| ::. Capacitação
pedagógica: Pela formação teórico-conceitual
do Professor |
Wilson
Francisco Correia
Doutorando em Educação na UNICAMP
e Mestre em Educação pela UFU, Especialista
em Psicopedagogia pela UFG, Licenciado em Filosofia pela
UCG.
Endereço eletrônico: wilfc2002@yahoo.com.br
Débora Cristina Modesto Barbosa. Mestre
em Ciências Médicas pela FMRP/USP, Especialista
em Formação Pedagógica pela ENSP/FIOCRUZ/USP,
Bacharel em Enfermagem pela EERP/USP, Coordenadora de
Curso e Professora Universitária.
Endereço eletrônico: deboracmb@yahoo.com.br
RESUMO
O presente artigo discute o mal-estar docente. Estuda
questões relacionadas à formação
da identidade, ambigüidade funcional, crise de
autoridade e crise cultural do professor. Defende a
tese de que a construção da identidade
e a profissionalização do magistério
passam pela retomada da formação teórico-conceitual
ou compreensiva, inicial e continuada, do professor.
Sem a formação conceitual, ficam comprometidos
o preparo técnico e a competência ética
para o exercício da prática de ensino.
Preterir a teoria em nome do ativismo pedagógico
é colocar em risco o significado da prática
social que é o ato de ensinar.
Palavras-chave:
Docência, mal-estar, saber conceitual.
1.
Introdução
O que saber para ensinar? Aparentemente, essa é
uma pergunta óbvia, pois estamos acostumados
com a idéia de que o professor sabe e, por isso,
encontra-se no efetivo exercício de funções
docentes, em todos os níveis do sistema educacional.
No entanto, tendo em vista a discussão sobre
o mal-estar do professorado, estudar sobre o que se
deve saber para ensinar é um problema que nos
remete a uma gama variada de questões, todas
perpassando a formação, o exercício
profissional, o lugar social, a identidade e a razão
de ser de quem se dedica ao ato de ensinar.
Atualmente, além do debate sobre o mal-estar
docente, outros problemas estão sendo identificados,
investigados e motivando as respectivas soluções.
Trata-se de um conjunto de temas que tem recebido significativa
importância no contexto da pesquisa educacional.
Eles dizem respeito a políticas de salário,
regulamentação para a formação
e exercício profissional, código de ética,
entre outros. Contudo, visando a participação
nesse debate, julgamos oportuno o estudo de quatro tópicos:
identidade, ambigüidade funcional, crise da autoridade
e crise cultural docente. Ao discutir essas questões,
mantemos subjacente a esta exposição a
tese de que o saber teórico-conceitual pode contribuir
para a resolução dessas questões.
Sem a pretensão da verdade absoluta - essa ilusão
que hora ou outra ainda nos persegue - assinalamos a
importância do cuidado com relação
ao saber que deve fazer parte da formação
docente, a ser considerado um elemento imprescindível
à consolidação da identidade e
exercício funcional do profissional da educação.
Para tanto, entendemos que a formação
do professor deve basear-se no tripé: teoria,
técnica e ética. O que aqui estamos denominando
de saber conceitual relaciona-se à teoria, à
dimensão teórico-compreensiva do fazer
docente.
Por isso o saber teórico-conceitual pode e deve
ser buscado continuamente pelo docente em formação
inicial e continuada. E essa busca se justifica porque,
ultimamente, esse tipo de conhecimento tem sido quase
esquecido no rol de nossas preocupações
e negligenciado em nossos programas de formação.
Basta notar que as disciplinas teóricas, compreensivas,
muitas vezes são preteridas em nome de um ativismo
pedagógico que valoriza a ação,
prejudicando a visão conceitual que se deve ter
a respeito da prática de ensinar.
2.
Crise docente: a ambigüidade profissional
Gauthier (1998), ao discutir a questão da identidade
vacilante do professor, interroga: o que é preciso
saber para ensinar? Consentindo ser difícil definir
os saberes envolvidos no exercício pedagógico,
dada a tamanha ignorância que a docência
manifesta sobre si mesma, esse autor retoma certas idéias
preconcebidas que, segundo ele, contribuem para manter
o ensino numa espécie de cegueira conceitual.
Essas idéias seriam as que dizem: basta conhecer
o conteúdo, basta ter talento, basta ter experiência,
basta ter cultura, como se mais nada fosse necessário
a quem se ocupa com o trabalho de ensinar. A conseqüência
dessas idéias preconcebidas é que elas
transformam o ensino em um ofício sem saberes.
Por esse motivo, precisamente, a razão de ser
da crítica ao ativismo pedagógico, que
nem sempre deixa espaço para a busca da fundamentação
conceitual, compreensiva ou teórica dessa ação,
que é uma prática pública e socialmente
referenciada.
Se essas idéias preconcebidas prejudicam a profissionalização
do ensinante, bem como a elaboração de
um saber desse ofício sobre ele mesmo, o inverso
também acontece, pois certas teorias (behavioristas,
psicologia humanista, tradição piagetiana)
provocaram o esvaziamento do contexto concreto do ensino,
uma vez que essas teorias se dirigem a um professor
fictício. Neste caso, passamos a ter os saberes
sem ofício. Novamente, surge a necessidade de
se voltar para a fundamentação conceitual.
Ocorre que os saberes sem ofício evidenciam outra
modalidade de divórcio entre saber e saber fazer,
teoria e prática, conceitos e procedimentos.
Considerando essas dicotomias, e compreendendo que os
pseudo-saberes do basta ter isso ou aquilo não
dão conta do significado de ser professor, nem
do sentido das práticas efetivas de ensino, Gauthier
propõe que o ensinar seja um ofício de
saberes. Esse ofício seria constituído
pelos saberes disciplinar, das ciências da educação,
da tradição pedagógica e pelo saber
experiencial da ação pedagógica
propriamente dita. Segundo ele, resgatadas essas modalidades
de saber, novamente saber e saber fazer docentes voltariam
a se entrecruzar como as duas faces da moeda, dando
substância ao magistério.
Em outra abordagem, ao discutir a crise do professor,
Enguita (1991) chama a atenção para a
ambigüidade da docência. Essa ambigüidade,
causadora da crise docente, consiste no fato de os profissionais
do ensino se encontrarem localizados no lugar intermediário
e instável entre a profissionalização
e a proletarização. Assim, de um lado
eles teriam a autonomia epistêmica por dominarem
o saber que ensinam, mas, por outro, seriam dependentes
das instituições estatais ou de outras
que executam ou exploram as atividades de ensino no
interior do sistema escolar.
Segundo Enguita, para se livrar da ambigüidade,
o profissional do ensino deve fazer parte de um grupo
que compõe uma categoria auto-regulada. Ao atuar
profissionalmente, essa categoria teria o privilégio
monopolista da formação de seus membros
e da prestação de produtos e serviços
à sociedade. Isso tiraria o professor da condição
que o assemelha ao operário.
Esse trabalhador é aquele que não tem
a propriedade de seus meios de produção
e, além de não controlar o objeto e o
processo de seu trabalho, deixa de ter autonomia em
sua atividade produtiva. Assim, ao lado da autonomia
epistêmica, o professor alcançaria a autonomia
funcional.
Desse modo, a solução para o problema
da ambigüidade poderia passar pela capacidade de
controle da sociedade sobre a profissão docente,
uma vez que o magistério é uma função
pública e social, mas criando certo campo de
auto-regulação aos professores. Em outras
palavras, à sociedade caberia a tarefa de fixar
os fins da educação escolar e, aos docentes,
a de arbitrar os meios para atingi- los. Nessa dinâmica
estaria a possibilidade de superação da
ambigüidade docente.
Então, se, para Enguita, a ambigüidade da
docência pode ser superada por meio do resgate
do lugar dos docentes no mundo do trabalho, tendo na
autonomia a possibilidade de profissionalização,
para Gauthier, se o docente realmente deseja transformar
sua identidade vacilante em identidade estável,
deve ele assumir a tarefa de estabelecer com clareza
o saber do ofício e o ofício do saber.
Tanto em um caso quanto no outro se faz necessária
a fundamentação conceitual, ao lado da
procedimental, para o fazer docente. É nesse
sentido que cabe a ênfase na formação
teórico-conceitual inicial e continuada do professor.
3.
Crise na educação, crise de autoridade
Objetivando aprofundar um pouco mais este debate, entendemos
ser oportuno trazer para a discussão, mesmo que
esquematicamente, a contribuição de Hannah
Arendt a respeito da crise na educação.
A ela está inextrincavelmente relacionada a crise
docente, a qual se caracteriza pelo fato de a identidade
do professor não estar clara nem para ele nem
para as sociedades contemporâneas.
Arendt (1997) identifica a crise na educação
com a crise da autoridade, questão maior em que
se vê mergulhada a sociedade ocidental. Para explicar
essa relação, a filósofa volta
o olhar para a criança, resultado do fato novo
que é a natalidade. Segundo essa autora, a novidade
não seria o novo mundo, entendido como as sociedades
emancipadas no bojo das revoluções burguesas,
as sociedades liberais, tecnológicas, capitalistas
modernas, em oposição à velha Europa
medieval. Ao contrário disso, o fato novo seria
a natalidade.
A criança é o novo no mundo, um ser humano
em formação e o único passível
de ser educado. Mas, ao nascer, o que a criança
encontra? Segundo Arendt, a criança nasce e encontra
o velho mundo dos adultos, estes seres humanos já
formados, que, ao contrário das crianças,
não podem ser educados. Para a autora, a educabilidade
é algo inerente à condição
infantil.
Por isso, a tarefa da educação seria justamente
a de introduzir o novo no velho, com os adultos assumindo
a responsabilidade por essa inclusão e pelo próprio
mundo que eles criaram, pois foi no enfrentamento dessa
tarefa que a modernidade deixou a autoridade se fragmentar,
a ponto de emergir como a crise que, agora, pede respostas.
Como fatores dessa crise, Arendt arrola três elementos:
1. a pressuposição da existência
de um mundo das crianças, como sociedade autônoma
e capaz de autogoverno; 2. a transformação
da Pedagogia em saber divorciado e distinto da matéria
efetiva a ser ensinada, e; 3. a emergência de
teorias da aprendizagem que, assentadas no pragmatismo
(aprender fazendo) e na Psicologia moderna (centrada
na pessoa, no interesse e no desejo do aluno) substituem
o aprender pelo fazer e o trabalho pelo brinquedo.
Desse modo, a pressuposição da existência
do mundo das crianças deslocou a autoridade das
mãos dos adultos para as mãos das crianças.
O divórcio entre pedagogia e saber específico
abalou a competência conceitual do professor.
Já as teorias da aprendizagem transformaram o
docente em auxiliar, facilitador, orientador, esvaziando
a substância de seu papel pedagógico e
liquidando sua autoridade.
Se estamos lendo corretamente os autores referidos desde
o início deste artigo, as respostas ao problema
do mal-estar docente, passando pelas questões
de identidade e profissionalização,
põe-nos ante a questão do resgate da autoridade
docente. E isso pressupõe a demarcação
do lugar dos professores no mundo do trabalho e a elaboração
dos fundamentos do saber do ofício e do ofício
do saber - situando neste ponto a necessidade de formação
conceitual para o magistério.
4.
Docência e cultura de massa
Neste passo, voltamos à nossa indagação
inicial: o que é preciso saber para ensinar?
E direcionamos essa pergunta à Hannah Arendt.
Talvez a reflexão da filósofa sobre a
crise na cultura, por correlação, nos
aponte uma possibilidade de resposta. Vejamos! Para
Arendt, a arte é a atividade humana primordial
no âmbito da cultura. E assim é pelo fato
de ela estar relacionada com o gosto desinteressado,
o qual exige refinamento do espírito e uma consciência-de-qualidade.
Sem essa consciência, o reconhecimento do belo
que o gosto discrimina e sobre o qual decide fica comprometido.
Ora, o refinamento do espírito, trabalho que
possibilita a consciência-de-qualidade, exige
que o tempo de que dispomos entre sono e trabalho seja
dedicado ao mundo da cultura - expressão simbólica
primordial do modo humano de ser/estar no tempo, no
espaço, no mundo, conforme nosso entendimento
sobre o conceito de cultura aqui registrado, a parte
substancial do trabalho docente.
Entretanto, o sujeito de racionalidade técnica,
o burguês especificamente, que tudo avalia à
luz do critério da utilidade, buscando a realização
de valores materiais, não concebe desse modo
a fruição dos bens culturais, os quais
transforma em bens de uso e consumo, degenerando a cultura
ao transformá-la em entretenimento venal. Desse
modo, os bens de consumo passam a exigir a consciência-de-utilidade,
podemos dizer, e, por conseqüência, promovem
o desinvestimento no cultivo do espírito, tanto
quanto no aprimoramento do gosto e no seu exercício.
Divertir-se passou a significar matar o tempo livre,
deixando de lado a dedicação ao mundo
da cultura.
Ora, a cultura é o refinamento e o exercício
do gosto, mas nossa fome de produtos de diversão,
nossa fome de pão e circo, nos impede de cultivá-la,
valorizá-la e desfrutá-la como ela exige
e merece. Desse modo, caímos no culto ao efêmero
por não suportarmos a idéia dos fundamentos,
do sólido, do estável, do duradouro e
perene. A isso se filia a pouca valorização
da formação escolar, do trabalho do professor,
da ação social de ensinar. Quando sabemos
que a formação requer tempo e não
produz de pronto o que atende aos interesses imediatos
da sociedade, a tendência é a não
valorização dessas práticas. Isso
parece ter ligação com o problema do mal-estar
docente, desse profissional que perdeu o valor na sociedade
de massa, em que é valorizada a do que é
passageiro, e não a formação consistente
para a fruição cultural.
Nessa perspectiva, resgatar o valor da formação
teórica ou conceitual do profissional da educação
pressupõe o entendimento de que é preciso
usar o saber compreensivo como instrumento formador
da cosmovisão desse profissional. A urgência
das pessoas nas sociedades do entretenimento talvez
vá contra essa disposição, mas
urge reforçar essa idéia e continuar o
trabalho onde ele já está acontecendo.
Ao lado da preparação para a ação,
também se justifica a formação
para o entendimento do sentido dessa ação.
Do contrário, a prática docente pode ser
esvaziada de seu significado e razão de ser.
5.
A volta ao saber conceitual
Postas essas idéias, lembremos Platão
(2002). Esse filósofo, que viveu entre 428-347
a. C., acreditava que os seres humanos são diferentes,
agrupam-se em classes diferentes e, desse modo, devem
receber uma educação diferente. Assim,
até os 18 anos, o jovem deveria estudar ginástica,
música, literatura e aprender a ler, escrever,
cantar e a praticar esportes. Aos 18 anos, os incapazes
para o aprendizado, deveriam ir compor a classe dos
provedores. Os outros prosseguiriam nos estudos por
mais dois anos, ao cabo dos quais os que não
demonstrassem capacidade para continuar os estudos iriam
engrossar a classe dos soldados. Após os 20 anos,
dedicando-se ao estudo da matemática, música,
ciências, filosofia e outras matérias culturais,
o candidato a professor e político seria forjado
na dialética ascensional da filosofia.
A propósito desse sistema platônico e perguntando
sobre a função social do filósofo,
Silva (1996) recorre à Alegoria da Caverna para
tecer sua reflexão. Para ele, a Alegoria nos
mostra que o filósofo precisa superar o mundo
das sombras (sensível, da ilusão) e ir
alcançar o mundo inteligível (das essências,
da Verdade, do Belo, do Justo e do Bom). Precisaria
ir da dóxa, mera opinião, à episteme,
o conhecimento perfeito e verdadeiro, ao qual se chega
pela apreensão dos conceitos das coisas. A essa
proposta relacionamos a teoria, a dimensão compreensiva
de que falamos neste trabalho.
Em Platão, para quem professor e político
têm de ser filósofos, após contemplar
o mundo das idéias, dos conceitos, esses profissionais
deveriam retornar ao mundo sensível. E o faria
na condição de sábio, de filósofo.
Nesse aspecto, o educador é o que apreendeu conceitualmente
o significado das coisas, consolidou sua cosmovisão,
adquiriu episteme, o único saber que apresenta
algum valor. Por isso, a interferência do educador
caracteriza-se principalmente pelo domínio epistêmico,
pelo conhecimento seguro que o faz ter domínio
do que ensina e da vivência política no
meio da sociedade.
6.
Ao modo de conclusão
Assinalamos que não defendemos a idéia
de que o educador tem de ser filósofo, como originalmente
parece ser o caso nos diálogos platônicos,
nem a tese de que apenas o filósofo pode ensinar.
Também não endossamos a idéia de
Platão de que somos naturalmente desiguais, pois
entendemos que a desigualdade é histórica
e socialmente produzida. Ainda nessa direção,
não estamos nos afiliando ao idealismo platônico,
assentado no inatismo, na reminiscência, na educação
de dentro para fora. A inspiração nesse
filósofo se limita a uma inspiração
para a justificativa da necessidade de apreensão
do saber conceitual relativo ao fazer docente, com o
objetivo de formar integralmente o docente que é
chamado a ter domínio teórico, técnico
e ético do seu agir profissional.
Desse modo, ante a tarefa da construção
da identidade (saber do ofício e o ofício
do saber), da profissionalização (categoria
socialmente estabelecida e auto-regulada) e da retomada
da autoridade (responsabilidade de incluir o novo no
velho do mundo) fica a milenar ilustração
da idéia platônica sobre a formação
conceitual. Essa é a intenção que
tentamos imprimir neste trabalho, com o intuito de evidenciar
aos estudantes de licenciatura que não faz muito
sentido a queixa quanto ao domínio teórico
que se exige deles. Ao contrário, a sólida
formação teórica é condição
indispensável ao exercício docente.
Por isso, o professor precisa saber, fundamentalmente,
o conteúdo que ensina, ter sólido domínio
teórico do campo específico do conhecimento
que escolheu como objeto de estudo e ensino. Sem um
núcleo conceitual sólido, fica comprometida
a aquisição do saber do ofício
e do ofício do saber. Por isso, a sanha para
se mergulhar no ativismo pedagógico não
deve prejudicar a competência conceitual do estudante
de licenciatura.
Para que isso aconteça, é necessário
que ele se livre da confusão quanto ao seu saber
fazer. É que há teorias defendendo a idéia
de que ele deve sair do campo pedagógico, não
levando em conta sua autoridade, uma vez que o aprendiz
resolve por si suas questões cognitivas.
Aceitar essa posição é perder de
vista a importância do papel de ensinante, sem
o qual o aprender perde sua razão de ser. No
fundo, o papel do professor se justifica porque seu
fazer se relaciona à transmissão-negação-reelaboração
da cultura, ou, como afirma Arendt, seu fazer se liga
ao cuidado das pessoas, das coisas e do mundo.
Se é plausível a idéia de que o
professor tem um papel importante a desempenhar, abrir
mão de seu exercício não significaria
descartar a própria possibilidade de autonomia,
consolidação de sua identidade profissional
e sentido social? A despeito de certas teorias, a autoridade
não estaria sendo confundida com autoritarismo?
A dificuldade adulta para resolver o problema do ensino,
agravada pelos pressupostos de certas tendências
teóricas, não nos estaria levando a delegar
às crianças o trabalho de encontrar solução
para aquilo que nós, adultos e profissionais,
não estamos dando conta de solucionar?
Os cursos de formação de professores,
hoje tendentes ao aligeiramento e imediatismo, por conta
de uma política descompromissada com a seriedade
que exige o trato da educação, ou por
desejo numérico de apenas engordar as estatísticas,
ou até por má fé, esses cursos,
oficialmente chancelados, não estariam deixando
a formação teórica a desejar? Como
formar integralmente o profissional da educação,
entendendo por isso bom domínio teórico,
técnico e ético, se as ingerências
de ordem administrativa prejudicam esse trabalho?
Ante essas perguntas, fica a certeza de que a identidade
do professor e sua profissionalização,
entre outras coisas, passam necessariamente pelo domínio
do saber conceitual. É isso o que tentamos dizer
ser valioso à formação docente.
Sabemos que, na era do efêmero, escolher Platão
pode ser um risco. Contudo, ele ainda é o representante
do gosto refinado, do cultivo do espírito e da
cultura como modo humano de cuidar das coisas e do mundo.
A isso os utilitaristas de toda sorte não prestam
atenção, posto que tudo está bem
em sua cegueira conceitual.
Esses são aqueles que criticam Platão.
No entanto, conforme a própria Arendt: Platão
ainda será melhor companhia que os críticos
que ele tem.
Referência
bibliográfica
ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. 4. ed. Trad. M.
W. de Almeida. São Paulo: Perspectiva, 1997.
ENGUITA, M. F. A ambigüidade da docência: entre
o profissionalismo e a proletarização. Teoria
e Educação, n. 4. Porto Alegre: Panônica,
1991, p. 41-61.
GAUTHIER, C. Por uma teoria pedagógica. Juí,
RS: Unijuí, 1998.
LEOPOLDO E SILVA, Franklin. Função social
do filósofo. In: ARANTES, Paulo et. al. A filosofia
e seu ensino. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1996, p.
09-22.
PLATÃO. A República. Trad. P. Nassetti.
São Paulo: Martin Claret, 2002.
Publicado
em 29/09/2007
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