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::. Repensar Sobre o Papel do Fonoaudiólogo no Âmbito Escolar
Fga. Karine Wiggers Morais
CRFa 7929 - Fonoaudióloga CRFa-RS/T-RJ-8001
Email: nafbrasil@nafbrasil.com.br
 
Resumo

Muitas foram às dificuldades encontradas pela Fonoaudiologia, no decorrer de sua existência, diversos impasses foram vencidos. Porém, uma barreira muito presente nos dias atuais, diz respeito à falta de esclarecimento por parte da escola em aceitar e compreender o verdadeiro e único papel do profissional Fonoaudiólogo em âmbito escolar.
De acordo com CAVALHEIRO apud LAGROTTA & CESAR (1997), no inicio da trajetória da Fonoaudiologia Educacional, sentiu-se uma certa resistência ou mesmo desconfiança por parte dos profissionais da escola, talvez por
desconhecerem o fazer fonoaudiológico. Não havia uma rejeição dirigida à área, mas uma falta de identidade entre o fonoaudiólogo e o sistema educacional.
Atualmente os profissionais da escola têm solicitado a
presença do fonoaudiólogo, porém não "compreendem" que seu fazer não se limita às intervenções de caráter terapêutico.
Sendo assim, cabe ao profissional fonoaudiólogo divulgar e atuar de maneira profilática, tal como, sua proposta de atuação no âmbito escolar, de forma desenvolvimentista.

Unitermos: fonoaudiologia, papel, escolar, re(conhecimento).

Introdução:

Historicamente, a Fonoaudiologia teve suas controvérsias no início de sua inserção no âmbito educacional, se nos reportarmos as décadas de 70 e 80 veremos quão sem "orientação" foi essa inserção no sistema público de saúde - secretarias de educação e outros, basicamente por dois motivos: 1. não existir uma proposta abrangente que norteasse os profissionais; 2. bem como pelas suas próprias formações acadêmicas, que era de caráter puramente reabilitador.
Atualmente esses desnorteios inexistem, pois sabemos explicitamente a proposta da fonoaudiologia na escola; assim como temos o respaldo teórico fornecido pelas universidades.
Sendo assim, surge uma incógnita, porque será que ainda continua tão difícil, a inserção efetiva do Fonoaudiólogo nas escolas?
É importante frisar que a Fonoaudiologia Educacional tem papel único, de caráter profilático, o de proporcionar assessoria fonoaudiológica favorecendo para que a escola torne-se um ambiente saudável e propício ao desenvolvimento das habilidades comunicativas a partir da conscientização de pais, professores e alunos sobre a saúde fonoaudiológica.
Sob essa perspectiva promover a saúde fonoaudiológica no âmbito escolar, focalizando questões relacionadas ao desenvolvimento da linguagem (oral e escrita), fala, audição, funções alimentares, voz e fluência.


Revisão De Literatura

O campo da Fonoaudiologia em âmbito escolar é muito vasto, segundo
PACHECO & CARAÇA2 (1989), o fonoaudiólogo na escola pode também atuar dando orientações aos professores, sugestões técnicas que ajudem a preparar as crianças para a alfabetização propriamente dita, assim como etapas posteriores a ela. Esta atuação ajudaria prevenir problemas futuros, ficando deste modo evidenciado o caráter profilático desta participação.
Para melhor entendermos tamanha importância do fonoaudiólogo, vamos balizar aqui, apenas como meio didático, o objeto de trabalho da fonoaudiologia escolar como sendo especificamente a linguagem escrita, comunicação humana.
Há milhares de anos, mulheres, homens e crianças viviam em cavernas feitas pela própria natureza. Estas pessoas se alimentavam de frutas, ervas, raízes e carne de animais que conseguiam caçar. Nesta época as pessoas faziam desenhos que representavam animais, objetos e pessoas, sendo que estes desenhos, feitos nas pedras das cavernas, no tempo em que a escrita ainda não existia, e talvez, mal soubessem falar, é que nos trazem informações daquela época.
Com o passar do tempo o homem começou a cultivar a terra, domesticar animais e fazer trocas. Os desenhos, então não eram suficientes para o registro. Foi nesta época, portanto, que surgiram as letras. A partir daí, a escrita passou por três fases distintas até os dias atuais: a pectória, a idiográfica e a alfabética. De acordo com SACALOSKI3; ALAVARSI & GUERRA (2000), o código gráfico da leitura e escrita, é uma das formas mais aprimoradas da comunicação humana. PACHECO & CARAÇA (1989), acrescentam que, através da comunicação o homem transmite e interpreta sentimentos e pensamentos, assim como interage com outros indivíduos, numa troca de informações e experiências que o enriquece cada vez mais.
O mundo atual é extremamente rico em aspectos visuais e informações escritas, o que acaba despertando as crianças para essa forma de linguagem. Conforme PINTO4 (1995) em princípio é possível afirmar que, quando a criança chega à escola, ela domina o código oral, que continuará obviamente a enriquecer com base nas suas novas experiências, segundo um processo contínuo, que dependerá das oportunidades a que cada um pode ou não estar exposto.
A primeira fase mais importante para a vida escolar da criança é entre os seis ou sete anos quando ingressa na primeira série, e se neste momento a escola for uma experiência boa, prazerosa e positiva, o será por toda a vida acadêmica, levando-o ao sucesso escolar.
Desta forma, se tiver êxito na aprendizagem da leitura e escrita, a criança virá a adquirir a autoconfiança e a auto-estima necessárias para que lute contra os diversos obstáculos que deverá vir a encontrar ao longo dos tempos. De acordo com CAGLIARI5 (1991) antes de ensinar a criança a escrever, é necessário saber o que elas precisam da escrita, qual sua utilidade, e a partir daí programar as atividades adequadamente. Segundo SANTOS6 (1996) o domínio da língua escrita é extremamente facilitado quando impulsionado pelo desejo de ler e de escrever. Evidentemente, esse desejo só poderia manifestar-se a partir do momento em que a criança saiba da existência e função da escrita. Como a função social da escrita tem sido desvirtuada pela escola, uma vez que concentra o ensino da língua escrita em seus aspectos materiais (ortografia), ingressa neste contexto o profissional da Fonoaudiologia direcionando o seu fazer para o resgate do prazer do ler e do escrever.
Ao despertar na criança o desejo e a curiosidade em relação à linguagem escrita, estaremos anulando seu medo em relação às mesmas. Para a efetividade deste trabalho do Fonoaudiólogo, é necessário que se desenvolva uma parceria com o professor. De acordo com SACALOSKI; ALAVARSI & GUERRA (2000) fonoaudiólogo e professor precisam trabalhar juntos numa relação de troca, já que cada um tem seu papel definido e experiência dentro do imenso universo de ações que é a educação. Assim, KIRILLOS7; MARTINS & FERREIRA (1997) afirmam que a experiência da atuação do fonoaudiólogo associada a do professor, com base na integração de conhecimentos, cooperação, entendimento e discussão de exercícios de trabalho escolar, só têm a contribuir para o desenvolvimento dos alunos. Então, contrapondo-se à prática clínica dentro da escola, o fonoaudiólogo deve procurar identificar a natureza dos "distúrbios" apontados pelos profissionais da escola e promover uma reflexão, no sentido de evitar os rótulos e todas as conseqüências implicadas. Para isto, precisa-se estabelecer um vínculo, uma parceria com estes profissionais, discutindo e avaliando, com a comunidade escolar, suas reais necessidades. Na atuação em equipe, tendo perspectiva coletiva, o Fonoaudiólogo deve procurar fazer parte da equipe interdisciplinar da instituição, traçando metas conjuntas para melhor atender o grupo de alunos, participando na elaboração do planejamento escolar, das reuniões de pais e professores, entre outros. Além do trabalho em grupo, é preciso prever atendimentos individuais, ocasionais, na medida em que os profissionais sintam necessidade de discutir situações específicas. Com relação à orientação aos professores, deve caracterizar-se por um processo de formação consciente e refletida, distinta do contexto em que um grande número de pessoas recebe um conjunto de informações, que podem ou não se transformar em algo útil para o seu cotidiano.
Quanto à atuação Fonoaudiológica no ensino fundamental, é importante que se conheça profundamente o processo formal de aquisição da linguagem escrita e seu desenvolvimento. CAVALHEIRO apud LAGROTTA & CESAR (1997) aponta a grande heterogeneidade existente entre as crianças que freqüentam as primeiras séries do primeiro grau, tanto do ponto de vista sócio-econômico cultural quanto em relação a experiências anteriores com a linguagem escrita. Há uma grande heterogeneidade numa mesma sala de aula, por exemplo, que se encontram: crianças com escolarização anterior e praticamente alfabetizadas e, outras que puderam participar de experiências significativas e prazerosas com a escrita mesmo sem ter freqüentado a escola; e ainda, outras que ingressam na primeira série sem que a escrita fizesse parte do seu cotidiano. Se estas diferenças não forem consideradas, pelo Fonoaudiólogo ou outros profissionais da equipe, corre-se então, o risco de concluir precipitadamente, que muitas crianças apresentem distúrbios de aprendizagem. As ações neste nível de escolaridade podem priorizar:
¢ A reflexão sobre as questões ligadas á leitura e a escrita que possibilite a promoção de atividades com materiais de diferentes naturezas e funções em contraposição aos exercícios com função essencialmente escolar;
¢ A valorização do conteúdo e da criatividade, diminuindo a preocupação excessiva com a ortografia nas séries iniciais;
¢ Atividades de leitura, de tal forma que não haja predomínio das tarefas de escrita;
¢ A valorização de atividades que estimulam a linguagem oral.
A autora supracitada, complementa que o excesso de rigor com relação à forma (letra, ortografia) tem produzido um sentimento de medo de escrever, levando muitas crianças a produzir textos curtos e padronizados, segundo os modelos dos livros didáticos. Equivocadamente, as crianças que assim escrevem, muitas vezes são consideradas como excelentes alunos, enquanto que aqueles que expõe sua escrita de "forma gráfica desviante do padrão", e que muitas vezes possuem um bom conteúdo, acabam vistas como desviantes ou portadoras de distúrbios da escrita, por infringir regras gramaticais/ortográficas.
No que se refere ao professor, de acordo com SANTOS (1996), é que a grande maioria dos fracassos escolares, é desencadeado por atitudes deste profissional, marcados pela ansiedade e impaciência ou pelo hábito de forçar as crianças a reconhecer e copiar com perfeição as letras do alfabeto, contribuindo então, de modo a retardar ou até mesmo, perturbar a evolução da apropriação da escrita pela criança.
Cabe ao Fonoaudiólogo inserido em instituições escolares, mudar esta visão mecanicista que possa estar ocorrendo na escola, de modo a desmistificar o medo que as crianças apresentam ao ler e escrever, visto que, ao valorizarmos suas capacidades, estaremos tornando-as seguras, e lendo não pelo simples fato de ler corretamente, mas de modo que possam assimilar o que estão fazendo. Desta forma, possivelmente o Fonoaudiólogo estará tornando o ato de ler e escrever algo que desperte o interesse nas crianças, levando-os a perceberem então, a função da leitura e da escrita e o que estas representam no seu dia a dia.

Conclusão

Infelizmente, além do desconhecimento do fazer Fonoaudiológico por parte das escolas, o que encontramos muitas vezes são profissionais despreparados, atuando clinicamente nestas instituições, contribuindo equivocadamente, para a distorção desta função de caráter exclusivamente "profilático". Talvez esteja aí, a resposta para a não aceitação do papel preventivo do fonoaudiólogo numa instituição escolar, uma questão a refletir.
A classe Fonoaudiológica tem ainda, um grande caminho a trilhar rumo ao (re)conhecimento de sua "competência", em especial nas escolas. Para tal deveríamos refletir, antes de agirmos irresponsavelmente pelo "achismo", tão comum atualmente.
Nesta perspectiva, tamanha importância é divulgarmos cientificamente nosso trabalho, só assim, teremos uma Fonoaudiologia "Escolar", conquistada e acima de tudo respeitada.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

CAGLIARI, L. C. Alfabetização & Lingüística. São Paulo: Scipione, 1991.

CAVALHEIRO, M. T. P. Trajetória e Possibilidades de Atuação do Fonoaudiólogo na Escola. In: LAGROTTA, M. G. M.& CÉSAR, C. P. H. R. A Fonoaudiologia nas Instituições. São Paulo: Lovise, 1997.


KIRILLOS, L.; MARTINS, K. & FERREIRA, P. Fonoaudiologia e Escola: A Aprendizagem de uma Visão Preventiva. In: LAGROTTA, M. G. M.& CÉSAR, C. P. H. R. A Fonoaudiologia nas Instituições. São Paulo: Lovise, p. 93-97, 1997.


PACHECO, E. C. & CARAÇA, E. B. Fonoaudiologia Escolar. In: FERREIRA, L. P. & et al. Temas em Fonoaudiologia. São Paulo: Loyola, p. 201-209, 1989.

PINTO, M. A Linguagem na Criança: Aspectos Metodológicos e Alguns Contributos Para o Sucesso Escolar. In: Letras de Hoje. Porto Alegre. Vol.30, no 2, p. 99-119, junho 1995.

SACALOSKI, M.; ALAVARSI, G. & GUERRA, G. R. Fonoaudiólogo e Professor: Uma Parceria Fundamental. In: SACALOSKI, M.; ALAVARSI, G. & GUERRA, G. R. Fonoaudiologia na Escola. São Paulo: Lovise, p. 19-24, 2000.

SANTOS, M. L. A Expressão Livre no Aprendizado da Língua Portuguesa. São Paulo: Scipione, 1996.


BIBLIOGRAFIA

BOSCH, M. J. Fonoaudiologia e Escola. In: PEÑA-CASANOVA e col. Manual de Fonoaudiologia. 2ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

BUENO, J. G. Escola, Linguagem e Distúrbios de Linguagem. Revista Distúrbios da Comunicação, EDUC - ed. da PUC -SP, vol. 4, nº 2, 1991.

CAGLIARI, L. C. Alfabetizando sem o Bá-Bé-Bi-Bó-Bú. São Paulo: Scipione, 1998.

GUEDES, Z.; KOSIN, M. & LEBENSZTAJN, B. O Fonoaudiólogo e a Educação: Possibilidades de Atuação. Revista Brasileira de Saúde Escolar. São Paulo, Escola Paulista de Medicina, vol. 3, nº 1-4, 1994.

SILVA, A. P. & MASSI, G. Repensando a Vinculação entre Fonoaudiologia e Educação. Revista Distúrbios da Comunicação, EDUC ed. da PUC -SP, vol. 10, nº 1, 1998.

SOARES, M. Linguagem e Escola: Uma Perspectiva Social. São Paulo: Ática, 1987.

Estimule a criança através de estórias e músicas.
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