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Prevenção
às deficiências: Alcances e limitações
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Marilu
Mourao Pereira
Membro do CONSELHO FEDERAL DE FISIOTERAPIA
E TERAPIA OCUPACIONAL
E-mail: marilumouraopereira@via-rs.net
Para
falar em prevenção é necessário
considerar a difícil crise sócio-econômica
que o país se encontra, onde as áreas
da saúde e educação são
historicamente as mais prejudicadas. A saúde
passa por um "descaso" que vem desde a crise
de prestígio dos profissionais, o despreparo
técnico, o desinteresse e desmotivação
profissional até fraudes e corrupções,
além do sucateamento dos serviços e abandono
administrativo. Mas também temos que considerar
que é um momento em que a sociedade exige dos
profissionais e instituições, maior eficácia
e resolutividade terapêutica em suas ações
de saúde.
Quando ouvimos falar "saúde um direito de
todos", logo pensamos em saúde de qualidade,
não só como atuação específica,
mas envolvendo várias dimensões, políticas,
econômicas, culturais, sociais, habitacionais,
educacionais, alimentares e, portanto é resultado
de diferentes setores sociais, levando ao coletivo a
melhoria de qualidade de vida. Assim a responsabilidade
da manutenção da saúde é
interdisciplinar e intersetorial. Mas a realidade é
diferente, onde muitas vezes os profissionais tentam
buscar alternativas para resolver as dificuldades e
são criticados duramente por outros, frente a
qualquer tentativa de solução, com discurso
de que "não vai dar certo", "que
já tentaram de tudo", desmotivando quem
ainda acredita em alguma possibilidade de melhoria,
enquanto outros lamentam frentes as possibilidades e
a falta de perspectiva, se declarando impotentes diante
de tal situação.
Mais preocupante fica quando nos damos conta de que
as conseqüências do atendimento precário
e inadequado a gestantes e recém nascidos são
causas das deficiências ocorridas no dia-a-dia.
Neste contexto, vê-se a importância de priorizar
ações de prevenções, pois,
segundo a ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE,
70% das deficiências poderiam ser evitadas se
houvesse maior investimento nessa área. E quando
se fala em investimento, não significa custo
alto, pois sabe-se que algumas ações de
prevenção tem custo irrisório comparados
com a reabilitação, que tem necessidade
de tecnologias mais avançadas além de
técnicos mais especializados.
Segundo
as normas e recomendações internacionais
sobre deficiência, publicados pela CORDE (2001),
por prevenção se entende adoção
de medidas com vista a impedir que se produza uma deterioração
física, intelectual, psiquiátrica ou sensorial(prevenção
primária) ou a impedir que essa deterioração
cause uma deficiência ou limitação
funcional permanente(prevenção secundária).
A prevenção pode incluir muitos e diferentes
tipos de ação como cuidados primários
da saúde, puericultura, pré-natal e pós-natal,
educação em matéria de nutrição,
campanhas de vacinação contra doenças
transmissíveis, medidas contra doenças
endêmicas, normas e programas de seguranças
para evitar acidentes, inclusive a adaptação
dos locais de trabalhos para evitar deficiências
e doenças profissionais e a prevenção
da deficiências resultante da combinação
do meio ambiente ou causada por conflitos armados. Dados
da CORDE revelam que 40% dos casos graves de deficiência
mental e 60% das deficiências visuais, podem ser
evitados por medidas preventivas. Falar em prevenção
de deficiências significa enfrentar muitas barreiras,
certamente pelo preconceito que a sociedade tem com
a pessoa que apresenta alguma deficiência. Mas
as estatísticas mostram a importância da
abordagem preventiva. Dados da Organização
das Nações Unidas revelam que existem
aproximadamente quinhentos milhões de pessoas
com deficiência no mundo. No Brasil o censo de
2000 realizado pelo IBGE, 14,5% da população
possui algum tipo de deficiência, isto é
24,5 milhões de pessoas.
Distribuição
percentual dos casos de deficiência, por Grande Regiões,
segundo o tipo de deficiência - 2000
| Tipo
de Deficiência |
Tipo
de deficiência Distribuição percentual dos
casos de deficiência (%) |
| Brasil |
Norte |
Nordeste |
Sudeste |
Sul |
Centro-Oeste |
| Total |
100,0 |
100,0 |
100,0 |
100,0 |
100,0 |
100,0 |
| Deficiência
Mental Permanente |
8,3 |
6,6 |
7,4 |
9,4 |
8,0 |
8,4 |
| Deficiência
Física |
4,1 |
3,6 |
3,5 |
4,6 |
4,5 |
4,4 |
| Deficiência
Motora |
22,9 |
19,8 |
22,6 |
23,9 |
23,7 |
20,2 |
| Deficiência
Visual |
48,1 |
55,2 |
49,9 |
45,6 |
45,0 |
50,7 |
| Deficiência
Auditiva |
16,7 |
14,8 |
16,7 |
16,4 |
18,7 |
16,7 |
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000
Nota: As pessoas com mais de um tipo de deficiência
foram incluídas em cada uma das categorias correspondentes. |
A OMS aponta que os paises em desenvolvimento têm
um número dez vezes maior de crianças
e adolescentes com deficiências do que aqueles
países desenvolvidos pois estes investem em programa
de prevenção. Números do estudo
da Fundação Getúlio Vargas traduzem
a relação entre a deficiência e
o nível sócio-econômico do indivíduo.
Também revela que nas regiões urbanizadas
o índice é de 14,33% da população
possui alguma deficiência e nas regiões
não urbanizadas o índice aumenta para
17,4%, o que pode ser justificado pela menor disponibilidade
de serviços de saúde.
Na 4ª conferência Estadual de saúde
realizada em outubro de 2003, o tema central foi "Saúde:
direito a todos e dever do Estado. A saúde que
temos e o SUS que queremos". A idéia defendida
no evento, é que, como atualmente 70% dos recursos
são aplicados na doença, que seja esse
percentual designado para ações preventivas.
Temos causas internas e externas das deficiências.
Nos internos incluem doenças congênitas,
fatores de riscos na fase pré, peri e pós-natal.
As externas são fatores determinantes como acidentes
de trânsitos, trabalho e violência urbana.
Para JOSÉ AMÉRICO SILVA FONTES (1994),
quando o assunto é prevenção às
deficiências, vale lembrar que tudo não
começa sempre na gravidez. Há inúmeros
fatores e situações pré-existentes
ao processo gravídico capazes de, por antecipação,
colocar em risco a vida e o porvir dos bebês ainda
não gerados.
Pesquisa realizada em 1983 por OSWALDO FROTA PESSOA,
professor de biociência da universidade de São
Paulo, já falava da importância do aconselhamento
genético e manejo adequado no pré e peri-natal,
poderiam evitar 40 a 50% dos casos de deficiência
mental e paralisia cerebral.
DAFNE HOROVITZ, geneticista e doutora em medicina social
da universidade do rio de janeiro aponta as ações
de prevenção de deficiências congênitas,
como alvos de políticas públicas: aconselhamento
genético, orientações quanto aos
riscos de bebês com anomalias cromossômicas
em gestantes com mais de 35 anos, vacinação
em mulher em idade fértil contra rubéola
e suplementação vitamínica e ácido
fólico, além dos cuidados habituais no
pré e peri-natal.
A AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA
publicou a resolução n° 344 em 13/12/2002
obrigando a suplementação nas farinhas
de trigo e milho do ácido fólico. O início
desta ação foi previsto para junho de
2004. Esse ácido reduz em 30% o risco do defeito
do tubo neural. Segundo SHEILA MIRANDA, coordenadora
geral da saúde, da pessoa com deficiência
do MINISTÉRIO DA SAÚDE, com exceção
das congênitas, todas as deficiências podem
ser prevenidas na 1ª infância, com a triagem
neo-natal que envolve o teste do pezinho e da orelhinha.
Embora os dois exames façam parte do SUS, o primeiro
é obrigatório, o segundo não, mas
tramita um projeto na câmara dos deputados para
a obrigatoriedade deste exame, pois, de mil recém
nascidos dois a seis apresentam deficiência auditiva.
No Rio Grande do Sul na Secretaria Estadual de Saúde
temos a política Estadual de triagem neonatal
que visa fazer o diagnóstico precoce da fenilcetonúria
(um em cada 10 mil), hipotireoidismo congênita
(2,5 em cada 10 mil), doença falciforme através
do teste do pezinho. Esses exames vem sendo realizados
desde 1999 em razão do decreto Estadual nº
39860 e a partir de 2001 o Estado se engajou no programa
Nacional de triagem Neonatal (PNTN). A cobertura atual
é de 86% de todos recém nascidos vivos
no Rio Grande do Sul. Outra grande causa de deficiência
é a desnutrição. A ORGANIZAÇÃO
MUNDIAL DE SAÚDE estima que 250 mil crianças
tornam-se cegas devido ao déficit crônico
de vitamina. Uma das metas mundiais estabelecidas na
sessão especial da criança, realizado
em maio de 2002, na assembléia geral da ONU,
é eliminar até 2010 as deficiências
associadas à vitamina A. Outra meta é
conseguir eliminar deficiências causadas pela
carência de iodo. Segundo a UNICEF, ela é
a causa primária de dificuldade do aprendizado
e danos cerebrais. No Brasil desde 1994, uma lei obriga
as indústrias beneficiadoras do sal a adicionar
o iodeto de potássio antes do produto ser exposto
para consumo.
Programas da secretaria da saúde como: primeira
infância melhor, programa viva a criança,
os exames de acuidade visual e auditiva nas escolas
públicas estaduais ( lei 10.538) estão
voltadas para a prevenção nos primeiros
anos de vida.
A correria, a competitividade, o trânsito pesado,
o desemprego, a vida sedentária, a má
alimentação, a insegurança, a insatisfação,
o excesso de trabalho provocam stress que leva a um
estilo de vida conturbado e que são fatores de
risco para os acidentes de trânsito e trabalho,
e violência urbana como conseqüências
podem levar às deficiências.
De 1980 a 2002, 1 milhão de pessoas morreram
no Brasil em acidente de trânsito. Em 2001 pessoas
morreram nas vias, ruas e estradas do país em
conseqüência de acidentes de trânsito
e em 2002 provocaram a morte de 32.730 pessoas, de acordo
com dados da secretaria de vigilância em saúde
do Ministério da saúde. O dado representa
25,7% de todas as mortes por causas externas registradas
naquele ano. No Brasil para cada morte que ocorre no
trânsito, três outras pessoas desenvolvem
deficiências. Segundo o médico Eduardo
Biavati, coordenador de pesquisa em educação
e prevenção do hospital SARA KUBSTCHEK,
em Brasília, o resultado do mapeamento realizado
na rede, constatou que mais de 300 mil pessoas sobrevivem
aos acidentes e destes 100 mil adquirem alguma deficiência.
De acordo com da OMS, a violência no trânsito
mata diariamente 1,2 milhões de pessoas em todo
o mundo. Desse contingente 50% tem entre 15 e 44 anos.
O dia mundial da saúde em 7 de abril de 2004
teve como tema eleito pela OMS “segurança no
trânsito”. Dados da organização
Mundial de Saúde no ano de 2000, 160 milhões
de pessoas foram consideradas diabéticas e estima-se
que em 2010 se chegará em torno de 230 milhões
de pessoas. O diabetes é um dos mais graves problemas
de saúde, sendo a 3ª maior causa de morte
no mundo. No Brasil a diabetes está entre as
10 principais causas de mortalidade e a comete 7,6 %
da população do país (Associação
Nacional de Assistência ao Diabético) e
mundialmente a diabetes é considerada a 1ª
causa de cegueira e amputações não
traumáticas de membros inferiores.
O acidente de trabalho é o principal agravo em
termos de saúde ocupacional. No Brasil registram-se
números crescente de óbitos por acidente
de trabalho nos últimos 20 anos.
Estatísticas apontam que entre 1996 a 2000, 83.581
pessoas adquiriram capacidades permanentes em decorrência
de acidentes de trabalho. Pesquisa da DATAPREV, realizada
em 2000, registrou 344 mil casos de acidentes de trabalho.
Números registrados pelo MINISTÉRIO DO
TRABALHO E EMPREGO e pelo MINISTÉRIO DA PREVIDÊNCIA
SOCIAL em 2002, 387.905 acidentes laborais, sendo 320.398
por falta de segurança e negligência no
trabalho. Destes, 15.029 causaram incapacidades permanentes.
A segurança do trabalho é precária
principalmente nas atividades informais onde muitas
vezes são expostos a graves riscos.
No Rio Grande do Sul houve a implantação
da rede informatizada de observatório de acidentes
e violências em hospitais do Estado que organiza
o sistema de vigilância e diagnóstico da
situação e necessidades regionais.
Dados revelados em pesquisas recentes divulgadas pelo
Ministério da Saúde indicam uma redução
da violência urbana e doméstica nas comunidades
onde a saúde mental faz parte da atenção
básica desenvolvida por equipes de agentes comunitários
e programa de saúde da família.
Não existem estatísticas das seqüelas
deixadas por acidentes de mergulho em piscinas, rios,
cachoeiras, lagos, que tem como conseqüências
fratura na coluna. Portanto as causas de deficiências
são os mais variados possíveis, bem como
as estratégias usadas para prevenção.
Só é possível reduzir os elevados
índices de deficiência investindo em política
de prevenção. Observam-se os grandes avanços
nas áreas de reabilitação e educação
especial em prejuízo da área de prevenção.
A deficiência está relacionada diretamente
com a forma que a sociedade e o Estado tratam as políticas
de prevenção.
O fato de não se priorizar exames importantes
no pré e pós-natal, é preocupante
e mostra a pouca valorização de políticas
de prevenção.
Para isso as universidades têm um papel muito
importante na formação de profissionais
generalistas, que possam trabalhar com as comunidades
sem tanta sofisticação tecnológica,
onde possam buscar alternativas viáveis para
essa realidade. Por outro lado, o processo de especialização
contribui para melhoria da qualidade da assistência
a saúde, à medida que o conhecimento se
aprofunda. Desta forma estabelece-se um dilema entre
a formação e a prática.
Hoje muitas universidades estão voltadas para
essa visão de saúde coletiva, pois além
de formar o profissional especialista para o atendimento
individual, vem também priorizando as ações
preventivas.
Porém temos muita a fazer nesta área,
pois a maioria da população não
tem acesso a planos de saúde, serviços
e exames especializados e permanecem sem resolverem
seus problemas de saúde. Então, precisamos
de diferentes profissionais que integrem as equipes
de saúde com adoção de atitudes
interdisciplinares para minimizar inúmeras dificuldades
encontradas, além de atuações intersetoriais,
pois só assim teremos gestores sensibilizados
e conscientes da importância da prevenção.
Por esta razão considero a ação
Educativa uma das estratégias mais simples, viável
e facilmente aplicável a nossa realidade, que
beneficia a coletividade, pois ela pode ser feita através
de sensibilização, capacitação,
informação e orientação
ou através de campanhas, de forma a conscientizar
sobre as necessidades dos cuidados prioritários
com a própria saúde e a do coletivo para
população em geral. As situações
de risco decorrem muitas vezes da falta de informação.
A FADERS vem ao longo dos anos desenvolvendo de forma
sistemática, ações de prevenção
secundária e de forma assistemática as
ações de prevenção primária.
Estas últimas com muitas dificuldades, o que
levou em vários momentos a necessidade de reformulações
técnicas ou mesmo o fim de algumas propostas.
Todas as ações desenvolvidas tiveram a
participação das comunidades, com vistas
à detecção das necessidades e elaboração,
em conjunto, do planejamento das ações
priorizadas.
Para isso foram firmado parcerias com várias
entidades governamentais ou não tais como: escolas,
hospitais, creches, empresas, fundações,
postos de saúde, conselhos tutelares e outros.
O trabalho foi desenvolvido com grupos específico,
como gestantes, crianças, adolescentes, mulheres,
trabalhadores além de capacitar profissionais
das áreas de educação, saúde,
trabalho e assistência social para as questões
da prevenção, como atendente de creches,
professores da rede estadual, agentes de saúde,
técnicos dos hospitais, coordenadores de CIPA,
conselheiros tutelares e outros. Atualmente temos o
programa de prevenção, que tem por objetivo
reduzir o índice de deficiência através
de campanha sistemática para divulgação
de informações da referida área.
BIBLIOGRAFIA
Fontes,
José Américo- Lesão cerebral causas
e prevenções – CORDE – Brasília,
1994
Normas e recomendações internacionais
sobre deficientes, 2ª edição – Brasília
2001 Normas técnicas e operacionais – Programa
de controle do acidente tipo ou típico – SES,
1997 Campos, Gastro Wagner de Souza Saúde Pública
e Saúde Coletiva – Campo e Núcleo de saberes
e práticas SES – Política de Triagem Neonatal
e atenção em Saúde Mental. Diversidade
– Mídia e deficiência – publicação,
agência nacional dos direito da infância
e Fundação do Banco do Brasil. |
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