| ::. Autoridade
do Professor |
Poeta
Professor Silas Correa Leite
Site pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm
E-mail - poesilas@terra.com.br
Poeta Prof. Silas Corrêa Leite, Educador, Jornalista,
Escritor Premiado De Itararé-SP
Membro da UBE-União Brasileira de Escritores
Educador da Rede Pública e Particular de Ensino.
Pós-graduado em Educação, Literatura,
Relações Raciais e Inteligência Emocional.
Autor do Romance Virtual de sucesso ELE ESTÁ NO
MEIO DE NÓS, no site: www.hotbook.com.br/rom01scl.htm
"O
tempo está fora dos eixos/O ódio maldito
ter nascido para colocá-lo em ordem (...)"
Hamlet, Shakespeere
Sou
do tempo em que um Professor ganhava igual a um juiz.
Em que os pais tinham poder e competência, isto
é, amavam, mas promoviam as necessárias
sanções. Em que a Família era tudo
e, a Escola por ela mesma, um degrau para a escala social.
Bons tempos aqueles. Mas os tempos mudaram, como o tempo
nos muda de nós mesmos, muda tudo, tivemos revoluções,
utopias, sonhos, seqüelas, pois na seqüência
o estado falhou, no flanco o quinto poder da violência
e, quando vemos, nem temos mais a autoridade do estado,
nem a família tem mais estrutura, e acabamos
na encruzilhada da escola, sem saber como - no dia-a-dia
de uma sala de aula - prevalecer uma autoridade que,
por si só, seja humanista, ética, funcional,
e ainda abarque todas as conseqüências dessas
desestruturas todas, no rol histórico no mundo
em que vivemos. Antes era o tal “Mondo Cane”. Hoje o
“mundo está em pane”.
O
sonho acabou, o totalitarismo fomentou muros, no flanco
o neoliberalismo globalizou a informação,
mas, trouxe, de contra-peso, a impunidade, a tal nova
ordem econômica mundial e uma juventude bem diferente
daqueles topetudos jovens que fomos, e soubemos ou não
soubemos ser, porque a nossa rebeldia era contestar
com o amor e flor, quem fazia a guerra não fazia
amor, a Guerra do Vietnã e o Agente Laranja.
Hoje os tempos tenebrosos (para citar Bertold Brecht)
são outros, o aluno fica entendiado na escola,
a sala de aula por ela mesma não é nada
com tantas informações que traz de casa,
é, por assim dizer, abduzido pelas culturas juvenis
também como forma de protesto emergente, e então
perguntamos: e a tal Autoridade do Professor?
Copiar lições? Nem pensar.
Só ouvir? Não, querem confundir, chamar
atenção, discordar; o consumismo, o modismo,
a última tecnologia, e o professor ali, feito
um papagaio de pirata, não sabe se toca a aula
inócua, se dança um rap de repente, se
otimiza a aula pela tentativa de diálogo, porque
só apagador e giz não vai resolver, só
o simples sistema de passar conteúdo é
pouco, a didática real tem que atrair o jovem,
inspirar o jovem, e, certamente, nem todo educador está
preparado para esse chamado olho de furacão.
Já pensou?
Se Paulo Freire valoradamente já
dizia que ninguém sabe tudo, assim como ninguém
é ignorante de tudo, hoje o jovem tá ligado
na net, tá a fim de outros saberes, em que o
celular é mais importante do que uma lousa fria,
e em que o agitado grupo de rua (a turma barra pesada
ou não) aparece e brilha num contexto imediatista,
tudo isso é mais interessante do que copiar lições,
ficar colado numa carteira incômoda. Banalizada
a violência, banalizada a cultura (adeus às
tradições), o que o jovem busca é
diferente do que a escola pode oferecer num primeiro
momento, ou mesmo a médio e longo prazo. E o
tempo do jovem é aqui e agora.
Aquele “cérebro-barrinha-de-cereal”
não aceita mais a gordura letral de uma cultura
que já deu o que tinha de dar, e na escola não
acrescenta a cultura da clientela ao conteúdo.
E o consumo é estético, não de
conteúdo humanista.
Aquela “barriga de tanquinho” da musa
televisiva, não demonstra que aceita afeto-grude.
A relação passageira é promíscua,
não tem conteúdo plural-comunitário.
Aquele “espírito de skate” (rápido e rasteiro)
não quer saber de questionário, trabalho
de casa, pitos por comportamentos inadvertidos, o hormônio
viça diferente nesses tempos.
Lar? Família? O vazio fluindo,
e assim se forma o jovem contemporâneo, feito
um receptáculo midiático, desde a apresentadora
mãe solteira, o juiz ladrão impune, o
professor com tantos cursos e que ganha menos o que
um “avião” de boca-de-fumo. Já pensou?
A riqueza do corpo, não a riqueza
do conteúdo. A escola perdeu importância,
e o Professor ali, aturdido, pirando também,
frustrado sim, achando que ele é o culpado, quando
os tempos mudaram, as mudanças talvez pioraram
a qualidade humana do “humanus”, a sociedade entre a
impunidade e a hipocrisia, e o aluno ali, querendo uma
“aula viva”, que nem sabe explicar direito o que é
exatamente, querendo ser in/formado mas sem ser chateado,
querendo aprender mas sem deixar de ser o que acha que
é, e nessa relação - num tempo
de travessia - o jovem contesta (contestar é
a sua maior rebeldia), o professor tem que saber levar,
ter postura, ter entrosamento, mas saber que, sim, é
muito mais difícil lecionar agora do que era
antes. Já pensou?
Hannah Arendt nos diz: “A educação
é o ponto em que decidimos se amamos o mundo
o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele,
e com tal gesto salvá-lo da ruína que
seria inevitável se não fosse a renovação
e a vinda dos novos e dos jovens(...) E conclui: “A
Educação, é, também, onde
decidimos se amamos nossas crianças o bastante
para não expulsá-las de nosso mundo e
abandoná-las a seus próprios recursos,
e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade
de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós,
preparando-as em vez disso com antecedência para
a tarefa de renovar um mundo comum” (In, Entre o Passado
e o Futuro).
Essa é a questão, o ponto
chave, e o professor precisa se encaixar aí,
buscando a sua autoridade nesse meio de alguma maneira,
sem ser autoritário, mas, também e principalmente,
sendo competente (e hábil) naquilo que faz. Lembro-me
que, certa feita, numa pesquisa escolar, foi questionado
o que exatamente os alunos esperavam do professor, e,
tabuladas as tantas respostas, a primeira foi de que
o mestre fosse competente naquilo que ele se propunha
a fazer (manjava mesmo do assunto, dominava a matéria,
falava bem, tinha paciência, didática brilhante,
etc.), e a segunda era de que ele fosse aberto, democrático,
liberal, ou seja: soubesse intermediar o jovem nessa
difícil travessia de estar na escola mas precisando
ser cativado para valorar a escola, estar em sala de
aula mas querendo assim mesmo não deixar de ser
jovem e livre, tendo no professor um imediato cidadão
semelhante ao pai e à mãe que, bem ou
mal pode encarar, precisa encarar (formar a persona?)
discordar (mesmo às vezes sem saber discordar
ou ser imprudente), criticar mesmo sem ter fundamento,
fazer o que até nunca pode fazer em casa, mas,
mostrar-se ali, marcar seu território, pois,
afinal, desafiar é com ele mesmo, mas um desafio
que, raso ou não, o professor tem que tentar
compreender rapidinho, alertar sem ferir suscetibilidades
(os tempos são outros), mostrar pro aluno que
capotou a mensagem mas não necessariamente acusou
o golpe, pois soube se sair bem, lidar com a situação
e ganhar com categoria a turma, a sala, o meio, a aula...
Sim, o jovem pensa que pode tudo, busca
se afirmar assim. É natural essa postura para
a sua idade. E o professor não pode pensar também
que pode tudo ou sabe tudo, pois aí estaria se
anulando no caminho da mudança, ou se fazendo
de omisso de não querer evoluir para melhorar,
afinal, Bertold Brecht já dizia “Tudo o que é
perfeito e acabado está podre”
Ser
jovem não é fácil nunca. Ser professor
não é fácil também. Jovem
é um tempo, um lugar, uma idade, uma situação.
O professor teve o livre arbítrio de escolher
a sua profissão, não pode fugir da raia,
refugar frente tantos problemas que, sim, ocorrem na
escola o tempo todo.
O aluno não teve opção
a não ser estar ali para aprender e aprender
a pensar, mas estará na defensiva e com certo
medo daquele horrível mundo “adulto” e certamente
muito adulterado de alguma forma, pois o jovem nesse
estágio de vida e idade até como cidadão
em formação e na defensiva, realmente
não vai concordar nunca.
Recusarmos esse mundo tal como ele se
nos resta, seria recusarmos à nossa própria
autoridade de assumirmos o que legamos (de bom ou mau)
aos jovens, como se de alguma triste maneira pedíssemos
demissão de sermos pais, sermos autoridade, sermos
cidadãos ou até mesmo seres humanos.
Que
legado é esse? Não, de alguma maneira,
não somos inteiramente inocentes. Que mundo é
esse? Foi para esse mundo que trouxemos as crianças,
os jovens, os alunos, vamos lavar as mãos agora?
E lá vem a filósofa Hannah Arendt de novo:
“ ...faz parte da essência da atividade educacional
- cuja tarefa é sempre abrigar e proteger alguma
coisa – a criança contra o mundo, o mundo contra
a criança, o novo contra o velho, o velho contra
o novo(...)”.
Precisamos
e devemos recuperar de alguma forma essa tal “autoridade”,
custe o que custar, doa o que doer; ser a autoridade
apaziguadora no dia-a-dia, intermediando as idas e vindas
das trocas, nas relações de meio, nas
somas educacionais, pois, afinal, que alunos queremos?
Numa época difícil, numa sociedade que
é de tantas riquezas impunes, tantos lucros injustos,
tantos contrastes sociais, o jovem é sim, de
alguma maneira, por assim dizer, uma seqüela social
também, quando não um triste rejeito social
dessa mesma sociedade incompetente e inadequada (incompetente
e inumana) que podemos estar até representando
sem saber, ou até mesmo podemos estar reproduzindo
com medo das naturais mudanças que toda época
tem, e todas essas épocas joviais, estudantis,
significam mudanças, significam evoluções,
aprimoramento, muito além do próprio mundo
das idéias.
Você
professor, tem autoridade para cair na real?
Publicado
em 17/08/2009
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