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A
filosofia no Ensino Médio - o que é
isto? |
Paulo
Ghiraldelli Jr - E-mail:
pgjr23@yahoo.com.br
Doutor em filosofia pela USP, doutor em filosofia da educação
pela PUC-SP, livre docente pela UNESP, doutor em filosofia
da educação pela UNESP, scholar do Pragmatism
Archive da Oklahoma State University, diretor do Centro
de Estudos em Filosofia Americana (www.cefa.org.br)
Texto:
A filosofia no Ensino Médio _ o que é
isto?
Introdução
A
filosofia no Ensino Médio brasileiro é
viável? Sim! Pode colaborar com a melhoria da
formação educacional dos jovens? Sem dúvida.
O que adotar, em relação a seu ensino,
se apostarmos - e de fato apostamos - na introdução
da filosofia nas escolas particulares e públicas,
em todo o Brasil? A resposta é simples: uma perspectiva
plural, que apreenda os principais paradigmas da filosofia.
Filosofia como desbanalização
Platão
e Aristóteles deram à filosofia uma de
suas melhores definições. Eles viram a
filosofia como um discurso admirado e/ou espantado com
o mundo. É difícil abandonar a idéia,
dos clássicos gregos, de que um discurso que
fala sobre o mundo e que responde questões do
tipo "o que é um raio?", "como
acontece um raio?", é um discurso curioso,
como discurso da ciência, mas que não denota
alguém tão admirado e/ou tão espantado
quanto aquele que pergunta "o que é o que
é?" - esta é uma pergunta do discurso
filosófico. As perguntas da filosofia mostram
uma atitude de máxima admiração,
pois demonstram inquietude com aquilo que até
então era o mais banal. Se alguém pergunta
"o que é que é?", este alguém
está criando a desbanalização de
algo super banal, que é a condição
de ser, o que até então não havia
preocupado ninguém. Nós, por exemplo,
estamos cotidianamente preocupados em saber coisas que
não sabíamos. Agora, perguntar pelo ser
das coisas que queremos saber o que são, nos
parece meio fora de propósito. Por que teríamos
de perguntar pelo que é tão banal? Ora,
o que a filosofia faz, na acepção tradicional
que vem de Platão e Aristóteles, é
justamente isto: ela põe certas perguntas que
nos obriga a olhar o banal como não mais banal.
A filosofia, então, é o vocabulário
com o qual desbanalizamos o banal. Tudo com o qual estamos
acostumados, fica sob suspeita, sob o crivo de uma sentença
indignada, e então deixamos de nos ver acostumados
com as coisas que até então estão
estávamos acostumados!
A
filosofia como saber ignorante
Se
fosse perguntado a Sócrates "o que é
a filosofia?", ele, se viesse a entender a pergunta,
não a responderia como Platão e Aristóteles,
ainda que não os desmentisse. Sócrates
esteve mais disposto a fazer filosofia do que erigir
uma discussão meta-filosófica. Estava
disposto a fazer da filosofia um trabalho com conseqüências
drásticas. Ele não estava interessado
na admiração ou no espanto com o que é
banal no mundo, mas motivado a ver a desbanalização
do que poderia ser tomado como banal para si mesmo e
para outros homens: a condição de cada
um a respeito do que sabe sobre o mundo e sobre si mesmo
em relação à conduta na vida prática,
na vida moral. No jogo de perguntas e respostas para
cada transeunte de Atenas, Sócrates não
tinha respostas para nada, ainda que tivesse um bom
número de perguntas cujo objetivo era levar seus
interlocutores a perceberem que o que sabiam do mundo
e de si mesmos, especialmente no campo das verdades
morais, era muito pouco, e que a condição
de sábio, aquele que poderia se auto-conhecer,
só era justificável por aqueles que sabiam
que nada sabiam.
A
filosofia como crítica da razão
Entre
a desbanalização do banal e o auto-conhecimento
que leva a se saber ignorante, há ainda uma outra
acepção de filosofia, que apareceu na
modernidade. Trata-se da filosofia como um discurso
da razão enquanto crítica da razão.
Kant foi quem acreditou que o papel da filosofia era
o de crítica de tudo aquilo que ela, e não
só as ciências, poderiam dizer. Ele se
propôs, então, a colocar a razão
em um tribunal um tanto esquisito, uma vez que a razão
estaria nele como ré e juiz ao mesmo tempo. Foi
a época na qual a filosofia se transformou, basicamente,
em epistemologia, perguntando não mais coisas
a respeito do mundo (humano, social, físico),
mas sim, especificamente, sobre o conhecimento; ou mais
exatamente sobre as condições do conhecimento
e da normatividade, sobre os limites da razão
na sua tarefa de produção do saber e de
delimitação das normas de conduta.
Kant
perguntou sobre as condições do conhecimento
e da liberdade de agir e, assim, elaborou a crítica
da razão, tanto da razão teórica,
a que conhece, quanto da razão prática,
a que julga e que é responsável pela conduta
moral, sendo que também esboçou algo semelhante
em relação ao aparato capaz de fazer juízos
estéticos. Mas Kant fez essa crítica,
em grande medida, sem levar suficientemente a sério
a história.
Ora,
Marx, por sua vez, tendo lido Hegel, o filósofo
que racionalizou a história e historicizou a
razão, levou adiante a idéia da filosofia
de Kant como uma busca pela crítica da razão,
mas uma razão banhada na racionalidade dos homens
no mundo histórico. Daí que a crítica
de Marx não era somente uma crítica da
razão, tomada em um sentido epistemológico
puro, mas a crítica da racionalidade da vida
humana enquanto vida social e econômica. Não
à toa, portanto, a obra máxima de Marx,
O Capital, vinha com o subtítulo "crítica
da Economia Política". A racionalidade humana
enquanto impregnada no âmbito sócio-histórico
havia sido descrita pelos teóricos da "Economia
Política", mas Marx achava que eles não
haviam levado em conta um estudo crítico, ou
seja, um estudo capaz de revelar limites, condições
e pressupostos de suas próprias conclusões.
O conhecimento da vida econômica e social dos
homens deveria passar por uma atividade que, hoje, podermos
chamar de epistemologia social crítica.
A
filosofia como terapia da linguagem
Os
filósofos do Círculo de Viena e Wittgenstein
fizeram uma revolução na filosofia. Para
eles as atividades de desbanalização,
de adquirir o saber ignorante e de crítica só
tinham algum sentido se fosse levado em conta que tudo
isso estava impregnado da idéia de que a filosofia,
desde sempre, procurou por algo que, talvez, não
fosse lá muito correto de se procurar: um ponto
arquimediano, ou seja, uma âncora que ligasse
pensamento ou linguagem ao mundo. Em outras palavras,
a filosofia teria sido, de alguma forma, desde sempre,
uma metafísica, e a metafísica seria apenas
um grosseiro erro provocado por uma linguagem excessivamente
rebuscada. A filosofia, ao ter se dedicado à
busca de fundamentos metafísicos que envolviam
a criação de uma linguagem descuidada,
teria se enredado em um sem número de problemas,
todos eles, na verdade, pseudo-problemas, pois adviriam
de confusões criadas por um uso indevido das
palavras, sentenças, proposições
etc.
Alguns
desses filósofos acreditaram que a filosofia
poderia ainda ser crítica, mas crítica
da linguagem, de modo a revelar o que é que haveria
de puro e realmente sólido por baixo de tantas
frases meramente alusivas, metafóricas etc, na
nossa linguagem, tanto quando falamos no cotidiano quanto
quando falamos cientificamente. Outro grupo nunca achou
que a atividade de análise da linguagem, que
seria então a atividade par excellence da filosofia,
deveria cumprir uma função crítica,
desveladora, iluminista, mas que ela seria, sim, apenas
uma terapia da linguagem: ela teria menos a ver com
"resolver problemas" e mais a ver com "dissolver
pseudo-problemas". De Nietzsche aos positivistas
lógicos e filósofos analíticos
do século XX, muitos quiseram ver o fim da metafísica
adotando uma postura que incidiu em colocar a linguagem
na sala de cirurgia.
A
filosofia como redescrição de nós
mesmos e do mundo
Quando
perguntaram a Richard Rorty qual era o livro mais importante
do século XX, ele citou as obras de Freud que
mudaram a imagem que tínhamos de nós mesmos.
Certamente, se a conversa fosse sobre outros séculos,
Rorty teria falado de Darwin, de Jesus etc., ou seja,
todos aqueles que contribuíram para gerar discursos
capazes de descrições inovadoras sobre
nós mesmos, os "bípedes sem penas".
A tarefa da filosofia, para o neopragmatismo de Rorty,
é basicamente a tarefa de poder nos dar imagens
de nós mesmos com as quais possamos estar mais
seguros de que temos mais potencialidades do que até
então contávamos para nós mesmos.
Sendo assim, a tarefa da filosofia seria a de colaborar
com um discurso que nos convencesse continuamente de
que podemos ser mais livres.
Rorty,
como Hegel, gosta de ver a história como caminhando
em direção à liberdade, ainda que
diferentemente de Hegel ele não acredite que
a história tenha um caminho. Mais liberdade,
para Rorty, é algo que só pode ser alcançado
se sobrepusermos imagens de nós mesmos que nos
convença que podemos ser mais do que somos: mais
plurais, leves, soltos, audaciosos, diferentes, livres,
enfim, capazes de usar dessa liberdade para a construção
de sociedades democráticas onde sejamos mais
diferentes, mais livres, mais plurais, mais leves, mais
soltos e mais audaciosos. Todavia, diferente de toda
e qualquer outra filosofia ou doutrina, esta não
seria uma doutrina sobre o que é o mundo, capaz
então de nos dizer que nossa ação
está fundamentada, mas sim uma teoria sobre nós
e o mundo que funcionaria ad hoc. Assim sendo, como
teoria ad hoc, ela não poderia ser desbancada
com a acusação de querer fundamentar qualquer
saber, reivindicando para si a falsa legitimidade de
um saber de segunda ordem, eleito por si mesmo. Rorty
pretende sair do eterno círculo denunciado pelos
filósofos da Escola de Frankfurt, por Foucault
e por Derrida, que faz da filosofia não instância
de saber mas, sim, instância de poder. Como teoria
ad hoc ela seria bem mais útil.
A
filosofia deve ser uma dessas descrições?
Podemos dizer que sim e não. Ela pode ser, dependendo
de como conversamos e do que queremos fazer, o conjunto
dos objetivos postos por cada uma dessas acepções.
Isso nos levaria a cair em contradições
e, enfim, deixarmos de agir filosoficamente? Se não
tomarmos cuidado, sim, mas se formos inteligentes, não.
A
filosofia para os jovens
Por
que os jovens não podem, como Aristóteles
e Platão, aprenderem o método de desbanalizar
o banal? Por que os jovens não podem, como Sócrates,
colocar os "temas humanos" em questão
infinitamente? Por que os jovens não podem, como
na tradição que vai de Descartes até
Marx passando por Kant e Hegel, usar da razão
para questionar a racionalidade? Por que os jovens não
podem imaginar que vários de nossos problemas
são apenas pseudo-problemas vindos das formas
da linguagem? Enfim, por que os jovens devem ser impedidos
de fazer novas descrições de nós
mesmos e do mundo?
É
difícil entender que exista alguém em
nosso país que se possa achar com autoridade
de dizer que nossos jovens "estão despreparados"
para lidar, de um certo modo, com as várias formas
de filosofar apontadas acima. É difícil
entender a razão pela qual a um jovem é
permitido aprender várias formas de calcular
ou de mapear o mundo, e que lhe seja proibido aprender
várias formas de filosofar. Por que nossa nação,
com tantas "faculdades de filosofia, ciências
e letras", não pode designar seus formandos
para trabalhar com os jovens de modo a lhes ensinar
as formas de filosofar acima postas? Alguém de
nós seria tão superior a todos a ponto
de ousar falar que os professores de filosofia que temos
não seriam capazes de ensinar a filosofar segundo
as definições postas acima? Afinal, quem
poderia dizer que, ao sair da faculdade, já sabia
"como ensinar filosofia"? Nem o melhor dos
filósofos, hoje, diria isso! Qualquer resposta
para tais questões, que venha a querer justificar
a não inclusão da filosofia no Ensino
Médio brasileiro será, certamente, menos
uma justificativa e mais uma peça ideológica
ou elitista ou desinformada ou, enfim, realmente obscurantista.
As formas de filosofar são um patrimônio
cultural que, em todo o Ocidente, pertence aos jovens.
Em um país como o nosso Brasil, para que de fato
a filosofia possa vir a pertencer aos jovens, ela deve
estar na escola - esta, mal ou bem, tem sido o local
onde o maior número de pessoas conseguem acesso
ao maior número de informações
especiais, ainda não dispostas em outros lugares
de uma maneira eficaz, capaz de ser apropriada pela
juventude. A filosofia no Ensino Médio é
mais que uma necessidade - ela, agora, é um dever
do Estado na nossa democracia, como uma forma de não
negarmos aos nossos filhos uma grande parte do que há
vinte e cinco séculos fazemos no Ocidente.
Bibliografia:
Ghiraldelli Jr., P. Introdução à
filosofia. São Paulo: Manole, 2003.
Matos, O. A Filosofia - a polifonia da razão.
São Paulo: Scipione, 1997
Currículo
do autor: www.cefa.org.br/cv.htm
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