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Dislexia,
as muitas faces de um problema de linguagem |
Clélia Argolo Estill
Fonoaudióloga e Psicopedagoga Clínica
Vice-presidente da AND - Associação Nacional
de Dislexia
Ex-membro do Conselho Científico da ABPP -RJ
Associação Brasileira de Psicopedagogia
- Rio de Janeiro
Endereços
para contatos: Consultórios:
Rua Maença, 210 - Pechincha -Jacarépaguá
-RJ
Tel. :021-3392.7317 e-mail: cestill@visualnet.com.br
Rua
Leblon, 16 - Leblon - RJ - Telefax: 021 - 2259.9959
Observação:
este artigo foi publicado no jornal "OGlobo"
- Jornal da Família
-Meu filho foi mal alfabetizado? ele é disléxico?
-Dislexia é uma dificuldade de aprendizagem?
Problemas de aprendizagem são as múltiplas
varetas de um amplo guarda-chuva. Dislexia é apenas
uma delas, mas muito especial.
É mais fácil conceituá-la através
do que não é do que defini-la pelo que é.
Com toda a certeza não é um problema de
inteligência, tampouco uma deficiência visual
ou auditiva, muito menos um problema afetivo-emocional.
Então o que é ?
Dislexia é uma dificuldade específica de
linguagem, que se apresenta na língua escrita.
A dislexia vai emergir nos momentos iniciais da aprendizagem
da leitura e da escrita, mas já se encontrava subjacente
a este processo.
É uma dificuldade específica nos processamentos
da linguagem para reconhecer, reproduzir, identificar,
associar e ordenar os sons e as formas das letras, organizando-os
corretamente.
É certamente um modo peculiar de funcionamento
dos centros neurológicos de linguagem. É
frequente encontrar-se outras pessoas com dificuldades
semelhantes nas histórias familiares.
Dislexia , não é culpa de ninguém,
nasce -se assim.
O importante é aceitar a dislexia como uma dificuldade
de linguagem que deve ser tratada por profissionais especializados.
As escolas podem acolher os alunos com dislexia, sem modificar
os seus projetos pedagógicos curriculares. Procedimentos
didáticos adequados possibilitam ao aluno vir a
desenvolver todas as suas aptidões, que são
múltiplas. Vale relembrar que os disléxicos
estão em boa companhia junto a Leonardo da Vinci
e Tom Cruise, Einstein e Nelson Rockefeller, Hans Christian
Andersen e Agatha Christie, entre muitos outros.
O bom desempenho na leitura provém do equilíbrio
entre o desenvolvimento das operações da
leitura, decodificação e compreensão,
interagindo com os estágios de desenvolvimento
do pensamento e da linguagem. É necessário
não esquecer a importância dos vínculos
afetivos estabelecidos com a aprendizagem. Bons ou maus
vínculos são preditivos de sucesso ou fracasso,
nesta jornada.
O sucesso da operação inicial de leitura,
a decodificação, vai depender da habilidade
linguística para transformar um sinal escrito,
a letra, num sinal sonoro, o som, e vice-versa.
Associar letras e sons correspondentes, organizar, sequenciar
e encadear esta corrente sonora, é o caminho percorrido
para se apreender a palavra escrita.
Aqui mora a dificuldade do disléxico.
Quanto mais a leitura e escrita, são necessárias
na vida escolar, mais a dislexia se revela, sendo confundida,
muitas vezes, com problemas gerais de aprendizagem.
As pessoas com dislexia tem dificuldades de aprendizagem,
porque tem dificuldades específicas de linguagem,
não por dificuldades emocionais, lógico-operatórias
ou sócio-culturais.
As dificuldades de aprendizagem, presentes na dislexia,
são alterações decorrentes
das dificuldades específicas no processamento linguístico,
que tem a leitura e a escrita como suas ferramentas principais.
O valor da intervenção precoce, no caso
de suspeitarmos da presença de fatores disléxicos,
fala por si mesma, mas só podemos considerar que
alguém é disléxico, após dois
anos de vivências leitoras. Antes deste período
podemos detectar "dificuldades ou transtornos de
leitura", que já necessitam de cuidados especiais,
numa postura preventiva.
Há muitos sinais, visíveis nos comportamentos
e nos cadernos das crianças, que podem auxiliar
aos pais e educadores a identificar precocemente alguns
dos sinais preditivos de dislexia. A dislexia pode estar
associada à quadros de déficit de atenção
(DDA), mas nem todo o déficit de atenção
é acompanhado de dislexia. Citamos algumas dificuldades,
tais como:
- demora nas aquisições e desenvolvimento
da linguagem oral; dificuldades de expressão e
compreensão; alterações persistentes
na fala;
- copiar e escrever números e letras inadequadamente;
-dificuldade para organizar-se no tempo, reconhecer as
horas, dias da semana e meses do ano;
- dificuldades para organizar sequências espaciais
e temporais, ordenar as letras do alfabeto, sílabas
em palavras longas, seqüências de fatos ;
-pouco tempo de atenção nas atividades,
ainda que sejam muito interessantes;
-dificuldade em memorizar fatos recentes - números
de telefones e recados, por exemplo;
- severas dificuldades para organizar a agenda escolar
ou da rotina diária;
-dificuldade em participar de brincadeiras coletivas;
-pouco interesse em livros impressos e escutar histórias;
É preciso ter uma especial atenção
com as crianças que gostam de conversar, são
curiosas, entendem e falam bem, mas aparentam desinteresse
em ler e escrever. Vale a pena, no caso de crianças
leitoras, oferecer um mesmo problema matemático,
escrito e oral, e comparar as respostas. Frequentemente
encontramos respostas diferentes, corretas na questão
oral e incorreta na mesma questão escrita.
A mesma criança que parece não saber resolver
um problema matemático por escrito, poderá
ter um desempenho surpreendente quando o mesmo problema
lhe é apresentado oralmente. Esta situação
exemplifica como podemos confundir os sinais - a dificuldade
não é na aprendizagem da matemática,
mas na leitura.
A pessoa com dislexia não mereceria ser atendida
na vida escolar através de seus melhores canais
de comunicação- a linguagem oral antecedendo
a linguagem
escrita ? É um caso a pensar …
Mas a dislexia não é privilégio das
crianças recém alfabetizadas, ou que estão
na 1ª/2ª séries.
Há crianças que apesar de todas estas dificuldades,
conseguem aprender a ler mas vão carregando a sua
dislexia camuflada.
Estas crianças, incompreendidas em suas dificuldades,
muitas vezes são vistas como desinteressadas, e
cobradas com quantias que não têm como pagar.
É quando podem surgir as reações
de apatia ou revolta.
Sempre nos dão sinais, é só seguir
as pistas para melhor compreendê-los:
-dificuldades nas aquisições lingüísticas:
dificuldades em reconhecer rimas e aliterações;
vocabulário reduzido; construções
gramáticais inadequadas, severa dificuldade para
entender as palavras pelo seu significado ;
-dificuldade em fazer cópias, trabalhos e agendas
incompletas;
-dificuldade na leitura, lê mas não entende
o que leu;
-importantes dificuldades de organização
sequencial tempo-espacial; seqüências e rotinas
diárias;
-dificuldades em matemática, cálculos e
desenhos geométricos;
-grande dificuldade para organizar-se em suas tarefas
de vida diária;
-especial dificuldade para aprender uma segunda língua;
-confusões de orientação, trabalhar
com dicionários e mapas é mais um complicador.
- alterações de comportamento - agressividade,
desinterêsse, baixa auto-estima e até mesmo
condutas opositivas-desafiadoras.
Enfim, o disléxico não identificado, pode
reagir a tantos obstáculos com comportamentos inadequados,
que complicam ainda mais a sua vida.
Mesmo dando tantas pistas, o disléxico pode não
ser reconhecido como tal e chegar à vida adulta
carregando frustrações que o impedem de
tomar conhecimento de suas habilidades, que certamente
são muitas.
Felizmente já existem profissionais que estão
atentos aos problemas da dislexia e tentando vir ao encontro
desta população desassistida, através
de associações, com objetivo de ampliar
as pesquisas, estudos e oferecer apoio às famílias,
escolas e profissionais que atuam junto à estas
pessoas portadoras de dificuldades específicas
de linguagem escrita - a dislexia.
No Rio de Janeiro já está funcionando a
AND - Associação Nacional de Dislexia, uma
associação sem fins lucrativos, constituida
por profissionais de fonoaudiologia, psicopedagogia, psicologia,
que vêm prestando serviços de diagnóstico
diferencial às famílias e escolas da comunidade.
Importante é pensar a dislexia como uma modalidade
peculiar de processamento da linguagem, o que vem sendo
cada vez mais pesquisado pelas ciências neuro-cognitivas,
tendo a linguagem como vetor.
A pessoa com dislexia, ou com fatores disléxicos,
mereceria ser examinada e acompanhada por profissionais
especializados em linguagem, para que não venham
a ser confundidos os sintomas de distúrbios na
linguagem com distúrbios de aprendizagem.
Vale lembrar -alguém não é apenas
a dificuldade que apresenta, esta é só um
detalhe de uma paisagem, rica, complexa e bela. |
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