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Bullying
na escola e na vida |
Rosana
Maria César Del Picchia de Araújo
Nogueira
Mestre em Educação e Ciências Sociais
pela PUC/SP e doutoranda em Educação e Ciências
Sociais pela PUC/SP - Email: rosananog@uol.com.br
Kátia A Kühn Chedid
Orientadora Educacional, formada em Pedagogia pela PUC-SP
e especializada em Psicopedagogia - Email:
kakchedid@uol.com.br
Este
é um problema que afeta as nossas escolas, comunidades
e toda a sociedade. Existe violência moral, intimidação
ou bullying nas escolas de todos os países. O
certo é que este comportamento não está
restrito a nenhum tipo de instituição.
Além disso, a única forma de evitá-lo
é uma ampla discussão com pais, professores
e alunos e a orientação particular de
casos observados.
Nossas crianças, ou a maioria
delas está em contato com atos violentos em todas
as esferas de seu relacionamento. Comportamentos de
pressão, opressão, intimidação,
gozação, perseguição são
comuns em seu dia-a-dia. Obviamente, nem todos estes
acontecimentos podem ser caracterizados como bullying.
Alguns episódios esporádicos e brincadeiras
próprias de cada faixa etária, mesmo com
comportamentos inadequados não trazem conseqüências
para a auto-estima das crianças e fazem parte
seu desenvolvimento e de sua socialização.
O bullying é um comportamento
que é recorrente e causa baixa auto-estima e
insegurança em seus atores. Normalmente existem
três tipos de envolvidos em uma situação
de violência moral: o expectador, a vítima
e o agressor.
O expectador é aquele jovem ou
criança que vê diariamente as situações
de bullying e torna-se inseguro e temeroso. Ele não
conta suas impressões por receio de tornar-se
alvo ou por ter sido ignorado pelos adultos nas tentativas
que fez de comentar certos fatos.
A vítima é aquele jovem
ou criança frágil que é frequentemente
ameaçado, intimidado, isolado, ofendido, discriminado,
agredido, recebe apelidos e provocações,
tem seus objetos pessoais furtados ou quebrados. Normalmente
mostra-se arredio, demonstra medo ou receio de ir para
escola e não procura ajuda por sentir-se indefeso.
Ele pode ter baixo rendimento escolar, ficar deprimido,
ansioso, ter dificuldades de sono e pesadelos.
O agressor normalmente aprendeu a usar
um comportamento agressivo com os adultos para resolver
seus problemas. Apresenta um comportamento de intimidação
e provocador permanente. Acha que todos devem atender
seus desejos de imediato e demonstra dificuldade de
colocar-se no lugar do outro. Tanto ele, quanto suas
vítimas apresentam dificuldade de relacionamento,
são inseguros e sentem pressão em algum
momento.
O bullying pode ser causado por outras
crianças e jovens, mas pode estar presente na
relação de pais e filhos e entre professor
e aluno. Alguns exemplos são aqueles adultos
que ironizam, ofendem, expõe as dificuldades
perante o grupo, excluem, fazem chantagens, colocam
apelidos preconceituosos e têm a intenção
de mostrar sua superioridade e poder, usando deste comportamento
frequentemente.
A medida entre o abuso e um comportamento
inadequado é avaliada de acordo com a freqüência
e a intensidade que ocorrem. O bullying marca a auto-estima,
a personalidade e a vida de uma criança e de
um jovem. Muitos jovens que viveram situações
de opressão revoltam-se contra seus agressores
e contra os expectadores causando verdadeiras tragédias.
Outros por se acharem merecedores desta exclusão
e concordarem com sua desvalorização tentam
ou cometem suicídio. Claro, que estes são
casos raros, mas sabidamente este não é
um comportamento que surgiu há pouco tempo, desde
sempre, o relacionamento entre iguais promove alguns
jogos perigosos de poder. Tal problemática tem
muitas implicações do ponto de vista da
prática educativa, e suas diferentes manifestações
têm preocupado de forma especial pais e educadores.
Violência e Educação
Não é de hoje que profissionais
da educação, alunos e pais vêm se
surpreendendo com problemas de violência entre
jovens alunos de classe média. Apesar das preocupações,
generalizadas, os olhares dos pesquisadores têm
se voltado, majoritariamente, para as manifestações
de violência entre jovens das classes populares
(Sposito, 1994). Mas afinal o que está acontecendo?
E os jovens alunos de classe média?
Enfatizamos que não restam dúvidas
de que as diferentes formas de violência estão
disseminadas em todos os espaços de atuação
humana, mas a idéia corrente mais popularizada
é de que elas são muito próprias
e circunscritas aos grandes centros urbanos e a jovens
da região periférica. E questionamos novamente:
e os jovens de regiões centrais? Não praticam
também violência? Não usam drogas?
Pesquisas realizadas pela UNESCO com
jovens de diversas cidades do Brasil (Brasília,
Fortaleza, Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo)
permitiram verificar que, aproximadamente 60% dos jovens
na faixa de 14 a 19 anos de idade foram vítimas
de algum tipo de violência nas unidades escolares,
nos últimos anos.
Em outro estudo, finalizado em 2002,
também é verificada a escala de violência
que vitima nossa juventude: a taxa de mortalidade, na
faixa etária de 15 a 24 anos por causas da violentas,
duplicou nas duas últimas décadas. No
contexto internacional, índices de homicídios
entre jovens são extremamente elevados. Outras
informações são ainda mais preocupantes:
no plano nacional, 40% das mortes entre jovens devem-se
a homicídios. Nas capitais do país, essa
proporção se eleva para 47% (Waiselfisz,
2002).
A discussão sobre violência
é importante porque é um fenômeno
que se desdobra no ambiente da instituição
escolar.
Ao analisar o fenômeno da violência,
vemo-nos diante de uma série de dificuldades,
não apenas porque o fenômeno é complexo,
mas, principalmente, porque nos faz refletir sobre nós
mesmos, sobre nossos pensamentos, sobre nossos sentimentos.
A violência se confunde, se interpenetra, se inter-relaciona
com agressão de modo geral e/ou com indisciplina,
quando se manifesta na esfera escolar (Nogueira, 2003).
Assim, podemos afirmar que a violência
em meio escolar no Brasil e mesmo em outros países
tanto decorre da situação de violência
social que atinge a vida dos estabelecimentos (violência
na escola), como pode expressar modalidades de ação
que nascem no ambiente pedagógico, neste caso
a violência da escola. A violência da escola
e a violência na escola abrigam uma série
heterogênea e complexa de fenômenos, dentre
os quais o bullying escolar (Nogueira, 2003).
Embora não seja um fato novo,
não podemos afirmar o crescimento do fenômeno
em escala mundial. Podemos apenas dizer que estudos
vêm sendo realizados nos mais diversos países,
confirmando sua existência em todos os centros
escolares, além da frequência, do número
de alunos envolvidos, do contexto onde mais incidem
e das mais diversas variáveis de interesse científico
e acadêmico. Começando com pesquisas na
Escandinávia e, em seguida, no Japão,
no Reino Unido e na Irlanda, esse estudo da intimidação
ou violência moral, vem hoje tendo lugar na maioria
dos países europeus, na Austrália e na
Nova Zelândia, no Canadá e nos Estados
Unidos..
Olweus (1998), pesquisador da Universidade
de Bergen, desenvolveu os primeiros critérios
para detectar o problema do bullying escolar de forma
específica, permitindo diferenciá-lo de
outras possíveis interpretações
como incidentes e gozações ou relações
de brincadeiras entre iguais, próprias do processo
de amadurecimento do indivíduo. Desse estudo,
desenvolvido em escala nacional, se pode calcular que,
aproximadamente 15% do total de alunos das escolas de
educação primária e secundária,
da Noruega, figuravam como agressores ou vítimas
(Olweus, 1998).
Uma pesquisa feita em Portugal com 7.000
estudantes mostrou que aproximadamente um em cada cinco
alunos (22%) entre seis e dezesseis anos já foi
vítima de bullying na escola. A pesquisa mostrou
também que o local mais comum de ocorrência
de maus-tratos são os pátios de recreio
(78% dos casos), seguidos dos corredores (31,5% dos
casos) (Almeida, 2003). Na Inglaterra, uma pesquisa
da ONG Young Voice e publicada no livro “Bullying in
Britain” mostrou que, apesar de existir uma lei que
obriga as escolas a prevenir o bullying, os estudantes
não estão satisfeitos com os resultados.
Segundo Katz (2003), da ONG Inglesa Voice, se os pais
mandarem seus filhos reagirem com violência quando
sofrerem o bullying, isso só atrapalhará
a resolução do problema.
De acordo com a pesquisadora Fuensanta
Cerezo (2001), na Espanha, o nível de incidência
do bullying se situa em torno de 15% a 20% dos sujeitos
em idade escolar, o que vem a confirmar os dados de
estudos desenvolvidos em Portugal, como nos outros países
da União Européia, apontando índices
semelhantes.
Nos Estados Unidos, o bullying é
tema de interesse. O fenômeno cresce entre alunos
das escolas americanas. Os índices são
tão altos, que os pesquisadores americanos classificam
como conflito global e que a persistir essa tendência
será grande o número de jovens que se
tornarão adultos abusadores e delinqüentes
(Andrews, 2000).
No Brasil, a ONG (Organização
não-governamental) Abrapia – Associação
Brasileira Multiprofissional de Proteção
à Infância e Adolescência, começou
a desenvolver no Rio de Janeiro, um projeto com o patrocínio
da Petrobras, com 11 escolas públicas e particulares.
O objetivo deste estudo é ensinar e debater com
professores, pais e alunos formas de evitar que o bullying
aconteça.
Pesquisadores de todo o mundo atentam
para este fenômeno, que toma, cada vez mais, aspectos
preocupantes quanto ao seu crescimento e por atingir
faixas etárias inferiores, relativas aos primeiros
anos de escolaridade. Estima-se que em torno de 5% a
35% de crianças em idade escolar estão
envolvidas, de alguma forma, em atos de agressividade
e de violência na escola (Fante, 2002).
Baseado nos dados dos mais diversos
países pode-se seguramente afirmar que o fenômeno
está presente em todas as escolas de todo o mundo.
No Brasil, o bullying ainda é pouco pesquisado,
comentado e estudado, motivo pelo qual, não temos
indicadores que nos forneçam uma visão
global para que possamos compará-lo aos demais
países, a não ser dados de alguns estudos..
Encontramos como reflexo de trabalhos europeus, algumas
pesquisas sobre o Bullying escolar. Em Santa Maria (RS),
o trabalho realizado pela professora Marta Canfield
e seus colaboradores (1997) em quatro Escolas Públicas.
No Rio de Janeiro, as pesquisas dos Profs. Israel Figueira
e Carlos Neto(2000 – 2001) em duas escolas Municipais.
Em São José do Rio Preto e região
(2000 –2002), pesquisas realizadas junto à quase
mil e quinhentos alunos do Ensino Fundamental e Médio
em Escolas Públicas e Privadas, pela professora
Cleodelice Aparecida Zonato Fante e seus colaboradores.
O quadro aqui apresentado, envolvendo
escola, violência e jovens, é apenas um
dos componentes da grande galeria brasileira e internacional
da violência. Apesar da gravidade e da necessidade
de reflexões, são poucos os estudos existentes
a respeito do tema. Em levantamento realizado por Nogueira
(2003) das teses e dissertações sobre
o tema “escola e violência” nos programas de Pós-Graduação
em Educação, abrangendo o período
de 1990 a 2000, a autora menciona que, dos trinta e
seis trabalhos encontrados nesse período, nenhuma
das pesquisas teve como objeto de estudo a questão
da violência moral ou bullying escolar. Portanto,
a necessidade de pesquisarmos este fenômeno e
refletirmos sobre o mesmo é imensa.
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