Poeta Professor Silas Correa Leite
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E-mail - poesilas@terra.com.br
Poeta
Prof. Silas Corrêa Leite, Educador, Jornalista,
Escritor Premiado De Itararé-SP
Membro da UBE-União Brasileira de Escritores
Educador da Rede Pública e Particular de Ensino.
Pós-graduado em Educação, Literatura,
Relações Raciais e Inteligência Emocional.
Autor do Romance Virtual de sucesso ELE ESTÁ NO
MEIO DE NÓS, no site: www.hotbook.com.br/rom01scl.htm
E
comecei a ser ALUNO desde o primeiro dia que saí
da barriga de minha mãe, quando abri um berreiro
danado, sem certamente sequer saber o que eram vogais
& consoantes, numa eventual onomatopéia de
pranto assustado, em alto e bom berreiro de récem-nascido.
O
meu primeiro olhar lambido. O meu primeiro cheiro tenro.
O meu primeiro dodói inusitado, tudo isso, afinal,
foram aprendizados primordiais para mim. Confesso agora,
que já estava nascendo ali, o “apreendedor” de
tantas sábias ilusões da vida.
Também
aprendi zelos e ternuras. Luzes e sonhos. Seios e beijos.
E desde um toquinho ainda, eu, de alguma maneira inexplicável,
já “lia” muito bem. De movimentos a somas. De
carinhos a pitos. De calores maternos a gestos gerais.
Eu era tão pequenino e viera ao mundo para ser
o melhor aluno, o melhor aprendiz dessa vida louca.
Depois
vieram outras espécies de lições.
De todos os tipos. Febres. Tristezazinhas. Abraços
apertados. O adorável colo de mãe. A vida
era uma enorme lousa sem tamanho. Cenário de
família com parentes. Quintais e romances. E
eu ali ainda nas primeiras frases mal feitas, tipo “nenê
mamá”.
A
primeira coisa que ouvi e entendi, compreendendo, e
depois certamente ouviria ainda por milhares de vezes,
foi o meu sagrado Nome de Batismo. Era ali o meu documento-vida,
a minha identificação-chave. Minha vida
era uma história a ser escrita por mim mesmo,
aprendendo dia após dia...ao meu jeito, como
diz a canção
Falei
logo. Mamã. Riram alvissareiros. Gostei. Repeti
todo posudo e cor-de-rosa. Me beijaram. Adorei. Passaram
talquinho em mim. Legal. Depois, acho, falei papá
(comida), ou papai. Das duas, uma. Vim aprendendo pela
vida. Adoro aprender.
Depois
vieram os tropeços e tombos. Escuros e sombras.
Desencontros. Doeram. Dodói mesmo eu logo aprendi
dizer com beicinho mole. Rendia. Remédios. Pitos.
Castigos que eram mais gestuais, como sonoros chius
esticados. Afetos. Nódoas. Remédios.
Correria.
Minha mãe com os olhos vermelhos, dando beijinhos
doces e molhados em meu machucado calinho marrom. Doeu,
Mamãe!. Aliás, minha mãe era um
livro aberto em milhares de páginas que sorriam
doces lições cheias de encantários
para mim.
Fui
crescendo e aprendendo. Sempre. Cada segundo era uma
aula enorme. Cada minuto uma medida-limite. Cada dia
um bonito questionário. Cada aprendizado um exercício
de estima para multiplicar-me em palavras e afetos.
Cada luz ou dor circunstancial, uma fixação
no arquivo sensorial da minha memória atiçada.
Fui
crescendo e aprendendo territórios e mapas em
casa. Música, Garnisés, Canteiros, Política.
Meu pai tinha programa de rádio, regia corais
e bandas, e adorava João Goulart, o Presidente.
Fui politizado mesmo antes de ser alfabetizado. E adquiri
logo a tal inteligência musical, depois artística,
imagética. E ainda pondo senso crítico
em tudo. Muito resmungão, diziam minhas irmãs
que eram um grude comigo, o chamado bendito fruto.
Meu
genitor muito sabido, logo ensinou-me algumas vogais,
escritas no papelão de caixas de sandálias
velhas. Depois consoantes complicadas, em retalhos de
compensados de pinhos com nós vermelhos. Em seguida
o Pai me ensinou a “ler” as horas certas, num relógio
antigo do tamanho de uma panqueca. Custou mais aprendi.
Ela quase perdeu a paciência. Mas eu acabei pegando
o jeito. Fiz bonito, afinal.
Depois
o velho me falou sobre as naturais estações
do ano. Primavera, verão, outono inverno. Épocas
de plantios e colheitas. Luas e mudanças dela.
Época boa pra pescar, ou pra podar roseiral.
A
rua era meu mais belo paraíso predileto. Um céu
de aventuras e conquistas. Espaços e descobertas.
Amigos e trocas. Na rua aprendi brincar, amar, ser feliz.
Amizades e dribles da vaca. Compreendi desde cedo que
os diferentes eram iguaizinhos. Descobri-me uma espécie
de Robinson Crusóe sem lenço e sem documento.
Bolinha
de gude, bola de meia, bola da papel. E o baita sol,
uma espécie de enorme Sonrisal alto pendurado
lá nos repolhos azuis de Deus. Auroras e prelúdios.
Sanfonas de ventos e leques de nuvens.
Depois
as brincadeiras adoráveis. Pular carniça
entre fogueirinhas de papel de pão. Roda cotia.
Balança caixão. Serra Serra Serradô.
Atirei um pau no gato. Até que um dia - eu era
feliz e não sabia - nos tiraram a liberdade e
as brincadeiras sadias dela. De sermos crianças
inteiras, plenas, vivas, como se páginas puras
e em branco aprendendo algarítimos de afetos,
somas de companheirismos, escritas cuneiformes de ilusões.
Era tempo de irmos para escola. O que seria aquilo?
Devia ser um sonho, uma graça, uma belezura.
Foi?
A
primeira professora. Candura de mãe e cheia de
charme especial. Um quadro preto chamado de lousa, que
na verdade era uma pedra lisa que estava sempre cheia
de riscos, orações e desenhos. E toma
A E I O U com explicações ensaboadas de
sons e montagens de palavras diferentes, caprichadas.
Depois frases pueris. “O sapo baba no bule”. Será
isso? Caminhos suaves.
Uma
turma diferente. Carteiras com duas pessoas. Eu e meu
primeiro amigo bem diferente de mim. Recreio e merenda.
Sopa de arroz-quirera de terceira. A parte que mais
adorávamos, era o banzé do intervalo,
pois ali no pátio-chão brincávamos
como nas ruas de nossa infância, de nossa criação
caseira que esbarrava cercas e milharais em trepadeiras
e janelas. Estudar assim ficava gostoso. Ser aluno tinha
seus momentos hilários, outros entocados.
O
triste mesmo era ficarmos um tempão sentados
na madeira dividida, copiar palavras da lousa cheia
de novidades, escrever coisas interessantes, saber tabuadas
de cor, decorar datas magnas e oficiais. O pior era
ser privado das ruas de terra vermelha, das arvores
com ninhos e arapongas, dos distantes céus azuis,
dos borbulhantes córregos de girinos e sem pinguelas,
dos gostosos frutos maduros nos pés carregados,
dos mandorovás-camaleões ardidos e abelhas
zangadas, mais a piazada em atiço atrás
de gabirovas amarelas ou verdes ariticuns silvestres
cheios de formigas saúvas.
Eu
adorava estudar. Também pudera. Em casa mesmo,
menos do que Nota Nove em qualquer linguagem, era a
pedagogia do chinelo no bumbum. O que mais doía
era a vergonha de não saber, levar esculacho
por medo de zero na nota. Então aprendíamos.
Aprendi a gostar de escrever, fazer lições,
trabalhos de casa e mesmo a ler bastante, que, no começo,
na marra até era aplicado como modelo.
Aliás,
em casa era uma espécie de castigo (que sossegava
o espeloteado guri perguntador e curioso) os verbos
ler e estudar. E toma a ler Bíblia, Dicionário,
o jornal O Estadão, Seleções, Palavras
Cruzadas. Que bem isso me fez, meu Deus. Como eu agradeço
meus pais por esses castigos que me abriram mundos e
tiraram véus de ignorâncias.
Eu
era o guri mais pobre da nossa sagrada Estância
Boêmia de Itararé, e, no Grupo Escolar
Tomé Teixeira, ali na Rua XV de Novembro, centro
velho da cidade, saquei que para ser alguém na
vida, só tinha uma saída: Estudar muito.
Deus me deu essa visão precoce. Eu captei tudo,
claro. Ser pobre era meu destino ali. Ser burro era
opção minha. E eu podia mudar tudo, como,
afinal, mudei mesmo, estudando muito, sendo eterno aprendiz,
um estimado aluno, amigo de todos os maravilhosos professores.
Estávamos nos idos alvoroçados dos Anos
60.
Eu
já rascunhava minhas frases completas, meus trocadilhos
inocentes, meus poemetos infantis, meus primeiros rascunhos
nos álbuns de vários irmãs. Ou
nos cadernos das namoradas secretas que eu namorava
escondido ,mas já escrevia bonito e pomposo pra
elas. Eu as namorava e as amava por dois; por elas mesmas,
pois elas na verdade não sabiam que namoravam
comigo. Eu era muito inocente e puro. E as amava com
os olhos pendurando cristais, com as oportunas balinhas
de limão, com uma gasosa chamada Crush, com um
ocasional poema feito às pressas, com alguma
rima e sem ritmo, sem muita filosofia, mas que elas
aceitavam encantadas como se dálias íntimas
de minha criação especial, no jardim da
inocência sensível.
Na
Escola já declamava textos de outros, depois
invenções minhas, e toma eu a brilhar
no Dia do Índio, Dia da Pátria, Dia da
Árvore. E toma a ler depressinha os contos infantis
que mestra passava - à bença, Dona Nancy!
- depois historinhas divertidas, ditados grandes, lendas
e invencionices gostosas que caiam como melancias em
minha vida cheia de esperança por dias melhores
com sabedorias inteiras.
A
formatura foi só um pulo. Um primeiro degrau
para o céu. Eu estava a caminho, eu sentia isso.
Depois tinha outro turno de estudo. Outro necessário
e seguinte ciclo. Meu pai que era rico, ficou pobre,
doente, e eu tive então que ir vender picolé
de groselha preta na rua. Mas eram ruas distantes, descalças,
ou com cacau quebrado (paralelepípedos)s, em
cantos estranhos, periféricos. E eu batalhando.
Tudo
era mesmo aprendizado. Às vezes um tombo de bicicleta,
às vezes um troco que eu errava - nunca fui com
com números - às vezes um sol forte e
minha febre terçã. Minha mãe já
não me acompanhava, a não ser com promessas
e orações-mantras alongadas por meus sonhos.
Tive que cair na luta e apanhar de relho da pobreza.
Fiquei forte com isso. Adquiri cascão para outras
batalhas.
Um
dia fui trabalhar na Marcenaria Estrela. Novos amigos.
Tudo de novo. Um novo lugar. Um novo lar diferente e
alegre. Cortei minha infância pela metade. Mas
eu sobrevivi. E criei meus personagens. E aprendi a
fazer poesia para ter companhia. Meus livros eram meus
filmes. Minha imaginação ficou sadia.
Minha solidão era preenchida com baladas que
eu bolava, com cenas de teatro que eu montava, com sonhos
de ser escritor, ser feliz, vencer na vida, ser alguém,
dar orgulho pro meu pai, cuidar de minhas seis irmãs
bentas, de meu irmão caçula, de minha
saradinha sobrinha órfã.
Vim
aprendendo pela vida. Sempre. Gastei mais com livros,
jornais e estudos, do que com uma casa que custei a
comprar, pois eu sempre quis as posses variadas das
culturas e dos conhecimentos. Ajudei amigos e parentes.
Amei e fui amado. Apanhei da vida e tornei-me um guerreiro
pela própria natureza.
Eu,
que sempre fui apaixonado por todas as minhas professoras,
acabei saindo de trabalho jurídico no escritório
e fui estudar para ser professor. Deus me selando num
destino de ser árvore para dar flores, sementes
e frutos?
Hoje
vivo disso. Sei o referencial que sou. Sei o amor que
tenho pela pedagogia, pela educação em
si. Tudo é aprendizado. Meus alunos me adoram.
São meus alunos-filhos. Alguns me pedem benção.
Outros pedem socorro. Dar aulas é minha maior
rebeldia. Tenho satisfação e orgulho.
Sou um Tiofessor que sabe o valor do aprendizado e adora
estar nessa busca infinita de evoluir, crescer, aprender
a Voar.
Afinal,
bem ou mal, sou aluno ainda, pois, como disse Guimarães
Rosa, “mestre é quem de repente aprende”. E,
confesso, eu quero morrer em sala de aula, como um aluno
bem velhinho e caprichoso, de galocha, chapéu
de nuvens e aparelho de surdez. Aprendendo, talvez,
fauna marinha, física quântica, hebraico,
ou como dirigir asa-delta.
Confesso
que esse aluno que sou nasceu no dia em que saí
da barriga de minha mãe. Abri um berreiro sem
conhecer palavras, e, a partir daquele dia, vim sendo
um ALUNO no sentido mais mágico, mais pleno da
palavra.
Sei
que, quanto mais estudo, mais leio, mais escrevo, mais
penso, cismo, conjeturo, mais pesquiso, ainda mais vou
perdendo lastro e ficando leve, doce, meigo, sereno...
Uma
vida inteira é pouco para um aprendizado total.
Tenho consciência disso. Até acho que aprendi
a ser aluno em algum lugar do passado distante, e no
espaço cósmico futuro vou ainda por muitas
vidas e dimensões, sendo isso mesmo que adoro
ser cem por cento:
UM
ALUNO. |