Mônica
de Sá Ferreira
Fonoaudióloga, Especialista em Audiologia, mestranda
em Fonoaudiologia. Professora da UNIPAC/ JF - MG. - E-mail:
monicasf@wnetrj.com.br
- Contato: (21) 2436-3846
A
leitura envolve a integração de múltiplos
fatores relacionados à experiência do indivíduo,
habilidades e funcionamento neurológico. A maioria
dos indivíduos com dificuldades de leitura experimentam
uma variedade de problemas com a linguagem que origina
uma função cerebral alterada e secundariamente,
fatores emocionais e do ambiente podem ter um efeito prejudicial
no processo de aprendizagem em cada uma delas (COMMITTEE
ON CHILDREN WITH DISABILITIES,1998).
O ato de ler compreende desde a decodificação
dos símbolos gráficos até a análise
reflexiva de seu conteúdo, portanto, para que possamos
avaliar a leitura é necessário oferecermos
textos pequenos mas completos cujo tema desperte a atenção
e o interesse do indivíduo sob teste. Com crianças
podemos utilizar livros de história ilustrados
ou até mesmo regras de jogos, charadas e desafios.
Com adolescentes e adultos podemos trabalhar também
com crônicas e reportagens de jornais e revistas,
deixando para que ele escolha o de seu maior interesse.
A leitura deve ser realizada em voz alta e em voz baixa
e a compreensão avaliada por meio da reprodução
oral da história lida (reconto) e por meio da resposta
a questões de múltipla escolha. A compreensão
da leitura requer capacidades cognitivas, como a elaboração
de inferências, e lingüísticas, como
conhecimento do vocabulário, da sintaxe, entre
outras (Braibant, 1997).
Além dos textos deve ser avaliada a leitura em
voz alta de palavras isoladas (familiares e não-familiares)
e pseudopalavras (formadas por uma combinação
de fonemas ou grafemas que não existem no léxico
de uma língua).
Durante a leitura em voz alta devemos observar a velocidade
utilizada, entonação, pontuação,
os erros (trocas, acréscimos, omissões),
as atitudes (apontar, grifos, vocalização),
movimentação da cabeça e ocular e
a capacidade de concentração.
Segundo o Modelo Cognitivo de Dupla-Rota (Ellis, 1995;
Hillis & Caramazza, 1992), a leitura se processa em
dois níveis: lexical e fonológico. Ambas
as rotas de leitura iniciam com o sistema de análise
visual, que tem as funções de identificar
as letras do alfabeto, a posição de cada
letra na palavra, e agrupá-las.
A Rota Fonológica utiliza o processo de conversão
grafema-fonema, envolvendo a procura de pronúncias
para palavras não-familiares e pseudopalavras de
uma forma serial, traduzindo letras ou grupos de letras
em fonemas, através da aplicação
de regras. As representações fonêmicas
armazenadas ativam as formas fonológicas das palavras
que, por sua vez, levam à ativação
das representações semânticas e ortográficas
correspondentes.
Na leitura por Rota Lexical, geralmente utilizada por
leitores adultos, as representações de milhares
de palavras familiares são armazenadas em um léxico
de entrada visual, que é ativado pela apresentação
visual de uma palavra. Isto é seguido pela obtenção
do significado a partir do sistema semântico (depósito
de todo o conhecimento sobre os significados de palavras
familiares) e, então, a palavra pode ser articulada.
Pessoas que utilizam apenas esta rota têm pouca
ou nenhuma dificuldade em pronunciar palavras familiares,
entretanto, encontram muita dificuldade com palavras relativamente
não-familiares e pseudopalavras.
No processo de identificação de palavras,
o uso da Rota Lexical permite acesso mais rápido
ao léxico mental por ser um procedimento de acesso
direto ao significado à partir da estrutura gráfica.
Ao contrário, a Rota Fonológica é
um procedimento seqüencial, ao menos no início
do desenvolvimento da leitura, e, portanto, mais lento
do que o anterior. Sendo assim, uma hipótese seria
que o uso preferencial da rota lexical levaria a uma maior
velocidade de leitura textual e, como conseqüência,
uma melhor compreensão de leitura. Quanto mais
rápida for a identificação de cada
palavra, maior a capacidade da memória de trabalho
consagrada às operações de análise
sintática, de integração semântica
dos constituintes da frase e de integração
das frases na organização textual, processos
importantes para a compreensão da leitura.
Além do automatismo na identificação
de palavras, para compreender um texto é necessário
empregar conhecimentos e estratégias que vão
mais além da mera combinação de significados
lexicais individuais, é necessário elaborar
uma representação mental do conteúdo
proposicional das mensagens.
A compreensão de um texto não se resume
à capacidade de memória, mas também
à capacidade de inferir fatos que não são
apresentados explicitamente no texto (Brandão &
Spinillo, 1998). Segundo Parente, Capuano & Nespoulous
(1999) no reconto devem ser avaliadas as inferências
(comentários sobre fatos pertinentes a história),
interferências (modificação do significado
das proposições da história por associação)
e reconstruções (introdução
de proposições que relatavam fatos não
presentes na história original).
A avaliação da velocidade da leitura deve
ser realizada dividindo o número de palavras do
texto pelo tempo, expresso em minutos. Desta forma teremos
o resultado Ppm (palavras lidas por minuto). Os segundos
devem antes ser transformados em décimos de segundos,
dividindo-os por seis, considerando apenas a parte inteira.
Com esse roteiro teremos uma análise cognitiva
da leitura do indivíduo, compreendendo melhor suas
características de leitura para, então,
pesquisar as possíveis causas, encaminhando-o,
se necessário, a outros profissionais e propôr
intervenção.
Rafael, 9 anos (3a série) foi encaminhado pela
escola por apresentar dificuldades em interpretar textos,
resultando em um baixo desempenho em Português,
História, Ciências e em Matemática,
no que se referia a enunciados de problemas. Lendo um
pequeno texto sobre a história de uma raposa que
para não se perder na floresta deixa rastros de
pipoca pelo chão, demonstrou leitura basicamente
pela rota fonológica, pois sua decodificação
era silábica em muitas palavras e lenta, comprometendo
a memória de trabalho e a formação
de imagens mentais que representassem o texto lido. Essa
análise foi constatada pelo desempenho na leitura
de palavras familiares, não - familiares e pseudopalavras.
A velocidade de leitura foi quase a mesma, não
demosntrando os efeitos de lexicalidade e de freqüência.
Sua compreensão oral é eficiente, não
demonstrando déficits intelectuais.
Ficou prejudicada, também, a compreensão
do texto lido, revelada por meio da dificuldade em responder
a perguntas que necessitavam de inferências.
Diante desse retrato, Rafael foi submetido a testes que
avaliam a função auditiva (audiometria e
testes de processamento auditivo central) além
de um teste de consciência fonológica e teste
de linguagem (vocabulário). Como resultados apareceram
dificuldades de memória auditiva, de consciência
fonológica no nível fonêmico e vocabulário
reduzido para a idade.
Um trabalho com o objetivo de desenvolver a consciência
fonológica, a linguagem oral, as habilidades auditivas
de memória seqüencial e a velocidade de leitura
foi proposto. Referências
Bibliográficas:
Committee on Children with Disabilities, American Academy
of Pediatrics (AAP), American Academy of Ophthalmology
(AAO), American Association for Pediatrics Ophthalmology
and Strabismus (AAPOS). Learning disabilities, dyslexia,
and vision: A subject review. Pediatrics 1998; 102:1217-1219.
Hillis,
A. E. & Caramazza, A. (1992). The reading process
and its disorders. Em D. I. Margolin (Org.), Cognitive
neuropsychology in clinical practice (pp. 229-261).
New York, Oxford: Oxford University Press.
Ellis,
A. W. (1995). Leitura, escrita e dislexia: Uma análise
cognitiva. Porto Alegre: Artes Médicas.
Braibant,
J. (1997). A decodificação e a compreensão:
Dois componentes essenciais da leitura no 2º ano
primário. Em J. Grégoire & B. Piérart
(Orgs.), Avaliação dos problemas de leitura:
Os novos modelos teóricos e suas implicações
diagnósticas (pp. 167-187). Porto Alegre: Artes
Médicas.
Parente,
M. A. M. P., Capuano, A. & Nespoulous, J. (1999).
Ativação de modelos mentais no recontar
de histórias por idosos. Psicologia: Reflexão
e Crítica, 12(1), 157-172.
Brandão,
A. C. P. & Spinillo, A. G. (1998). Aspectos gerais
e específicos na compreensão de textos.
Psicologia: Reflexão e Crítica, 11, 253-272.
| Estimule
a criança através de estórias
e músicas.
Professores, Psicopedagogos, Pedagogos, Fonoaudiólogos |
 |
|