| ::. A
importância da leitura para a produção
de textos |
Patrícia Ferreira Bianchini Borges
Professora do Projeto Sala de Recursos da Rede Municipal
de Ensino de Uberaba, licenciada em Letras pela Uniube
- MG, e pós-graduanda em Estudos Lingüísticos:
"Fundamentos para o Ensino e Pesquisa" pela
UFU - MG.
Email:
patybianchini@hotmail.com
''Aprende
a escrever bem ou a não escrever de jeito nenhum.''
(Deyden)
''Para escrever bem deve haver uma facilidade natural
e uma facilidade adquirida.'' (Joubert)
''Quem me dera saber escrever!'' (Campoamor)
''O ato de escrever é a arte de sentar-se numa
cadeira.'' (Sinclair Lewis)
''Escrever é um ócio trabalhoso.'' (Goethe)
''O pensamento voa e as palavras andam a pé.
Aí está o drama de quem escreve.'' (Julien
Green)
''A cesta de papéis é o primeiro móvel
na casa de um escritor.'' (Ernest Hemingway)
''Ainda que seja um intelectual das letras, não
deveis supor que eu não tenha tentado ganhar
a vida honradamente.'' (George Bernard Shaw)
''O que se lê sem esforço foi escrito
com muitas dificuldades.'' (Enrique J. Poncela)
Carneiro (2001:9): "Todos, escritores, ou não,
são unânimes em apontar as dificuldades
da tarefa de escrever. Muitos a consideram um aprendizado
demorado, dispendioso e pouco eficiente, já
que são poucos os que chegam a redigir textos
de forma adequada. Outros afirmam que escrever é
lutar inutilmente contra as palavras, pois parecem
nunca atingir plenamente os objetivos pretendidos.
Além do mais, no nosso cotidiano, a língua
falada parece ocupar um espaço de maior prestígio
- jornais falados, mensagens gravadas em fitas, telefonemas,
etc. substituem tradicionais meios de comunicação
que utilizam a língua escrita. Diante desse
cenário, cabe a pergunta - Ainda vale a pena
aprender a escrever? A escola parece acreditar que
sim, já que ainda prioriza a escrita... Mas
de onde vem essa importância? Por que, apesar
das dificuldades, alguns ainda acham que devem continuar
a defender o seu ensino?"
O texto, transcrito acima, faz parte da introdução
do capítulo ''Para que aprender a escrever?'',
o qual parece apropriado para o início de uma
reflexão acerca desse assunto.
''Escrever é falar no papel.'' Esta é
uma frase, retirada do livro de Donald Weiss, "Como
Escrever com Facilidade"; no qual o autor assegura
que o medo acaba inibindo pessoas alfabetizadas de
escrever. Já que escrever é falar no
papel, o primeiro passo, segundo ele, para perder
este medo é escrever como se estivéssemos
falando. Escrever sem medo e sem preguiça,
fazer vários rascunhos, ler em voz alta o texto
escrito para descobrir as falhas (sub-vocalização)
são técnicas indispensáveis;
e o restante advém da coragem de não
ter medo de errar e de ser criticado por alguém
que nunca escreveu nada, mas que está sempre
pronto a destruir a criatividade do outro.
Na escola, uma grande dificuldade enfrentada pelos
alunos com relação ao escrever refere-se
à necessidade que eles têm de deixar
a linguagem coloquial, "aquela do dia-a-dia",
e passar a se expressar por escrito, numa linguagem
mais formal e mais cuidadosa. A fala por ser mais
espontânea, menos cerimoniosa e com certeza
mais fácil que escrever, e pelo fato de a escrita
ter normas próprias (ortografia, acentuação,
etc.), a falta de um interlocutor à sua frente
exige deles que obedeçam a essas normas.
Outra questão muito comum entre os alunos é
dizer que aquele dia "não estão
inspirados", que não vão conseguir
escrever. Esta afirmação, para Gustavo
Ioschpe, jornalista da Folha de São Paulo,
não tem fundamento, pois garante que ''além
do 1% de inspiração que está
no DNA de qualquer aspirante a Shakespeare, o que
é determinante são os 99% de transpiração".
Outra grande referência é a opinião
de Garcia (2002:301) que assegura: ''aprender a escrever
é, em grande parte, se não principalmente,
aprender a pensar, aprender a encontrar idéias
e a concatená-las, pois, assim como não
é possível dar o que não se tem,
não se pode transmitir o que a mente não
criou ou não aprisionou.'' Considera ser ilusório
supor que se está apto a escrever quando se
conhecem as regras gramaticais e suas exceções.
Evidentemente, um aluno precisa de um mínimo
de gramática indispensável (grafia,
pontuação, um pouco de morfologia e
sintaxe), que permitirá a ele adquirir certos
hábitos de estruturação de frases
modestas, mas claras, coerentes e objetivas, embora
se isto não seja suficiente.
Considerando a produção de textos na
escola, pode-se dizer que cabe aos educadores, portanto,
propiciar condições para o aluno exercitar-se
na arte de pensar, captar e criar suas próprias
idéias, através de atividades que exijam
reflexão e produção de um novo
texto; e para alcançar esse objetivo, deve-se
utilizar a criatividade, sempre considerando e usando
"A PALAVRA" como veículo de expressão
do pensamento, desenhando através da "ARTE
DA PALAVRA ESCRITA" um texto original, diferente,
como se fosse uma verdadeira obra de arte.
À primeira vista, pode-se pensar que cada palavra
escrita é objeto de uma "convenção"
que associa arbitrariamente, uma forma gráfica
específica a um sentido específico.
Mas é preciso ter em conta que a língua
escrita é um "código derivado"
da língua oral. Se a relação
entre a expressão sonora das palavras e o seu
sentido é arbitrária, a relação
entre a expressão sonora das palavras e sua
forma gráfica - exceções à
parte - não é. Subjacente à relação
não arbitrária entre a forma ortográfica
e a forma fonológica há um princípio
que o aluno deve descobrir: o alfabético.
Freqüentemente, no ensino da leitura, tenta-se
conciliar o inconciliável: fazer compreender
como funciona o código escrito pela descoberta
do princípio alfabético e fazer descobrir
as finalidades e as questões envolvidas na
leitura usando os mesmos textos. Estes dois objetivos
complementares exigem que os alunos apóiem-se
sobre suportes escritos de dimensões e de natureza
muito diferentes. A descoberta do princípio
alfabético exige a manipulação
de segmentos curtos e cuidadosamente escolhidos para
uma ilustração precisa, já a
tomada de consciência da diversidade dos escritos
e de suas finalidades individuais e sociais exige
escritos ricos, autênticos e socialmente significativos.
Fazer compreender, a partir de um mesmo suporte escrito,
como "funciona" o código e para que
ele serve quando colocado em funcionamento introduz
o risco de empobrecer, e mesmo perverter uma das duas
tarefas: textos muito curtos, insípidos, sem
ambições semânticas e sem significado
social não podem revelar a um aluno o que é
ler; em contrapartida, textos ricos, variados, carregados
de sentido são impróprios para colocar
em evidência as relações que ligam
as letras e os grupos de letras escritas aos sons
orais.
Ao colocar-se o ler e o escrever ainda como desafios,
deve-se ter em mente que formar o leitor é
também compreender e conhecer esse modo de
ser oral de nossa cultura urbana, o qual disputa terreno
com a tradição escrita, com seu apelo
facilitador à inteligibilidade do mundo. Situá-los
nesse ambiente de turbulência cultural, enfrentando-o,
sem negá-lo ou ignorá-lo, estar em seu
meio e a partir dele, utilizar seus recursos, dirigir
uma proposta política/ética/estética
ao aluno, para integrá-lo a uma compreensão
de mundo que vise à interação
com tudo que esta carrega de coerências e contradições.
Professores podem e devem planejar um ambiente, em
sua dimensão tanto física quanto social,
no interior da unidade escolar, mais especificamente
na sala de aula, que se constitua num espaço
cultural capaz de instigar/sugerir/convocar certos
conhecimentos, atitudes, valores, desejos e reflexões.
Formando leitores dentro das diferentes naturezas
da linguagem escrita e visual; agregando ao ato solitário
da leitura do texto escrito o movimento de luz e sons;
motivando e formando alunos/leitores, mesmo dentro
dessa sociedade, tão urbana e tecnológica,
em que estão inseridos.
Uma orientação eficiente para a prática
de produção de textos, na escola, deve
envolver procedimentos fundamentais distribuídos
em dois grandes momentos: o que antecede e o que coincide
com o ato de escrever, propriamente dito. No primeiro
momento, há que se orientar na busca de conteúdos
(idéias, opiniões, informações)
a serem colocados no papel; no segundo, não
menos importante, deve-se preocupar com o modo de
fazê-lo, resgatando e/ou apresentando habilidades
de estruturação do texto que permitam
tecer microestruturas eficazes para se conseguir um
texto coeso e coerente com as idéias e intenções
do autor.
Os alunos devem estar convictos de que escrever é
expressar idéias, conceitos, informações,
sentimentos, sensações de maneira clara,
coesa e coerente com aquilo que se deseja e cabe ao
professor ensinar-lhes a selecionar e manipular tanto
palavras e frases como idéias, conceitos e
informações para que possam obter o
resultado desejado em sua produção textual.
Para encerrar uma apropriação das sabias
palavras do grande mestre Rubem Alves: "Bom seria
que o professor dissesse aos seus alunos - Leiam esse
livro. Ruminem. Depois de ruminar, escrevam os pensamentos
que vocês pensaram, provocados pelos pensamentos
do autor. Os pensamentos dos outros não substituem
os seus próprios pensamentos. Somente os seus
pensamentos estão vivos em você. Um livro
não é para poupar-lhes o trabalho de
pensar. É para provocar o seu pensamento."
Referências
Bibliográficas:
CARNEIRO, Agostinho Dias. Redação em construção.
A escritura do texto. 2 ed. rev. e ampl. São
Paulo: Moderna, 2001.
GARCIA,
Othon Moacyr. Comunicação em prosa moderna.
21 ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio
Vargas, 2002.
Publicado
em 06/10/2007
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