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::. Cura da fala traz reflexo na educação  
José Carlos da Costa

Programa de fonoaudiologia para carentes, no município de Içara, melhora o aprendizado dos alunos e reduz evasão escolar

Içara - O tratamento dos distúrbios da voz, fala, linguagem e escrita reduziu o nível de repetência escolar e melhorou as condições de alfabetização de crianças de três a seis anos no município de Içara, no Litoral Sul. A prefeitura mantém um programa de fonoaudiologia há quatro anos e atende alunos carentes dos 20 Centros de Educação Infantil do município e crianças de 1ª a 4ª série das escolas municipais. O tratamento precoce melhora o rendimento escolar e evita a evasão escolar.

A coordenadora do programa, a fonoaudióloga Celiane dos Santos Ramos, salienta que o projeto tem uma metodologia simples e não exige grandes investimentos. Somente neste ano o serviço já avaliou 408 crianças, sendo que 44 delas necessitaram de tratamento. As consultas são feitas na própria prefeitura e não há listas de espera.

A meta da prefeitura é que este trabalho se estenda a toda rede pública. Entretanto, muitos pais desconhecem o programa ou não tem interesse pela consulta. Os problemas são diagnosticados na própria escola, quando a criança é encaminhada para o setor de fonoaudiologia. Mas os pais também podem procurar diretamente o serviço na prefeitura.


Tratamento

Após feita a triagem, o tratamento é iniciado e, dependendo dos casos, pode demorar até dois anos para que os primeiros resultados apareçam. Este é o caso de D.S. com 9 anos, que nasceu com um problema congênito, conhecido como fissura lábio palatal completo ou lábio leporino. Ele estudava na 3ª série mas não conseguia pronunciar as letras K, S, X, H e tinha sérios problemas de relacionamento, apesar de ser uma criança bastante inteligente.

"O problema com a fala nunca afetou o aprendizado dele", relata a mãe de DS, a dona de casa Marli da Silva. O estudante se submeteu a uma cirurgia, além de outros tipos de tratamento clínico, antes de ser encaminhado para o programa. "Hoje ele já consegue falar quase todas as palavras", conta a mãe com entusiasmo.

Celiane observa que o tratamento fonoaudiólogico auxilia não só na parte pedagógica da criança como também no lado emocional, já que distúrbios da fala diminuem a auto-estima do paciente. Somente casos mais complicados, como o autismo, não podem ser resolvidos pelo fonoaudiólogo, que encaminha o assunto para um psicólogo.

Outros problemas são mais fáceis de serem resolvidos. Maricilda Dagostin, mãe de M.A. de seis anos, um respirador bucal que participa do programa há dois meses, conta que seu filho já conversa e entende melhor as palavras. A respiração bucal é um conjunto de patologias provocada, em 80% dos casos, pela falta de amamentação das crianças nos primeiros meses de vida.


Tratamento depende da participação dos pais

O tratamento para qualquer tipo de distúrbio vocal consiste em exercícios regulares e muitas brincadeiras. A sala de consulta mais parece uma sala de recreação, devido à grande quantidade de jogos e brinquedos. "São métodos simples, mas eficientes", avalia Celiane. Ela ressalta que a participação dos pais, no processo de recuperação, é fundamental.

Além dos exercícios, que os pais precisam fazer todos os dias em casa, a fonoaudióloga conta histórias, encena pequenas peças teatrais e mostra desenhos e objetos às crianças para desenvolver a sua percepção auditiva e a motricidade oral. A regra básica para quem inicia o tratamento é o abandono da chupeta e da mamadeira, muito prejudiciais ao desenvolvimento da fala. Quase 100% das crianças aceitam o desafio.

Os brinquedos são confeccionados pela própria fonoaudióloga, o que resulta na diminuição dos custos do programa.

Celiane comenta que os métodos utilizados no serviço público não diferem muito do tratamento particular. "Tudo vai depender do interesse dos pais e da paciência que tenham, o que é essencial para a recuperação da criança", observa. Apesar do diagnóstico precoce ser importante, Celiane diz que adultos com problemas de fala e linguagem também podem ser tratados com sucesso.

Distúrbios de voz, fala, linguagem e leitura podem ter origem no nascimento. Precocidade, rubeóla na mãe, toxiplasmose e hipoxia (falta de oxigenação na hora do nascimento) são as causas mais comuns. Outros problemas pósparto podem agravar a situação, tais como a meningite, traumatismos, falta de estimulação oral (a mãe que não conversa com o filho) e traumas psicológicos.

O problema da fala mais comum em Içara é o distúrbio articulatório, onde a criança troca letras, omite e distorce sons. Em seguida vem o respirador bucal. Mas há também casos de crianças com problemas de deglutição, disfonia (rouquidão e voz áspera ou soprosa, decorrente de esforço vocal), problemas de leitura e escrita. Neste caso a criança troca letras ao ler e escrever. (JCC)
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