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Fonoaudiologia
e Educação: Um diálogo que
deve existir |
Rita
de Cássia Alves Limissuri
Fonoaudióloga; Mestre em Semiótica e Lingüística
Geral pela Universidade de São Paulo; Pós-graduanda
em Psicolingüística no LSCP/ENS - Paris, França.
E-mail:
rita_dias_alves@hotmail.com
site: http://fonolang.blogspot.com
A
relação entre Educação e
Fonoaudiologia é antiga e há quem defenda
uma próxima relação de parentesco
entre as duas áreas.
Segundo BERBERIAN (2000) no final do século XIX
iniciou-se uma tentativa de normatizar a língua
portuguesa e essa manifestação continuou
até a década de 30, quando os agentes
sociais falavam em distúrbios de linguagem referindo-se
às variações dialetais expressas
na fala dos imigrantes e, também, às variações
contidas na fala dos próprios brasileiros que
vinham de diferentes regiões do país para
os centros urbanos. Nessa época a educação
da fala foi incluída no currículo escolar
e, em vários cursos de formação
de professores foi introduzida a matéria metodologia
da linguagem. Aos poucos os professores, junto aos outros
profissionais que receberam a função de
limpar a língua, ou seja, de fazer com que todos
falassem da mesma forma, foram se especializando e passando
a ser terapeutas, nascendo a Fonoaudiologia.
Segundo o Conselho Regional de Fonoaudiologia de São
Paulo, os primeiros cursos de Fonoaudiologia surgiram
na década de 60 e nos anos 70 tiveram início
os movimentos pelo reconhecimento dos cursos e da profissão.
Foi sancionada em 9 de dezembro de 1981, pelo então
presidente João Figueiredo, a Lei n° 6965,
que regulamentou a profissão de Fonoaudiólogo.
Atualmente, sendo Fonoaudiologia e Educação
duas áreas distintas e bem delimitadas, muito
se discute sobre a importância de um diálogo
entre elas. Ainda hoje, os pais de crianças que
apresentam atraso no desenvolvimento da fala e/ou da
linguagem são aconselhados a matriculá-las
na escola para que sejam estimuladas. É também
da escola que sai o maior número de encaminhamentos
para acompanhamento fonoaudiológico. Em razão
da realidade sócio-política do Brasil,
muitas crianças ficam por longos anos em filas
de espera para serem avaliadas e, sendo o fonoaudiólogo
proibido de prestar atendimento em escolas que não
sejam de atendimento especial, muitos encaminhamentos
não têm continuidade e retorna à
escola a responsabilidade de lidar com as dificuldades
do aluno.
O que as duas áreas poderiam fazer para que as
dificuldades de linguagem fossem detectadas o mais precocemente
possível, para que os encaminhamentos realizados
pela escola fossem concluídos e, finalmente,
para que fosse minimizado o impacto da linguagem no
desenvolvimento escolar da criança? Conversar!
Mas conversar sobre o que? Em minha opinião,
Educação e Pedagogia poderiam iniciar
seu diálogo tentando compreender como cada uma
delas enxerga um mesmo alvo: a linguagem.
Sim, porque parece um equívoco julgar que os
profissionais estabelecem entre si uma comunicação
plena e clara em todos os momentos. O que salta aos
olhos (ou aos ouvidos) de alguém pode divergir
da interpretação feita pelo outro. BEFI-LOPES
(2003) apontou que o processo de identificação
da alteração é motivo de controvérsia
entre diversos profissionais em razão de uma
falta de exatidão no estabelecimento do que vem
a ser linguagem (e desordem de linguagem) e, também,
em conseqüência das variações
inter-sujeitos. Para MARTIN e MILLER (1996) diferentes
valores são atribuídos ao uso da interação
verbal, porém, ressaltaram que é importante
ter claro o que é uma variação
normal e o que é realmente um problema. As autoras
concordaram que há diferenças na maneira
de se compreender e falar sobre fala e linguagem e essas
diferenças vão depender da área
em que o profissional se encaixa.
Para minha dissertação de mestrado selecionei
dois aspectos da linguagem - a fonologia e o vocabulário
- e verifiquei a maneira como eles são percebidos
pelas educadoras de uma creche de Santo André-SP.
A fonologia (como a criança percebe e produz
os fonemas da língua) e o vocabulário
(as palavras conhecidas e usadas pelas crianças)
foram escolhidos primeiramente por serem bastante precoces
no desenvolvimento infantil e, segundo, porque já
é reconhecida a importância dessas duas
habilidades em etapas mais posteriores do desenvolvimento
como a leitura e a escrita (CUNHA e CASTRO, 1978; STACKHOUSE,
2004; SNOWLING, 2004; STAHL, 2003).
Essa pesquisa, que contou com a participação
de 123 crianças de três a cinco anos e
sete educadoras, mostrou que a maneira como fonologia
e vocabulário interferiram na percepção
das educadoras variou com a idade das crianças.
Parece haver uma tendência de se tolerar as falhas
de produção do som da língua quando
realizadas por crianças de três anos mesmo
que essas já devam ter cumprido e superado determinadas
etapas de aquisição. Ao contrário,
para as crianças mais velhas, principalmente
aos cinco anos, a maneira como a criança produz
a palavra é valorizada em detrimento da quantidade
de palavras produzidas. Uma vez que fonologia e vocabulário,
como dito anteriormente, são fundamentais para
o desenvolvimento de habilidades posteriores como a
leitura e a escrita, seria importante um esclarecimento
aos educadores sobre as etapas de aquisição
de linguagem.
Os resultados encontrados vêm apenas reforçar
a necessidade de haver trocas sistemáticas de
experiências entre os profissionais das duas áreas
em questão. Havendo um diálogo constante
via meios de divulgação, a criança
só tem a ganhar: encaminhamentos precisos, diagnósticos
precoces, atendimento quando necessário ou apenas
uma ação conjunta entre fono-escola-familia
para minimizar pequenos atrasos, tudo isso otimizaria
a vida sócio-escolar das crianças.
REFERÊNCIAS
ALVES, R.C.D. Fonologia e vocabulário na percepção
de educadoras sobre comunicação de pré-escolares.
Dissertação apresentada à Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade
de São Paulo para obtenção do título
de Mestre pelo Departamento de Lingüística.
São Paulo, 2005
BEFI-LOPES, D.M. Alterações do desenvolvimento
da linguagem. In LIMONGI, S.C.O. Fonoaudiologia: informação
para a formação - Linguagem: Desenvolvimento
normal, alterações e distúrbios.
São Paulo: Guanabara Koogan, BERBERIAN, A.P.
Fonoaudiologia e Educação: em encontro
histórico. São Paulo: Plexus, ed. 2.,
2000.
CUNHA, N.S.; CASTRO, I.C. SIDAPE: Sistema de Estimulação
Pré-Escolar. São Paulo: Criação
Editorial, 1978.
MARTIN, D.; MILLER, C. Speech and Language Difficulties
in the Classroom. London: David Fulton Publishers, 1996.
SNOWLING, M.; STACKOUSE, J. Dislexia, fala e linguagem:
um manual do profissional. Porto Alegre: Artmed, 2004.
SNOWLING, M. Dislexia desenvolvimental: uma introdução
e visão teórica geral. In: SNOWLING, M.;
STACKOUSE, J. Dislexia, fala e linguagem: um manual
do profissional. Porto Alegre: Artmed, 2004, cap.1,
p.11-21.
STACKOUSE, J. Fala, ortografia e leitura: quem está
em risco e por quê? In: SNOWLING, M.; STACKOUSE,
J. Dislexia, fala e linguagem: um manual do profissional.
Porto Alegre: Artmed, 2004, cap.2, p.22-33.
STAHL, S.A. Vocabulary and Readability: How knowing
word meanings affects comprehension. Topic in Language
Disorders, v.23, n.3, p.241-247, july-september, 2003.
Publicado
em 27/07/2007
| Estimule
a criança através de estórias
e músicas.
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