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As
lições que a Fonoaudiologia tem a
ensinar |
Cristiane
Marangon - Email: cmarangon@abril.com.br
Existem mais crianças com distúrbio do que se imagina. Saiba
identificá-los e encaminhá-los para tratamento.
| Fala |
| Fernando Vivas |
 |
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| Um
especialista detecta com facilidade um distúrbio
de fala. Para o professor, que não foi treinado
para identificar esses problemas, valem algumas
dicas: observar as crianças que têm dentes mal
posicionados,oclusão dentária ou má formação da
boca; língua presa ou entre os dentes;fala nasal;
abertura de boca insatisfatória; troca de sons.
As crianças que não têm problemas aparentes, mas
ainda assim falam errado, certamente sofrem comesse
distúrbio. |
Quando um ou outro
aluno tem um desempenho inferior ao dos demais, é fácil
perceber que há algo errado. Se o problema é na comunicação
da criança, porém, vale a pena um olhar mais clínico sobre
o assunto. A fonoaudióloga Claudia Regina Furquim de Andrade,
professora titular do departamento de Fonoaudiologia da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP),
afirma que a maioria das escolas desconhece ou dá pouca
importância à linguagem como um todo. Como a fonoaudiologia
é um vasto campo de estudos e envolve não apenas voz e
audição, mas a qualidade na fluência da fala e na recepção
dos sons, esta reportagem só vai focar os assuntos relacionados
à sala de aula. E não são poucos. Segundo Claudia Regina
Mosca Giroto, doutoranda pela Universidade Estadual Paulista,
desde o começo do século passado há uma preocupação em
levar as práticas fonoaudiológicas para a escola. No Brasil,
os cursos profissionalizantes começaram na década de 1960
e só em 9 de dezembro de 1981 a profissão foi reconhecida.
A
professora Viviane Bandoni, da Escola Carandá, em São
Paulo, olha para cada estudante como se fosse único.
"Preciso descobrir que mecanismos ele utiliza para aprender."
Viviane já descobriu em sua parceria com fonoaudiólogos,
que o distúrbio de processamento central é o mais comum
em classe. Veja a seguir como é perfeitamente possível
detectar as principais alterações nos alunos e identificá-las,
para encaminhar o tratamento mais adequado.
Atenção aos sons
A troca de alguns sons está dentro da normalidade
na fase de 2 a 4 anos e essa alteração costuma desaparecer
junto com o amadurecimento neurológico. A persistência
após essa idade é considerada patológica. Para identificar
com mais eficiência os problemas de fala deve-se descartar
a possibilidade de o aluno agir dessa maneira como forma
de chamar atenção. Também não adianta colocá-lo sob
pressão, pois a troca de fonemas pode virar uma questão
definitiva.
Para
Irene Marquesan, diretora do Centro de Especialização
em Fonoaudiologia Clínica (Cefac) e doutora em educação
pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), independentemente
da confirmação do diagnóstico o aluno deve sempre fazer
boas leituras e produzir muitos textos, pois isso colabora
para pôr fim ao problema. "É essencial resolver as alterações
de fala até o final da 2ª série ou no início da 3ª",
recomenda Irene. Outra dica importante diz respeito
à correção verbal. Quando o estudante fala algo errado
não se deve repetir a palavra incorreta para depois
falar a certa, mas apenas apresentar o padrão correto.
Esse procedimento impede que os pequenos se confundam.
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Fluência |
| Um
aluno gago repete sílabas e, às vezes, nem consegue
pronunciá-las na hora de falar.A eletromiografia
de superfície é um exame relativamente simples
que mede a tensão muscular de um disfluente. Em
75% dos casos, a recuperação é espontânea e não
há necessidade de terapia. Os 25% restantes nascem
com predisposição genética e,por conta disso,
serão gagos pelo resto da vida. Em ambos os casos,
a terapia servepara avaliar a intensidade do problemae
impedir que ele se agrave. |
Fluidez verbal
A fluência é a capacidade de passar uma mensagem
dentro de um fluxo contínuo, regular e em velocidade
compreensível. O contrário disso é a disfluência, também
conhecida como gagueira. Uma criança de 3 anos possui
o mesmo fluxo de fala de um adulto. Só que com menos
vocabulário. Existem casos em que ainda não há o domínio
da estrutura da língua e, por isso, surge uma disfluência
temporária.
É
possível identificar um disfluente pelo tipo de ruptura.
Geralmente, há uma patologia quando um som ou uma sílaba
são bloqueados ou repetidos. Para alguns falantes, são
comuns interrupções como "ah", "eh", "hum". Pelo desconhecimento
do assunto, muitos tomam atitudes prejudicais a quem
gagueja. Leia o que os especialistas recomendam não
fazer:
-
pedir
para parar de gaguejar;
-
sugerir
que pense ou respire antes de falar;
completar a fala;
manifestar inquietação, irritação ou impaciência;
demonstrar pena;
pedir para recomeçar a fala;
sugerir que mude o tom de voz;
pedir para substituir palavras com pronúncia difícil;
fingir que a gagueira não existe.
Claudia
Andrade, que também é especialista em disfluência, ressalta
a importância do diagnóstico precoce. "O ideal é procurar
ajuda o mais rápido possível para que a gagueira não
se instale de forma definitiva."
| Audição |
 |
| O
exame audiométrico é a avaliação da capacidade
auditiva. Essa é uma das maneiras de detectar
disfunções da audição. O professor deve encaminhar
o estudante a um especialista quando perceber
que ele tem pus no ouvido. O mesmo vale para
o aluno que não entende o que é dito em sala
de aula e pede que as frases sejam repetidas,
reclama de algum barulho ou zumbido na orelha,
não vira a cabeça quando é chamado, troca letras
após os 4 anos de idade, fala errado porque
não percebe a diferença entre a fala e a escrita. |
Escutar bem
Quando uma criança tem dificuldades para ouvir,
provavelmente terá problemas para aprender a falar e
entabular uma conversa. A alteração mais comum é a perda
auditiva, que pode ser leve, moderada ou profunda. Na
perda leve, há dificuldade para detectar alguns sons.
É como se você escutasse alguém falando em tom baixo.
Quando o problema evolui, aumenta o número de sons que
não se escuta, mas ainda é possível entender algo. Nesse
ritmo crescente, pode-se chegar a um estágio no qual
a pessoa só ouve sons de intensidade muito elevada.
O ideal é detectar o problema no primeiro estágio, para
não comprometer as chances de comunicação.
Outra
alteração muito comum é o já mencionado distúrbio de
processamento central. Além de escutar bem, temos de
selecionar e memorizar o que escutamos para localizar
o ruído, sabendo de qual direção veio. A representação
mais comum desse tipo de problema é quando o professor
fala numa classe barulhenta e o aluno não sabe se foca
sua atenção nos colegas ou no professor.
A
doutora Renata Carvalho, professora de Fonoaudiologia
da Faculdade de Medicina da USP e especialista em audiologia,
descreve as crianças que apresentam alteração auditiva
como agitadas e dispersas. "Para elas, prestar atenção
é muito difícil", explica Renata. "Elas preferem se
concentrar em coisas visuais." Se você tem alunos assim,
saiba que talvez eles não sejam "bagunceiros", mas sofrem
de um mal que só pode ser detectado num consultório.
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Aprendizagem |
| Crianças com esse tipo de problema são aquelas que,
geralmente, não acompanham a maioria da turma.
Nesse caso, é importante destacá-las do grupo
para o tratamento com um fonoaudiólogo. Só assim
elas terão oportunidade de participar de atividades
que desenvolvem a consciência dos sistemas sonoros
como, por exemplo, a descoberta do número de
sílabas de uma palavra, a análise dos sons que
a compõem e a busca das letras que representem
graficamente esses sons. |
Respeito à individualidade
A categoria aprendizagem é ampla e envolve problemas
relativos ao desenvolvimento infantil. Veja os mais
comuns:
Ritmo
— Cada um tem uma velocidade própria para aprender.
Crianças com distúrbios apresentam ritmo mais lento.
Elas precisam de um tempo maior para compreender um
novo conceito. Quando o professor planeja levando em
conta as particularidades de cada aluno, evita que alguns
fiquem pelo caminho.
Linguagem oral — Há crianças que não apresentam
nenhum déficit auditivo que impeça a fala, mas a compreensão
e a expressão estão prejudicadas, inclusive no aspecto
cognitivo. Da mesma forma, há aquelas que estão aparentemente
bem, mas revelam dificuldades gerais quanto à evolução
escolar (redação, ortografia, leitura e compreensão
de textos e exercícios matemáticos etc.). Provavelmente
elas sofrem desse distúrbio de aprendizagem e precisam
de atenção especial em classe.
Linguagem escrita — São casos nos quais, apesar
das habilidades orais estarem resolvidas, as crianças
têm dificuldades no aprendizado da escrita. Língua Portuguesa,
neste caso, é a disciplina mais prejudicada.
Para
Jaime Luiz Zorzi, diretor do Cefac e doutor em educação
pela Unicamp, o aluno que tem algum tipo de alteração
na linguagem é quase sempre prejudicado. Normalmente,
a escola estabelece um padrão mínimo que todos devem
atingir e, como ele não se enquadra, é deixado de lado.
| Voz |
 |
| Educadores
tendem a achar que as variações da voz fazem
parte do desenvolvimento de uma criança. Cuidado
com os que gritam com freqüência, têm voz rouca
ou grossa para a idade, fazem força para falar
a ponto de as veias do pescoço saltarem e a
expressão facial ficar intensa. Ou deixam escapar
um ar não sonorizado, e vêem o som sumir em
algumas sílabas. Todos são fortes candidatos
a ter problemas vocais que exigem acompanhamento
especializado. |
Em
alto e bom tom
 |
 |
| Viviane Bandoni, da
Escola Carandá, orienta seus
alunos de 3ª série numa atividade
de perguntas e respostas (elaborada
em parceria com um fonoaudiólogo)
que devem ser colocadas na ordem
lógica (como no exemplo da foto
à esq.): a professora usa uma
história infantil para avaliar
a noção de temporalidade de
cada um |
|
|
A
disfonia, conhecida como rouquidão, costuma não receber
atenção nem de pais, nem de professores. Geralmente,
disfônicos têm como características a liderança, a agressividade
e a agitação, mas antes de qualquer diagnóstico é necessário
saber por que o aluno grita. As causas podem estar relacionadas
a excesso de ruídos externos. Se na sala de aula o barulho
entra pelas janelas, é melhor manter a porta aberta.
Ambientes poluídos também são prejudiciais. Por isso, a sala
deve estar sempre limpa. Alunos alérgicos não podem
abusar, falando e cantando em excesso. Hábitos como
ter uma garrafinha de água ao alcance da mão, não usar
roupas apertadas e não comer demais valem tanto para
seus alunos como para você.
Uma
criança que não se livra da rouquidão pode comprometer,
na idade adulta, uma escolha profissional. Para Mara
Behlau, diretora e coordenadora do Centro de Estudos
da Voz, é importante que as pessoas se conscientizem
de que esse processo não faz parte do desenvolvimento
natural. "Um aluno rouco sinaliza que tem dificuldade
para se comunicar de modo adequado."
Em
todas as situações, o papel do educador é estar atento
para fazer o encaminhamento a um especialista. Só assim
há chances de recuperação. "O fonoaudiólogo pode orientá-lo
sobre a distribuição dos alunos em classe e sugerir
sugestões de atividades em grupo, inclusive com aqueles
que não apresentam distúrbios", esclarece Roberta Dias.
A professora Viviane concorda. "É viável trabalhar assim,
pois uns estimulam os outros a expressar suas habilidades." |