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Fonoaudiologia
e Educação |
Prof.
Dr. Jaime Luiz Zorzi *
Possibilidades de Trabalho do Fonoaudiólogo
no âmbito Escolar-Educacional
O fonoaudiólogo, diz a lei 6965, de 09 de dezembro
de 1981, “é o profissional com graduação
plena em Fonoaudiologia, que atua em pesquisa, prevenção,
avaliação e terapia fonoaudiológicas
na área da comunicação oral e escrita,
voz e audição, bem como em aperfeiçoamento
dos padrões de fala e da voz”. Como podemos observar,
tal perfil profissional configura, com clareza, atividades
e áreas de atuação que definem o
campo do fazer fonoaudiológico.
No
que diz respeito à atuação do fonoaudiólogo,
quando acompanhamos sua história, vemos que,
inicialmente, as maiores tendências foram no sentido
da avaliação e da terapia fonoaudiológicas.
Tal fato é compreensível porque nossa
profissão surgiu em resposta a uma necessidade
de atendimento a pessoas apresentando uma série
de problemas ligados à comunicação
humana, aos quais os profissionais de outras áreas
não conseguiam dar as respostas necessárias.
Para tanto, cursos de Fonoaudiologia começaram
a surgir na década de 60 com o propósito
de formar pessoas habilitadas para atender a tal demanda.
Como poderia até mesmo ser previsto, ganha corpo,
desta forma, a denominada Fonoaudiologia Clínica,
com o atendimento a portadores de distúrbios
da comunicação em ambulatórios
ou outros serviços e, principalmente, em consultórios
particulares. Temos, desse modo, esboçada a forte
influência clínica em nosso perfil de atuação
definindo os papéis complementares de terapeuta
e paciente.
A
atuação em pesquisa e prevenção,
embora encabecem a definição do papel
profissional do fonoaudiólogo, mostram-se como
realidades que só mais recentemente têm
conseguido um certo crescimento e afirmação
enquanto possibilidades de trabalho. Obviamente, não
estamos nos referindo a pessoas ou grupos que, de modo
mais isolado, têm desenvolvido, há mais
tempo, trabalhos nesse sentido. Estamos falando de posturas
ou tendências gerais, que dão o colorido
principal de uma profissão.
As
pesquisas nas áreas de atuação
fonoaudiológica têm, atualmente, apresentado
um crescimento significativo, o qual está dando
condições para o surgimento e a consolidação
da Fonoaudiologia como uma nova ciência. E o que
é mais importante, a prática clínica
começa a se interligar com a pesquisa, o que
a tem tornado, de fato, um fazer de caráter científico.
A
prevenção, por sua vez, também
começa a conquistar novos espaços, embora
face à sua importância, pareça ainda
ter uma atuação limitada. Como o próprio
termo sugere, prevenir significa criar condições
para que se evite o aparecimento de um problema. Na
medida em que causas sejam conhecidas e possam ser controladas,
determinadas patologias podem diminuir em termos de
incidência ou mesmo serem eliminadas.
Entretanto,
essa não parece ser a noção que
está por trás de certas intervenções
consideradas de caráter preventivo, como acontece
freqüentemente, em ações ligadas
ao trabalho fonoaudiológico junto a escolas.
Mais especificamente, estamos falando da chamada triagem
fonoaudiológica, cuja função, em
geral, mais do que prevenir problemas, é o de
detectar possíveis alterações auditivas,
de fala, linguagem ou de motricidade oral, já
existentes em pré-escolares, principalmente daqueles
que estão próximos da época de
serem alfabetizados. Embora a argumentação
seja no sentido de triar para prevenir problemas, essa
ação está, na realidade, mais voltada
para a detecção e encaminhamento clínico
de problemas já existentes. Podemos perguntar:
o que está sendo prevenido? Isso não corresponde
a uma real prevenção mas sim a uma intervenção
que visa detectar e eliminar um problema já estabelecido.
No máximo, estaremos amenizando seus possíveis
desdobramentos. Temos, dessa forma, um desvio causado
muito mais por uma visão clínica patológica
da Fonoaudiologia do que uma postura propriamente preventiva.
Talvez essa possa ser uma das razões pelas quais
a prevenção não tem encontrado
um terreno mais fértil para poder se desenvolver.
Outra
tendência da atividade do fonoaudiólogo
no contexto escolar tem sido a de, trabalhando em instituições
de ensino, avaliar crianças com queixa de algum
distúrbio e propor atendimento dentro da própria
escola. Devemos fazer uma distinção entre
escolas especiais que se caracterizam como instituições
voltadas para a educação e atendimento
clínico de pessoas com deficiências e escolas
comuns, com objetivos unicamente pedagógicos.
No primeiro caso, o atendimento fonoaudiológico
faz parte da proposta escolar, assim como outros tipos
de atendimento, uma vez que sua clientela está
caracterizada como um clientela com necessidades especiais.
Quanto às escolas comuns, cujo objetivo é
educar, vemos uma distorção de seus objetivos
pedagógicos quando a mesma se propõe a
uma atividade clínica. As escola comuns têm
como propósito educar e ensinar e não
tratar. Convém ao profissional fonoaudiólogo,
trabalhando em escolas, quando diagnostica problemas,
ter a postura de encaminhar o aluno para o atendimento
fora do âmbito escolar. A opção
pode ser a indicação de clínicas
ou centros de atendimento que, embora possam vir a realizar
um trabalho integrado com a escola, do ponto de vista
das necessidades do paciente, não mantenha vínculos
ou interesses comerciais com a mesma.
Gostaria,
por outro lado, além de apontar distorções
que ocorrem em termos do que se considera prevenção,
de estar propondo uma ação fonoaudiológica
que ultrapasse a noção de evitar problemas.
Creio que podemos falar de uma visão desenvolvimentista,
independentemente de estarmos pensando em patologias,
quer no sentido de detectá-las e tratá-las,
quer no sentido de evitá-las. Desenvolver, neste
caso, significa criar condições favoráveis
e eficazes para que as capacidades de cada um possam
ser exploradas ao máximo, não no sentido
de eliminar problemas, mais sim baseado na crença
de que determinadas situações e experiências
podem facilitar e incrementar o desenvolvimento e a
aprendizagem.

Tal
noção, a pretexto do tema deste artigo,
encontra como palco favorável, principalmente
a situação escolar. Além de detectar,
tratar e prevenir problemas, podemos também pensar
a atuação do fonoaudiólogo em termos
de desenvolver potencialidades, mesmo no caso de pessoas
que não sejam consideradas patológicas
ou em situação de risco. Isso significa
que, mesmo aquelas crianças que já sejam
hábeis em termos comunicativos, podem se beneficiar
de programas que tenham por finalidade otimizar o desenvolvimento,
partindo do princípio de que tais capacidades
podem ser sempre melhoradas em função
das condições criadas para seu uso. Dessa
forma, a ação fonoaudiológica no
âmbito educacional deixaria de centrar-se somente
em aspectos patológicos, beneficiando àqueles
que, em oposição ao patológico,
consideramos como normais. Em outras palavras, podemos
pensar no como os conhecimentos que o fonoaudiólogo
tem a respeito de alguma de suas áreas de atuação
– comunicação oral e escrita, voz, fala,
audição - poderiam fazer parte de programas
educacionais com o objetivo de promover desenvolvimento
otimizado, indo além de sua atuação
mais tradicional no sentido de diagnosticar, tratar
e prevenir problemas.
Na
realidade, sabemos que os problemas escolares não
estão limitados àquelas pessoas que chegam
até o fonoaudiólogo como portadoras de
algum distúrbio. Temos visto que, infelizmente,
tem se manifestado como uma situação geral,
que inclui até mesmo os que apresentam boas condições
de aprendizagem, uma dificuldade sensível no
sentido de dominarem a leitura e de se tornarem capazes
de uma expressão, de modo claro e coeso, via
escrita. Ou seja, a educação não
tem dado conta de preparar de forma adequada muitos
daqueles alunos que têm condições
favoráveis para aprender. Podemos nos perguntar
por que tantas crianças afirmam não gostar
de ler e de escrever, por que odeiam o português
e tudo o que se refere à linguagem? Como tais
situações têm sido apresentadas
para elas de modo a causar tal efeito? Que funções
têm tido a linguagem, além daquela acadêmica?
Além
do mais, as condições de trabalho de um
professor, aliadas ao esforço vocal que comumente
é observado em seu dia a dia, criam um desgaste
físico e psicológico que, certamente,
comprometem a qualidade de sua atuação.
Acrescente-se a essas situações desfavoráveis
o fato de que, raramente, o professor está preparado
para realizar aulas ou apresentações aplicando
recursos eficientes de comunicação. Aqui
está mais uma área totalmente aberta para
a atuação do fonoaudiólogo no sentido
de otimizar também as condições
de trabalho do próprio professor.
Creio
que a Fonoaudiologia, aplicando seus conhecimentos sobre
aquisição e desenvolvimento de linguagem,
voz, fala, audição, técnicas de
apresentação e controle ambiental de ruídos
poderia, em muito, contribuir para a modificação
de tal quadro.
Podemos
esboçar um conjunto de ações que
estão no âmbito de atuação
do fonoaudiólogo que teriam como objetivo promover
a otimização do desenvolvimento e da aprendizagem:
COMUNICAÇÃO ORAL
Instruir
os professores no sentido do que é a linguagem
oral e seu desenvolvimento e os objetivos de sua otimização
numa situação escolar;
Criação
e planejamento de situações de uso da
comunicação que sejam estimuladoras para
o desenvolvimento da linguagem oral e de seus padrões
de pronúncia;
Criação
de situações que possam levar a criança
a pensar sobre a linguagem que ela usa, desenvolvendo
habilidades metalinguísticas;
Desenvolver
habilidades narrativas, como contar e recontar fatos
e histórias.
COMUNICAÇÃO ESCRITA
Instruir
os professores no sentido do que é a linguagem
escrita e o seu desenvolvimento e os objetivos de sua
otimização numa situação
escolar;
Criação
e planejamento de situações de uso da
leitura e da escrita de modo a evidenciar todas as suas
funções sociais;
Criação
e planejamento de situações que possam
evidenciar o que é a ortografia, quais suas relações
com a fala e o por que dos erros que ocorrem no aprendizado;
Planejar
situações que sirvam de padrão
ou modelo para que a criança tenha parâmetros
de como pessoas maduras em termos de ler e escrever
desempenham tais atividades;
Selecionar
a literatura que será oferecida às crianças,
levando em consideração aspectos pragmáticos,
gramaticais e semânticos do texto;
Planejar
e desenvolver situações que levem a uma
real busca de compreensão de textos e a uma postura
reflexiva;
Planejar
e desenvolver situações que levem ao desenvolvimento
de habilidades narrativas
AUDIÇÃO E CONTROLE AMBIENTAL DE RUÍDOS
Criar
programa de controle sistemático da saúde
auditiva dos alunos;
Orientar
sobre as condições favoráveis que
um ambiente deve ter para que processos de atenção,
de audição e de manutenção
de interesse possam ser otimizadas;
Orientar
sobre quais são as posturas comunicativas que
podem facilitar o processo de audição;
Orientar
sobre estratégias de apresentação-oratória
e de recursos que podem ser usados para garantir uma
situação de recepção auditiva
favorável;
Criar
condições gerais para garantir um maior
controle de ruídos em geral;
VOZ
Orientar
sobre o uso adequado da voz e criar situações
que evitem o abuso vocal quer por parte dos alunos,
quer por parte dos professores;
Desenvolver
programa de treinamento vocal para professores, assim
como técnicas de apresentação
*Prof. Dr. Jaime Luiz Zorzi - Dr. Zorzi
é fonoaudiólogo, Especialista em Linguagem
pelo CFFa, com o título de nº 11. Realizou
o curso de mestrado em Psicologia Social da USP, é
mestre em Distúrbios da Comunicação
pela PUCSP e Doutor em Educação pela UNICAMP.
Diretor e professor do CEFAC, tem atuado como fonoaudiólogo
clínico desde sua formação em 1976,
na PUCSP. Dr. Zorzi tem trabalhado na área da linguagem
infantil oral e escrita e da aprendizagem, sendo reconhecido
por suas abordagens clínicas e por sua atuação
como professor. Com produção extensa na
forma de livros, capítulos e artigos, têm
firmado sua linha de pesquisa na área da linguagem
oral e escrita. Atuou como docente do curso de graduação
em fonoaudiologia da PUCSP e, atualmente, exerce funções
docentes em nível de pós-graduação.
Sócio-fundador da SBFa, participou da sua diretoria
por 3 gestões, exercendo a função
de Presidente no mandato 2000/2001. Foi também
diretor secretário do CRFa - 2ª Região,
na gestão 98/01. Dr. Zorzi está também
exercendo o cargo de Diretor - Presidente do CEFAC Clínica-Escola,
a primeira ONG no campo da Fonoaudiologia voltada para
uma atuação social e de grande amplitude.
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