OS
QUATRO GRUPOS DE HABILIDADES COGNITIVAS
Nós ensinamos as nossas crianças como
os outros pensam. Exemplificando temos o como se introduz
na sala de aula uma interpretação de texto.
O professor, quase sempre, inicia assim: "o que
o autor pensa sobre isto ou aquilo; o que o autor quis
dizer ao usar determinadas expressões e assim
por diante. Precisamos ensinar nossas crianças
a pensar por si próprias. Começamos apresentando
síntese dos quatro grupos de habilidades cognitivas
do pensamento.
1º
grupo - HABILIDADES DE INVESTIGAÇÃO
Investigação é busca por soluções
para se resolver uma questão. Essa busca deve
ser minuciosa, criteriosa e, se necessário, transformada
em algo melhor. A ação da investigação
é investigar, buscar, pesquisar minuciosamente
algo. Uma vez encontrados os dados, procura-se estabelecer
as relações que os envolvem, melhorando-os
ou transformando-os em outros fatos. Não podemos
deixar de dar à investigação, como
nos diz Lipman, o caráter do pensar bem, do pensar
ético, otimizando, desta forma, a investigação
e facilitando a resolução da questão
apresentada.
Para ter competência no processo da investigação,
são necessárias, minimamente, as habilidades
que passo a expor.
A
habilidade de saber observar bem
Observar é olhar com atenção, notar,
reparar. Observação é ação
de observar, de fazer um exame acurado de algo, atendo-se
aos mínimos detalhes. Usamos os sentidos externos
e a sensibilidade interna na realização
da observação. Aproveitando-nos de conceitos
e pré-conceitos culturais formados, produzimos
percepções e conhecimentos.
Observar é uma habilidade que todos temos e que
podemos melhorar. Para começar, podemos observar
usando nossos sentidos, o trajeto de nossa casa ao trabalho,
à escola, ou mesmo, de um passeio. Quanta coisa
há nesses trajetos, rotineiros ou não,
que não nos damos conta, provavelmente coisas
que nos trariam grande satisfação se observadas
com qualidade.
Desenvolvendo nossa habilidade de observar bem, tornamos
mais fácil o trabalho de orientar nossos alunos
em sala de aula, para observarem bem os conteúdos
das disciplinas a serem estudadas.
A habilidade de saber formular questões ou perguntas
substantivas
Perguntar é indagar, querer respostas a algo
que nos desperta a curiosidade. Perguntar por perguntar,
não leva a nada. O importante é que ao
serem explicitadas, as perguntas gerem um movimento
interno, que nos leve a ir em busca das respostas que
as resolvam.
Perguntas tidas como "bobas", não nos
parecem merecer crédito, são vistas com
indiferença, não nos mobilizam a nada.
Ao formular perguntas, devemos nos certificar de sua
relevância e da verdadeira necessidade de respostas
que resolvam o problema em questão.
Numa aplicação prática é
dado um texto aos alunos para que façam, primeiramente,
leitura silenciosa para se inteirarem do conteúdo.
Findo este tempo, solicita-se que os alunos façam
perguntas com respeito ao texto, coisas que lhes tenham
despertado interesse. As perguntas feitas vão
sendo escritas no quadro de giz, uma a uma, identificadas
pelo autor, procedimento este que estimula outras perguntas,
mesmo dos alunos mais reservados. O próximo passo
é trabalhar coletivamente essas perguntas, montando
um quadro com os temas que forem sendo gerados, como
por exemplo a moral, a ética, a cultura, discriminação,
preconceito e outros. Escolhe-se, então, com
o aceite de todos, um dos temas para aprofundar estudo.
Esta habilidade pode ser desenvolvida em todas as disciplinas
do currículo com retorno bastante positivo.
Não são todos os alunos que têm
facilidade para formular "boas perguntas".
Nesse caso, entra o professor, como mediador e orientador
do processo, que com a sutileza necessária, verte
a pergunta feita em outra que seja pertinente ao texto
trabalhado. Com o tempo, os próprios alunos avaliam
suas perguntas e as tornam inteligentes, substantivas
e coerentes.
O esforço posto na investigação
advém de boas perguntas, precedidas de observação,
além de abrir caminho para uma boa pesquisa.
A
habilidade de saber formular hipótese
As hipóteses, segundo Aristóteles, "estabelecem
sua existência, para deduzir as conclusões".
Saber formular hipóteses é antever as
soluções possíveis ou viáveis.
As repostas desejáveis são aquelas que
realmente possam resolver as questões postas
à discussão. A validade das hipóteses,
crê-se, vem da necessidade de serem resolvidas.
A instabilidade do mundo de hoje clama pelo desenvolvimento
do pensamento criativo, prática que nos orienta
no enfrentamento dos muitos desafios que aparecem. Elabora
hipóteses plausíveis quem é capaz
de imaginar, de supor, de inventar, de criar alternativas,
ou seja, usar e abusar do pensamento criativo.
Se a escola propõe um trabalho no qual os alunos
aprendam a fazer boas perguntas, é interessante
que os encaminhe também a encontrar respostas
plausíveis (hipóteses), não fragmentando
o processo do pensar bem, que tem a continuidade no
próximo passo, a comprovação.
No contexto de sala de aula, os jogos, as brincadeiras,
a diversificação das atividades devem
estar voltadas ao emprego dessas habilidades, com a
supervisão do professor que, continuamente atento,
avalia e intervém educacionalmente quando necessário,
facilitando o desenvolvimento do processo.
O aprendizado do pensar bem é um processo e como
tal deve ser tratado. O professor que, ao intervir,
vem com as respostas prontas, tira de seu aluno a possibilidade
de, ele mesmo, encontrar as respostas aos desafios que
lhes foram propostos.
O processo educacional ganha vida quando é criativo,
induz à imaginação, à criação
e, quando surge o desafio é necessário
que os interventores tenham a paciência e disposição
para atender às diferenças individuais,
respeitando o ritmo de cada aluno.
A
habilidade de saber buscar comprovações
Tenho a pergunta, tenho a possível resposta (hipótese),
mas não tenho ainda, a comprovação.
A confirmação ou não de uma hipótese
é fundamental no direcionamento da forma de agir.
O professor deve ser o cobrador dos argumentos que comprovem
uma hipótese. Saber buscar comprovação
é uma habilidade aprendida através de
estímulos para a averiguação, para
a medição, para a argumentação,
para a verificação, para a constatação
etc..
Os desafios a serem comprovados pedem as mesmas habilidades
que as utilizadas nas situações anteriormente
vistas. Os professores, nessa etapa, devem pedir aos
alunos que busquem as possibilidades de as hipóteses
se confirmarem ou não, alertando-os para as possíveis
transformações nas respostas dadas em
função de sua plausibilidade.
A atenção é condição
"sine qua non" para se chegar a uma prática
de acerto.
A comprovação surge também, nos
diz Lipman, de bons argumentos, de boas razões.
Promover esse aprendizado através da mostra de
vários autores, buscando-se nos textos os argumentos
usados e submetendo-os à avaliação
necessária.
A comprovação, através de análise
de argumentos, é um procedimento válido
aos maiores, dado seu grau de dificuldade. Com as crianças
pequenas é possível desenvolver essa comprovação,
por exemplo, identificando argumentos de personagens
de histórias e, na troca de idéias, avaliar
se os argumentos ou as razões, de um ou de outro
personagem foram bons ou não, e por quê.
A
habilidade, ou melhor, a disposição à
auto-correção
A probabilidade de que o erro pode nos levar ao acerto,
dá importância fundamental a esta habilidade.
Avaliar o porquê da não comprovação
da hipótese, assumir que houve equívocos
ou enganos e disponibilizar-se à auto-correção
é uma atitude que mostra sabedoria naquele que
a pratica.
Os alunos se habituarão a buscar erros e fazer
auto-correção, se esta for uma prática
realizada através procedimento de atividade lúdica.
Um trabalho gostoso que leve à percepção
do erro e à necessidade de transformá-lo
em acerto.
Podemos praticar a auto-correção numa
conversa organizada em torno de um tema (diálogos
investigativos). Um círculo é formado
pelos alunos, tendo o professor entre eles, onde se
lê um texto, previamente selecionado pelo professor,
e parte-se para a argumentação individual
com justificativa. Os alunos, um a um, vão dando
sua opinião, acompanhada dos porquês de
seu pensamento nessa linha. Argumentos irrelevantes
podem surgir. Nesse caso, o aluno será alertado
a repensar sua argumentação, fazer-lhe
a correção e re-apresentar seu argumento
e justificação.
Coisas concomitantes acontecem com esse procedimento,
os alunos passam a não aceitar qualquer resposta,
argumento ou justificativa, tornam-se críticos,
exigentes de uma coesão e coerência nas
falas dos colegas e nas próprias, vão
aos poucos, sem perceber, se transformando em seres
pensantes com qualidade.
2º
grupo: HABILIDADES DE RACIOCÍNIO
Raciocínio é qualquer procedimento de
inferência ou prova, portanto qualquer argumento,
conclusão, inferência, indução,
dedução, analogia, etc., é tirar
de dentro das relações novas informações
ou conhecimentos.
Raciocínio é o processo que se dá
ao movimento que parte de algo conhecido, para chegar
a algo novo, através da dedução,
indução, prova, demonstração,
inferência, silogismo, argumento, analogia.
Premissa, diz o verbete do dicionário, é
a teoria que serve de base ao raciocínio.
Exemplo (tirado do livro Filosofia: Fundamento e Métodos,
de Marcos Antônio Lorieri, 2002): relato de uma
professora sobre o diálogo de uma menina de 4
anos com sua avó, por telefone.
Menina:
- Vovó, meu irmão está muito triste
porque minha mãe jogou todos os seus brinquedos
no lixo.
Avó: - Mas que coisa! Está bem! Quando
seu avô chegar, iremos até aí e
vamos trazer seu irmão para morar conosco.
Menina: - Vovó, sabe de uma coisa também?
A minha mãe jogou todas as minhas bonecas no
lixo!...
Percebe-se nesse relato, a rapidez com que a menina
inferiu, com base na resposta da avó. Claro está
para a menina que se a avó vai levar o irmão
para morar com ela, porque a mãe jogou seus brinquedos
no lixo, então, se as suas bonecas forem para
o lixo também, por obra da mãe, também
ela irá morar com a avó.
Raciocínio é um processo mental e argumento
é processo enquanto falado. As palavras "então,
portanto, por conseguinte, e outras similares"
se reportam ao raciocínio/argumento.
O intervir do educador aqui deve ser o de avaliar se
o raciocínio/argumento é válido
ou não, se a conclusão procede ou não;
analisados todos os pontos, deve o professor provocar
os alunos, auxiliando-os na compreensão e no
correto desenvolvimento desta habilidade.
Raciocinar bem ou argumentar bem pressupõe o
conhecimento de algumas habilidades de relevante importância.
Dentre as várias habilidades educacionais necessárias,
as prioritárias, que nos apresenta Marcos Antônio
Lorieri são:
" A capacidade de produzir bons juízos,
interligada à capacidade de se chegar a boas
afirmações e boas investigações.
Processo de desenvolvimento já apresentado.
" A capacidade de estabelecer relações
adequadas entre idéias e, principalmente, entre
juízos. Esta é uma importante habilidade,
pois envolve a maneira pela qual estabelecem-se as relações
entre coisas, objetos, seres de qualquer espécie,
situações; relações sociais
desportivas, de igualdade, de semelhança, de
diferença, etc..
É
de Mattew Lipman a assertiva - "Pensar é
fazer associações e pensar criativamente
é fazer associações novas e diferentes".
Isto deve ser estimulado.
Associar palavras a palavras, frases a frases e perguntar
o porquê das associações, estimula
o relacionamento. Em atividades pedagógicas,
aplica-se o relacionamento entre fatos, personagens
e suas qualificações, textos e outras
relações. O importante é diversificar,
ininterruptamente, para que os alunos se afinem com
os mais variados tipos relacionais.
"
A capacidade de inferir ou tirar conclusões.
Esta habilidade, de igual importância às
demais, está diretamente relacionada ao raciocínio,
por conferir-lhe um fechamento, deve, portanto, ser
alvo de nossa disposição em estabelecer
o seu amplo desenvolvimento. A habilidade de tirar conclusões
não está somente inserida nas disciplinas
pedagógicas, mas nos acontecimentos da rotina
diária. Chegar a boas conclusões é
um dos meios de se conseguir bons resultados em nossos
afazeres, em nossas relações, em nosso
aprendizado ou conhecimento.
" A capacidade de identificar ou perceber pressuposições
subjacentes é tão importante quanto a
capacidade de inferir para o desenvolvimento correto
do raciocínio. Esta capacidade desenvolvem-na
personagens como Sherlock Holms, por exemplo, que percebe
o que não se vê, o que está por
trás das cortinas, nas entrelinhas, no oculto.
É a capacidade que, quando bem desenvolvida,
possibilita o desvendar dos mistérios.
Usando
da diversificação de textos e abordagem
de assuntos variados é possível fazer
muitos exercícios, buscando emergir o que está
implícito.
O Professor Marcos A. Lorieri é muito feliz quando
afirma que "O importante é que todo professor
se convença de que, hoje, não basta "dar
conta do conteúdo" de sua área ou
que é suficiente realizar alguma atividade programada:
ele precisa estar atento aos desempenhos cognitivos
de seus alunos e precisa saber ajudá-los a melhorar
tal desempenho."
3º
grupo: HABILIDADES DE FORMAÇÃO DE CONCEITOS
Conceito exprime o que uma coisa é. Para Lipman:
"Conceito é o resultado final de um conjunto
de informações e as relações
que lhes são pertinentes."
Pensemos, para exemplificar, em uma cadeira. O produto
final cadeira expressa um conjunto de informações
que se relacionam entre si e nos dão a definição
universal de cadeira. Uma cadeira, portanto, é
um objeto que tem assento, espaldar e pés que
a sustentam, serve para sentar. Os diferentes designers
de cadeira dependem da arquitetura que lhes foi imposta,
permitindo-nos afirmar, também que conceito é
uma explicação intelectual de algo.
Da relação direta ou não com os
objetos, situações, fatos, contextos diversos
formam-se os conceitos. Os conceitos históricos,
matemáticos, lingüísticos, científicos,
espaciais vão sendo construídos a partir
da diversidade estratégica com que as informações
vão chegando e sendo articuladas.
A posse de conceitos articulados passa a integrar o
processo de pensar, seja na forma de juízos,
encadeamento de juízos, no raciocínio/argumentação
ou explanações discursivas.
Quando pensamos, estabelecemos relações
entre idéias, confirmando ou transformando-as
em novas relações. O processo do pensar
acontece ao se articular idéias ou conceitos.
Idéias ou conceitos articulados configuram a
essência do pensar.
Compete à educação dos jovens ou
das crianças a tarefa de fornecer ampla formação
de conceitos que irão alicerçar o desenvolvimento
mental, capacitando-os a compreender a realidade com
a qual interagem, e a ratificar ou transformar essa
realidade.
Um universo de palavras colocado à disposição
dos educandos sem o entendimento de seu significado,
transforma-se em algo vazio, não formador de
mentes intelectuais, capazes de articular esse universo
em conceitos vários. Agora não falamos
em tarefa, mas na disposição que deve
ter o educador para estimular o aluno a perguntar pelo
significado das palavras.
As habilidades essenciais na formação
de conceitos são:
" Habilidade de explicar ou desdobrar o significado
das palavras.
" Habilidade de construir e reconstruir os elementos
que compõem um conceito.
" Habilidade no uso dos dicionários, enciclopédias
ou perguntando o significado das palavras e sua melhor
aplicação, diretamente a pessoas intelectualmente
mais preparadas.
" Habilidade de observação da essência
da coisa estudada, qualificando-a verdadeiramente como
tal.
" Habilidade de definir, dizer com segurança
que algo é, impossibilitando a colocação
de dúvidas.
As
brincadeiras ou jogos com as perguntas "o que é;
o que é que é", direcionam os educandos
a aplicar a habilidade de definir, essa muito útil
à formação de conceitos.
Por mais que demande tempo, por ser a formação
de conceitos uma tarefa lenta, não deve ser confundida
com "perda de tempo", pois é um trabalho
enriquecedor que trará excelente retorno ao processo
ensino-aprendizagem.
4º
grupo: HABILIDADE DE TRADUÇÃO
Traduzir
é ser capaz de dizer algo que já está
dito, com suas próprias palavras. É expressar
a mesma coisa de outra forma, garantindo a sua essência
- de acordo com Lipman: "O que ocorre nas boas
traduções de uma língua para outra".
Pode-se dizer de outras formas a mesma coisa, não
alterando sua autenticidade, usando de recursos como
mímica, iconografia, expressão corporal
e outros.
O desempenho em traduzir envolve as habilidades de interpretar,
parafrasear, analisar, buscar significados corretos
e formar conceitos.
Na escola, nas brincadeiras, nas relações
interpessoais, na feitura de provas vestibulares ou
na vida, a habilidade de traduzir é de suma importância
e deve garantir a fidelidade à essência
do original. Verificamos que são várias
as situações nas quais a habilidade de
tradução aparece, portanto deve ser dado
ao educando o direito de aprendê-la.
Conclusão
Aos educadores, interessados em uma Educação
para o Pensar, cabe o estudo acurado das habilidades
cognitivas, e, o transferir esse conhecimento com propriedade
e competência, propiciando aos alunos compreender
e incorporar ao seu saber a aplicação
dessas habilidades com entusiasmo, prazerosamente ou
não, porém certos da validade nos resultados
finais, ou seja, a aplicação desse conhecimento
na vida, facilitando a tomada de decisões com
autonomia e segurança. Afinal, o mundo de hoje
pede pensadores com qualidade no pensar as urgências
educacionais, sociais ou morais que emergem no dia-a-dia.
Voltamos a afirmar que o uso das habilidades, no contexto
escolar, não acontece isoladamente, ao contrário,
é um trabalho integrado cujo objetivo final é
dar consistência ao processo reflexivo do pensar
bem.
Bibliografia
ABBAGNANO,
Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo:
Mestre Jou, 1970.
LIPMAN,
Mattew. A filosofia vai à escola. São
Paulo: Summus, 1990.
________
et al. A filosofia na sala de aula. São Paulo:
Nova Alexandria, 1994.
________.
O pensar na educação. Petrópolis:
Vozes, 1995.
LORIERI,
Marcos Antônio. Filosofia no Ensino Fundamental.
São Paulo: Cortez, 2002.
SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum
à consciência filosófica. São
Paulo: Cortez, 1980.