|
|
| ::. Considerações
sobre a adoção de material didático
apostilado |
Professor
Reginaldo Elias Ferreira
Livre Docente em Geografia pela Universidade de São
Paulo e Professor de Ensino Fundamental e Médio
com experiência em escolas particulares e atual
atividade na Rede Pública da Prefeitura de São
Paulo.
Email: regililian@ig.com.br
Sendo o professor o mediador e tomador de decisões
relacionadas ao processo de ensino-aprendizagem, deve
ser respeitado o fato de que os alunos, ao entrarem na
sala de aula, têm uma prévia abordagem cultural
sobre temas diversos, trazem conhecimentos empíricos
já constituídos. Isso deve ser considerado
durante as aulas, corrigindo conceitos mal formados e
aprimorando a bagagem pré-existente além
do fornecimento de novos subsídios, o que requer
uma didática apropriada com um ritmo particular
para cada turma. Evidentemente o material didático
adotado, a estrutura escolar, entre outros, interferem
nos resultados de ensino-aprendizagem.
A meta da escola poderia ser resumida a dois itens:
1. A finalidade dos estudos é adquirir conhecimentos
que permitam obter um título determinado, e alcançar
um trabalho remunerado que favoreça a liberdade
econômico-financeira.
2. A finalidade dos estudos é o desenvolvimento
da personalidade humana, para o melhor serviço
à sociedade, o que leva a uma preparação
profissional correta.
A primeira alternativa pode garantir o êxito imediato
dos aprovados, mas não lhes garante o futuro. Há
muitos titulados perdidos, indecisos, passíveis
a tudo. A segunda alternativa talvez não garanta
o êxito escolar, mas é garantia segura do
êxito pessoal futuro, isto é, da liberdade
e felicidade pessoais, quaisquer que sejam as circunstâncias
"profissionais" e sociais.
A posição de um educador deve estar muito
mais voltada para a segunda alternativa do que a primeira,
e sua postura em aula contribuirá para isso, para
algo além do conteúdo.
As novas tendências pedagógicas propostas
por intelectuais da educação, pesquisadores
de grandes universidades, apontam para o fato de que a
escola encontra-se desafiada a deslocar o foco do conteúdo
para o sujeito humano e reconhece que só alcançará
esse objetivo através de uma nova relação
com o conhecimento. Cabe à escola produzir práticas
pedagógicas consistentes, construindo nos sujeitos
aprendizes o desejo de falar e escrever, o de ouvir a
fala e a escrita do outro como modo de significar o mundo
e caminho para a aceitação e para a inclusão.
Sabemos que a escolha do material didático utilizado
na escola também passa pelo projeto pedagógico
da escola que, como sabemos, deveria ser construído
de forma democrática, considerando-se também
a visão e participação, entre outros,
dos professores.
Um bom material didático auxilia e permite a troca
e a participação reais no processo de conhecimento
durante as práticas educativas e, nesse sentido,
não é preciso mencionar que, quando imposto
integralmente como padrão sem possíveis
alterações pelo professor quanto ao que
pode ser trabalhado ou não mediante o nível
dos alunos, está na contra-mão o material
apostilado, pois dessa forma torna-se castrador da motivação
criadora pela sua característica conteudista, de
marketing (um nome que circula no mercado) e de prática
educacional conflitante, fomentadora de indisciplina e
limitadora a aluno e professor.
Quanto à promessa de "capacitação"
para professores e a sucessiva "atualização"
do material, promovidas pelo fornecedor de apostilas,
são apenas promessas, pois estas capacitações,
em geral, não condizem com a realidade da escola
e as atualizações de apostila, quando há,
ocorrem apenas na seção de exercícios
e quando alteram alguma matéria restringem-se apenas
a uma ou outra página, a cada cinco anos em média.
Para disciplinas como geografia, história e ciências
isto é muito ruim, pois diariamente há mudanças
e o sistema apostilado não pode ser alterado, a
menos que o professor faça o papel de revisor do
material didático, mão-de-obra gratuita,
com encaminhamento de informações à
central de redação e publicação
da instituição responsável pelo comércio
das apostilas.
O mercado editorial de livros faz atualização
a cada três anos e oferece excelentes títulos,
cujos autores são pesquisadores em reconhecidas
universidades que visam ao desenvolvimento de competências,
habilidades e a formação de conceitos que
são a coluna vertebral da aprendizagem e que permitem
a passagem do raciocínio lógico para o raciocínio
abstrato, estando o professor na sala de aula livre para
trabalhar a formação de cidadãos
para a sociedade, e não simplesmente o adestramento
de pessoas para o mercado.
Enquanto falta compreensão aos administradores
fornecedores e parceiros do limitador modelo apostilado
de material didático, cabe aos educadores que se
enquadram no problema relatado tomarem corajosamente a
decisão de gradativamente superarem esses empecilhos,
agindo, criando e crescendo.
Publicado
em 28/04/2007
|
|
|