento de como alguns conceitos
foram evoluindo até hoje , servindo de referência
para a análise do processo inclusivo sob os
diferentes pontos de vista expressos na atualidade
por diversos pesquisadores e autores.
Inicialmente têm-se o entendimento
de JOVER (1999) sobre a Educação Especial
como uma forma de ensino composta por uma série
de recursos e serviços educacionais especiais
estruturados com a finalidade de apoio, acréscimo
e em alguns casos, substituição de serviços
educacionais comuns, garantindo uma educação
formal de crianças com necessidades especiais.
CARVALHO (1998,p.119),entende por
deficiência:
(...) qualquer perda de função
psicológica, fisiológica ou anatômica.
Tem como características: anormalidades temporárias
ou permanentes em membros, órgãos ou
outra estrutura do corpo, inclusive os sistemas próprios
da função mental. São exemplos
a perda das funções biológicas
visuais, auditivas, motoras, decorrentes das mais
variadas causas.
A deficiência pode ser sub-dividida
em real ou primária, que são as reconhecíveis
biologicamente e também tidas como necessidades
especiais , e as secundárias, produtos de preconceito
e estereótipos sociais. Tais deficiências
são circunstanciais e derivam ou de deficiências
reais ou mesmo , sem a existência de uma deficiência
primária.
A criança com deficiência
é reconhecida por apresentar transtornos na
aprendizagem, manifestações de conduta,
problemas emocionais produzidas pela interação
entre suas características e as dificuldades
impostas pelo meio físico e social.
Esse grupo, embora bastante heterogêneo,
após 1978 passou a ser reconhecido pela expressão
Necessidades Educativas Especiais.
(...) o que significa um aluno com
Necessidades Educativas Especiais? Em linhas gerais
, isso quer dizer que o mesmo apresenta algum problema
de aprendizagem ao longo de sua escolarização,
que exige uma atenção mais específica
e maiores recursos educacionais do que os necessários
para os colegas de sua idade. Aparecem portanto, nesta
definição, duas noções
estreitamente relacionadas ao problemas de aprendizagem
e os recursos educacionais. Ao falar de problemas
de aprendizagem e evitar a terminologia da deficiência
, a ênfase situa-se na escola, na resposta educacional.
(MARTIN & MARCHESI, in COLL et alii, 1995, p.11)
As Necessidades Especiais podem ser
compreendidas como toda a privação de
um indivíduo, decorrente da ausência
de condições orgânicas e psicológicas
, estruturais ou funcionais que se apresentam no dia
a dia.
Para SASSAKI (1997,16):
O termo Necessidades Especiais não
deve ser tomado como sinônimo de deficiências
(sejam visuais, auditivas, físicas, mentais
ou múltiplas).(...) Podem resultar de condições
atípicas tais como: autismo, dificuldades de
aprendizagem, insuficiências orgânicas,
superdotação, problemas de conduta,
distúrbios e déficit de atenção
com hiperatividade, distúrbio obsessivo compulsivo,
síndrome de Tourette, distúrbios emocionais,
transtornos mentais.
Historicamente a condição
da deficiência produziu diferentes relações
e as mais variadas conceitualizações,
que foram sendo modificadas de acordo com os modelos
econômicos, religiosos e sociais que algumas
sociedades desenvolveram para poder florescer em sua
época. Para cada período, percebe-se
claramente estas alterações e quanto
ainda hoje a questão corporal em nossa sociedade
é influenciada por estereótipos produzidos
no passado.
Nas sociedades primitivas, pela sua
própria constituição baseada
no nomadismo, era exigido de seus integrantes as condições
para uma sobrevivência individual bem maior
do que nas sociedades subseqüentes. As pessoas
que não se enquadravam no padrão social
considerado “normal”, seja em decorrência de
problemas na sua concepção ou nascimento,
seja fatores externos como guerras, acidentes naturais,
entre outros, eram consideradas empecilhos ou “peso
morto” , sendo por isso geralmente abandonadas ou
relegadas ao isolamento, sem que isso fosse considerado
errado pelas demais pessoas. Acontecia uma espécie
de seleção natural onde apenas os mais
fortes sobreviviam e se estabeleciam.
As concepções da sociedade
grega são distintas entre os espartanos e os
atenienses. Esparta cria uma sociedade voltada para
a guerra e o culto ao corpo e à sua força
e com isso era perfeitamente aceitável o descarte
de pessoas fora dos padrões vigentes para a
época.
Se, ao nascer a criança apresentasse
qualquer característica que pudesse diferenciá-la
dos padrões ideais, era eliminada com o objetivo
de aprimorar a qualidade da sociedade espartana, que
valorizava a beleza e a força física
da figura feminina, visava desenvolver nas mulheres
as personagens principais na geração
de seus futuros guerreiros.
Outra concepção é
a de que a mente desenvolvida para a retórica
,a argumentação e a reflexão
é superior ao trabalho físico que devia
ser realizado pelos escravos, ou seja , pelos responsáveis
pela manutenção da elite grega. Para
Aristóteles “o ócio é uma necessidade
tanto para adquirir virtude como para realizar atividades
políticas.”.
A dicotomia corpo-mente tão
evidenciada no período greco-romano passa a
repercutir sob o âmbito da teologia no período
feudal, repercutindo profundamente até mesmo
em sua terminologia que passa de corpo /mente para
corpo/alma. Os indivíduos considerados anormais
ganham o direito à vida, mas são estigmatizados
,visto que o modelo moral do cristianismo/catolicismo
vê as diferenças como sinônimos
de pecado.
Nesta divisão a alma é
a parte considerada digna, merecendo atenções
e cuidados, por sua vez, o corpo ora é considerado
o “templo da alma”, ora é visto como “oficina
do diabo”, o que provoca conflitos profundos e difíceis
de serem superados. A medida que a Idade Média
avança ,a relação da diferença
física com o pecado começa a intensificar-se,
entretanto , é necessário que se perceba
que esta relação surge muito antes ,em
sociedades como a judaica que já coloca no
Antigo Testamento referências a esse respeito.
A Bíblia no Novo Testamento também refere-se
aos cegos , surdos, aleijados e leprosos como pessoas
que tenham cometido algum pecado e por esse motivo
sofriam tais “penalidades” físicas. Portanto
é compreensível que a Igreja Católica
tenha manipulado a sociedade medieval neste sentido.
Tanto que os castigos impostos ao corpo tais como
as flajelações, a fogueira e as torturas
da Santa Inquisição representavam a
purificação dos pecadores, intensificando
a idéia de que o corpo era o reflexo de tudo
o que a alma cometia de errado.
Com o início da Idade Moderna
e a ascensão da burguesia, o Capitalismo se
afirma como forma de produção mundial
, onde o trabalho passa de artesanal para manufaturado
e posteriormente para maquinofaturado, sendo o ritmo
de produção ditado pela máquina.
Portanto surgem novos padrões que entram em
conflito com os impostos pela Igreja. Estes ideários,
principalmente representados pelo liberalismo e pela
afirmação crescente do pensamento científico,
reforçam as bases para que se dê a Revolução
Francesa e a implantação dos pilares
desta revolução social pela indústria
automotiva de Henry Ford, aos poucos traz aos deficientes
físicos uma oportunidade de trabalho, onde
podem exercer certas funções de acordo
com suas limitações físicas.
Entretanto, essas atividades não beneficiavam
o homem como um todo ,pois forçavam os trabalhadores
a produzirem de forma seriada, em grande quantidade
e sempre da mesma maneira, isto é, sem que
necessitassem usar toda a sua capacidade mental e
física.
Atualmente o capital é tido
como o novo “Deus” da humanidade e produzir para o
capital consiste na melhor forma de atuar dentro da
sociedade.
Vive-se hoje em uma realidade que
dá mais ênfase à questão
do mercado – competitivo e discriminatório
- do que à problemas sociais. Isso esclarece
a segregação e exclusão de uma
parcela significativa da população mundial
representada pelos idosos, desempregados, negros,
mulheres, deficientes, etc. que são considerados
em muitos casos um “peso para o sistema”.
É em meio a este contexto que
algumas alterações no tratamento de
pessoas portadoras de deficiência começam
a acontecer. De conceitos e versões grosseiras
sobre deficiência e seus “tratamentos” no passado,
lentamente a moblilização social passa
a oferecer novas concepções, que geram
outras atitudes e valores éticos, o que pode
produzir novas relações com portadores
de necessidades especiais.
Segundo SASSAKI (1997,27):
Os conceitos são fundamentais
para o entendimento das práticas sociais. Eles
moldam nossas ações. E nos permitem
analisar nossos programas, serviços e políticas
sociais, pois os conceitos acompanham a evolução
de certos valores éticos, como aqueles em torno
da pessoa portadora de deficiência .(...) Os
conceitos Inclusivistas surgiram a partir do que hoje
poderíamos chamar de Pré-Inclusivistas.
O Modelo Médico da Deficiência
surge como um desses conceitos e trata o deficiente
como um doente que necessita ser curado ou tratado
constantemente por outras pessoas o que o caracterizará
como uma pessoa “inválida”, incapaz de exercer
sua cidadania através de seu trabalho e sua
participação dentro da sociedade. Esse
conceito mantém sua forte influência
até mesmo entre os defensores dos direitos
dos deficientes . Também é responsável
pela não aceitação da própria
sociedade em alterar suas estruturas e atitudes visando
a inclusão de pessoas portadoras de deficiência
para que estes tenham condições de desenvolver-se
em termos pessoais, profissionais e educacionais.
Outro conceito é o da Integração
Social que começa a surgir com o intuito de
vencer a exclusão contra os portadores de deficiência.
No final da década de 60 surge o princípio
da Normalização que defende a idéia
de que todo portador de deficiência tem o direito
de experienciar um estilo de vida tido como normal
ou comum a sua própria cultura. Por volta dos
anos 80 desenvolve-se outro princípio, o de
Mainstreaming que procura integrar os alunos deficientes
em várias classes comuns sem que ele pertença
a nenhuma destas. Esses dois princípios foram
importantes para a obtenção de novas
experiências e conhecimentos de integração.
Neste sentido, o modelo de integração
social nada mais é do que a busca de uma inserção
do deficiente a uma sociedade que lhe exige certas
capacidades para a sua sobrevivência.
SASSAKI (1997,34), considera que a
integração:
(...) tem consistido no esforço
de inserir na sociedade pessoas com deficiência
que alcançaram um nível de competência
compatível com os padrões sociais vigentes.(...)
desde que ele esteja de alguma forma capacitado a
superar as barreiras físicas , programáticas
e atitudinais nela existentes.
A integração social
não toma a sociedade como responsável
principal neste processo, pois é o portador
da deficiência que deverá adequar-se
à estrutura oferecida, ou seja, deverá
moldar-se aos mais diversos procedimentos e papéis
sociais que lhe forem exigidos, para que possa ser
aceito.
No que se refere à Inclusão
parte-se da premissa de uma mudança na sociedade
como primeira etapa para que o portador de necessidades
especiais, seja aluno ou não, possa construir
seu desenvolvimento e desempenhar o seu papel de cidadão.
O conceito de Inclusão defende a idéia
de que todas as crianças podem aprender e fazer
parte de uma vida escolar e comunitária. Há
uma valorização das singuralidades e
uma visão positiva em relação
a estas como oportunizadoras de novas aprendizagens.
Criar uma realidade inclusiva resulta
na mudança de toda a sociedade para que esta
possa atender as necessidades de cada indivíduo.
A inclusão é para SASSAKI
(1997,41):
(...) um processo pelo qual a sociedade
se adapta para poder incluir, em seus sistemas sociais
gerais, pessoas com necessidades especiais e, simultaneamente,
estas se preparam para assumir seus papéis
na sociedade. A inclusão social constitui ,
então, um processo bilateral no qual as pessoas
ainda excluídas e a sociedade buscam, em parceria,
equacionar problemas, decidir sobre soluções
e efetivar a equiparação de oportunidades
para todos.
Relacionando o processo inclusivo
à instituição “ESCOLA” podemos
definir que ela será Inclusiva quando procurar
educar todos os alunos em salas de aula regulares,
isto significa permitir a educação e
a freqüência de todos na escola regular
,bem como oferecer a todos uma série de desafios
e oportunidades que sejam adequadas às suas
habilidades e necessidades.
O primeiro passo para a escola ser
inclusiva é o reconhecimento e a aceitação
das diferenças individuais, pois as necessidades
educativas especiais pressupõe outras estratégias
de ensino-aprendizagem que não as usadas rotineiramente
com a maioria dos alunos.
Sobre a Escola Inclusiva STAIMBACK
(1999, XII) afirma:
(...) Ela é um lugar do qual
todos fazem parte, em que todos são aceitos,
onde todos ajudam e são ajudados por seus colegas
e por outros membros da comunidade escolar, para que
as suas necessidades educacionais sejam satisfeitas
(STAIMBACK,1999,XII)
Segundo a UNESCO (1994.P.61,apud Revista
Integração):
O princípio fundamental da
escola inclusiva é o de que as crianças
deveriam aprender juntas, independentemente de quaisquer
dificuldades ou diferenças que possam ter.
As escolas inclusivas devem reconhecer e responder
às diversas necessidades de seus alunos, acomodando
tanto estilos como ritmos diferentes de aprendizagem
e assegurando uma educação de qualidade
a todos por meio de currículo apropriado ,
modificações organizacionais, estratégias
de ensino, uso de recursos e parcerias com a comunidade.
A escola Inclusiva se adapta para
que todas as crianças, deficientes ou não
tenham as mesmas oportunidades de aprendizagem. Incluir
é respeitar e aceitar a individualidade, as
diferenças de cada um e aprender com elas.
Porém, aceitar e respeitar não é
suficiente. É necessário criar condições
para que a inclusão aconteça para todos.
Dentro desse processo existem inúmeras formas
de trabalho junto aos alunos especiais. A proposta
desta pesquisa foi buscar nos jogos e brinquedos a
estimulação de relações
interpessoais mais dinâmicas e livres de preconceitos
entre alunos – alunos, professores – alunos e funcionários
– alunos. A partir da proposta inclusiva, apresentamos
um histórico sobre os jogos, as concepções
de alguns autores a respeito destes recursos e a análise
feita pelas pesquisadoras em função
do significado efetivo do jogo dentro do ambiente
inclusivo.
JOGO E BRINQUEDO: HISTÓRICO,
CONCEPÇÕES E ALGUMAS CONCLUSÕES.
Os aspectos formativos do jogo foram
inseridos tardiamente no universo escolar, visto que
sempre foi considerado como uma tarefa desvinculada
do trabalho, sendo este o objetivo principal da escola.
Entretanto sabe-se que o jogo tem um papel importante
nas relações entre brinquedo e trabalho
na escola, pois torna concreta a idéia do aprender
divertindo-se.
Desde a antiguidade o jogo tem um
sentido social, muitas vezes vinculado ao aspecto
religioso, tendo a simulação lúdica
como forma de expressão cultural. Os jogos
poderiam destacar-se no teatro, na mímica,
na dança e eram efetuados geralmente por escravos
que eram assistidos por expectadores.
Para os gregos, romanos e astecas
o jogo era tido como um espetáculo, um ato
oferecido aos deuses como presente.
Com o surgimento do cristianismo o
jogo passa a ter uma conotação repressiva
e controladora, pois tudo era considerado como pecado
empobrecendo os ideais lúdicos do jogo e do
brinquedo.
Para KISHIMOTO (1999, P. 28):
Durante a Idade Média o jogo
foi considerado “não sério” por sua
associação ao jogo do azar, bastante
divulgado na época. (...) O Renascimento vê
a brincadeira como uma conduta livre que favorece
o desenvolvimento da inteligência e facilita
o estudo.
É uma nova forma de perceber
o jogo e a criança passa a ser dotada de valor
positivo, de uma natureza boa que se expressa espontaneamente
por meio do jogo, perspectiva que irá fixar-se
com o romantismo.
Através da consciência poética
do mundo, esta fase da história humana passa
a reconhecer na criança uma natureza semelhante
à alma do poeta e a considerar o jogo sua forma
de expressão, onde a imitação
e a brincadeira são dotadas de espontaneidade
e liberdade.
No século XVIII passa-se a
observar as brincadeiras infantis e a capacidade imitativa
da criança, onde o conhecimento desta torna-se
via de acesso às origens humanas criando-se
uma equivalência entre povos primitivos e a
infância para se entender a mesma como a idade
do imaginário, da poesia, de forma semelhante
aos povos do tempo mitológico. Esta teoria
é denominada Recapitulação.
Surgem, neste período, novas
intenções pedagógicas onde o
jogo se expande como elemento do processo educacional
por meio dos princípios inovadores, sugeridos
por Rosseau, Pestalozzi e especialmente Froebel.
Em tempos atuais os estudiosos do
assunto tentam equilibrar jogo e educação,
para que o contexto formativo não seja superado
pelo lúdico, sem que este perca suas características
de liberdade, prazer e diversão.
Para que se possa entender o papel
do brinquedo como fator de desenvolvimento da criança
é necessário que se acompanhe sua autogênese
desde os primeiros meses do bebê, visto que
é nesse período que desperta a necessidade
de convivência com a fantasia para que possa
reestruturar suas relações com o mundo.
(...)o brinquedo oferece ao bebê
uma longa série de experiências da etapa
do desenvolvimento a que me referi e a todas as posteriores.
O brinquedo possui muitas das características
dos objetos reais, mas pelo seu tamanho, pelo fato
de que a criança exerce domínio sobre
ele, pois o adulto outorga-lhe a qualidade a algo
próprio e permitido, transforma-se no instrumento
para o domínio de situações penosas,
difíceis, traumáticas, que se engendram
na relação com os objetos reais. Além
disso, o brinquedo é substituível e
permite que a criança repita, à vontade,
situações prazenteiras e dolorosas que,
entretanto, ela por si mesma não pode reproduzir
no mundo real.(ABERASTURY, 1992 p.15).
Quando a criança passa a exercer
papel social dentro da escola, muitas de suas experiências
são novamente vivenciadas dentro das brincadeiras.
A observação realizada identificou os
objetivos educacionais, bem como, a relação
das crianças entre si durante os jogos e brincadeiras.
Em cada brinquedo sempre se esconde
uma relação educativa. Ao fazer seu
próprio brinquedo, a criança aprende
a trabalhar e a transformar elementos fornecidos pela
natureza ou materiais já elaborados, constituindo
um novo objeto, seu instrumento para brincar. Outras
vezes, ela se aproveita de artigos nem de longe concebidos
como brinquedo, adaptando-se às suas necessidades
e experiências lúdicas.(OLIVEIRA, 1984
p.48).
Para a criança, a brincadeira
é a melhor maneira de se comunicar, um meio
para perguntar e explicar, um instrumento que ela
tem para se relacionar com outra criança.
Para MARINHO (1992), a presença
do amor e da agressão nas brincadeiras infantis
correspondem às tentativas de descoberta do
EU da criança. Portanto, o amor e a agressão
são componentes estruturantes na formação
da sua personalidade.
Além de ser um espaço
de conhecimento sobre o mundo externo, é na
brincadeira que a criança também pode
conviver com seus sentimentos internos. A presença
da agressividade, portanto, não deve ser censurada;
pelo contrário, é importante que seja
preservado esse espaço para que a criança
possa expressar seus sentimentos em momentos em que
não está realmente zangada, pois embora
possa haver conflitos entre o amor e o ódio,
ela sabe que esse espaço é o da brincadeira
e que pode terminar o jogo no momento que quiser.
Enquanto o adulto interpreta o brinquedo
como uma fuga dos problemas e da rotina desgastantes
do dia a dia, onde ele relaxa e esquece das obrigações,
a criança utiliza o brinquedo para experimentar
o mundo, saciar a curiosidade, aprender a vencer seus
medos, enfim, desenvolver-se criativamente para enfrentar
novas situações que a interessem. A
criança está aprendendo a viver no mundo
dos adultos, age “como se fosse” o objetivo da brincadeira.
A brincadeira é um espaço
de aprendizagem onde a criança atua além
do seu comportamento cotidiano e das crianças
de sua idade. Na brincadeira, ela age como se fosse
maior do que é, realizando simbolicamente o
que mais tarde realizará na vida real.
A riqueza do brinquedo decorre de
sua capacidade de instigar a imaginação
infantil. E não, como muitos acreditam, da
possibilidade de imitação de gestos,
informações, atitudes e crenças
vinculadas na situação de brinquedo.(OLIVEIRA,
1984 p.67).
O brinquedo ajuda a criança
a descobrir-se como ser único e que merece
atenção. O brinquedo também participa
de seus momentos mais dolorosos. Serve como catalisador
de um sentimento de raiva, frustração
ou perda. Os sentimentos negativos não são
bem compreendidos pelas crianças, exceto quando
brincam, pois ali, na brincadeira não precisam
sentir-se culpadas pelo medo ou raiva que guardam
consigo.
O brinquedo as ajuda a elaborar papéis
que terão de exercer no futuro. É uma
invasão ao mundo dos adultos, mas com aspecto
desinteressado que só a imaginação
pode oferecer.
O brinquedo é instrumento que
lhes possibilita a expressão criativa de seus
sentimentos em relação ao mundo que
as rodeia e que ainda não compreendem.
Segundo BETTELHEIM (1988),o brincar
da criança não está somente apoiado
no presente, mas paralelamente responde questões
do passado e tenta projetar-se no futuro. Se uma menina
brinca com bonecas, pode estar não só
resolvendo conflitos atuais como também antencipando
um futuro papel a ser vivido no futuro. O brincar
de boneca sugere a representação de
sentimentos às vezes, antagônicos, como
o amor pela mãe e o ciúmes de um irmão.
Através dessa expressão lúdica
a criança poderá extravasar seu conflito
de forma saudável, sem sentir-se culpada por
demonstrar seus sentimentos negativos.
A atividade lúdica infantil
inclui também brincadeiras que não têm
qualquer técnica em particular, sendo simples
exercícios. Pode-se notar que, desde quando
são bem pequenas, ainda bebês, as crianças
se dedicam a jogos de repetir ações
como sacudir um chocalho, balançar objetos
pendentes sobre o berço ou jogá-los
no chão repetidas vezes. O movimento repetido
exerce profundo fascínio nesta fase. Afirma-se
com isso que os jogos de exercício são
a primeira forma de brincadeira da criança.
Através dos jogos de regras,
a criança cria condições de superar
as próprias limitações, visto
que a repetição provoca a segurança
de que aprendeu o exercício, logo depois passa
a explorar novo exercício até conseguir
dominá-lo e novamente expandir sua capacidade.
Os jogos como “faz-de-conta” abrem
espaço, progressivamente, para os jogos com
regras. O jogo com regras é, por isso, a atividade
do ser socializado, sendo muito difícil para
uma criança de três ou quatro anos participar
de um deles.
O jogo é uma ação
livre, sentida como fictícia e situada fora
da vida comum, capaz não obstante, de absorver
totalmente o jogador, ação despojada
de qualquer utilidade que se realiza num tempo e num
espaço estritamente definidos; desenvolve-se
com ordem, segundo regras estabelecidas e suscita,
na vida, relações de grupo que, saborosamente,
se rodeiam de mistério ou que acentuam mediante
o disfarce o quão estranhos são ao mundo
habitual.(LEBOVICI E DIATKINE, p.14).
Para VYGOTSKY (1984),o brincar é
definido pela situação imaginária
criada pela criança, e que tende a suprir necessidades
que mudam conforme a idade. Com o crescimento surgem
novas necessidades que poderão ser satisfeitas
através da capacidade imaginária da
criança.
Vygotsky entende a brincadeira como
uma atividade movida pela imaginação,
atividade consciente, que se desenvolve conforme seu
crescimento. Isto significa que as crianças
muito pequenas ainda não possuem tal capacidade.
Vygotsky dá importância à ação
e ao significado no brincar. Segundo ele, uma criança
com menos de três anos não consegue envolver-se
em uma situação imaginária, pois
é só brincando que ela pode começar
a compreender o objeto não da forma que ele
é, mas como gostaria que fosse. É na
brincadeira que o objeto perde sua característica
real e passa a ter o significado que lhe dão.
Já na idade escolar torna-se
uma atividade mais limitada que possui um papel específico
e tem um significado diferente, do dado por uma criança
menor. É visto com isso, que o brinquedo cria
relações do imaginário com o
real.
A criança só desenvolve
a consciência de se EU a partir da consciência
que tem do OUTRO e também a partir da linguagem,
que lhe propicia subsídios para interagir com
o mundo que deseja descobrir.
A consciência não está
dada desde o início e não surge espontaneamente
da natureza: a consciência é gerada pela
sociedade, nela se produz. Portanto, é possível
formular uma teoria materialista da criatividade,
contanto que se leve em conta que é a ação
criativa social o ponto de partida, e que a imaginação
é produto do meio e não de mentes prima
pela aprendizagem essas aquisições se
encontram unidas a todos os problemas relativos à
construção sensório-motora e
mental .(NEGRINE, 1994, p.32 –33)
Para Wallon (NEGRINE, 1994,p. 29-
30) :
O jogo para as crianças é
expansão , e nesse sentido, se opõe
à atividade “séria” que é o trabalho.
(...) A compreensão infantil é tão
somente uma simulação que vai do outro
a si mesmo, e de si mesmo ao outro. A imitação
como instrumento dessa fusão representa uma
ambivalência que explica certos contrastes nos
quais o jogo encontra alimento.
Segundo BROUGÈRE (1998, 114
) são duas as concepções que
estão presentes na recreação
escolar:
Na primeira, reconhece-se um valor educativo ao jogo,
sob a reserva de não deixá-lo à
espontaneidade da criança na outra consiste
em conceber este momento de liberdade concedida à
criança como um momento educativo enquanto
tal e sem qualquer intervenção adulta,
especialmente nos níveis físico e social:
Ao estudar o brinquedo e os materiais
pedagógicos, enquanto estruturadores do conhecimento
e do saber, pode-se chegar a diversas conclusões.
Brinquedos, jogos e materiais pedagógicos não
trazem em seu contexto um conhecimento pronto e definido,
trazem ao contrário, um conhecimento potencial
que pode ou não ser descoberto pelo aluno.
Todo o material pedagógico não deve
ser contemplado como algo igual para todos. É
, na verdade , um recurso dinâmico que altera-se
em função do simbolismo e da imaginação
de quem o utiliza.
O aspecto interpessoal do material
lúdico pode ser positivo, desencadeando novas
relações sociais entre as pessoas, ou
negativo, podendo causar estagnação
entre relações de outro grupo social.
Cada material pedagógico carrega
consigo uma carga histórica não só
dos que o utilizam (professor- aluno) como também
da cultura de uma determinada época.
Chegamos, enfim, a algumas conclusões
sobre o uso de jogos e brinquedos em sala de aula
com alunos incluídos, partindo de atividades
em oficinas pedagógicas com turmas comuns.
· AUMENTO CONSIDERÁVEL
DA ORALIDADE DOS ALUNOS:
· A escola orienta suas atividades
na forma de trabalho e seriedade que ela própria
corporifica (...) O trabalho resulta em respostas
“certas”, “corretas”. (...) Em minha vida,
· Influenciados pelas dinâmicas
de grupo onde eram introduzidos os jogos, muitos foram
os casos de crianças que elevaram consideravelmente
seu vocabulário e suas manifestações
orais junto aos colegas, não apenas em casos
de crianças incluídas, mas também
aquelas crianças que geralmente pouco se manifestam
dentro da sala de aula.
· A timidez de um aluno - que
muitas vezes é reforçada pelo professor
como em atitudes de chamar sua atenção
frente aos colegas da classe - durante as aplicações
dos jogos foi reduzida em grande parcela, pois através
do jogo a criança não se sente constrangida
e nem ameaçada, afinal ela está simplesmente
participando de uma brincadeira com seus colegas e
não há motivo algum para se envergonhar.
· MAIOR CAPACIDADE DE CONCENTRAÇÃO:
· Uma das principais características
do jogo e do brinquedo é a grande aceitação
em sala de aula em relação a outros
recursos metodológicos como: livros ,quadro-negro,
folhas mimeografadas, etc.
· Isso se deve ao simples fato
de que o jogo e o brinquedo, como todo material concreto,
é facilmente assimilado pela criança.
· Sendo assim, percebemos que
a partir de um jogo, o tema no qual o professor deseja
trabalhar, será melhor aceito pelos alunos,
já que a concentração dos mesmos
estará diretamente voltada ao assunto em questão.
Procuramos, portanto, adequar os jogos aos conteúdos
que estavam sendo apresentados aos alunos, servindo
também como atividades de fixação.
· MAIOR COOPERAÇÃO
ENTRE COLEGAS:
· que geralmente percebe-se
entre colegas é sentimento de competição
e rivalidade, isto se explica pelo fato de vivermos
em um mundo competitivo, onde somos educados, desde
crianças, para sempre sermos os melhores e
os mais fortes.
· No entanto, com a aplicação
dos jogos houve mais interação entre
os colegas e um maior sentimento de união.
Sendo a característica metodológica
principal dessa pesquisa o fato de não retirarmos
os alunos com necessidades especiais da sala de aula
para levá-los para as salas de recursos, observamos
o surgimento de reações polêmicas
e de resistência por parte de alguns profissionais
da área de Educação. O objetivo
principal desse projeto de pesquisa é investigar
o significado do jogo e do brinquedo como alternativa
válida ou não dentro do processo inclusivo.
Houve portanto, muitas resistências em várias
escolas ,o que percebemos nas avaliações
realizadas.
Os jogos foram explorados de diversas
formas em várias ocasiões, de acordo
com a realidade percebida pelas pesquisadoras. Isto
significa que um jogo pôde Ter suas regras modificadas
quando necessário para atendermos aos interesse
de um ou outro grupo. Tomamos o cuidado também
de adequarmos nossos jogos a cada necessidade especial,
para evitar constrangimento às crianças
que, por exemplo, tivessem uma limitação
que as impedisse de jogar.
Sabe-se que cada indivíduo,
seja portador ou não de alguma necessidade
especial, possui alguma dificuldade que se destaca
em relação ao outro.
Por esta razão, nossa pesquisa
conclui que a melhor forma de trabalhar com o aluno
incluído é dentro da sala de aula, com
toda a turma, pois é através de um jogo
adaptado às necessidades especiais deste aluno,
que ele terá chances de se destacar frente
aos demais ,ser respeitado e visto como alguém
capaz de participar e, porque não dizer, de
superar suas dificuldades. As crianças incluídas
tiveram uma sensível valorização
de sua auto-estima e seus atos passaram a Ter maior
consideração perante seus colegas. Não
notamos em nenhum momento, qualquer comportamento
discriminatório por parte das crianças
tidas como “normais” aos colegas especiais.
Fica claro que este é um longo
caminho a ser percorrido e que transformar a sala
de aula em um local aberto à ludicidade é
uma tarefa bastante árdua, em vista da própria
formação docente, das condições
estruturais das instituições e da visão
equivocada de que brinquedo é tudo menos coisa
séria. É necessário que o jogo
deixe de ser visto apenas como um recurso de emergência
no final de uma aula conturbada para ocupar o seu
papel principal: ser o eixo do processo inclusivo.
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