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::. Educação Vocal na Formação do Docente
Fga.Elisangela Giroto Carelli - E-mail: elisangela.carelli@bol.com.br
Fonoaudióloga - Especialista em Saúde Pública pela ENSP-FIOCRUZ em Campo Grande/MS
Prof. Mestre Milton Nakao

Médico Otorrinolaringologista e Prof. da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul -UFMS.

Unitermos: Pedagogia; Educação; Saúde vocal.

Por ser o discurso oral uma das principais práticas mediadoras das relações humanas, inclusive no processo pedagógico sob a qual são construídas as relações lingüísticas, expressivas e comunicativas, pode-se concluir que o professor é um profissional da voz. A comunicação é indicativo de qualidade de vida. Grande parte dos problemas de voz atribui-se ao desconhecimento de técnicas e cuidados especiais com a saúde vocal no cotidiano do professor; confirma-se o fato pela incidência da procura desses profissionais para tratamento otorrinolaringológico e fonoaudiológico. Muitos desses distúrbios poderiam ser evitados com pequenas mudanças de hábitos e conhecimento básico sobre o assunto, sendo alegado que os cursos de formação de professores são deficitários no currículo na questão específica vocal.

Objetivo
Avaliar o conhecimento básico vocal dos acadêmicos do último ano de pedagogia. Estudar o perfil do futuro educador, um profissional da voz, na fase inicial da sua carreira.

Material e Método
O presente estudo foi realizado com 61 alunos do último ano do curso de Pedagogia, em todas as universidades da cidade de Campo Grande/MS que dispõem do referido curso (há pelo menos quatro anos), no ano de 2002. Aos alunos solicitou-se o preenchimento de um questionário específico sobre saúde vocal, para a verificação do nível de conhecimento vocal entre os mesmos. O questionário constituiu-se de respostas objetivas de múltipla escolha, tendo este sido aplicado pela própria pesquisadora - Fonoaudióloga. A população escolhida foi discriminada sob dois aspectos: estar ingressado no último ano do curso de pedagogia e estar efetivamente comparecendo às aulas. Foram relevantes os fatores: gênero, idade, peso. Não foi relevante a variável nível sócio-econômico. Esta pesquisa determina nível de 95% de confiança. O estudo estatístico dos resultados tabulados foi realizado no Departamento de Computação e Estatística da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul - UFMS, utilizando-se o teste Qui-Quadrado e o teste Exato de Fisher.

Discussão dos resultados
De modo geral, os alunos do último ano de pedagogia (2002) em Campo Grande/MS, apresentam conhecimento básico sobre: alimentação, fatores prejudiciais e favoráveis para o discurso, postura, pausas, sobrecarga vocal, vestimentas e prevenção, em contrapartida, prevalece a desinformação sobre técnicas de aquecimento e desaquecimento vocal, tipo respiratório, atualização sobre voz, dificuldade em auto-percepção vocal, incidência de disfonia, e sobretudo, a consciência da desinformação sobre o assunto e a falta de interesse pela voz.

Conclusões
Em relação aos alunos do último ano do curso de Pedagogia, ano 2002, em relação ao nível de conhecimento vocal, pode-se afirmar:
- Desconhecem exercícios de aquecimento e desaquecimento vocal;
- Possuem conhecimento básico vocal sobre os fatores mais corriqueiros (ambiente, vestuário, alimentação, postura, pausas, sobrecarga vocal); porém não sabem justificar suas respostas;
- Não têm clareza quanto ao tipo respiratório adequado para o discurso;
- Não existe um consenso sobre o significado entre afonia, disfonia e eufonia;
- Acreditam que não possuem conhecimento vocal suficiente para o exercício de sua profissão;
- Reconhecem a necessidade de um acompanhamento profissional da área para prevenir problemas vocais;
- Quase metade dos entrevistados não se preocupam com a voz e o restante não possue meio adequado de informação sobre o assunto;
- O percentual de hábitos deletérios vocais apresentou-se em baixo nível, sendo um fator positivo para a saúde vocal do futuro educador;
- As alterações vocais predominantes foram: estresse, dor de garganta e dor no pescoço;
- A presença de disfonia correspondeu a um significativo percentual, fator preocupante para um profissional da voz;
- Apesar dos alunos apresentarem ou já terem apresentado alterações vocais, este fato não implicou em tratamento específico vocal, mesmo tendo sido alegado acima que a maioria tem conhecimento sobre a necessidade de acompanhamento por especialista da voz;
- Quanto à auto-percepção da voz, o gosto pela própria voz e o que o aluno acha da mesma está associado, ou seja, alunos que gostam da sua voz tendem a declarar que sua voz é normal e a recíproca também é verdadeira; este fato confirma que a saúde vocal é indicativo de qualidade de vida;
- A não associação entre hábitos vocais deletérios e o aparecimento de alterações vocais, é justificado pelos alunos ainda não ministrarem aulas, e segundo consenso literário, a idade para aparecer alguma alteração vocal é aproximadamente após o segundo ano de trabalho consecutivo como docente;
- O formando em pedagogia não tem consciência de ser um futuro profissional da voz, e para tanto requer cuidados especiais para usufruir da mesma;
- O perfil do educador - visto como futuro profissional da voz - é preocupante por haver déficit na sua formação, tanto acadêmica quanto pessoal sobre saúde vocal;
- Faz-se necessária a atuação dos profissionais da saúde vocal (fonoaudiólogo/ otorrinolarin-gologista) na prevenção, tratamento e promoção da saúde vocal para o professor, no momento de sua formação, prevenindo disfonias e promovendo qualidade de vida;
- Os problemas de voz do professor devem ser vistos com mais seriedade pelas instituições escolares e estas devem entender que fazem parte no processo de conscientização e formação vocal, sendo em parte responsáveis pelo elevado percentual de disfonias encontradas em professores, pelas aposentadorias precoces por invalidez vocal, pelo absenteísmo no trabalho para tratamento médico vocal, mudanças de emprego por incapacidades vocais, etc.
- Acredita-se que o professor- um profissional da voz - deva usufruir de técnicas e instruções específicas em sua formação, para que possa exercer seu trabalho com competência sem por riscos à sua saúde. Faz-se necessário a atuação do fonoaudiólogo na prevenção, orientação e treinamento quanto ao uso adequado da voz para os professores iniciantes e atuantes em atividade docente, contribuindo para melhorar a qualidade e longevidade vocal.

Recomendações
As informações obtidas nesse estudo deverão ser disseminadas para que haja maior preocupação dos alunos e instituições de ensino a esse respeito, e que práticas de saúde vocal possam ser discutidas e implantadas nas grades curriculares dos cursos de formação de professores, permitindo ao futuro docente conhecer seus potenciais, superar sua limitações, prevenir doenças vocais, promover qualidade de vida e acima de tudo, ter liberdade para escolher consciente o melhor caminho a seguir, não sendo vítima de omissão.

Artigo baseado na monografia de conclusão do curso de pós-graduação em Saúde Pública na Escola de Saúde Pública "Dr Jorge David Nasser"/ENSP-FIOCRUZ -2002.
Campo Grande - MS

Endereço para correspondência:
Rua Rio Grande do Sul, 1530. Sala 06 -1º andar. CEP:79020-180. Campo Grande- MS.
Telefones: (67) 325.9080 (cons.)/ 9958.3787 (cel.)/ 382.2051 (resid.) . E-mail: elisangela.carelli@bol.com.br
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