Programa de fonoaudiologia para carentes,
no município de Içara, melhora o aprendizado
dos alunos e reduz evasão escolar
Içara - O tratamento dos distúrbios
da voz, fala, linguagem e escrita reduziu o nível
de repetência escolar e melhorou as condições
de alfabetização de crianças de
três a seis anos no município de Içara,
no Litoral Sul. A prefeitura mantém um programa
de fonoaudiologia há quatro anos e atende alunos
carentes dos 20 Centros de Educação Infantil
do município e crianças de 1ª a 4ª
série das escolas municipais. O tratamento precoce
melhora o rendimento escolar e evita a evasão
escolar.
A coordenadora do programa, a fonoaudióloga
Celiane dos Santos Ramos, salienta que o projeto tem
uma metodologia simples e não exige grandes investimentos.
Somente neste ano o serviço já avaliou
408 crianças, sendo que 44 delas necessitaram
de tratamento. As consultas são feitas na própria
prefeitura e não há listas de espera.
A meta da prefeitura é que este
trabalho se estenda a toda rede pública. Entretanto,
muitos pais desconhecem o programa ou não tem
interesse pela consulta. Os problemas são diagnosticados
na própria escola, quando a criança é
encaminhada para o setor de fonoaudiologia. Mas os pais
também podem procurar diretamente o serviço
na prefeitura.
Tratamento
Após feita a triagem, o tratamento
é iniciado e, dependendo dos casos, pode demorar
até dois anos para que os primeiros resultados
apareçam. Este é o caso de D.S. com 9
anos, que nasceu com um problema congênito, conhecido
como fissura lábio palatal completo ou lábio
leporino. Ele estudava na 3ª série mas não
conseguia pronunciar as letras K, S, X, H e tinha sérios
problemas de relacionamento, apesar de ser uma criança
bastante inteligente.
"O problema com a fala nunca afetou
o aprendizado dele", relata a mãe de DS,
a dona de casa Marli da Silva. O estudante se submeteu
a uma cirurgia, além de outros tipos de tratamento
clínico, antes de ser encaminhado para o programa.
"Hoje ele já consegue falar quase todas
as palavras", conta a mãe com entusiasmo.
Celiane observa que o tratamento fonoaudiólogico
auxilia não só na parte pedagógica
da criança como também no lado emocional,
já que distúrbios da fala diminuem a auto-estima
do paciente. Somente casos mais complicados, como o
autismo, não podem ser resolvidos pelo fonoaudiólogo,
que encaminha o assunto para um psicólogo.
Outros problemas são mais fáceis
de serem resolvidos. Maricilda Dagostin, mãe
de M.A. de seis anos, um respirador bucal que participa
do programa há dois meses, conta que seu filho
já conversa e entende melhor as palavras. A respiração
bucal é um conjunto de patologias provocada,
em 80% dos casos, pela falta de amamentação
das crianças nos primeiros meses de vida.
Tratamento depende da participação dos
pais
O tratamento para qualquer tipo de distúrbio
vocal consiste em exercícios regulares e muitas
brincadeiras. A sala de consulta mais parece uma sala
de recreação, devido à grande quantidade
de jogos e brinquedos. "São métodos
simples, mas eficientes", avalia Celiane. Ela ressalta
que a participação dos pais, no processo
de recuperação, é fundamental.
Além dos exercícios, que
os pais precisam fazer todos os dias em casa, a fonoaudióloga
conta histórias, encena pequenas peças
teatrais e mostra desenhos e objetos às crianças
para desenvolver a sua percepção auditiva
e a motricidade oral. A regra básica para quem
inicia o tratamento é o abandono da chupeta e
da mamadeira, muito prejudiciais ao desenvolvimento
da fala. Quase 100% das crianças aceitam o desafio.
Os brinquedos são confeccionados
pela própria fonoaudióloga, o que resulta
na diminuição dos custos do programa.
Celiane comenta que os métodos
utilizados no serviço público não
diferem muito do tratamento particular. "Tudo vai
depender do interesse dos pais e da paciência
que tenham, o que é essencial para a recuperação
da criança", observa. Apesar do diagnóstico
precoce ser importante, Celiane diz que adultos com
problemas de fala e linguagem também podem ser
tratados com sucesso.
Distúrbios de voz, fala, linguagem
e leitura podem ter origem no nascimento. Precocidade,
rubeóla na mãe, toxiplasmose e hipoxia
(falta de oxigenação na hora do nascimento)
são as causas mais comuns. Outros problemas pósparto
podem agravar a situação, tais como a
meningite, traumatismos, falta de estimulação
oral (a mãe que não conversa com o filho)
e traumas psicológicos.
O problema da fala mais comum em Içara
é o distúrbio articulatório, onde
a criança troca letras, omite e distorce sons.
Em seguida vem o respirador bucal. Mas há também
casos de crianças com problemas de deglutição,
disfonia (rouquidão e voz áspera ou soprosa,
decorrente de esforço vocal), problemas de leitura
e escrita. Neste caso a criança troca letras ao
ler e escrever. (JCC)