Sônia Maria do Carmo
Sônia Maria do Carmo é pedagoga com habilitação
em orientação educacional formada pela
PUC-SP. É pós-graduada em Psicopedagogia
pela Universidade São Judas Tadeu e mestre em
Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade
Mackenzie. Além do CIFE (http://www.cife.org.br/),
onde é responsável pela área de
psicopedagogia, é professora do programa de pós-graduação
da Universidade Mackenzie e supervisora psicopedagógica
da escola Núcleo Aprendizagem e Desenvolvimento.
Os dados históricos a respeito da educação
especial estão disponíveis apenas para
os especialistas e estudiosos voltados para essa área.
O que os profissionais constatam é que existe
pouco material escrito a esse respeito. A comunidade,
em geral, desconhece esses dados e, dessa forma, fica
mais difícil para as famílias tomarem
decisões conscientes, considerando seus direitos
a respeito do processo de escolarização
de seus filhos deficientes.
Conhecer a história da educação
especial não se presta apenas para acumularmos
conhecimentos, mas também para refletirmos e
questionarmos, por exemplo, por que apesar de se ter,
nas letras das leis, uma política de inclusão,
a pessoa deficiente continua segregada. Além
disso, um tema bastante discutido atualmente, será
que a inclusão do aluno deficiente na escola
regular lhe garantirá a integração?
Nossa
história começa na Europa, por volta
do ano de 1500, quando se iniciaram os primeiros movimentos
para ensinar a pessoa deficiente. Antes disso, os
deficientes ficavam nos asilos para que pudessem ser
protegidos, pois não se acreditava que pudessem
se desenvolver, em função da sua "anormalidade".
Naquela
época, não foram criadas escolas para
as pessoas deficientes. O que começou a ser
feito foi que alguns educadores interessados se tornaram
preceptores de algumas crianças deficientes,
ou seja, eles eram os professores particulares delas.
As crianças que receberam esse tipo de educação
eram filhos de pessoas que tinham uma situação
econômica boa.
Esse
trabalho começou apenas com as crianças
surdas. Apenas no início de 1700 as pessoas
cegas também começaram a receber instrução.
Já as crianças com problemas mentais
continuaram sendo internadas junto com as crianças
que não tinham condições econômicas
para terem seus professores particulares.
Muito
tempo se passou até que começaram a
surgir as primeiras instituições especializadas.
Foi na França, no ano de 1760, que foi criado
o Instituto Nacional de Surdos-Mudos e, em 1784, foi
criado o Instituto dos Jovens Cegos. Com a criação
desses institutos, a educação dos surdos
e dos cegos começou a progredir, pois pessoas
interessadas começaram a estudar e se dedicar.
No entanto, todo o processo foi lento, porque faltava
apoio da sociedade.
Essas
escolas ensinavam os surdos e os cegos a fazerem trabalhos
manuais e a se comunicarem por gestos, no caso dos
surdos, e serviram de modelo para a criação
de muitas outras escolas em outros países.
O sustento dos surdos e cegos era adquirido através
da venda dos trabalhos manuais realizados dentro das
instituições.
O
aprendizado da leitura, da escrita, dos cálculos
e das artes demorou muito para ser adotado pelos institutos.
Um bom exemplo que caracteriza essa situação
é a história da criação
do sistema Braille, usado até hoje pelos cegos
para poderem ler e escrever. Louis Braille, que era
cego, conseguiu, aos seus 15 anos, o sistema de escrita
e leitura baseado em pontos. Isso se deu no ano de
1824, mas seu método só foi reconhecido
e oficializado em 1854.
As
pessoas com deficiência física só
começaram a receber educação
em 1832, quando foi criado o primeiro instituto na
Alemanha. Porém foi no ano de 1848, nos Estados
Unidos, que o atendimento da pessoa com deficiência
mental teve seu início oficial: eles passaram
a receber treinamento para aprenderem comportamentos
sociais básicos em institutos residenciais
e, em 1896, começaram a receber atendimento
fora dessas residências.
A
partir desse período, houve um crescimento
das instituições especializadas para
o atendimento das pessoas deficientes, bem como houve
a expansão para o atendimento de outros tipos
de deficiências e outros distúrbios,
especialmente nos Estados Unidos e no Canadá.
Foi
somente a partir de 1900 que começaram a ser
criadas as primeiras classes especiais, dentro das
escolas regulares, em que as crianças podiam
ser atendidas em caráter educacional. O crescimento
dos serviços educacionais muito dependeu de
movimentos organizados pelos pais dos deficientes,
que desejavam lutar pelos direitos de seus filhos,
já que até então não tinham
o direito de opinar. Os movimentos de pais começaram
a ganhar força por volta de 1950.
No Brasil
Assim
como na Europa, as primeiras instituições
brasileiras se voltaram para o atendimento das pessoas
surdas e cegas. O primeiro instituto para cegos foi
fundado no ano de 1854 e o primeiro instituto para
surdos, em 1857, ambos no Rio de Janeiro, por meio
de decreto imperial.
A
partir desta data, foram criados no Brasil alguns
institutos para o atendimento de pessoas deficientes,
reproduzindo os modelos europeus. No início,
esses institutos ofereciam abrigo e proteção
no sistema de internato.
De
1905 a 1950, muitas das instituições
que foram criadas para o atendimento das pessoas deficientes
eram particulares, com acentuado caráter assistencialista.
As iniciativas oficiais também aconteceram
neste período, porém tanto as instituições
particulares quanto as oficiais não foram suficientes
para atender o número de pessoas deficientes
existentes.
A
educação especial no Brasil foi se ampliando
lentamente e foram criados mais institutos particulares.
Os serviços públicos eram prestados
através das escolas regulares, que ofereciam
classes especiais para o atendimento dos deficientes.
Em
1957, a educação do deficiente foi assumida
em nível nacional, pelo governo federal. No
ano de 1961, já estava vigorando a primeira
Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional. Nessa lei foram escritos dois artigos (88
e 89) referentes à educação dos
excepcionais, garantindo, desta forma, o direito à
educação das pessoas deficientes. Pelo
menos na letra da lei, dentro do sistema geral de
ensino, objetivando a integração das
pessoas deficientes na comunidade.
Outro
ponto importante desta lei é que, no artigo
89, o governo se compromete em ajudar as organizações
não-governamentais a prestarem serviços
educacionais às pessoas deficientes. A Constituição
do Brasil de 1967 também escreveu artigos assegurando
aos deficientes o direito de receber educação
para a integração na comunidade.
A
lei de educação de 11 de agosto de 1971,
para os ensinos de 1º e 2º graus, faz referência
à educação especial em apenas
um artigo (artigo 9), deixando claro que os conselhos
estaduais de educação garantiriam aos
deficientes o recebimento de tratamento especial nas
escolas.
Nos
anos 1960 e 1970, o governo acabou por transferir
sua responsabilidade, no que se refere à educação
dos deficientes para as ONGs, visto que foi crescente
o número de instituições filantrópicas
criadas, embora tenha sido no ano de 1973 que se deu
a criação do Centro Nacional de Educação
Especial (Cenesp), ligado ao Ministério de
Educação e Cultura.
Constam
na Constituição Brasileira de 1988,
vários capítulos, artigos e incisos
sobre educação, habilitação
e reabilitação da pessoa deficiente,
além da sua integração à
vida comunitária.
Foi
somente no ano de 1996 que foi organizada a nova Lei
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,
de modo que a nação pudesse ter uma
lei que fosse condizente com a Constituição
Brasileira. A nova LDB traz algumas inovações,
não só para a educação
em geral, como também para a educação
especial. Para ela, foi dedicado um capítulo,
com mensagem de inclusão escolar para alunos
com necessidades educacionais especiais, além
da ampliação de oportunidades, como,
por exemplo, a legalização da educação
infantil, incluindo a criança deficiente nessa
etapa escolar.
A que isso nos leva?
Agora
que o leitor conhece o processo evolutivo da educação
especial, podemos propor algumas reflexões
e questionamentos quanto aos dias de hoje:
-
por que as ações voltadas para a educação
especial foram e continuam sendo tão lentas?
-
por que os serviços educacionais, de habilitação
e reabilitação clínica continuam
sendo criados, em maior número, pelas ações
privadas e não governamentais?
-
por que, apesar de termos, na letra da lei, uma política
de inclusão, a pessoa deficiente continua segregada?
-
se a educação é um direito de
todos, por que faltam escolas para as pessoas deficientes?
-
será a inclusão do aluno deficiente
na escola regular que irá garantir a não
segregação da pessoa deficiente?
Essas
são algumas das questões que podemos
fazer, além de muitas outras, para que possamos,
seja na posição de profissionais da
área ou de cidadãos, mudar o curso dessa
história.
O
CIFE - Centro Clínico de Integração
Família Escola, preocupado em oferecer oportunidades
para que as pessoas deficientes possam desenvolver e
crescer nas capacidades inerentes a todo ser humano,
convida todos os cidadãos interessados a participar
conosco na construção de uma nova história
que não fique apenas na letra da lei, mas sim
em ações concretas.