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Conselhos
de Escola: comunidade escolar participativa(?) |
Sandra
Negrini - E-mail:
sandra.negrini@uol.com.br
Especializada
em Gestão Educacional pela Universidade de Taubaté
Mestranda em Psicologia da Educação pela
Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo
Registro no Comitê de Ética da Universidade
de Taubaté sob nº 338/03
Endereço:
RESUMO
O presente artigo pretende expor pesquisa realizada
sobre Conselhos de Escola de unidades públicas
de ensino de Taubaté, Estado de São Paulo,
a fim de determinar sua predominância consultiva
ou deliberativa, bem como, os fatores que impedem ou
possibilitam a participação de seus membros,
por meio de questionário dirigido a gestores
de 08 unidades de ensino fundamental, de 1ª a 8ª
série, durante o ano letivo de 2003. A pesquisa
demonstrou que os Conselhos de Escola nessas unidades
apresenta caráter consultivo, e aponta dentre
as causas, a falta de tempo e planejamento para reunir
seus membros, bem como, a centralização
das decisões nos órgãos superiores
de gestão. É preciso buscar estratégias
para aumentar a conscientização da comunidade
escolar acerca do papel do conselho de escola, como
instrumento efetivo de participação.
Palavras-chave: Conselhos de escola;gestão democrática;participação
ABSTRACT
The purpose of this study is to know how is the work
of the School Boards, in eight county school-based units
of Taubaté, San Paulo State, Brazil, to determinate
their characteristics of deliberate or advice. To make
this work, it was necessary to interview eight school-based
units managers.
The research showed up the characteristic of advice
in school boards of these schools units, caused by short
time and no organization to make appointments with school
boards members and the exclusive control of decisions
by Education Department. This study has concluded that
the one of the most important factor to make school
boards get better, is searching strategies to increase
the conscience of the school communities about school
boards function, like a effective tool of participation.
Keywords: School boards;democratic management;participation
1
- Introdução
O Conselho de Escola tem sua origem nos anos 80, a partir
da necessidade e dos "anseios de uma participação
democrática no processo de tomada de decisões"
e da reivindicação dos "espaços
institucionais de intervenção junto aos
órgãos governamentais" (ANTUNES,2001,p.20-21),
reconhecendo a escola como "espaço voltado
aos interesses da comunidade que dela serve." (GADOTTI
e ROMÃO,2000,p.66)
No Estado de São Paulo, os Conselhos de Escola
foram estabelecidos pelo Decreto nº11.625 de 23
de maio de 1978, com o objetivo de possibilitar aos
seus membros sugerirem e prestarem auxílio a
fim de otimizar o funcionamento da escola. Composto
por membros da comunidade escolar, suas atribuições
não eram deliberativas, tampouco consultivas,
de forma que as decisões eram tomadas pela direção
e pelos órgãos superiores, com o respaldo
da legislação vigente.
Por meio do artigo 95 da Lei Complementar nº444
de 27 de dezembro de 1985, o Conselho de Escola passou
a decidir sobre aspectos administrativos, financeiros
e pedagógicos. Atualmente o Conselho é
deliberativo e sua composição é
paritária, compondo-se de um número igual
de pais e alunos por um lado e de professores e demais
funcionários por outro:
"O
Conselho de Escola, de natureza deliberativa, eleito
anualmente durante o primeiro mês letivo, presidido
pelo Diretor da Escola, terá um total mínimo
de 20
(vinte) e máximo de 40 (quarenta) componentes,
fixado sempre proporcionalmente ao número de
classes do estabelecimento de ensino.
§ 1º - A composição a que se
refere o "caput" obedecerá à
seguinte
proporcionalidade:
I - 40% (quarenta por cento) de docentes;
II - 5% (cinco por cento) de especialistas de educação,
excetuando-se o Diretor
de Escola;
III - 5% (cinco por cento) dos demais funcionários;
IV - 25% (vinte e cinco por cento) de pais de alunos;
V - 25% (vinte e cinco por cento) de alunos;
§ 2º - Os componentes do Conselho de Escola
serão escolhidos entre os seus
pares, mediante processo eletivo." (SÃO
PAULO, 1985)
A
lei estabelece ainda, suas atribuições:
"
I - Deliberar sobre:
a) diretrizes e metas da unidade escolar;
b) alternativas de solução para os problemas
de natureza administrativa e
pedagógica;
c) projetos de atendimento psico-pedagógico e
material ao aluno;
d) programas especiais visando à integração
escola-família-comunidade;
e) criação e regulamentação
das instituições auxiliares da escola;
f) prioridades para aplicação de recursos
da Escola e das instituições auxiliares;
g) a designação ou a dispensa do Vice-Diretor
de Escola;
(A alínea "g" do inciso I do §
5º está com a redação dada
pela Lei Complementar nº 725/93, que
foi revogada pela Lei Complementar nº 836/97.)
h) as penalidades disciplinares a que estiverem sujeitos
os funcionários,
servidores e alunos da unidade escolar;
II - Elaborar o calendário e o regimento escolar,
observadas as normas do
Conselho Estadual de Educação e a legislação
pertinente;(...)" (op.cit.)
Por
ser um colegiado formado pelos diversos membros da comunidade
escolar, com autonomia para opinar e decidir, o Conselho
de Escola é um canal potencial de participação
e um instrumento eficiente de gestão democrática.
Antunes (2001,p.21) afirma que, nas escolas em que ele
tem efetivamente atuado,o autoritarismo normalmente
diminui e a escola mostra-se mais sensível às
necessidades e aos problemas, e à definição
coletiva dos rumos que a escola deve tomar.
Embora apresente caráter participativo, existem
alguns entraves que podem comprometer sua atuação,
geralmente ligados às características
mais ou menos democráticas da unidade escolar
e especificamente, ao perfil do diretor.
Quando o Conselho de Escola desempenha funções
predominantemente consultivas há uma conseqüente
diminuição na participação
do processo decisório. Sua ação
limita-se a sugerir soluções que poderão
ou não ser encaminhadas pela direção
da escola.
A participação é crescente à
medida em que o Conselho de Escola é de predominância
deliberativa, cujas discussões e decisões
são necessariamente coletivas.
Existe uma diferença fundamental entre decidir
e simplesmente opinar. Decidir exige "a discussão
e a determinação de critérios e
procedimentos. Quando se delibera a responsabilidade
é maior do que quando se opina." (ANTUNES,
2001,p.23). Pode-se dizer que quando se delibera coletivamente
o resultado das ações será sempre
um resultado representativo de toda a comunidade escolar,
a partir de um consenso por ela estabelecido.
As ações que resultam desse consenso são
mais verdadeiras, mais próximas da realidade.
É possível estabelecer uma relação
intrínseca entre o Conselho de Escola e o nível
de compreensão social e política de seus
membros, refletindo a consciência sócio-política
também da comunidade escolar. Quando consciente
de sua função, compreende as responsabilidades
legais que envolvem seu funcionamento e, a partir dessa
compreensão, oferece as condições
adequadas para o desenvolvimento de discussões
e tomadas de decisões coletivas.
2
- Participar é preciso
Alguns elementos básicos justificam a ação
de participar. O primeiro refere-se ao conceito de participação;
o segundo pretende responder porque é importante
e necessário participar; e o terceiro pretende
traçar os fatores que impedem ou facilitam o
processo de participação. Fará
ainda um importante recorte no contexto escolar em relação
à participação social, cuja concepção
é única e particular da organização
de grupos sociais.
Souza(1999) e Bordenave(1994) consideram a participação
como o próprio processo de criação
do homem ao pensar e agir sobre os desafios da natureza
e sobre os desafios sociais nos quais, ele próprio
está situado. A participação não
é somente um instrumento para a solução
de problemas, mas sim, uma necessidade fundamental do
ser humano, como o são a comida, o sono e a saúde.
A participação é o caminho natural
para o homem exprimir sua tendência inata de realizar,
fazer coisas, afirmar-se a si mesmo e dominar a natureza.
Além disso, sua prática envolve a satisfação
de outras necessidades, não menos básicas
tais como, a interação com os demais homens,
a auto-expressão, o desenvolvimento do pensamento
reflexivo, o prazer de criar e recriar coisas e ainda,
a valorização de si mesmo pelos outros.
Em Bordenave (1994,p.16) o processo de participação
é caracterizado por duas bases fundamentais:
-
Uma afetiva: quando participamos porque sentimos prazer
em fazer coisas com outros;
- Outra instrumental: participamos porque fazer coisas
com outros é mais eficaz e eficiente do que fazê-las
sozinhos.
A
participação pressupõe também,
tipos e níveis de envolvimento, "em termos
de mobilização de recursos e vontades
convocados/empenhados na tentativa de defender certos
interesses e de impor certas soluções(...)em
formas de ação e de comprometimento mais
ou menos militante(...)" (LIMA,2001,p.76)
O autor aborda diversos níveis de participação,
incluindo a participação passiva, caracterizada
por "desinteresse e alheamento(...) e alienação
de certas responsabilidades(...) (op.cit,p.78), porém,
no decorrer do presente estudo será adotado o
conceito de participação como um processo
mais efetivo e próximo à práxis,
como "um ato de ingerência" em que é
necessário "ganhar voz e responsabilidade
social e política" (LIMA,2000,p.33), o que
representa o exercício da reflexão e da
ação concreta na tomada de decisões.
A participação instrumental, que trata
do indivíduo numa ação individual,
é a primeira instância do que chamamos
de participação social. Esta refere-se
propriamente, aos grupos de indivíduos de modo
que estes criam os bens materiais para sua apropriação.
A participação social pode ultrapassar
o microuniverso das relações sociais locais
e passar a promover transformações nos
macrorganismos da sociedade, no âmbito político
e econômico:
"A
participação social é a produção
dos bens materiais e culturais, bem como, sua administração
e seu usufruto."(...) O conceito é transferido
desse modo, da dimensão superficial do mero ativismo
imediatista, em geral, sem conseqüências
sobre o todo, para o âmago das estruturas sociais,
políticas e econômicas.(...)Se uma população
apenas produz e não usufrui dessa produção,
ou se ela produz e usufrui mas não toma parte
na gestão, não se pode afirmar que ela
participa verdadeiramente."(BORDENAVE,1994,p.25)
Considerando
as condições históricas de desigualdades
e marginalização social observadas e reconhecidas
exaustivamente em nossa realidade atual, é importante,
pois, contextualizar a participação como
um processo necessário, um agente potencial de
promoção de mudanças sociais significativas.
A participação social é deste modo
descrita, como o processo contrário à
dominação e à concentração
do poder. É o pensar coletivo a partir do cotidiano,
do contexto das preocupações e interesses
da população, na análise e no desvelamento
da realidade, ultrapassando enfim, a mera grupalização
para a mobilização efetiva e organizada.
São necessários exercícios permanentes
de reflexão, ação e estratégias,
avaliadas e ajustadas para responder a novas exigências
e demandas do contexto social, em contínua mudança.
A participação pressupõe a análise
crítica dos interesses e necessidades do grupo
em seu contexto local e global, que é o próprio
processo de conscientização em exercício:
"O
processo de conscientização é definido
de duas formas: a consciência individual, que
se concretiza pelo fato de o homem ter personalizado
em si mesmo, os motivos e causalidades das necessidades
e frustrações que requerem enfrentamentos
coletivos, e responde individualmente a estes enfrentamentos;
e a consciência social, que é aquela que
o homem tem de si mesmo como ser social, assim como
de suas necessidades e frustrações, o
que requer um pensar e um enfrentamento comum daqueles
que vivem em condição social semelhante."
(SOUZA,1999,p.88-89)
A
conscientização é o elemento propulsor
do processo pedagógico de participar, que envolve
a ultrapassagem da consciência individual para
a consciência social dos problemas coletivos.
A consciência social faz uma mediação
com o circuito indivíduo-sociedade-espécie
descrito em Morin:
"Não
se pode tornar o indivíduo absoluto e fazer dele
o fim supremo deste circuito; (...)a sociedade vive
para o indivíduo, que vive para a sociedade e
a sociedade e o indivíduo vivem para a espécie.
Cada um desses termos é ao mesmo tempo, meio
e fim. É a cultura e a sociedade que garantem
a realização dos indivíduos, e
são as interações entre indivíduos
que permitem a perpetuação da cultura
e a auto-organização da sociedade. Assim,
verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto
das autonomias individuais, das participações
comunitárias e do sentimento de pertencer à
espécie humana."
(MORIN,2001,p.54-55)
Na
prática pedagógica da participação,
é esse circuito que deve ser exercitado e incorporado
através do exercício constante de participar,
permitindo ao indivíduo sentir-se membro de um
organismo, participante de um grupo e consciente dos
desafios que a realidade lhe impõe. A consciência
de que seus interesses e problemas, outrora individuais,
são agora coletivos e exigem uma tomada coletiva
de decisões.
Diz-se prática pedagógica porque a participação
é, antes de mais nada, algo que pode e deve ser
ensinado e aprendido; um conteúdo inerente às
relações no ambiente escolar, que pode
ser incorporado ao processo educativo. Só é
possível participar pelo exercício prático
da participação, que deve ser estimulado,
promovido no interior da escola. A escola tem seus próprios
instrumentos de participação, que envolve
estruturas organizadas e legitimadas (o objeto do presente
estudo é um exemplo) e estratégias pedagógicas
(projetos, encontros, festas, reuniões) que podem
promover a participação. Embora sejam
presentes no organismo escolar, nem sempre esses instrumentos
estão disponíveis à participação
de toda a comunidade escolar, cujas causas veremos mais
adiante.
Numa análise primária da história
de nossa cultura é comum observar que os indivíduos
não estão acostumados a participar. Isto
é fruto de uma história política
de paternalismo e poder centralizado que repercutiu
seus efeitos desastrosos no ambiente escolar. Por isso,
atualmente, para aprender a participar o grupo precisa,
muitas vezes, da liderança de um educador capaz
de desenvolver estratégias de participação,
levando ao seu exercício. Reconhecendo ser esta,
uma nova prática que vai pouco a pouco sendo
revelada na escola, e por envolver indivíduos
com perspectivas e concepções diferenciadas
e ainda enraizadas no senso comum do que verdadeiramente
significa participar, esta prática é no
mínimo, um exercício conflitante e desgastante,
exigindo do educador/gestor, habilidade para mediar
a dinâmica grupal, sem perder de vista os objetivos
e valores que justificam a ação participativa.
A herança deixada pela história diz respeito
ao medo de participar. Os indivíduos não
desejam sentir-se responsáveis por interesses
e decisões coletivas, há uma cultura da
acomodação e do não-compromisso
que reflete a sobrepujância da consciência
individual à coletiva. O indivíduo reconhece
suas necessidades e acredita que o Estado tem o dever
de provê-las, porém, não reconhece
essas necessidades como sendo de um grupo e não
pretende favorecer a mobilização de ações
para exigir a competência do Estado.
Em verdade, o indivíduo não acredita no
poder do grupo. Não reconhece que a participação
"possibilita à população o
aprofundamento de seu grau de organização
e uma melhor compreensão do Estado, influindo
de maneira mais efetiva em seu funcionamento."
(GADOTTI e ROMÃO,2000,p.16)
É necessário pois, que os indivíduos
sejam educados para o exercício da participação.
E é a escola um dos espaços potenciais
de aprendizado deste processo, onde concentram-se grandes
grupos de crianças, educadores, funcionários
e famílias, organizados em torno de um objetivo
comum que é viabilizar o processo educativo.
A participação no ambiente escolar "contribui
para a democratização das relações
de poder em seu interior, e conseqüentemente, para
a melhoria da qualidade de ensino." (op.cit.,p.17)
Todos os segmentos da comunidade podem desta forma,
compreender melhor o funcionamento da escola, conhecer
com maior profundidade as funções e papéis
dos que nela trabalham, intensificar seu envolvimento
e assim, acompanhar e participar do processo educativo
ali oferecido.
Se a participação é tão
importante no ambiente escolar, há de se buscar
mecanismos internos e externos que possibilitem a valorização
desta prática.
Dentre os mecanismos externos, vale citar a legitimação
dos grupos organizados em grêmios, associações
e conselhos gestores, a tônica da autonomia das
escolas, as novas formas de administração
e financiamento dos recursos públicos. Já
os mecanismos internos, dependem, sobretudo, do perfil
da gestão escolar. A participação
é facilitada em ambientes abertos ao diálogo,
à partilha de decisões, que caracterizam
a gestão escolar democrática.
E o que é a participação senão
a prática efetiva da democracia?
2.1
- Participação e democracia: quase sinônimos
Democracia e participação são elementos
que caminham juntos, e indubitavelmente, necessários
e urgentes para a escola. Uma gestão escolar
cujo objetivo é a melhoria da organização
interna e cujo projeto pedagógico privilegia
a educação voltada à formação
de valores, à emancipação da consciência
e do sentido de cidadania, tem como diretriz a prática
participativa, que é característica do
processo democrático.
Não é tarefa fácil definir o conceito
de democracia, visto que este, historicamente, assumiu
diferentes significados, da Atenas do século
V às democracias ocidentais atuais.
Bourdon e Bourricaud (2000) atribuem dois tipos básicos
de democracia, que pressupõem ideologias democráticas
distintas e antagônicas, de acordo com a forma
com que hierarquizam os três termos da divisa
francesa - Liberdade, Igualdade, Fraternidade. O primeiro
refere-se à democracia liberal, cuja prioridade
está na divisa Liberdade, "entendida como
independência e não-interferência
da autoridade na esfera dos interesses privados(...)A
igualdade e a fraternidade aparecem em segundo plano
e são úteis nesse sistema apenas para
assegurar a "realização da independência
e autonomia pessoais, ou como estado social meritocrático
que lhes é naturalmente associado (op.cit,p.129)
O segundo conceito revela um sentido mais amplo. Embora
considere a liberdade "suspeita em razão
de suas origens aristocráticas, e a fraternidade
"como sinônimo de civismo", a chamada
democracia radical(...) assegura a predominância
das obrigações coletivas sobre todo tipo
de interesse privado e particular." (op.ci.,p.130)
A democracia é entendida como a mediação
entre os interesses, desejos e responsabilidades dos
indivíduos enquanto seres sociais-coletivos,
no sentido de construir a liberdade e a convivência
social, "que inclui todos os meios e esforços
que se utilizam para concretizar o entendimento entre
grupos e pessoas, a partir de valores construídos
historicamente."(PARO,2001,p.10). A democracia
"nutre a diversidade de interesses, assim como
a diversidade de idéias(...)Deve comportar o
direito das minorias(...)à existência e
à expressão(...)Necessita ao mesmo tempo
de conflitos de idéias e de opiniões,
que lhe conferem sua vitalidade e produtividade."
(MORIN,2001,p.107-108)
É desta forma que se configura o caráter
participativo da democracia; é tarefa impossível
justificá-la e construí-la sem a ação
efetiva de todos os seus envolvidos e sem a presença
da diversidade, do conflito, do direito à expressão
e do sentido de compromisso e responsabilidade:
"Ninguém
vive plenamente a democracia, nem tampouco a ajuda a
crescer, primeiro, se é interditado no seu direito
de falar, de ter voz, de fazer o seu discurso crítico;
segundo, se não se engaja, de uma ou de outra
forma, na briga em defesa deste direito, que, no fundo,
é o direito também a atuar." (FREIRE,1993,p.88)
A
democracia, assim como a participação,
é um constante exercício da práxis,
que só encontra terreno fértil em ambientes
abertos ao diálogo e à convivência
das diversidades. No ambiente escolar, a democracia
e a participação são contempladas
em todos os setores - em sua estrutura organizacional,
administrativa e pedagógica.
Na escola democrática, é comum observar
conflitos ideológicos, práticos, administrativos,
pessoais, que se justificam a partir do engajamento
de seus sujeitos na determinação de cumprir
objetivos coletivos, atendendo a interesses comuns.
A perspectiva de mudança dá-se como "uma
espécie de aposta, cujo sucesso está ligado
à capacidade coletiva de participar ativamente
dela.(...)Uma certa auto-determinação
que lhes permite tornar seu projeto(...)e construir
por/para eles próprios o sentido da mudança(...)"
(THURLER,2001,p.56)
3
- Conselho de Escola e as faces da gestão
O Conselho de Escola representa um instrumento potencial
de participação e exercício da
democracia porque sua representatividade é formada
por diferentes figuras do ambiente escolar e comunitário.
Num grupo tão distinto de pessoas, a função
do gestor é de oferecer subsídios para
que a prática participativa ocorra efetivamente,
desenvolvendo idéias, conceitos e valores, que,
reunidos, constituam o projeto educativo da escola.
Porém, alguns autores apontam as dificuldades
que impedem este processo de exercer sua plena realização:
"Na
realidade de nossas escolas públicas básicas,
em que se evidencia o divórcio entre a prática
escolar cotidiana e uma consistente emancipação
intelectual e cultural dos educandos, o que se verifica
é que a estrutura da escola mostra-se inteiramente
consoante com esse divórcio(...) na medida em
que não é concebida de modo a favorecer
a condição de sujeito dos agentes envolvidos.
O próprio conselho de escola, instituído
presumivelmente para esse fim, mostra-se, na maioria
das vezes, totalmente inoperante, mergulhado numa estrutura
avessa à participação e ao exercício
da cidadania." (PARO,2001,p.44)
Nota-se
que a característica no modo de gestão
da escola tem o poder, tanto de possibilitar a prática
democrática nas ações do conselho,
quanto, moldá-lo à gestão centralizadora,
impedindo a participação. O perfil do
conselho, por sua vez, vai refletir o tipo de gestão
e organização escolar.
Referindo-se especificamente à liderança
formal, aquela instituída e oficializada em uma
organização, o presente estudo faz alusão
a dois tipos específicos e antagônicos
de gestão; a gestão autoritária
e a gestão democrática. O líder
formal ou gestor, ao assumir uma ou outra característica,
ou uma predominar sobre a outra, vai determinar a qualidade
dos grupos organizados, suas ações e seus
níveis de autonomia e consciência com relação
ao seu papel no interior da unidade escolar.
Em verdade, não é viável a implantação
e o desenvolvimento de um conselho de escola participativo
inserido em uma estrutura escolar autocrática.
A prática efetiva da democracia na estrutura
pedagógica sustenta-se concomitantemente ao aprimoramento
desta na organização estrutural e administrativa,
de forma que, "uma e outra estão profundamente
imbricadas e são mutuamente reforçadoras
ou inibidoras da democratização da escola(...)que
envolve e atravessa todos os níveis, da administração
central à sala de aula(...)." (LIMA,2000,p.69-70)
Em Gadotti (2000), Paro(2001) e Lück et al(2001)
há ainda outros fatores que impedem o processo
de participação no Conselho de Escola:
-
O caráter consultivo do conselho, por vezes,
legitima uma série de decisões autoritárias;
- Dificuldades que a maioria dos representados têm
de se auto-expressar, dando vez a uma minoria que, geralmente,
detém o direito à voz;
- O poder deliberativo do conselho concentra-se "nas
rédeas" do diretor;
- A falta de informação sobre a função
do conselho limita a participação dos
pais no que diz respeito a aspectos físicos e
materiais da escola;
- Falta de engajamento do corpo docente, limitando as
funções cotidianas ao trabalho em sala
de aula;
- Dificuldade de avaliar os processos inerentes ao conselho,
por ser essa uma avaliação subjetiva,
e não de produção;
- Distância entre o cotidiano da escola e as necessidades
emergentes de seus envolvidos e da comunidade em que
ela está inserida.
Todos
esses fatores contribuem para a não-legitimação
do conselho como órgão verdadeiramente
representativo de sua comunidade escolar, subsistindo
na forma da lei, sem que sua prática seja apropriada
pelos seus representantes reais. Isto revela uma situação
alarmante, à medida em que ele reflete o tipo
de administração da escola - autocrático-centralizadora
- e sua relação com a comunidade interna
e externa - distante e inconsistente.
Em verdade, o conselho de escola participativo é
processo e resultado da gestão democrática,
à medida em que, a escola vai tornando-se "uma
casa da comunidade."(FREIRE,1993,p.18). Para Lima
(2000), sem correr os riscos de se abrir à participação
comunitária e ao exercício da cidadania
crítica, tornando-se cada vez mais pública,
a escola dificilmente encontrará aliados a partir
de projetos e de posições administrativamente
subordinados, capazes de se envolverem na sua defesa,
de se coligarem com os atores escolares e de amplificarem
as suas vozes.
Gadotti e Romão(2000) apresentam subsídios
que podem contribuir para a prática participativa
do Conselho de Escola, que são nada menos, do
que os pressupostos da gestão democrática:
-
"Capacitar os segmentos
- Consultar a comunidade escolar para sua intervenção
efetiva e decisória
- Institucionalizar a gestão democrática
- Tornar os processos de definição da
gestão transparentes
- Agilizar as informações e tornar transparentes
as negociações."
(p.67-68)
Enfim,
se a função social da escola aponta para
o desenvolvimento da autonomia e do pensar crítico,
é necessário que haja estratégias
e ações para adotar essa função.
Isto implica em considerar fundamentalmente a "necessidade
de se levar em conta a concretude dos fatos e relações
que se dão no cotidiano da escola, tendo em vista
a superação dos obstáculos à
mudança e ao diálogo(...)", tanto
quanto, "a coerência entre discurso e realidade,
o que exige da organização da escola a
escolha de princípios e procedimentos também
democráticos." (PARO, 2001,p.46).
4
- A pesquisa
O presente estudo reconhece a compatibilidade entre
o caráter quantitativo e qualitativo da pesquisa
social, cuja complementaridade contribui para a compreensão
mais ampla das dimensões do conhecimento, superando
suas contradições epistemológicas,
metodológicas e operacionais, a fim de "rechaçar
os falsos antagonismos e oposições entre
os dois paradigmas." (FILHO e GAMBOA,1997,p.52).
Partindo desse pressuposto, foi realizado estudo de
campo em escolas da rede municipal de ensino, com o
intuito de compreender os mecanismos que contribuem
para que o Conselho de Escola seja um instrumento eficiente
ou não de participação da comunidade
escolar, considerando as seguintes hipóteses:
-
O Conselho de Escola das unidades municipais de ensino
público de Taubaté possui característica
predominantemente consultiva;
- A comunidade escolar não reconhece o Conselho
de Escola como organismo participativo e tomador de
decisões;
- A gestão escolar ainda é fortemente
marcada pela centralização de poder, o
que dificulta o desenvolvimento de um Conselho Escolar
deliberativo.
4.1 - População-alvo
A rede municipal de ensino de Taubaté mantém
atualmente, 89 unidades de ensino pré-escolar,
fundamental e supletivo, em bairros urbanos e rurais.
Embora as escolas apresentem realidades locais diferenciadas
e características particulares, mantêm
uma padronização dos procedimentos pedagógicos
e administrativos, sob coordenação do
Departamento de Educação, Cultura e Esportes.
O critério de escolha considerou escolas de ensino
fundamental, de 1ª a 8ª série, em bairro
rural e urbano, com número de alunos e professores
variado. A escolha das unidades foi aleatória
no que se refere à localização
geográfica, aos espaços físicos
e aos gestores. De 15 escolas de 1ª a 8ª série
mantidas pela rede municipal, no período de março
a junho de 2003, fizeram parte da pesquisa, 08 escolas
de 1ª a 8ª série , representando 53,3%
do total.
4.2
- Coleta de dados
Inicialmente, a pesuisa previa a aferição
do grau de participação no Conselho Escolar,
por meio de questionário dirigido a 100% de seus
membros durante reuniões, em cada escola, e entrevista
dirigida aos gestores, incluindo o diretor do Departamento
de Educação, Cultura e Esporte da Prefeitura
Municipal de Taubaté.
A pesquisa foi buscando caminhos alternativos durante
o processo de coleta de dados ao deparar-se com algumas
dificuldades que foram decisivas para mudar os rumos
deste estudo:
- Nenhuma das escolas escolhidas havia previsto reuniões
do Conselho de Escola no primeiro semestre deste ano.
- Algumas escolas só fazem reuniões da
APM, cujos participantes não representam o Conselho
de Escola em sua totalidade;
- Algumas unidades escolares ainda estavam em fase de
implantação do Conselho no momento da
entrevista.
Essas
variáveis forçaram a pesquisa a modificar
suas estratégias a fim de resguardar os objetivos
a que se propôs. Assim, manteve entrevista dirigida
aos gestores, incluindo o coordenador do Departamento
de Educação, Cultura e Esportes, que através
de valiosa colaboração, permitiu o desenvolvimento
da pesquisa nas unidades escolares. Foi também
utilizada análise documental gentilmente fornecida
pelas unidades escolares entrevistadas. Em acordo firmado
entre entrevistadora e entrevistado, os nomes das escolas
e dos gestores permaneceram ocultos.
Quanto ao roteiro de perguntas, este também sofreu
algumas modificações, sob influência
de outras variáveis:
-
Diferenças entre níveis de implantação
e desenvolvimento do Conselho de Escola;
- Diferenças entre tempo e experiência
da atual gestão na unidade escolar, influenciando
o nível de informações sobre a
história da escola e sua comunidade;
- Níveis de empatia entre entrevistador e entrevistados,
comprometendo a clareza e objetividade das respostas;
- Os depoimentos acrescentaram informações
preciosas que ultrapassaram o limite e a intenção
das perguntas. Novos conhecimentos foram revelados e
abriram espaços para novas indagações.
4.3 - Entrevistas
A partir da transcrição das entrevistas
e das tabelas classificatórias de respostas,
foi possível estabelecer inter-relações
entre as unidades escolares que participaram do estudo,
de modo que, cada pergunta obteve respostas diferentes.
Em alguns casos, uma mesma pergunta gerou mais de uma
resposta. Assim, a pesquisa optou por desenvolver uma
classificação e incidência de respostas
obtidas durante as entrevistas, independentemente do
número de pessoas entrevistadas ou de perguntas
realizadas. Isso acrescentou à coleta de dados
maior repertório de informações,
possibilitando uma análise mais abrangente do
processo, que ultrapassa a questão quantitativa
da pesquisa, não menos relevante do que a análise
qualitativa, mas complementar a esta.
A pesquisa preocupou-se em compreender melhor a pessoa
de cada gestor em seu contexto particular, o tempo em
que trabalha como gestor naquela unidade escolar, a
quantidade de alunos e professores, e tentou detectar
também, o tipo de relação que o
gestor desenvolve com sua comunidade interna e externa.
A primeira entrevista foi realizada com o diretor do
Departamento de Educação, Cultura e Esportes,
compreendendo melhor a relação das unidades
escolares com os órgãos superiores de
gestão, bem como, detectar as possíveis
nuances entre as respostas.
É importante salientar que as respostas foram
obtidas a partir do ponto de vista do gestor, o que
fornece ao estudo uma leitura particular do Conselho
de Escola, que pode não ser, necessariamente,
o ponto de vista de outros membros da comunidade escolar.
Isto interferiu significativamente nas conclusões
a que chegou este estudo.
A partir das transcrições das entrevistas
e dos documentos fornecidos, a pesquisa revelou importantes
dados que contribuem na compreensão do funcionamento
do Conselho de Escola, à luz dos objetivos e
hipóteses levantados inicialmente.
5 - Análise dos dados
As reuniões do Conselho de Escola
"Quando você for saber mais sobre o Conselho
você vai ver que nem as reuniões têm
durante o ano. Se tiver, é uma ou duas e olhe
lá!"
"É difícil o horário de reunir
todo mundo; ter um dia só pra isso. Nós
não temos previsão no calendário."
(fragmento de depoimento)
A
questão das reuniões do Conselho de Escola
e sua periodicidade foi observada como um desafio para
as unidades escolares. As respostas obtidas na entrevista
acusam a inexistência dessas reuniões.
Um dos fatores que podem contribuir para o problema
é o fato das reuniões do Conselho de Escola
não serem previstas no calendário oficial
da rede municipal de ensino, a exemplo das reuniões
de pais e do Conselho de Classe.
A pesquisa revela que o Conselho de Escola enquanto
colegiado formal, não se reúne para definir
as ações da escola. Mas isso não
significa que a comunidade esteja excluída da
prática escolar. Em verdade, alguns membros do
Conselho são participantes ativos em algumas
unidades escolares, engajados, interessados e responsáveis.
O corpo discente participa da elaboração
e desenvolvimento de diversas iniciativas ligadas ao
Grêmio Estudantil. De fato, existe uma parceria
entre gestor, professores, pais e alunos, numa dimensão
informal, das relações espontâneas,
e não como colegiado organizado. Em algumas unidades
escolares, nota-se inclusive, a participação
de membros da comunidade externa, que não possuem
vínculo direto com a escola, mas que são
parceiros em ações conjuntas para melhorar
sua realidade local.
Como colegiado formal, foi possível observar
uma participação mais efetiva da Associação
de Pais e Mestres, que nas unidades escolares, está
ligada diretamente ao cotidiano de eventos, arrecadação
e aplicação de investimentos. Nota-se
também, que alguns gestores responderam determinadas
questões referindo-se à APM e não
ao Conselho de Escola. Outros afirmam que os dois colegiados
se fundem porque há membros da APM no Conselho.
Na prática, à primeira vista, alguns gestores
não são capazes de determinar quem é
do Conselho e quem é da APM.
A grande rotatividade dos professores também
apresenta-se como um fator que compromete a organização
de reuniões e, sobretudo, o comprometimento do
corpo docente. O fato de que alguns professores cumprem
a carga horária em mais de uma unidade escolar,
ou, se submetem a constantes processos de transferência
de uma escola para outra, impede o desenvolvimento de
seu vínculo como parte integrante de um grupo,
que influenciará diretamente no desenvolvimento
de ações coletivas e no cumprimento dos
objetivos dessas ações.
A análise das respostas revela ainda, que algumas
unidades escolares estão em fase de implantação
do Conselho de Escola, por diversos fatores, incluindo
o desmembramento do Conselho ocorrido no ano anterior.
Este problema é causado pela dificuldade do gestor
em administrar os diferentes conflitos de interesses,
muito comuns no processo de participação.
Para resgatar a "democracia perdida", é
necessário que o gestor desenvolva estratégias
capazes de retomar a confiança das pessoas em
relação à escola, o que exige sobretudo,
o estímulo a uma mudança de mentalidade
que implica em "deixar de lado o velho preconceito
de que a escola pública é apenas um aparelho
burocrático do Estado e não uma conquista
da comunidade." (GADOTTI e ROMÃO,2000, p.35)
Limites
e conflitos
"Entre as pessoas tinha muito conflito (...) porque
a tendência da pessoa é defender seu lado.
Até você mostrar a situação
pra pessoa é difícil. Ou você também
ver a situação. Essa dificuldade é
que faz muito Conselho de Escola desandar."
"É pontuar limites; até onde vai
a gestão dos diretores, até onde vai a
gestão do Conselho (...) e dar espaço
para que os grupos funcionem. (...)É saber sentar
à mesa com o diferente, mas não perder
o ideal, o objetivo." (fragmento de depoimento)
Diferenças
e conflitos são fatores preocupantes na gestão
escolar pela dificuldade aparente em administrar o problema,
que pode ser analisado de diversas maneiras, à
luz de teorias administrativas e sociológicas
que procuram desvendar o caráter das relações
interpessoais em que "o inferno são os outros"
(Jean Paul Sartre). Numa análise estrutural da
sociedade capitalista, este conceito é reforçado
à medida em que os interesses individuais sobrepõem-se
aos interesses sociais, numa clara distinção
descrita em Bordenave(1994):
"Em
toda a sociedade existe uma oposição entre
sistemas de solidariedade e sistemas de interesses.
Os primeiros funcionam em nível comunitário
e neles a ação visa a identificação
com o grupo e a solidariedade entre as pessoas(...)
Nos sistemas de interesses, a ação visa
ao interesse do indivíduo, que procura melhorar
sua posição relativa a respeito deles."(p.42)
Portanto,
não é possível compreender o conflito
no processo de participação sem levar
em consideração o conflito social inerente
à macroestrutura da sociedade que é reproduzida
nas microestruturas, dentre elas, a escola. Durante
o processo de participação, é preciso
criar oportunidades para que esta dinâmica implícita
seja revelada e compreendida. A partir desse desvelamento,
é possível articular as visões
de mundo e os interesses individuais àquilo que
o grupo pretende para a escola, com base no diálogo
e na busca do consenso.
Uma escola que se pretenda participativa, deve considerar
uma nova forma de relacionar-se, exigindo uma visão
diferenciada do convívio coletivo, "no qual
o desenvolvimento das relações pessoais,
no seu sentido mais autêntico e genuíno
deverá estar no centro das atitudes, dos conhecimentos
e da comunicação." (ALARCÃO,2001,p.31)
Outro
fator relevante diz respeito aos limites de participação
dos pais e de outros membros da comunidade escolar,
no âmbito das questões pedagógicas,
sobretudo, aquelas que constituem a ação
efetiva do corpo docente. Azanha(1995) aponta uma problemática
muito comum no âmbito das discussões a
respeito da participação de pais e alunos
em questões pedagógicas, no sentido estrito
das técnicas do ensinar:
"Não
se põe em dúvida que incentivar as comunidades
a se interessarem pelas escolas que as servem e a pressioná-las
a serem boas escolas é inteiramente defensável.
Daí a admitir que a situação pedagógica
não requer nenhuma qualificação
profissional para sua condução, é
até mesmo uma desvalorização da
formação do professor."(op.cit.,p.68)
O
autor admite ainda que, do ponto de vista pedagógico,
a integração lar-escola não demonstra
benefícios e não se fundamenta de modo
convincente numa análise da situação
escolar. Embora a citação acima caracterize
uma visão minimizada e fragmentada da ação
pedagógica, pode explicar o limite de intervenção
do corpo discente e suas famílias naquilo que
compete fundamentalmente ao professor.
Porém, numa dimensão ampla e complexa,
que ultrapassa a mera elaboração de conteúdos
curriculares e planos de ação docente,
a ação pedagógica representa o
pensar, discutir e elaborar as finalidades educacionais
da escola, tarefa que deve ser apropriada por todos
os membros da comunidade - corpo docente, discente,
gestores, funcionários, instituições
locais e famílias. Isto representa o próprio
processo democrático, que produz, administra
e usufrui daquilo que se constrói no ambiente
escolar.
Poder
local e autonomia da escola
"O poder está mais perto da escola"
(fragmento de depoimento)
A
municipalização pode ser considerada uma
das mais importantes transformações ocorridas
no ensino atualmente, determinando novas estratégias
de gestão e interação entre os
órgãos gestores e a unidade escolar. Influencia
também na autonomia do poder público local
ao permitir o estabelecimento de regras e normatizações
singulares para eleição de gestores e
recrutamento de professores e demais funcionários.
No município de Taubaté, o processo de
escolha do gestor escolar é realizado pelo Departamento
de Educação, Cultura e Esporte sob coordenação
da Prefeitura Municipal. Por ser o gestor um cargo de
confiança, não há processo de eleição
direta pela comunidade ou concurso público.
Com relação às atribuições
do Conselho, observou-se nas unidades escolares sua
característica deliberativa quando em casos extraordinários,
ligados predominantemente à questão disciplinar,
e em alguns casos, em processos de prestação
de contas. A função do Conselho no que
diz respeito à ação pedagógica
da escola foi citada apenas duas vezes (vide tabela).
De qualquer forma, a relação entre o poder
local e as unidades escolares não deixa de obter
algumas vantagens, que quando bem aproveitadas contribuem
para o sucesso do projeto educativo da escola:
-
Por um lado, os órgãos gestores têm
maiores condições de observar, estabelecer
e avaliar metas, interferindo diretamente nos processos
decisórios da escola;
- Por outro, a escola, pela intervenção
do gestor junto ao poder local, pode exigir melhores
condições de trabalho e discutir suas
ações com os órgãos gestores
de maneira mais direta e menos burocrática. Convém
salientar que este processo parece ocorrer entre o gestor
das unidades escolares e os órgãos superiores
de gestão, sem necessariamente submeter-se ao
poder decisório da comunidade escolar.
Os
eleitos
"É preciso ter qualidade humana no Conselho".
(fragmento de depoimento)
A
menção ao nível de consciência
e politização de seus participantes, é
notadamente apontada como uma das principais características
de um Conselho de Escola atuante. Desejável seria
dispor de um grupo de pessoas politizadas, em que já
se incorporou a função histórico-social
da escola, comprometidas com a transformação
do ambiente e cientes de sua importância para
que este processo efetivamente aconteça. Ideal
seria ter na comunidade escolar um colegiado formado
por sujeitos históricos, engajados em sua parcela
de responsabilidade.
Porém, a escola é o espelho do grau de
desenvolvimento da consciência crítica
da sociedade como um todo, e representa a luta travada
no sistema baseado nas relações de classe.
Os indivíduos carregam as conseqüências
desse sistema, que promove uma educação
acrítica, apolítica, construída
historicamente por mecanismos de exploração
e opressão.
Deste modo, a democracia e a participação
não são algo que se resgata, pois que
nunca se teve. Mas que podem ser aprendidas pelo exercício
insistente da práxis social, cujo objetivo é
desvelar a realidade, compreender sua dinâmica
e interferir nela, modificando o estado atual das coisas:
"Educador
e educando (lideranças e massas) co-intencionados
à realidade, se encontram numa tarefa em que
ambos são sujeitos no ato, não só
de desvelá-la, e assim, criticamente conhecê-la,
mas também, no de recriar este conhecimento.
Ao alcançarem, na reflexão e na ação
comum, este saber da realidade, se descobrem como seus
refazedores permanentes." (FREIRE,1996, p.78)
A
cultura da não-participação explica
grande parte dos desafios em se organizar colegiados
na escola, de modo que, oportunizar o direito à
voz e voto não é condição
suficiente para garantir a participação.
A pesquisa revela que durante as reuniões para
recrutamento de candidatos a membros do Conselho do
Escola, existe uma espécie de participação
compulsória nas eleições:
"Até
na reunião para saber qual pai gostaria de estar
se candidatando, um fala: - Vai você! - Eu não,
vai você! - até que um decida e levanta
a mão" (fragmento de depoimento)
A lógica impede a possibilidade de assimilar
tamanho despropósito, visto que as pessoas se
candidatam voluntariamente. Porém, há
um mecanismo interno durante a reunião de candidatura,
uma espécie de mal-estar provocado pela pouca
adesão das pessoas, que faz com que indivíduos
despreparados e pouco comprometidos acabem assumindo
a participação num processo de eleição.
Por outro lado, existe a vontade de participar, que,
numa química emocional somada ao medo e à
timidez, produz a chamada "participação
forçada."
O exercício da democracia não é
algo que se impõe, que se institui por decreto
ou por vontade individual. Há uma motivação
interna do indivíduo em participar, que vai lentamente
desenvolvendo-se no seio das relações
com outros indivíduos. Cabe à escola oportunizar
condições para que a motivação
individual, pouco a pouco, molde aspirações
e motivações coletivas:
"É
preciso e até urgente que a escola vá
se tornando um espaço acolhedor e multiplicador
de certos gostos democráticos como o de ouvir
os outros, não por favor mas por dever, o de
respeitá-los, o da tolerância, o do acatamento
às decisões tomadas pela maioria a que
não falte contudo o direito de quem diverge de
exprimir sua contrariedade. O gosto da pergunta, da
crítica, do debate" (FREIRE,1993,p.89)
Politizar
primeiro
"Primeiro as pessoas têm que saber para que
serve o Conselho". (fragmento de depoimento)
É
necessário que sejam criadas estratégias
para que os indivíduos participantes da comunidade
escolar possam compreender a importância do Conselho
e da participação organizada das pessoas
nas decisões. No entanto, não é
possível desenvolver mecanismos de participação
sem compreender o motivo pelo qual as pessoas não
participam, motivos estes, revelados a partir da compreensão
do processo histórico brasileiro, permeado de
paternalismo e opressão, em que os indivíduos
são tolhidos do seu direito de apropriarem-se
daquilo que é público.
É preciso aumentar a conscientização
das pessoas a respeito de sua própria condição
de sujeitos históricos, incorporando sua parcela
de responsabilidade para transformar o quadro de desigualdades,
e da não-apropriação de seu direito
a refletir e agir critica e criativamente. Se não
há uma visão clara da função
do Conselho no interior da escola é porque também
não há uma visão clara dos indivíduos
em relação à sua autonomia, ao
seu poder de decisão e de ação.
Oportunizar essa tomada de consciência é
recuperar, no microuniverso das relações
na escola, séculos de prejuízo cultural
e submissão à hegemonia da classe dominante.
É apropriar-se daquilo que é público,
que entre nós vem sendo tratado como coisa privada,
mas como coisa privada que se despreza." (FREIRE,1993,p.89)
A
importância do gestor
"Eu acho que a direção é o
coração dessa interferência do pai
na escola."
(fragmento de depoimento)
De
fato, a intervenção do gestor é
fundamental para que a escola abra suas portas à
comunidade. É o gestor que possibilita o diálogo
entre professores, alunos, funcionários e famílias,
criando estratégias pedagógicas para que
seja possível a integração plena
desses diferentes agentes, tanto para compreender os
problemas da escola, quanto e a partir deles, construir
coletivamente o projeto educativo da unidade escolar.
Todavia, para que isto seja viável, é
necessário que o diretor reconheça em
primeira instância, que sua escola está
inserida concretamente em uma comunidade, e que essa
comunidade, com seus anseios, necessidades, limitações
e potencialidades, influencia e é influenciada
pela escola. É necessário, pois, reconhecer
que a escola precisa da ação da comunidade
para melhorar o seu desenvolvimento, e consequentemente
a qualidade do ensino. Esta visão política
contextualiza a escola histórico, social e culturalmente,
vinculando, sobretudo, sua função social
ao significado mais amplo do que é comunidade.
Ao abrir as portas da escola à comunidade, o
passo seguinte é estimular a discussão
e a reflexão, para compreender de forma mais
ampla e dinâmica a realidade e os caminhos possíveis
para viabilizar melhorias na qualidade de vida de todos.
O desafio do gestor consiste em desenvolver estratégias
para quebrar resistências e, gradativamente, promover
o desenvolvimento de grupos, com a finalidade de estabelecer
entre eles, vínculos e identidades coletivas.
Esse caminho somente é trilhado num processo
de gestão democrática, cujas ações
apontam para o diálogo, a descentralização
de informações e decisões e a busca
e manutenção de acordos e parcerias. O
gestor possibilita aos indivíduos a admissão
de papéis sociais dentro da escola, colaborando
no desenvolvimento de ações coletivas,
assumindo com ele, responder com comprometimento por
essas ações.
A gestão democrática chega a ser mais
confortável para o gestor em termos de delegação
de funções e divisão de responsabilidades,
otimizando na prática, melhor gasto de tempo
e de energia em tarefas que, numa gestão autoritária,
é sua tarefa exclusiva. Porém, não
é nada confortável discutir problemas
e mediar conflitos. A busca do consenso exige demasiada
energia, e muitas vezes, promove rupturas durante o
processo. Porém, somente por esse caminho é
que se desenvolve a reflexão crítica,
a avaliação e a reorganização
da ação pedagógica por todos os
envolvidos, condições fundamentais para
o processo de inovação e mudança
no interior da escola.
6
- Considerações finais
"É igual quando você coloca um quadro
na parede. Quem enxerga melhor se o quadro está
torto ou não? Quem está mais de longe.
E quem está colocando o quadro pergunta pro outro:
- Está bom assim?" (fragmento de depoimento)
A
partir da contribuição de seus gestores,
a pesquisa revelou o caráter predominantemente
consultivo do Conselho de escola das unidades municipais
de ensino e, aponta como fatores: a proximidade espacial
entre os órgãos superiores de gestão
e as unidades escolares; falta de tempo e planejamento
para reunir os membros do Conselho de Escola e o controle
exclusivo das decisões pelos órgãos
superiores de gestão. Isto representa uma conseqüente
diminuição na participação
dos processos decisórios que dizem respeito à
escola.
Embora o Conselho não esteja atuando efetivamente,
enquanto colegiado formal, foi possível observar
indícios de uma participação informal
da comunidade escolar e dos grupos familiares, o que representa
uma gradativa mudança no nível de apropriação
do espaço da escola pela comunidade. Este é
um importante sinal de que a cultura da participação
vem sendo desenvolvida, em alguns organismos com certa
timidez, em outros, como condição fundamental
de trabalho, o que depende em grande parte, do perfil
do gestor escolar - autoritário ou democrático.
A cultura da participação marca presença
história atual do Brasil, que, há pelo menos
20 anos, vem buscando o processo de retomada de poder
pelo povo, através de movimentos sociais que se
mostram capazes de pressionar as estruturas de poder do
Estado. A escola é um instrumento potencial de
participação na sociedade, e portanto, não
pode ficar alheia a esse processo.
Trata-se, sobretudo, de uma mudança de consciência
individual e coletiva, que vai se construindo no cotidiano
escolar, a partir de ambientes em que seja possível
exercer a gestão democrática. A participação
não encontra terreno fértil numa gestão
centralizadora e autocrática.
Este trabalho contemplou o ponto de vista do gestor escolar
para explicar o Conselho de Escola. Esta contribuição
primária oferece subsídios para abranger
a pesquisa a outros membros da comunidade escolar, que
dele participam. Compreender melhor seu funcionamento
a partir das relações entre seus membros
pode possibilitar otimizar seu poder de intervenção
junto à comunidade para a qual ele serve.
Planilhas das entrevistas:
Fatores
que favorecem o funcionamento do C.E.
|
Funções
do Conselho enfatizadas nas entrevistas
|
Estratégias
para otimizar o funcionamento do C.E.
|
Quando
há interesse dos pais
04 respostas |
Cuida
da disciplina
03 respostas |
Aumentar
a conscientização acerca do papel
do C.E.
04 respostas |
Quando
há conscientização a respeito
do papel do C.E.
04 respostas |
Auxilia
nas decisões
02 respostas |
Otimizar
a qualidade da ação do gestor junto
aos pais
02 respostas |
Quando
há interesse de todos os envolvidos
03 respostas
|
Auxilia
na melhoria do ensino
02 respostas
|
Gestão
mais clara em objetivos
|
Membros
politizados e comprometidos
|
Avalia
o rendimento dos alunos
|
Oficializar
reuniões
|
| Quando
os pais sentem-se importantes e úteis |
Melhora
a fiscalização |
Eleição
de membros mais politizados |
| Interação
entre professores e pais |
Auxilia
nos investimentos econômicos |
Fazer
do corpo docente um estimulador da participação
de alunos e pais |
| Gestor
democrático |
Estabelece
mediação com a comunidade
|
|
| Perfil
do C.E. na rede municipal de ensino |
Fatores
que possibilitam ao C.E. ser mais consultivo |
Fatores
que possibilitam ao C.E. ser mais deliberativo |
Frequência
das reuniões |
| Mais
consultivo 04 respostas |
O
poder está próximo das unidades escolares
02 respostas |
As
escolas possuem autonomia |
Não
há reuniões do C.E. porque ele está
em fase de implantação 04 respostas |
| Mais
deliberativo 03 respostas |
Falta
de tempo e organização para reunir
os membros |
O
diretor sabe lançar mão desse recurso
quando é preciso |
Não
há previsão de reuniões do
C.E. para o 1º semestre 04 respostas |
| Equilibra
as duas funções |
As
decisões vêm previamente estabelecidas
pelos órgãos gestores
|
Há
uma participação efetiva do C.E. nas
decisões em que ele é acionado |
Só
há reuniões do C.E. em casos extraordinários
02 respostas |
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