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::. Ensinar...
JAIME MARQUES RUELA
Professor do Quadro de Nomeação Definitiva do Ensino Oficial em Portugal
Instituição: Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos Padre António Morais da Fonseca, em Murtosa, Aveiro - Portugal
E-mail: jaime.ruela@netvisao.pt

No mundo complexo da educação, especialmente nos dias de hoje onde estudos diversos são feitos com amplitude e alguma profundidade, é inegável, sobejamente claro que, os factores família e escola são de uma determinância e peso extremamente marcantes.
Apesar das diverssíssimas conclusões e trabalhos realizados por inúmeras individualidades, organismos e instituições, dinamizados pelos vários processos de investigação mais recentes; para além de toda a espécie de estratégia pedagógica aplicada com o objectivo de minorar as turbulentas vicissitudes sócio-escolares da massa estudantil ao nível da escolaridade obrigatória e não só, quer se queira ou não, a família e a escola sempre foram, são e continuarão a ser (deviam ser) as bases estruturais de uma edificação educacional forte, consistente, compacta e preparadora do jovem para as dificuldades cada vez maiores da coexistência humana, em qualquer dos planos dinâmicos do seu desenvolvimento gradual.
Hoje, a escola, começa a ser cenário de afecção psicológica para alguns alunos e a família um instrumento social desarticulado. A escola é (começa a ser) de certo modo indesejada, e a família um ambiente desmembrado e por isso desarmonioso. Actualmente, ambas se apoiam em estruturas oblíquas, oscilantes e propensas a impulsos degeneradores e, consequentemente, involutivos. As suas dinâmicas inconscientes, carentes de um amparo reformador global autêntico, insistente e progressivo, afastam na escola a criança dos mais indispensáveis requisitos de afectividade e desenvolvimento interior, no mais puro sentido dos termos; na família, está patente, por influenciação social, um arrastado processo de auto-desintegração que vai impedindo, até à obstrução total, a inserção no infante e no adolescente, dos ideais sublimes e dos valores autênticos da Vida e do Ser.

"A escola e os seus processos, estão neste crucial momento planetário, necessitados de sujeição a transformações que facultem ao ser humano a sua própria dignidade pessoal integra."

Não podemos esperar mais, em períodos de transição tão séria como a que vivemos, que pseudo-reformas inconsistentes e vazias de destinos e objectivos repetidamente aplicados, a nada levem no contexto da formação integral do ser humano que é, sempre foi e será o alicerce dos povos, das sociedades e das civilizações.
O homem de hoje perdeu por completo (se é que alguma vez possuiu) o sentido de unidade, por inter-relação, entre o micro e o macrocosmo. Mergulhado no
ênfase do avanço tecnológico, hipnoticamente absorvido por uma infinidade de apetências de índole prazeiral e consumista, demoniacamente obcecado pela luta concorrencial nos meios de produção, "apanhado" pelos sonhos de (pseudo) liberdade e por outras ninharias efémeras, títulos temporais, etc., torna-se, lenta mas irreversivelmente, indiferente à necessidade imprescindível de questionar o mundo à sua volta e buscar o seu desenvolvimento humano intrínseco, a verdadeira Jóia da Vida. O homem de hoje, já não sabe auscultar os encantos de uma natureza de que faz parte e que vai assassinando gradual e teimosamente. Não sabe igualmente de onde veio, não sabe porque cá se encontra e, tão pouco, (o que é mais grave) para onde vai...
Torna-se assim urgente resgatar valores desvirtuados senão perdidos, através de um sistema educacional adequado, fundamental e propiciador de esperanças num Novo Homem para um novo mundo face a uma Nova Era, já em rolagem no tempo.
De que servem as estatísticas de fachada ostentando números discutíveis de (in)sucesso num ensino que continua a metralhar as jovens mentes das crianças e adolescentes com temáticas de valor(?) imediato e de necessidade sempre questionável? Para conquistar afanosa e fanaticamente um lugar na universidade, que lhe dê um canudo (apenas) para rotulagem social, ou lugar na famigerada prateleira do desemprego? Dos variadíssimos aspectos a questionar neste contexto, este podia permitir a partida para essa discussão segundo os defensores da chamada pedagogia holística que objectiva alcançar o desenvolvimento psico-espiritual do ser humano, em prol da descoberta de si próprio e da sua razão de existir, estruturando desta forma e na sociedade uma verdadeira consciencialização humana e, por consequência, o atrás referido resgate de valores perdidos.
Não é mais admissível "ensinar coisas" informando e assistindo paralelamente a comportamentos de rancôr, ódio e violência na família e na sociedade. As crianças transportam sensibilidades apuradas, captam e registam a adversidade do mundo que as rodeia de uma forma superior, embora silenciosamente, contraindo por vezes traumas irremediáveis; sente-se já nelas algum do indiferentismo reinante nos adultos à propriedade do bem e do amor universal, quais botões de rosa em murchidão, no jardim descuidado da existência...
Relativamente à família, a "Escola-Mor", está crivada pelas balas da indiferença e do banalismo anarquista vivencial, sendo também um pouco vítima da irresponsabilidade do poder político dos governos, quase sempre inconscientes nas suas decisões preventivas e protectoras. É dilacerante, cruelmente ignóbil e de consequências sociais imprevisíveis, a banalização social do divórcio, que veicula as pessoas directamente responsáveis, os pais, para níveis de indiferença e irresponsabilidade jamais constatados; mas, o mais doloroso de toda essa condenatória postura, é o gerar de cenários infernais nas mentes dos filhos assim abandonados à sorte do mundo e deles próprios, e, dessa forma, entregues a um destino irremediavelmente infeliz em toda a acepção da palavra. Se conseguíssemos, por fracções do segundo apenas, "escutar" essa convulsiva e torturante "orquestra de frustração", angústia e desespero, trocaríamos conscientemente as nossas conveniências egoístas, apoiadas na falsa base da razão auto-reclamada, pelo dever e amor que juramos no momento sagrado do matrimónio.
O bípede humanóide, deleita-se na busca hipnótica e desenfreada dos voluptuosos prazeres da vida, degenerando-se e inculcando em si próprio uma postura consequente à psicologia do fácil, do saboroso, do imediato e do mais. Tudo isto despido da ausência das boas e tradicionais regras de conduta que, como a sedimentação, a longo prazo estratifica e solidifica ideais, elabora bons carácteres, enrijece vontades e transforma radicalmente personalidades, canalizando assim o ser humano para consequências imprevisíveis de cuja responsabilidade a escola não se pode ilibar. Revitalize-se a pedagogia do profícuo diálogo, promova-se a dinâmica do bom exemplo e o resto virá por acréscimo ... Torneie-se a audiência televisiva atacando o virus "telenovélico", cambiem-se os programas de infracultura e o degenerador cinema de violência e pornografia. Lute-se pelo cultivo do convívio ameno, volatilizado hoje pela apetência da tecnologia dos média e, se possível, ore-se em grupo ou a sós, mesmo contemplando um pôr do Sol ou ouvindo a "música das esferas", a música de Mozart, Beethoven ou Bach...
A família é a base da estirpe social, mas hoje parece já corpo definhado, chagado e doente; contudo, se o homem quiser, pode ser ainda o desejável e poderoso veículo transportador da harmonia, da compreensão e da Paz, em si e no mundo.
Ensinar é, tem de ser sempre um acto de amor consciente, e se assim for entendida a difícil, complexa e nobre missão educativa, a reforma revolucionária e concreta, profícua e objectiva, seria norteada por princípios simples, desmunidos de interesses ambíguos, estereotipos intelectualizados e intelectualizantes, facções elitistas, currículos distorcidos, lobis ou similares. Assim, enveredar-se-ia pelo ensino de conteúdo justo, adequado às necessidades do elemento aluno e do colectivo local social, direccionada aos talentos inatos, ao ensino do amor com amor, o que será dizer, ensinar-se com a prática do exemplo nobre em detrimento de objectivos teóricos, marasmáticos, aversivos, improfícuos e desvirtuadores.
Estude-se a personalidade da criança, através de um registo paciente, desde o pré-escolar ou anterior, pormenorizado e constante, para se poder lidar correctamente com a mesma e ir ao encontro de um modelo de procedimento leccional de dados culturais consonantes com a sua vontade, entusiasmo, capacidades e tendências. Seria isto uma programática efectiva, sob a directriz de um verdadeiro paradigma de contruções educativas evolutivas, em substituição de reformas experimentais ou prática e inculcação de teorias subjectivas sem resultados positivos ou proveitos benéficos. Fuja-se de tudo o que contribua para a aversão às aulas, para a indiferença e bloqueio de vontades nos alunos, para o suicídio lento, silencioso e invisível, mas incontestável da sociedade já decrépita porque desvirtualizada, e descrente em conquistas atemporais por se encontrar oca de fé.

Os valores humanistas escasseiam como herança, mas não em potencial para as novas gerações, e a Nova Era, em processo, será radicalmente selectiva nesse contexto. Daí que se torne urgente modificar o estado de coisas por via de reformas revolucionárias no microcosmo-homem, em direcção a uma vivência mais sã porque mais livre, mais sublime e mais alegre, porque mais fraterna e amorosa.

Pela Paz e pela Vida!!!
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