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O
que sua voz diz sobre você? |
Solange Dorfman Knijnik
Formada
em fonoaudiologia pela PUC/SP há 16 anos, palestrante
em escolas (Mackenzie, Biosfera) e sindicatos (SIEEESP,
Sinprosasco), especialista em Telemarketing, autora do
curso "Operador de telemarketing e Atendimento ao
Cliente" da rede de ensino Easycomp.
Telefone consultório: (011) 3661-8445/ 9337-4547
E-mail: solange_fono@bol.com.br
Site www.solangefono.hpg.com.br
Eu estava ontem no consultório de um amigo dentista.
O telefone tocou e, como a recepcionista estivesse ocupada,
atendi.
Fui surpreendida por um telefonema, no mínimo,
intrigante.
Nele, uma moça aparentando vinte e poucos anos,
pedia para agendar um horário com o dentista. Solicitei
o nome e número de telefone a tal moça.
"Roberto", "ela" disse.
"Roberto?" Perguntei, certa de tratar-se de
um mal entendido.
"Roberto", "ela" repetia assertivamente.
Fiquei alguns instantes sem saber como prosseguir, como
daria tal recado ao dentista, um senhor de setenta anos?
Decidida a esclarecer de vez o assunto, soltei mais uma
pergunta: "Então é para outra pessoa
que você está querendo marcar?".
"Não, é para mim mesmo" respondeu
"ela", "ele" (sei lá!), não
sem um risinho nervoso que não pude deixar de perceber
e, discretamente, corresponder.
Anotei prontamente o nome e telefone, confirmei o número
duas vezes e despedi-me cordialmente.
Só me restava passar o "abacaxi" ao doutor,
avisando que não havia entendido nada! E foi o
que fiz, narrei o ocorrido e terminei sugerindo que ele
chamasse por "Robert_" ao telefone, assim mesmo,
sem emitir a última vocal.
Também levantamos algumas hipóteses: "Travesti?
Criança? Trote?".
Por
que isso? Porque aquela voz não combina com aquela
pessoa.
Provavelmente, se "Roberto" fosse ao meu consultório
como paciente, eu iria imaginar sua queixa com relação
à voz no momento em que ele abrisse a boca para
falar "Olá".
Qualquer
emissão humana, desde uma fala encadeada, cantada,
até uma simples exclamação, como
um "Olá", um grito ou suspiro, traz
com ela informações do indivíduo
que a transmite, ou seja, cumpre uma função
comunicativa.
Já em 1934, um famoso pesquisador alemão
(Karl Bühler), enumerou três principais funções:
1. Função de representação
- a voz comunica alguma coisa, ou seja, seu uso está
relacionado ao conteúdo da mensagem verbal;
2. Função de expressão - a voz
revela alguma coisa do falante, como sua idade, seu
nível sócio-econômico-cultural,
seu estado emocional, entre outros.
3. Função de apelo - a voz deseja e provoca
uma reação no ouvinte, o que significa
que existe sempre uma intenção, freqüentemente
inconsciente, no tipo de voz que se utiliza no discurso.
Podemos
citar como exemplo uma pessoa que, ao caminhar chuta
uma pedra e emite o grito "AI!". Se eu estiver
aqui no escritório de minha casa e escutar esse
grito, imediatamente, estimulada pela minha audição,
tecerei as seguintes considerações:
1.
Alguém está com dor (representação);
2. Este alguém é do sexo feminino e deve
ser jovem (expressão);
3. Sinto pena dessa pessoa (apelo).
Assim,
a voz é o veículo de nossa inter-relação,
de comunicação, um meio de atingir o outro.
É assustador ver um louco que fale sozinho pelas
ruas, simplesmente porque não há o outro.
A voz é o "tato à distância",
motivo pelo qual certas vozes nos tocam mais profundamente
do que outras, dando à mensagem por ela expressa
um significado mais especial.
É
uma experiência diária o fato de identificarmos
uma pessoa pela sua voz. Quando falamos ao telefone
com alguém que não conhecemos vai se formando
em nossa mente uma série de imagens que nos permitem
visualizar nosso interlocutor. O refinamento deste processo
é tal que, além de atributos mais simples
como sexo, idade e procedência, chegamos a projetar,
por vezes, o tipo de estrutura física e as expressões
faciais do falante.
Isso
posto, a revelação do nome "Roberto"
naquele contexto foi, sem sombra de dúvida, o
mais completo anticlímax de nosso pequeno diálogo.
Fonte
consultada: "Trabalhando a Voz", de Léslie
P. Ferreira (org.)
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