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Alterações
de linguagem em pré-escolares como indicativo
de problemas de aprendizagem |
Karina Tamarozzi de Oliveira
Fonoaudióloga, Especialista em Fonoaudiologia em
Neurologia Infantil - Hospital das Clínicas - Faculdade
de Ciências Médicas (FCM) - UNICAMP
Mestre e Doutoranda em Ciências Biomédicas
- área de concentração em Neurologia
- FCM - UNICAMP
Telefones: 14-32385166 - 81114073
Email: katamarozzi@hotmail.com
As
desordens de linguagem apresentadas por pré-escolares
podem interferir em diversos aspectos da aprendizagem
escolar. Consideramos aqui os transtornos de aprendizagem
como o distúrbio específico de leitura
e distúrbio de aprendizagem como decorrentes
de alterações em componentes da linguagem
oral durante a fase pré-escolar.
Alguns aspectos devem ser considerados para esta relação
entre linguagem oral e escrita, a citar, o entrelaçamento
de vias neurológicas, através dos correlatos
anatômicos e neurofisiológicos e a ação
comunicativa composta por aspectos da linguagem como
forma, conteúdo e uso.
Aplleton, Bagnall, McRae e Stevens (1996), relatam a
integração de vias para a compreensão
do processamento da neuropsicologia escolar, relacionando
a palavra falada e a palavra escrita. Segundo os autores,
este entrelaçamento explica achados clínicos
de que a avaliação psicolingüística
da linguagem e a subseqüente terapia em diferentes
modalidades mostram resultados positivos, porém
não é negado o fato de que posteriores
dificuldades sobrepostas podem se manifestar em anos
escolares.
Referem que a entrada auditiva lexical reconhece a palavra
falada e a entrada visual lexical reconhece a palavra
escrita, a saída fonológica lexical especifica
a forma articulatória da palavra e a saída
ortográfica lexical sua grafia. Há ainda
o nível "sub-palavra" que pertence
ao processamento de não palavras (e palavras,
mas sem processo sublexical)
Ao ingressar na escola, a criança possui o domínio
do sistema lingüístico em sua modalidade
oral e, portanto, encontra-se com suas habilidades lingüístico-cognitivas
adequadas para a aprendizagem de leitura e escrita.
No entanto, apesar de a criança ter domínio
destas habilidades na oralidade, a mesma não
tem noção de que aspectos fonológicos
relacionados à linguagem oral são necessários
para ler e escrever.
Em período pré-escolar a produção
oral é mediada pelo modelo de Bloom e Haley (1988)
que considera as três dimensões da linguagem:
forma, conteúdo e uso. Sendo que, a forma inclui
a fonologia e a morfossintaxe; o conteúdo inclui
o léxico e a semântica das palavras e locuções;
e o uso inclui as habilidades pragmáticas como
as regras conversacionais e as funções
da comunicação. Durante o período
escolar, o desenvolvimento da leitura e da escrita ocorre
em diferentes subsistemas cognitivos, denominados módulos
que são acionados para o reconhecimento da palavra.
Entre os módulos cognitivos envolvidos no processamento
de uma palavra escrita, encontra-se o sistema de análise
visual, o léxico de "input" visual,
o sistema semântico e o léxico de produção
de fala (Fodor, 1983).
Em pré-escolares, as primeiras evidências
de uma alteração na linguagem podem se
manifestar com dificuldades nos conteúdos pedagógicos
e na compreensão da linguagem do professor e/ou
colegas da mesma faixa etária. Conseqüentemente,
há menor participação em atividades
acadêmicas como contar histórias, teatros
e músicas, revelando até mesmo queixas
na aprendizagem da relação de fonemas
com as letras do alfabeto. Estes tipos de problemas
colocam as crianças em risco para o fracasso
acadêmico e social posterior.
No decorrer dos anos escolares, as crianças cujas
habilidades orais (fonologia, semântica, sintática,
discurso-narrativo e pragmática) foram escassamente
desenvolvidas em interações sociais são
sobrecarregadas em ambiente acadêmico, tornando
clara a importância da linguagem oral para tantos
aspectos da aprendizagem da leitura e escrita.
Assim, as diferentes habilidades lingüísticas
irão revelando-se agora em ambiente de aprendizagem
escolar. Yavas, Hernandorena, Lamprecht (1992) relataram
que a maioria das crianças com significativas
desordens de comunicação tem pelo menos
alguma dificuldade no nível fonológico
da linguagem, ou seja, no conhecimento dos segmentos
fonéticos e das regras fonológicas ou
na maneira como utilizam esse conhecimento. Essa dificuldade
prejudica de maneira marcante a inteligibilidade da
fala, chegando, em muitos casos, a ser impossível
a compreensão da linguagem. Os autores definiram
que um sistema com desordem fonológica é
aquele cuja ordem difere da considerada normal.
Desta forma, habilidades fonológicas também
são necessárias para leitura e escrita,
na medida em que a consciência fonológica
será um aspecto a ser integrado no reconhecimento
de palavras.
A criança ao aprender a ler, precisa começar
a ter atenção de que a linguagem oral
é composta de palavras e sentenças separadas.
É necessário que ela descubra que as palavras
e sentenças escritas correspondem a unidades
de fala. Outro fator é que a criança precisa
tomar consciência dos fonemas, fato este que,
anteriormente ao momento de alfabetização,
não foi necessário. O fonema é
a menor unidade sonora que pode afetar o significado
de uma palavra. Desta forma, a consciência dos
fonemas é importante para a aprendizagem da leitura
em um sistema de escrita alfabético como o do
português, porque as letras do alfabeto representam
normalmente os fonemas (Ferreiro e Teberosky, 1985).
A tomada da consciência da palavra enquanto forma
lingüística é algo que se desenvolve
gradualmente, pois para a criança, entender que
no sistema de escrita alfabética as letras são
desenhos que representam partes da palavra, é
uma conquista que pressupõe uma evolução
no seu pensamento (Rego, 1987).
A criança com problemas de aprendizagem em decorrência
de alterações de linguagem apresenta características
que comprometem o seu desempenho em situação
de sala de aula.
Dentre os problemas de aprendizagem relacionados a alterações
de linguagem encontramos o distúrbio específico
de leitura e o distúrbio de aprendizagem, que
apresentam respectivamente comprometimento em um ou
mais componente da linguagem.
O distúrbio específico de leitura é
um transtorno específico no aprendizado da leitura,
no qual o indivíduo apresenta rendimento escolar
inferior a idade cronológica, ao potencial intelectual
e a escolaridade do indivíduo. Enquanto o distúrbio
de aprendizagem é um transtorno, caracterizado
por desempenho nas áreas da leitura, escrita
e matemática substancialmente abaixo do esperado,
tendo em vista a idade cronológica, medidas de
inteligência e educação apropriada
para a idade (DSM-IV, 1995).
Em estudos realizados a partir da década de 70,
autores como Denckla (1972), Vellutino (1977), Siegel
& Ryan (1988), Menyuk (1988), Kahmi (1989), Kemper
(1989) referiram que tanto o distúrbio específico
de leitura como o distúrbio de aprendizagem apresenta
um transtorno quanto as habilidades da linguagem subjacente
ao processo de aquisição e desenvolvimento
das habilidades acadêmicas, que se torna evidente
tanto em fase pré-escolar como escolar, alertando
para o fato de que crianças que a partir dos
4, 5 anos de idade apresentem fala ininteligível,
persistência de jargão, redução
de léxico, sintaxe desestruturada, dificuldade
em aprender o alfabeto, versos, lembrar canções,
estórias, lembrar de rotinas de brincadeiras
com os dedos, números e nomes de cores e dias
da semana, são crianças de risco para
dificuldades escolares posteriores.
Desta forma, conforme proposto por Gerber (1996), Dockrell
& McShane (200) Smith & Strick (2001) as crianças
de risco para dificuldades escolares posteriores devem
ser submetidos a avaliações lingüísticas-cognitivas
periódicas para melhor acompanhamento de seu
desenvolvimento e se for necessário programas
de educação individual devem ser elaborados
com pais, professores, fonoaudiólogos e psicólogos
para que as dificuldades das crianças sejam minimizadas
e suas potencialidades em relação a habilidades
de linguagem e memória sejam maximizadas para
que os prejuízos em situação escolar
sejam diminuído.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Appleton J, Bagnall A, Mcrae J e Stevens
S. Recent Advances in speech and language therapy. British
Journal of Hospital Medicine, 55:9, 582-585, 1996
Bloom L e Haley M. Language disorders
and language development. New York, Macmillan, 1988.
105p
Denckla MB. Clinical syndromes in learning
disabilities: a cause for "splitting" and
"lumping". J Learn Dis, vol5, p.26-33, 1972.
Dockrell J e McShane J. Crianças com dificuldades
de aprendizagem: uma abordagem cognitiva. Porto Alegre:
Artes Médicas, 2000.
DSM-IV: Manual Diagnóstico e
Estatístico de Transtornos Mentais. 4.ed. Porto
Alegre: Artes Médicas, 1995.
Ferreiro E, Teberosky A. Psicogênese
da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas,
1985.
Fodor J. Modularity of mind. Cambridge:
MIT Press, 1983.
Gerber A. Problemas de aprendizagem
relacionados à linguagem: natureza e tratamento.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
Kamhi AG. Causes and consequences of
reading disabilities. In: Kamhi AG e Catts HW. Reading
disabilities: a developmental language perspective.
Boston: College-Hill Press, 1989.
Rego LLB. Repensando a prática
pedagógica na alfabetização. In:
São Paulo (Estado) Secretaria da Educação.
Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas.
Isto se aprende com o ciclo básico. São
Paulo, SE/CENP, 1987, p.49-60.
Smith C e Strick L. Dificuldades de
Aprendizagem de A a Z: um guia completo para pais e
educadores. Porto Alegre, Artes Médicas, 2001.
Yavas
MS, Hernandorena CLM e Laprecht RR. Avaliação
Fonológuca da Criança. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1992
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a criança através de estórias
e músicas.
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