Saul Neves de Jesus
Maria Helena Martin
Neste artigo são analisados os pressupostos que
justificam a Escola Inclusiva e que práticas
educativas podem permitir a sua concretização,
ao nível do trabalho dos professores, dos pais
e da organização escolar. É dada
particular atenção à forma como
o sistema educativo português tem evoluido no
sentido de integrar as actividades de apoio educativo.
1. Escola inclusiva e apoios educativos
em Portugal
Uma das principais alterações
socioeducativas ocorridas nas últimas décadas
foi a tentativa de democratizar o ensino, de permitir
o acesso à escolaridade a todas a crianças
e jovens. Assim, o ensino elitista, só acessível
a quem tinha condições económicas
para o frequentar, deu lugar a um sistema de ensino
acessível a todos, sendo inclusivamente obrigatória
a frequência nos primeiros anos de escolaridade.
A escola inclusiva integra-se nesta perspectiva de
escola aberta a todos, sendo factor de integração
e inclusão dos alunos, inclusivamente sociocultural,
e de professores que devem possuir competências
que ultrapassam o mero domínio dos conhecimentos
da sua área de saber a transmitir aos alunos
(Jesus, 1998).
Segundo Gordon Porter (1994)
a escola inclusiva é um sistema
de educação e ensino onde os alunos
com necessidades educativas especiais, incluindo os
alunos com deficiência, são educados
na escola do bairro, em ambientes de salas de aula
regulares, apropriadas para a sua idade (cronológica),
com colegas que não têm deficiências
e onde lhes são oferecidos ensino e apoio de
acordo com as suas capacidades e necessidades individuais.
O conceito de escola inclusiva enquadra-se
no princípio da igualdade de oportunidades
educativas e sociais a que todos os alunos, sem excepção,
têm direito, pretendendo significar que todos
os alunos devem (ou têm o direito de) ser incluidos
no mesmo tipo de ensino. Isto é proposto no
plano dos princípios, porque na realidade há
que atender às diferenças individuais,
no sentido de potencializar o desenvolvimento de acordo
com as características de cada aluno, o que
implica a flexibilização da organização
escolar, das estratégias de ensino, da gestão
dos recursos e dos currículos. Fundamentalmente,
a escola inclusiva pretende marcar a passagem dum
modelo tradicional, em que havia turmas específicas
do ensino especial, centrado no professor de educação
especial, para um novo modelo em que os alunos com
necessidades educativas especiais são incluidos
nas turmas ditas "normais" (ou no ensino
regular). Esta inclusão ocorre, não
apenas nas actividades curriculares, mas também
em todas as outras actividades extracurriculares desenvolvidas
na escola, procurando esbater as diferenças,
aceitá-las e respeitá-las, o que é
fundamental, inclusivamente em termos de cultura escolar.
Esta nova realidade escolar requer
professores especialistas que saibam como actuar com
os alunos com necessidades educativas especiais, mas
também os professores sem especialização
a este nível necessitam de saber como intervir
face às diferenças entre os alunos de
uma mesma turma. Daí o conceito de professor
generalista que, para além da formação
específica no domínio dos conhecimentos
da sua área de docência, deve ser capaz
de adequar as estratégias de ensino à
especificidade dos seus alunos (este aspecto tem a
ver com a capacidade de adopção de mecanismos
de diferenciação pedagógica e
a tal flexibilidade que permita atender às
diferenças individuais).
Decorrente da evolução
das diferentes conceptualizações que
enquadram a educação dos alunos com
N.E.E. a Declaração de Salamanca assinada
em 1994, por representantes de 92 governos, incluindo
o de Portugal e de 25 organizações internacionais,
constitui um marco referencial para a construção
de uma escola inclusiva. Em Portugal, o Despacho Conjunto
nº 105/97 de 1 de Junho, vem contextualizar os
Apoios Educativos na Escola, de acordo com os princípios
veiculados na Conferência de Salamanca.
Neste país, para a promoção
das actividades de apoio educativo são colocados
na escola, em regime de destacamento, docentes com
formação especializada, pois pretende-se
centrar nas escolas as intervenções
diversificadas necessárias para o sucesso educativo.
Esta iniciativa traduz o objectivo de descentralização
e territorialização das políticas
educativas.
Os apoios educativos abrangem todo
o sistema de educação e ensino não
superior, visando a integração socioeducativa
das crianças e jovens com necessidades educativas
especiais, contribuindo para a igualdade de oportunidades
de sucesso educativo.
O docente de apoio é aquele
que possui formação especializada, nomeadamente
no domínio da educação especial,
devendo prestar apoio educativo à escola no
seu conjunto, ao professor, ao aluno e à família,
na identificação de necessidades educativas
especiais e no planeamento e implementação
dos apoios educativos adequados, na organização
e gestão dos recursos e medidas diferenciadas
a introduzir no processo de ensino-aprendizagem, na
diversificação de estratégias
pedagógicas e na flexibilização
curricular.
Por seu turno, a equipa de coordenação
dos apoios educativos, em colaboração
com o orgão de gestão da escola, propõe
a colocação de professores de apoio
educativo. Além disso, deve actuar em articulação
com as autarquias e com a comunidade envolvente, na
perspectiva de descentralização do sistema
educativo e de participação de toda
a comunidade no processo educativo. Deve também
implementar a formação contínua
de docentes, nos domínios do desenvolvimento
curricular, da diferenciação pedagógica,
das respostas a crianças e jovens com necessidades
educativas especiais, da gestão de pequenos
grupos (homogeneos e heterogeneos) e da preparação
de reuniões com pais.
Logo no início do ano lectivo
devem ser organizadas sessões para informação
dos pais, sensibilizando-os para o direito que as
crianças e jovens com necessidades educativas
especiais têm de frequentar o ensino regular.
Deve ser garantida a participação dos
pais em cada etapa, desde a identificação
das dificuldades até às tomadas de decisão
para as intervenções necessárias.
Aliás, na actualidade, um dos maiores problemas
da educação e desenvolvimento das crianças
e dos jovens diz respeito à indisponibilidade
e desresponsabilização de muitos pais.
Muitos compensam a indisponibilidade com presentes
para cujo alcance os filhos não têm que
se esforçar, fazendo com que as crianças
tenham tudo com muita facilidade, tornando-se menos
tolerantes ao esforço que a situação
de aprendizagem escolar requer. Por outro lado, muitos
pais apresentam uma baixa motivação
profissional, constituindo maus modelos de motivação
para os seus filhos relativamente ao trabalho escolar.
O fenómeno de modelação negativa
também ocorre frequentemente pelo stress e
postura agressiva ou, ao contrário, passiva,
devido ao cansaço profissional, que os pais
apresentam. Além disso, a indisponibilidade
dos pais tem originado uma responsabilização
excessiva dos professores que são confrontados
com múltiplas funções, o que
está na base de situações de
mal-estar docente devido à sobrecarga de tarefas
e à "crise de identidade" profissional.
Parece-nos essencial chamar as famílias a colaborar
mais e em sintonia com os professores. Nesse sentido,
é urgente delimitar aquelas que são
as responsabilidades ou funções dos
professores e aquelas que são as responsabilidades
dos pais e outros agentes educativos, chamar os pais
à escola também pela positiva, disponibilizar
os pais do seu local de trabalho para irem à
escola e investir na formação de encarregados
de educação.
O apoio fornecido aos alunos deve
ser sempre assumido preferencialmente pelo professor
do ensino regular (professor generalista), a menos
que o aluno exija técnicas especiais para acesso
ao currículo normal, devendo assim o apoio
ser prestado pelo professor com formação
especializada. Convém também salientar
que, de acordo com as directrizes políticas,
só excepcionalmente os apoios poderão
ser prestados fora da sala de aula.
Esta proposta de os apoios serem fornecidos
fundamentalmente na sala de aula e pelos professores
do ensino regular evidencia a importância do
professor generalista neste processo, pois este deve
ser capaz, não só de identificar eventuais
necessidades de apoio especializado pelos seus alunos,
mas também de saber intervir durante o processo
de ensino-aprendizagem, no sentido de contribuir para
a maximização do desenvolvimento e da
aprendizagem dos seus alunos.
Na perspectiva da importância
do professor generalista para a construção
da escola inclusiva, gostaríamos de salientar
a relevância do papel dos educadores e dos professores
do 1º Ciclo. Estes são aqueles que, de
acordo com diversas investigações, ingressam
nesta actividade profissional com maior motivação,
comparativamente aos professores de outros níveis
de ensino. Têm um papel fundamental na motivação
dos alunos para as actividades escolares, tendo em
conta que as atitudes em relação à
escola e aos professores são adquiridas nesta
fase. Além disso, têm uma maior possibilidade
de influenciar os alunos, contribuindo para a sua
inclusão, porque podem desenvolver uma relação
mais próxima (podem gerir mais facilmente a
concretização dos programas, têm
menos alunos por turma e um contacto diário
e personalizado com estes) e porque os próprios
alunos são mais receptivos à influência
do professor nesta fase do seu desenvolvimento. Os
professores do 1º Ciclo podem ainda ter um papel
fundamental na motivação dos pais para
participarem de forma mais próxima e activa
no percurso escolar dos filhos. Os pais habitualmente
valorizam mais os professores deste nível de
ensino há maior visibilidade das aprendizagens
escolares e há maior facilidade de contacto
directo com o professor, sem a mediação
do Director de Turma, para além de os pais
terem uma maior necessidade de acompanhar o percurso
escolar dos filhos e os próprios filhos terem
uma maior necessidade que os pais acompanhem a sua
educação escolar. Por tudo isto, o professor
do 1º Ciclo, que é o mais generalista
de todos os níveis de ensino, nomeadamente
porque é monodisciplinar, tem um papel imprescindivel
na socialização e integração
dos alunos, inclusivamente daqueles que apresentam
necessidades educativas especiais.
A socialização dos alunos
parece-nos ser a grande vantagem do novo modelo de
escola inclusiva, porque no que diz respeito à
motivação para a aprendizagem pelos
alunos podem ocorrer algumas dificuldades. A heterogeneidade
existente entre os alunos pode ser positiva e factor
de dinâmica na turma, mas também pode
comportar algumas implicações negativas.
Nomeadamente se o professor utiliza um ritmo de ensino
mais lento e apresenta conteúdos mais fáceis,
de forma a que os alunos com menos capacidade compreendam
e acompanhem a matéria, pode fazer com que
os alunos com mais capacidade se desinteressem. Se,
ao contrário, o professor procura cumprir o
programa, utilizando ritmos, exercícios e estratégias
que ultrapassam a capacidade dos alunos mais fracos,
estes podem desinteressar-se ainda mais e não
aprender os conteúdos programáticos.
Neste sentido, o aumento da heterogeneidade e das
diferenças individuais dos alunos na turma
é efectivamente um problema para muitos professores.
O aumento das diferenças individuais
foi uma consequência da massificação
do ensino, encontrando-se actualmente na escola alunos
com capacidade e motivação para aprender,
mas também alunos com dificuldades e desinteressados
pelas aprendizagens escolares. É também
o resultado da sociedade actual que tem permitido
e promovido a amplitude destas diferenças.
No entanto, embora as diferenças entre os alunos
duma mesma turma, nas suas capacidades e interesses,
possam constituir um problema para muitos professores,
há estratégias que se têm revelado
úteis e que têm permitido resolver esta
situação, nomeadamente o trabalho em
grupo, em que os alunos que têm mais conhecimentos
ajudam na aprendizagem dos alunos mais fracos.
Em síntese, parece que podemos
afirmar que, não obstante alguns aspectos deverem
ser corrigidos ou melhorados na nova proposta relativa
aos apoios educativos, é fundamental que os
professores, de qualquer nível de ensino, acreditem
nesta nova modalidade e estejam motivados para a realizar,
para que, no terreno das escolas, as directrizes sejam
concretizadas.
Tal como em relação
a outras medidas que têm procurado dar resposta
ao novo sentido da escola face às alterações
do contexto social em que esta se insere, também
os apoios educativos podem contribuir para a inclusão
e/ou integração de todas as crinças
e jovens na escola.
Dois outros exemplos que, em Portugal,
permitem concretizar a noção de escola
inclusiva são a Área-Escola e a Escola
Integrada. Por um lado, as Escolas Integradas porque,
para além de possibilitarem um melhor aproveitamento
dos recursos materiais e humanos nas escolas, permitem
diminuir a distância e oposição
entre os professores de diferentes níveis de
ensino, o isolamento dos professores, sobretudo do
1º Ciclo, e o impacto nos alunos da passagem
para o 2º Ciclo. Por outro lado, a Área-Escola
porque pretende constituir uma oportunidade para os
alunos revelarem qualidades e saberes que os currículos
tradicionais não permitem evidenciar, sendo
requerido ao professor alguma interdisciplinareidade
e trabalho em equipa. No entanto, convém salientar
que a concretização das actividades
de Área-Escola tem sido confrontada com diversas
dificuldades, o que está na base da falta de
motivação de muitos professores para
a sua realização (Belo, 1999; Jesus
& Xavier, 1996).
Parecem-nos correctos os princípios
subjacentes às noções de "escola
inclusiva", de "educação para
todos", de "igualdade de oportunidades educativas",
mas é necessário que sejam tomadas medidas
que permitam tornar estes princípios exequíveis,
nomeadamente a diminuição do número
de alunos por turma, programas menos extensos e mais
flexíveis, a redução do horário
lectivo dos professores com alunos com necessidades
educativas especiais, melhores condições
físicas das salas de aula e equipamentos adequados
às necessidades dos alunos e das tarefas a
realizar, para além de acções
de formação adequadas às necessidades
dos professores, para estes saberem como intervir
face a algumas das situações com que
têm de se confrontar, de acordo com as novas
directrizes políticas.
Nestas condições parece-nos
que vale a pena acreditar e trabalhar para que os
objectivos subjacentes ao conceito de escola inclusiva
sejam progressivamente alcançados.
2. Práticas pedagógicas
numa escola inclusiva
Muitas das práticas actuais
de educação especial começaram
a desenvolver-se no início dos anos sessenta
e desde então, muitas têm sido as alterações
aos pressupostos teóricos que consubstanciam
esta área. Efectivamente, a forma como a sociedade
tem encarado as pessoas com deficiência tem
vindo a sofrer profundas alterações
ao longo da história.
De uma concepção de
exclusão, em que o deficiente era esquecido
e escondido, seguiu-se um período de despiste
e de segregação, nos anos 50 e 60, a
que corresponde o apogeu do modelo médico-pedagógico
e das técnicas psicométricas e que se
traduziu na preocupação de diagnosticar
e classificar, conduzindo a que a Educação
Especial começasse a ser encarada como um mundo
à parte, provendo as necessidades de uma parte
da população considerada deficiente.
Nos anos 70 inicia-se uma nova fase,
em que a preocupação se centra na identificação
e ajuda e o deficiente passa a ser encarado como um
ser humano que, independentemente das suas condições
e potencialidades tem o mesmo direito de realização
e inserção na comunidade. Neste sentido,
deverá ser a escola a adaptar-se a todas as
crianças, abandonando o seu carácter
selectivo e discriminativo.
Progressivamente procura-se responsabilizar
a escola regular pelos alunos com necessidades educativas
especiais (N.E.E.), através da abertura da
escola a todos os alunos, o reconhecimento do papel
dos pais no processo educativo dos filhos e a consagração
de um regime educativo especial, procurando adaptar
as condições em que se processa o ensino/aprendizagem
no meio o menos restritivo possível.
A necessidade de mudança urgente
e de construção de uma escola inclusiva
"onde todos os alunos devem aprender juntos independentemente
das dificuldades e das diferenças que apresentam"
(Declaração de Salamanca, 1994) cria
expectativas em todos aqueles, profissionais e pais,
que querem romper com todas as formas de exclusão
social .
No contexto português, como
foi anteriormente referido, o Desp. Conj. n.º
105/97 vem consubstanciar esta mudança de paradigma
emergente, desejada por todos, de acordo com os princípios
de uma escola inclusiva, esperando-se que esta consiga
responder ao desafio que lhe é colocado e encontrar
formas de responder eficazmente às necessidades
educativas de uma população cada vez
mais heterogénea e de construir um espaço
que a todos aceite e que a todos trate de forma diferenciada.
De entre as mudanças introduzidas
na organização do atendimento aos alunos
com N.E.E., e que irá determinar uma transformação
radical a nível das práticas pedagógicas
destaca-se a substituição de apoio directo
ao aluno, pela estratégia de apoio ao professor,
à escola e à família. Refira-se,
no entanto a dificuldade que o sistema tem em compatibilizar
uma educação de qualidade com uma educação
para todos.
Efectivamente, uma mudança
desta envergadura, não é um processo
fácil, implica toda uma nova filosofia assente
nos princípios da inclusão e da participação;
filosofia esta que tem necessariamente de ser complementada
com medidas paralelas nos sectores da saúde,
segurança social, da formação
profissional e do emprego. Esta mudança implica
ainda uma atenção às diferenças
individuais e ao contexto de aprendizagem, uma flexibilização
da organização curricular, das estratégias
de ensino, da gestão dos recursos e do currículo
a fim de proporcionar um desenvolvimento maximizado
de todos os alunos, de acordo com as suas necessidades
individuais.
É este o grande desafio que
se coloca à escola de hoje, é certo
que a mudança assusta, que as dúvidas
nos assaltam a cada virar de esquina e que a antevisão
de tantas e tantas dificuldades nos desanima por vezes.
Actualmente, sabe-se que a grande
parte dos problemas de aprendizagem são contextuais,
têm lugar no ambiente da sala de aula, onde
se verifica a influência da estrutura curricular
e das estratégias pedagógicas utilizadas
pelo professor na capacidade de atender eficazmente
os alunos com necessidades educativas especiais (Porter,
1994).
O conceito de escola inclusiva reforça
o direito que todos os alunos têm de frequentar
o mesmo tipo de ensino, na medida em que preconiza
que os objectivos educacionais e o plano de estudos
são os mesmos para todos, independentemente
das diferenças individuais que possam surgir.
À escola inclusiva e ao professor dos Apoios
Educativos pede-se que estejam atentos, no sentido
de poderem "intervir na melhoria de condições
e do ambiente educativo da escola numa perspectiva
de fomento da qualidade e da inovação
educativa".
Para a construção efectiva
de uma escola inclusiva, de entre os autores que têm
procurado desenvolver este campo de acção
e contribuir para esta mudança, destacam-se
duas linhas de orientação:
A constatação de que
os aspectos relacionados com a gestão da escola,
da sala de aula, o clima das relações
e as interacções estabelecidas são
fundamentais;
A importância dada a um currículo
inclusivo que promova práticas pedagógicas
apropriadas a todos os alunos.
De entre as condições que parecem contribuir
de uma forma bastante significativa para a mudança
das escolas é, sem dúvida, o trabalho
em equipa, que se contrapõe ao trabalho quase
exclusivamente individual, que caracteriza o modo
profissional dos docentes (Bairrão, 1999; Porter,
1994). As equipas de resolução de problemas,
uma das estratégias aconselhadas por Gordon
Porter, equipas estas constituídas por docentes
da mesma escola, parecem constituir um modelo de apoio
bastante valioso. Efectivamente, este processo baseado
nas capacidades dos próprios professores encoraja
o trabalho em equipa e ajuda a encontrar soluções
para resolver os problemas educativos da escola.
Neste contexto, o professor dos apoios
educativos não deve ser encarado como um especialista
a quem compete solucionar todas as dificuldades experimentadas
pelo professor do regular, mas sim como um recurso,
cujo papel será, em colaboração,
tentar encontrar soluções operacionais
para os problemas que surjam na sala de aula. Efectivamente,
a escola inclusiva pressupõe um reposicionamento
do papel do professor de apoio, que poderá
ser operacionalizado de diversas formas, de acordo
com as necessidades.
O papel mais importante do professor de apoio educativo
na escola inclusiva é o de consultor ao professor
do regular. Este papel poderá implicar uma
série diversificada de actividades que têm
como objectivo ajudar o professor a responder com
sucesso às necessidades educativas dos seus
alunos. Cooperativamente os professores avaliam as
situações e planificam a forma de intervir
junto dos alunos, outras vezes podem ajudar a desenvolver
estratégias e encontrar materiais para apoiar
o trabalho dos alunos. Outra actividade que pode ser
desenvolvida pelo professor dos apoios educativos
é a ajuda na resolução de problemas
respeitantes a uma série de dificuldades que
podem surgir no ensino aos outros alunos da classe.
Um outro aspecto importante da sua actividade poderá
ser o co-ensino, implicando que, por vezes, o professor
dos apoios educativos possa trabalhar na aula com
o professor do regular. O professor de apoio poderá
ainda servir de modelo numa lição em
particular para o professor do regular ou ainda proporcionar-lhe
informações específicas sobre
a natureza e necessidades educativas especiais que
os alunos apresentam. Noutras situações
ele poderá ainda tomar a seu cargo o ensino
da classe, a fim de que o professor do regular possa
trabalhar directamente com o aluno com necessidades
educativas especiais, ou ensinar pequenos grupos ou
alunos individualmente.
Na sua actividade de apoio o professor
dos apoios educativos deverá trabalhar com
os pais, com os outros profissionais que se encontram
na escola e ainda com a comunidade, para assegurar
que todas as partes intervenientes no processo educativo
possam trabalhar cooperativamente de uma forma eficaz.
Com os pais o apoio pode incluir envolver os pais
no desenvolvimento do programa para a criança,
dar informações específicas sobre
as necessidades educativas especiais da criança
e sobre a melhor forma da família a apoiar,
ajudar os pais a procurar ajuda e a avaliar os serviços
de apoio da comunidade.
O professor dos apoios educativos,
como consultor, deve ainda prestar apoio aos outros
membros do corpo docente da escola, incluindo desde
a direcção da escola ao pessoal não
docente. Nesta área, a sua tarefa deverá
proporcionar sessões de formação
e desenvolvimento profissional, informar sobre os
apoios relacionados com a inclusão e ajudar
a clarificar os papeis e responsabilidades de cada
um numa escola inclusiva.
No entanto, para a construção
de uma escola verdadeiramente inclusiva, não
basta que os docentes adoptem o conceito de inclusão.
É necessário que utilizem uma abordagem
inclusiva do currículo; isto significa a existência
de um currículo comum a todos os alunos, possibilitando-lhes
a oportunidade de se envolverem de forma positiva
nas actividades da classe.
Desta nova abordagem educacional é
fundamental que escola seja capaz de aceitar a responsabilidade
do progresso de todos os alunos, pelo que a adopção
de um programa inclusivo pressupõe, necessariamente,
uma abordagem que substitua o modelo tradicional consubstanciado
na avaliação do aluno - prescrição
- e ensino especializado, para uma abordagem focalizada
na classe e avaliação das condições
do ensino/aprendizagem.
Um currículo inclusivo baseia-se
no princípio de que as boas práticas
são apropriadas a todos os alunos, de forma
a conseguir-se uma aprendizagem significativa para
cada aluno. Desta forma é indispensável
que o docente possua conhecimentos que lhe permitam
ensinar, na mesma classe, alunos com capacidades diferentes
e com níveis diferenciados de conhecimentos
prévios.
Cada vez há uma maior evidência
de que os alunos com necessidades educativas especiais
não necessitam de estratégias pedagógicas
distintas; podem precisar de mais tempo, de mais práticas
ou de abordagens com variações individualizadas,
mas não de estratégias diferentes das
utilizadas com os outros alunos (Porter, op. cit.).
Partindo do princípio que a
principal finalidade do sistema de ensino é
conduzir todos os alunos no sentido de atingirem os
objectivos fundamentais da aprendizagem, esta exigência
só será possível se passarmos
de uma pedagogia do ensino para uma pedagogia da aprendizagem,
onde se procure investigar as condições
propícias à apropriação
por parte do aluno, dos objectivos cruciais de aprendizagem
(Bloom, 1972). Assim, em vez de utilizar um ensino
colectivo, conduzido passo a passo e com sequências
de aprendizagem organizadas previamente, o professor
deverá, por um lado, compreender a forma como
cada aluno constrói e desenvolve a sua aprendizagem
e, por outro lado, proporcionar orientações
individualizadas a partir das dificuldades que o aluno
apresenta.
O ensino com níveis diversificados
(Schullz & Turnbull, 1984) é uma das abordagens
que possibilita ao professor preparar uma aula, com
base em variações que respondem às
necessidades especiais dos alunos. O ensino multi-nível
requer que o professor conheça as necessidades
e os estilos individuais dos alunos, bem assim como
uma variedade de estratégias de ensino. Porter
(op.cit.) refere ainda que o ensino com níveis
diferenciados implica "identificação
dos principais conceitos que têm de ser ensinados
numa lição, determinação
duma variedade de formas através das quais
os alunos possam exprimir a sua compreensão
e desenvolvimento de meios de avaliação
que correspondam aos diferentes níveis de desempenho".
De acordo com esta abordagem o professor
deverá planificar as suas aulas ou unidades
de ensino, utilizando quatro etapas específicas:
Etapa 1 - O professor escolhe os principais
conceitos ou ideias a serem ensinados em cada aula
ou unidade. Estes conceitos devem ser os mesmos para
todos os alunos; devem ser os conceitos chave que
o professor pretende que os alunos entendam.
Etapa 2 - O professor desenvolve uma
variedade de formas /estratégias através
das quais possa apresentar esses conceitos ou informações
à classe. Assim o professor pode decidir a:
· fornecer aos alunos as informações;
· levar os alunos a procurarem
eles mesmos as informações, usando para
tal bibliografia adequada, computador, filmes, etc;
· conduzir os alunos a efectuarem
experiências / situações das quais
possam retirar as conclusões respeitantes aos
conceitos ou informações a serem explorados.
Etapa 3 - O professor proporciona
aos alunos uma oportunidade para reflectir ou praticar
as novas informações ou conceitos aprendidos.
Poderá desta forma arranjar uma diversidade
de situações para que os alunos possam
manipular os conceitos ou materiais de forma a assimilar
as novas aprendizagens.
Etapa 4 - O professor determina qual
o método através do qual as aprendizagens
serão avaliadas e como a evolução
será anotada no processo dos alunos.
O ensino com níveis diferenciados
parte do princípio que todos os alunos podem
aprender, embora alguns alunos possam necessitar de
apoio adicional ou algumas adaptações
curriculares para ter sucesso.
Assim, são permitidas as adaptações
necessárias de forma a respeitar e valorizar
o nível de participação do aluno.
Quer o aluno possa participar totalmente ou quer ele
participe apenas parcialmente na aula, esta necessita
ser planificada, atendendo a que a participação
parcial pode envolver cada aluno num segmento parcial
da actividade, de acordo com as suas capacidades.
Um trabalho de grupo em que cada aluno tem uma diferente
tarefa é um dos exemplos possíveis.
De referir ainda que, se um aluno
para perceber e assimilar determinado conteúdo
ou informação, pode ter um progresso
mais lento que o resto da turma, o professor poderá
seguir duas opções: dar-lhe mais tempo
para completar os mesmos objectivos ou torná-lo
responsável pela compreensão do conteúdo
ou da informação mas não ter
que completar a tarefa requerida para os outros alunos.
A participação parcial
é bastante importante no caso de alunos com
graves problemas de aprendizagem. Estes alunos poderão
ser incapazes de realizar os principais objectivos
estabelecidos para a turma, no entanto eles podem
ter os seus próprios objectivos incluídos
nas actividades da classe, não obstante a sua
participação possa não ser certamente
ao mesmo nível dos outros alunos.
As características das crianças
com N.E.E. conduzem, desta forma, necessariamente
a uma individualização do processo de
ensino, de forma a que o professor possa responder
à heterogeneidade de perfis de aprendizagem.
A individualização do ensino poderá
ser efectuada, não apenas ao nível dos
processos e meios de aprendizagem mas, ainda ao nível
dos conteúdos curriculares, sendo que um aluno
pode evidenciar necessidade que determinados conteúdos
lhe sejam transmitidos de uma forma particular, enquanto
que noutras áreas curriculares poderá
necessitar de adaptações curriculares
ou até de um currículo escolar próprio.
Cabe então à escola,
a partir das características do aluno, bem
assim como das suas limitações, definir
as opções curriculares, de forma a garantir
o seu sucesso educativo e social. As adaptações
curriculares individualizadas referem-se concretamente
a um aluno e, só deverão ser adoptadas,
após esgotados todos os outros recursos, sendo
que estas deverão ser o menos significativas
possíveis; isto é, devem ser as mais
próximas dos objectivos e conteúdos
regulares.
A adaptação curricular
deve partir da identificação do nível
de competência curricular do aluno, determinando
o que ele é capaz de fazer em termos de objectivos,
em relação aos diferentes conteúdos
curriculares do seu nível de escolaridade.
Ainda no que respeita às estratégias-chave
a desenvolver na sala de aula, de acordo com as conclusões
da UNESCO, no âmbito de aplicação
da Declaração Mundial da Escola para
Todos (Conferência de Jontien,1990) com o objectivo
de promover a escola inclusiva, os pedagogos de diversos
países destacam como condições
facilitadoras de aprendizagem na sala de aula:
· aprendizagem activa - oportunidade
de realizar tarefas e de assumir projectos concretos;
ensino que fomente a curiosidade e o gosto pela descoberta;
· negociação
de objectivos - importância do aluno assumir
um papel activo na própria aprendizagem, participar
na realização dos próprios planos
de aprendizagem, baseados no estabelecimento de contratos
e compromissos;
· avaliação contínua
- necessidade dos professores e alunos reflectirem
sobre o seu próprio processo de aprendizagem
e de avaliarem a cada passo o resultado do trabalho
realizado;
· demonstração,
prática e feed-back - utilização
de modelos práticos e de comentários
sobre o trabalho realizado pelos alunos;
· organização
do trabalho em pequenos grupos e a aprendizagem cooperativa;
· colaboração
criança-a-criança de modo a que cada
um possa partilhar com outras os seus pontos fortes
e colaborar, deste modo, no trabalho do professor;
· apoio - importância
da ajuda e da cooperação no processo
de aprendizagem.
No que respeita ao funcionamento da
escola, Ainscow (1994) propõe que se adopte
uma tipologia de "seis condições"
que parecem ser factores de mudança:
· liderança eficaz,
não só do director mas difundida através
da escola;
· envolvimento da equipa de
profissionais, alunos e comunidade nas orientações
e decisões da escola;
· estratégias de coordenação;
· focalização
da atenção nos benefícios potenciais
da investigação e da reflexão;
· uma política de valorização
profissional de toda a equipa.
Estudos efectuados no âmbito
da auto-regulação das aprendizagens
(Barroso, Salema, 1999) referem algumas implicações
educacionais, no sentido de proporcionar um maior
sucesso aos alunos, nomeadamente:
· Criar ambientes adequados
à aprendizagem, em que os alunos se respeitem
e sintam bem;
· Explicitar os objectivos
da aula ou da sessão, objectivos estes que
não devem ser nem demasiados facilitados, nem
inacessíveis;
· Introduzir as informações/conteúdos
com entusiasmo, gradualmente e de acordo com o seu
nível prévio de conhecimentos;
· Despertar-lhes o interesse
pelas aprendizagens, sublinhando o valor da informação
veiculada e relacionando-a com a experiência
de vida dos alunos;
· Apresentar os materiais de
formas variadas e criativas;
· Recorrer a materiais e implementar
actividades que estejam de acordo com os interesses
dos alunos, incluindo simulações e apelando
à fantasia e/ou criatividade;
· Despertar o interesse, a
curiosidade e a atenção introduzindo
características lúdicas;
· Proporcionar oportunidades
para os alunos decidirem sobre a forma de realizarem
diferentes actividades;
· Ajudar os alunos a estabelecer
objectivos próprios e realistas e a auto-avaliar-se.
As escolas que queiram responder a
este novo desafio contra a exclusão e a compensação
terão de implementar novos modelos pedagógicos
de cooperação e diferenciação,
entendendo-se por diferenciação o processo
através do qual os professores levem os alunos
a progredir no currículo, através de
uma selecção adequada de métodos
de ensino e de estratégias de aprendizagem
e de estudo.
3. Considerações finais
A construção de uma
Escola Inclusiva veio recolocar na educação
geral muitas das responsabilidades que até
então se mantinham atribuídas à
Educação Especial. Acreditamos que a
Escola Inclusiva não é uma utopia, mas
é necessário que os pais, os profissionais,
os governantes e a população em geral
acreditem que a escola inclusiva é qualquer
coisa por que vale a pena lutar.
Estamos conscientes de que o desafio
colocado aos professores é grande e que parte
significativa continua a não estar preparada
para desenvolver estratégias de ensino diversificado.
A formação de professores neste domínio
de intervenção permanece como uma necessidade
urgente, sendo necessário ajudá-los
a vencerem as suas resistências à mudança
de modo a ultrapassarem as limitações
e os perigos das concepções baseadas
na deficiência.
A construção de uma
Escola Inclusiva exige um esforço e uma colaboração
estreita de todos, como referiu o Prof. Mel Ainscow
no Congresso de Birmingham (1995) sobre Educação
para Todos:
Para se atingir o objectivo da equidade
nos resultados da educação é
necessária uma mudança fundamental nas
nossas definições de equidade educativa.
É fundamental reconsiderarmos a forma como
olhamos para as diferenças entre alunos, o
modo como consideramos os objectivos da educação
básica e secundária e o processo que
adoptamos na organização das escolas.
Se o sucesso escolar é reconhecido como possível
para todos através de processos eficazes de
ensino, a maior tarefa que se apresenta às
escolas é criar ambientes de aprendizagem que
fomentem a equidade em relação aos resultados
de todos os alunos. O ponto de partida deveria consistir
na identificação das práticas
que negam um acesso igual ao currículo e reconhecer
as práticas que facilitam esse acesso.
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