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Da
unidade para a Diversidade através da Educação |
Thereza
Bordoni
Mestre em educação. Consultora do Projeto
Linha Direta. Diretora da A&B Consultoria e Desenvolvimento
e do site www.vaganaescola.com.br
. Palestrante.
Contato: tbordoni@vaganaescola.com.br.
(31) 91849405.
Através de observações
constantes do dia-a-dia escolar e leitura de vários
livros e teses sobre educação, venho buscando
clarear as relações entre a inversão
de valores sociais e o processo educacional. Percebo
que o reflexo de uma sociedade sem limites e confusa
em seu processo de formação, influenciada
por uma globalização desmedida, trouxe
para a escola um aluno sem parâmetros de comportamento
social, com um discurso vazio e fundamentado somente
nos "meus direitos", com uma visão
parcial de acontecimentos sócios-políticos
e o que é pior sem objetivos para com a sua vida
escolar.
Iniciamos o século XXI com um atentado terrorista
a maior potência do último século
e através das reações mundiais
ao fato, percebemos a falta de consistência de
uma formação humana, também papel
da escola. Sofremos também um processo de banalização
da vida, seja por crimes ou por programas televisivos
onde a venda da privacidade se transforma em fama. Observamos
ainda o processo de globalização econômica
e cultural e a crescente importância que assumem
os fóruns políticos internacionais. Isso
coloca, para a escola, novas demandas e para aprendermos
a lidar com os novos professores e alunos, precisamos
desmistificar os fracassos do século XX e analisar
a Historia através de um contexto sócio-político-pedagógico.
Tais injunções do mundo moderno colocam
a relevância de discussões sobre a dignidade
do ser humano, sobre a igualdade de direitos, a recusa
categórica de formas de discriminação,
a importância da solidariedade e da observância
às leis, assim como colocam a necessidade de
acatar e prever formas de simbolização
associadas às múltiplas posturas de inscrição
possível no mundo das relações
sociais.
Historicamente, a escola desenvolveu-se como uma formidável
máquina de normalizar, às vezes para tornar
possível a democracia, para favorecer uma coexistência
baseada no livre consentimento e no contrato social
mais que na violência, outras vezes para substituir
as tiranias rústicas de antes por totalitarismos
que controlavam os espíritos acima de tudo. Esse
desejo de unidade apresenta um problema: empobrece progressivamente
a diversidade dos modos de vida e de pensamento, em
prol de uma língua escolar, de um pensamento
ortodoxo, de uma racionalidade exemplar, de uma sensibilidade
e de uma ótica codificadas, de uma cultura de
massa.
O séc. XXI coloca, mais do que nunca, a necessidade
de que a educação trabalhe a formação
ética e plural dos alunos. Cabe à escola
assumir-se enquanto instância de discussão
dos referenciais éticos, políticos e sociais,
não enquanto instância normativa e normatizadora,
mas como espaço social de construção
dos significados éticos necessários e
constitutivos de toda e qualquer ação
de cidadania. A escola deve encontrar um caminho intermediário
entre a unidade e a diversidade, tanto no que se refere
aos percursos e à formação dos
alunos quanto ao que se refere às práticas
pedagógicas, aos valores e às representações
dos profissionais.
Infelizmente este caminho ainda é desconhecido
no interior de muitos dos estabelecimentos escolares,
apesar de todas as inovadoras tendências pedagógicas
e os estudos teóricos-práticos ocorridos
no último século. O mundo pode transformar-se,
a economia pode desmoronar e reestruturar-se, as sociedades
podem recompor-se, os refugiados podem multiplicar-se,
enquanto a escola continua percorrendo seu próprio
caminho, tomando às vezes cinco minutos para
falar da pedofilia na igreja ou da guerra do Oriente
Médio, e voltar rapidamente às "coisas
sérias", todos preocupados em progredir
e em concluir o ano sem se expor à crítica
dos pais e colegas.
Pais e alunos consideram-se consumidores de escola (Baillon,
1982), utilizando ao máximo os recursos escolares
para garantir o melhor diploma, sem se preocupar em
saber se suas estratégias agravam as desigualdades
sociais ou se além dos saberes para passar no
vestibular o aluno está levando consigo uma formação
humanitária recheada de valores. Em contra partida
os professores se preocupam em encontrar um posto de
trabalho estável e confortável, em se
proteger dos alunos com problemas, dos pais exigentes,
dos diretores dinâmicos, das reformas ambiciosas.
Ensinar "macetes", trabalhar conteúdos
meramente acadêmicos é muito mais fácil
que formar cidadãos. Assim, muitas vezes a compreensão
e a analise crítica de mundo se transformam em
perda de tempo letivo. São posturas como estas
que favorecem a formação de uma sociedade
sem valores morais. Estas posturas não deveriam
mais fazer parte da realidade educacional de um segmento
que discute competências e habilidades, múltiplas
inteligências, avaliação formativa,
tempo de formação, entre outros.
Porém, na escola, todos os dias nasce um compromisso
frágil entre o respeito pelas pessoas - por suas
necessidades, seus ritmos, seu pensamento - e as exigências
do programa, do trabalho, da avaliação,
do horário, da coexistência. Sabemos que
existe uma tensão quase intransponível,
entre o desabrochar do indivíduo e sua integração
na sociedade, entre o desejo de igualdade e o respeito
pelas diferenças, entre os interesses do professor
e os do aluno, entre o projeto pessoal do professor
e sua fidelidade ao programa recebido. Para Edgar Morin,
a complexidade está na base, na irrupção
dos antagonismos e faz-se necessário pensar essas
contradições de forma conjunta. A sociedade
cria uma conexão planetária mas não
consegue reinventar a escola. Já existe uma movimentação
dos educadores na busca de um trabalho transinterdisciplinar,
permeado de valores éticos, morais e solidários;
na formação de uma escola aprendente,
de uma educação inter e transcultural.
A elaboração de projetos, a postura interdisciplinar,
os temas tranversais, a elaboração do
Projeto Político Pedagógico, são
sinais deste movimento, porém encontram resistência
nos seus maiores parceiros, a família, que apesar
de se dizer preocupada com a formação
integral dos filhos, cobra da escola uma postura exclusivamente
tecnicista, baseada em afirmações como:
"no meu tempo era assim é era bom"
e sua maior preocupação é a nota
e a aprovação.
Precisamos ter claro que os valores implícitos
e explícitos que permeiam as relações
entre os membros da escola são fatores determinantes
da qualidade de ensino e podem chegar a influir de maneira
significativa sobre o que e como os alunos aprendem.
Os professores que aceitam compartilhar alunos, sem
serem protegidos por uma restrita divisão do
trabalho, que aceitam reunir territórios, enfrentar
fenômenos de preferência e de mercado, serem
observados em momentos em que nem tudo se controla e
em que se manifesta menos desembargo profissional e
pessoal do que se gostaria, conseguem transformar estas
contradições em verdadeiros mecanismos
a favor da aprendizagem significativa. Para isto, os
professores devem dominar os saberes a ensinar em seu
estado nativo, no mais alto nível, integrando
as últimas aquisições da pesquisa,
os últimos acontecimentos mundiais e a sua relação
à vida cotidiana impregnada de valores cidadãos,
ou podem limitar seu domínio a uma versão
menos exigente, já transporta para o âmbito
do ensino, tal qual figura nos programas e continuar
a formar eternos vestibulandos.
Como os alunos, o professor está sujeito a ampliar,
modificar, reestruturar os seus conhecimentos, os seus
pontos de vista. O professor é, também,
um aprendiz e precisa, com urgência, olhar para
o passado prevendo o futuro para aprender a transformar
o presente. Não podemos mais ser formadores de
uma sociedade sem limites humanos. A escola quando analisa
seu percurso histórico-social pode e deve encontrar
seu novo caminho. É preciso que a Escola faça
uma real inversão dos seus valores para que possamos
reverter os valores da sociedade atual, que se baseia
na lógica da guerra, nos países hegemônicos,
que escolheu o caminho da competitividade sem solidariedade.
A escola deve impregnar de sentido cada ato cotidiano.
Não podemos esperar que a sociedade nasça
democrática, então a escola tem este papel.
Devemos passar do discurso tão comum no último
século: "Formar o cidadão crítico
e participativo", para ações concretas
de formação de virtuosos cidadãos.
BIBLIOGRAFIA.:
GADOTTI, Moacir. Palestra. Curitiba. Abril,
2002
MEIRIEU, P. A pedagogia entre o dizer e o fazer: a coragem
para começar. Porto alegre: Artemed editora
PERRENOUD, P. Ensinar: agir na urgência ,decidir
na incerteza. Porto Alegre: Artemed editora 2001 |
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