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Memória
Educativa dos professores de escolas Inclusiva |
Ana
Beltrão
Pedagoga e psicopedagoga
E-mail:
a-beltrao@uol.com.br
INTRODUÇÃO
O artigo ora apresentado tem por objetivo propor questionamentos
de caráter reflexivo quanto à influência
de aspectos subjetivos e a memória educativa
dos professores que estão trabalhando em escolas
regulares com proposta de inclusão. A discussão
do tema é resultado de uma pesquisa e abrange
questões importantes para que se compreenda as
dificuldades e/ou facilidades de alguns profissionais.
Muitas vezes a situação esbarra em questões
que vão além de metodologias e práticas
pedagógicas inadequadas, portanto, o conteúdo
desse artigo busca trazer fundamentos que possam estar
explicando como ocorrem essas interferências.
Por se tratar de um tema pouco comentado no meio acadêmico,
o artigo exigirá do leitor uma disposição
prévia em estar sendo exposto a pensamentos e
idéias pouco discutidas e abordadas no contexto
pedagógico. A seqüência em que os
capítulos estão ordenados sugere a compreensão
de como é possível atrelar questões
de ordem subjetiva ao trabalho objetivo que o professor
exerce todos os dias em sua sala de aula, passando por
sua relação direta e, por vezes, indiretas
com os alunos.
OBJETO DE ESTUDO
Esse estudo justifica-se pela necessidade de abrir um
novo horizonte frente aos questionamentos que por vezes
não conseguem sair de um "senso comum".
Buscar novas maneiras de "olhar" este professor
que se insere num processo, o qual não consegue
romper devido às barreiras que sua condição
de sujeito lhe impõe diante da realidade proposta.
"O professor é a pessoa e uma parte importante
da pessoa é o professor" (Jennifer Nias,
1991) (Nóvoa, Antônio. Vidas de Professores.
Porto, Portugal. Porto Editora. 2ª Edição)
Indaga-se: como o professor, com suas múltiplas
ações dentro e fora da sala de aula, torna-se
a cada dia o vínculo mais importante no processo
de inclusão?
Cabe aqui, verificar suas atribuições,
tanto no tocante à sua metodologia e formação
profissional, quanto na sua relação com
o outro. Esses, num sentido mais subjetivo, onde sua
memória educativa, com uma vasta extensão
de fatores intrínsecos e, por vezes, inconsciente,
poderá tornar-se a base para possíveis
respostas a estas barreiras que se levantam entre professores
e alunos, aprendentes e ensinantes. "A construção
de identidades passa sempre por um processo complexo
graças ao qual cada um se apropria do sentido
da sua história pessoal e profissional."
(Diamond, 1991) (Nóvoa, Antônio. Vidas
de Professores. Porto, Portugal. Porto Editora. 2ª
Edição).
Outros questionamentos são ainda mais pertinentes
para compreender estas relações e em que
circunstâncias acontecem suas construções.
À medida que este professor é notado,
percebido, como alguém que já foi ou ainda
é parte de um outro contexto, seja social, afetivo
ou mesmo profissional, passa-se a questionar quem será
ele frente a este novo contexto e como ele vai usufruir
destes fragmentos adquiridos ao longo de sua vida para
posicionar-se em uma classe de escolas inclusivas. "A
transferência encontra-se também presente
na relação professor-aluno e nos permite
refletir sobre o que possibilita ao aluno acreditar
no professor e chegar a aprender. È, portanto,
um poderoso instrumento no processo ensino aprendizagem."
(Carrara, Kester. Introdução à
psicologia da educação - Seis abordagens,
São Paulo: Ed. Avercamp, 2004).
Assim, serão trabalhadas algumas hipóteses
de ordem reflexiva, deixadas previamente como questionamentos:
"Pré-conceitos, amor, afetividade, descrença
no outro, dentre tantos outros conceitos abstratos e
subjetivamente parte de nossas vidas pessoais são
deixadas fora da sala de aula no momento certo? Ou seja,
é possível desvincular tais sentimentos?"
Para responder tais questionamentos, será necessário,
então, entender como e o quanto esses fatores
são determinantes na inclusão. Em determinados
momentos incutamos tantos estigmas no outro, fazemos
inúmeros julgamentos; outrora acreditamos em
tantas outras, e depositamos uma esperança naquilo
que nem sabemos como explicar - hoje a educação
inclusiva tem um peso muito maior em questões
de ordem subjetiva, e seus resultados são o fruto
destas ações.
O objetivo deste artigo é retomar a discussão
a respeito do papel do professor no processo de inclusão,
fazendo alusão às suas experiências
anteriores, observando sua condição de
sujeito co-autor e participante ativo de sua própria
história e nas relações que ele
constrói dentro e fora do contexto escolar. Este
trabalho pode nortear uma nova concepção
de escola inclusiva, ser mais objetivo quanto às
questões subjetivas, e pode utilizar-se de instrumentos
fidedignos já existentes, com profissionais conscientes
e convictos de sua importância.
Outro objetivo não menos importante é
informar à comunidade escolar que a inclusão
não começa na inserção da
criança especial em uma escola regular, mas quando
esta escola e seus ensinantes/professores sabem exatamente
o que possuem em si para dar ao outro. Do contrário,
a superficialidade embutida em determinados métodos
e técnicas continuarão a ser o meio mais
fácil de receber estes aprendentes. "Hanna
Arendt (1972) coloca como condição fundamental
para a constituição do sujeito sua apropriação
do passado, a posse da herança e dos legados
deixados pelas gerações anteriores, entendendo
essa possibilidade de apropriação como
um busca ativa na qual tais tesouros possam ser apreendidos,
renomeados, ressignificados e postos a serviço
da orientação do sujeito no seu tempo."
(Carrara, Kester. Introdução à
psicologia da educação - Seis abordagens,
São Paulo: Ed. Avercamp, 2004, p. 81)"
Teoricamente, a proposta é, também, a
de tomar pontos específicos na compreensão
de alguns aspectos ao tema sugerido. São eles:
- Investigar a formação acadêmica
de professores inseridos neste contexto da inclusão;
- Com isso, Incutir a necessidade de mais cautela, na
contratação dos mesmos;
- Gerar na comunidade escolar a necessidade de rever
as ações que o professor vem tomando frente
sua realidade, buscando saber um pouco mais de seu passado,
presente e futuro;
- Entender até que ponto tais considerações
são pertinentes na relação do professor/aluno.
CAPÍTULO I - Inclusão
A inclusão baseia-se em dois importantes argumentos
- ela mostra ser benéfica para a educação
de todos os alunos, pois ambos aprendem independentemente
de suas habilidades ou dificuldades; e ela baseia-se
em conceitos éticos de direitos e deveres de
todo cidadão - escolas são construídas
para promover acima de tudo cidadania e quebrar paradigmas
pré-estabelecidos. A aprovação
da Lei de Diretrizes e Bases - LDB (Lei 9394/96) estabeleceu,
entre outros princípios, o de "igualdade
e condições para o acesso e permanência
na escola" e adotou nova modalidade de educação
para "educandos com necessidades especiais".
Desde então, a temática da Inclusão
vem rendendo, tanto no meio acadêmico quanto na
própria sociedade, novas e acaloradas discussões,
embora ainda carregue consigo sentidos distorcidos.
Quando a lei dita igualdade educacional em escolas regulares,
ela está involuntariamente abrindo um caminho
para reflexão sobre questões que transcendem
à sala de aula - falar de inclusão é
instigar questões que socialmente estão
entranhadas em nossa vida cotidiana. "A inclusão
social é o processo pelo qual a sociedade e o
portador de deficiência procuram adaptar-se mutuamente
tendo em vista a equiparação de oportunidades
e, consequentemente, uma sociedade para todos. A inclusão
( na sociedade, no trabalho, no lazer, nos serviços
de saúde etc) significa que a sociedade deve
adaptar-se às necessidades da pessoa com deficiência
para que esta possa desenvolver-se em todos os aspectos
de sua vida". (Profª Drª Leny Magalhães
Mrech. Educação Inclusiva: Realidade ou
Utopia? http://www.educacaoonline.pro.br/art_ei_realidade_ou_utopia.asp.)
A aprovação desta veio concretizar um
fato emergencial e isto, sem dúvida, não
deve ser descartado - não é mais possível
ignorar a existência das pessoas ditas "especiais"
simplesmente as segregando em espaços educacionais
específicos para elas. No entanto, apenas a lei
fundamentar este fato não significa que as transformações
serão imediatas; pelo contrário, como
citado no parágrafo acima, esta é uma
mudança que não se restringe ao espaço
escolar, socialmente ainda estamos presos a modelos,
padrões estereotipados - seja de beleza, comportamento
ou mesmo educacionais. Aquilo que é belo está
sempre atrelado a algo que não difere, que não
destoa do ideal que a própria sociedade determina.
Os comportamentos são pré-vistos e desejados,
esperasse que as crianças evoluam conforme as
"teorias de desenvolvimento" e, o mais contundente,
são os padrões educacionais onde a escola
"insere a todos mas não as inclui".
Citando Galeano: "Um sistema de desvínculos:
para que os calados não se façam perguntões,
para que os opinados não se transformem em opinadores.
Para que não se juntem os solitários,
nem a alma junte seus pedaços. O sistema divorcia
a emoção do pensamento como divorcia o
sexo do amor, a vida íntima da vida pública,
o passado do presente. Se o passado não tem nada
para dizer ao presente, a história pode permanecer
adormecida, sem incomodar, no guarda-roupas onde o sistema
guarda seus velhos disfarces. O sistema esvazia nossa
memória, ou enche a nossa memória de lixo,
e assim nos ensina a repetir a história ao invés
de fazê-la. As tragédias se repetem como
tragédias." (Galeano, Eduardo. O livro dos
abraços, Porto Alegre: L&PM, 1991).
Felizmente, a inclusão, em termos legais, deixou
de ser uma proposta utópica e passou a ser real,
ela existe e já urge uma reformulação
de seus ideais propostos. Em 1994, na Espanha, a assinatura
da "Declaração de Salamanca"
contribuiu de maneira decisiva para o avanço
deste debate, abordando questões que embora privilegiassem
a educação, não deixavam de mencionar
o aspecto social. "...Escolas regulares que possuam
tal orientação inclusiva constituem os
meios mais eficazes de combater atitudes discriminatórias
criando-se comunidades acolhedoras, construindo uma
sociedade inclusiva e alcançando educação
para todos; além disso, tais escolas provêem
uma educação efetiva à maioria
das crianças e aprimoram a eficiência e,
em última instância, o custo da eficácia
de todo o sistema educacional." (Declaração
de Salamanca, 1994).
A "educação para todos" tem
uma abrangência muito maior do que levar crianças
especiais para dentro de escolas regulares, todos temos
o dever e por que não dizer, o direito de conhecer
o novo. Quando uma criança especial entra numa
escola de classe regular, ambas (especiais e "normais")
estão aprendendo - cada uma está satisfazendo
sua necessidade enquanto pessoa; estão se tornando
parte de um universo que passa a ser compartilhado e
não mais específico de cada um. A inclusão
é ambivalente - uma criança com necessidades
especiais está também auxiliando na construção
ou, quem sabe, "desconstrução"
de uma sociedade fechada e, por vezes, pré-conceituosa.
Não é raro ver dentro do ambiente escolar
a presença de pessoas/profissionais que, com
uma visão estereotipada, determinam o "destino"
de muitas crianças que não se enquadram
no ideal que a escola supostamente havia previsto. A
prática de classificar e categorizar crianças,
nitidamente baseada nas "faltas", reforça
o fracasso e perpetua a desigualdade entre os indivíduos.
Conforme Galeano: "Somos um mar de fogueirinhas
(...) Cada pessoa brilha com luz própria entre
todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais.
Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras
de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que
nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche
o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não
alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com
tamanha vontade que é impossível olhar
para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo."
(Galeano, Eduardo. O livro dos abraços, Porto
Alegre: L&PM, 1991).
Importante ressaltar que a inclusão não
acontece por acaso, muito esforço deve ser depositado
para que ela seja efetiva, a diversidade só inclui
quando todos se sentem integrados.
Finalmente, cabe lembrar que tais esforços já
permitem a abertura de espaço para essas mudanças,
muito já se alcançou. Atualmente as escolas
não negam seus esforços para atender ao
que a lei determina, porém, um longo percurso
ainda precisa ser trilhado e percorrido para que se
atinja completude de direitos humanitários tão
desejados por essas pessoas especiais.
A inclusão não está apenas exigindo
acesso à escola regular, não devemos esquecer
que é lá onde a criança começa
a exercer valores de cidadania e respeito pelo outro.
Exercitar este relacionamento proporcionará no
futuro uma quebra de paradigmas, e re-significará
os relacionamentos, o papel da escola inclusiva não
se encerra no conteúdo que ela explora, este
é apenas uma pequena parcela de seu papel. "...às
vezes me reconheço nos demais. Me reconheço
nos que ficarão, nos amigos abrigos, loucos lindos
de justiça e bichos voadores da beleza e demais
vadios e mal cuidados que andam por aí e que
por aí continuarão, como continuarão
as estrelas da noite e as ondas do mar. Então,
quando me reconheço neles, eu sou ar aprendendo
a saber-me continuado no vento." (Galeano, Eduardo.
O livro dos abraços, Porto Alegre: L&PM,
1991, p. 269.)
CAPÍTULO II - O professor
2.1. O professor enquanto profissional
Historicamente, a figura do professor sempre representou
a materialização do saber, alguém
com autonomia suficiente para ministrar conhecimento.
Era ele o responsável pela estruturação
social, pois através do conhecimento adquirido
na escola era possível estabelecer divisões
de poder e cultura. Com isso, sua importância
esteve vinculada, por um longo tempo, a uma autoridade
suprema diante do saber almejado. "Certamente houve
um tempo em que o professor era venerado como representante
legítimo do conhecimento. O conhecimento era
então um bem escasso, mas, além de tudo,
seu valor vinha dado pela confiança em seu poder
na hora de transformar o mundo natural e social e levá-lo
a metas de progresso previamente planificadas."
(Veiga, Ilma passos. Caminhos da profissionalização
do magistério. Campinas-SP: Papirus Editora.
1998. p. 31).
O professor atendia a uma demanda social, seu papel
era bem definido e a escola exercia uma função
específica de transmitir conhecimentos com objetivos
bastante característicos ao contexto, ou seja,
inculcar necessidades que estavam vinculadas a valores
pré-existentes na hierarquização
dos papéis sociais - sejam para gerar alunos
submissos/ trabalhadores com capacidade de agregar na
mão de obra, ou para formar líderes, capazes
de governar em favor de sustentar o monopólio
do poder.
No entanto, não é possível limitar-se
à atuação do professor em seu contexto
passado. Sem que isso possa representar um descaso com
a história já construída ao longo
desses anos, o fato é que ocorreu um verdadeiro
evento de re-significação do papel do
professor nos dias atuais. Como descrito anteriormente,
a figura do professor tinha uma representação
de grande supremacia, porém, os anos se passaram
e a sociedade sofreu transformações, algumas
positivas e outras nem tanto. Atualmente observa-se
a figura do professor como alguém capaz de superar
suas próprias forças, um batalhador persistente.
Isso porque vive-se num período onde a sociedade
gera demandas sucessivas, urgentes - é a era
do mundo globalizado, onde tudo é compartilhado,
mas nada é dividido.
A escola passou a ser um espaço de socialização
em massa - todos têm direito a escola, e todos
que conseguem, o tem. O professor, ao contrário
de outras épocas, passou a ser desvalorizado,
continuou detendo um conhecimento, mas deixou de ser
o único, e com isso perdeu sua identidade.
Numa sociedade onde são diminuídos os
valores sociais e familiares, aumenta-se a carga imposta
à escola, a qual passou a delegar funções
multifacetadas ao professor. Neste sentido, percebe-se
que a figura do professor passou a ter uma importância
ainda maior, sua atuação deixou de ser
restrita ao conteúdo previsto por seus dirigentes.
Contextualmente, este deixou de estar apenas em sala
de aula, suas atividades passaram a estar direcionadas
para vários momentos no âmbito escolar;
suas horas de trabalho não são contadas
juntamente com seu salário, e seu desempenho
exige mais de sua profissionalização.
Por este motivo, sua posição está
socialmente além daquela estabelecida pela escola,
ou seja, apenas "dar aula" deixou a muito
tempo de ser sua única atribuição.
O professor passou a ser um agente de transformação,
alguém capaz de promover mudanças e permitir
renovações em seus alunos. "O professor
socializa, inculca modos de ver a vida, proporciona
e reforça a identidade nos alunos a qual, como
se sabe, é antes de mais nada social." (Veiga,
Ilma passos. Caminhos da profissionalização
do magistério. Campinas-SP: Papirus Editora.
1998. p. 37).
Este sujeito/professor vem recebendo encargos cada vez
maiores com o passar dos anos, pois a sociedade evolui
com velocidade. É possível perceber então
seu crescimento exacerbado e que vem contribuindo para
o surgimento de inúmeras lacunas, que vão
desde uma reorganização familiar até
o aparecimento de uma tecnologia em favor de interesses
"pseudo-globalizantes".
A família deixou de ser a estrutura fundamental
na construção de valores, educar filhos
antes era tarefa específica das mulheres, que
por sua vez, não trabalhavam, hoje já
não ocorre mais. Com a entrada da mulher no mercado
de trabalho, muitas mudanças foram geradas.
O tempo passou a ser o grande rival neste contexto -
trabalha-se mais, convive-se menos. Mesmo as crianças
já são inseridas neste ritmo, desde cedo
aprendem que é necessário inúmeras
atividades extra-curriculares, sejam elas para acrescentar
num "currículo" futuro, ou porque precisam
de uma atividade integral para preencher seu "tempo"
enquanto seus pais trabalham.
O professor passou a ser o companheiro nessa jornada
do aluno e os pais, mesmo quando não falam diretamente,
esperam isso do professor - que ele possa ser alguém
"suficiente" aos seus filhos, tanto para ensinar
quanto para inculcar valores.
E esse é o novo papel do professor - ser alguém
capaz de ministrar conhecimento, mediar informações
e, sobretudo, estabelecer vínculos capazes de
educar além da sala de aula. "...O professor,
diz um autor espanhol, não é um dentista,
nem um comandante de avião, ou seja, um dominador
de destrezas relacionadas a um aparelho. Deve enriquecer
se cada vez mais, além do `saber fazer` com outras
duas dimensões profissionais: a pessoal e a sócio-cultural."
Apud (Lopes Herrerías, 1989, p.160) (Veiga, Ilma
passos. Caminhos da profissionalização
do magistério. Campinas-SP: Papirus Editora.
1998. p.36).
2.2. O professor enquanto sujeito
Vivenciamos uma sociedade carente de afeto, de uma estrutura
familiar sólida, referenciais pessoais e com
isso, a busca por satisfação é
constante. Um paradoxo que intriga - nunca foi tão
fácil o acesso a informações e,
com o advento da tecnologia/internet, o mundo encurtou
distâncias e a vida parece não ter mais
limites. "O paradoxo social contemporâneo
é convivermos o dia a dia com tanta gente e ao
mesmo tempo sentirmos solitários. Muitas são
as situações geradoras de solidão:
existe a solidão gerada pelo próprio poder,
a solidão decorrente da riqueza, a solidão
dos bem e mal casados, a solidão imposta pelo
trabalho atomizado, a solidão da criança
cujos pais são egoístas ou inafetivos,
a solidão dos velhinhos rejeitados com suas memórias
e muitas vezes abandonados nos asilos onde se tornam
esquecidos dos familiares, a solidão das crianças
órfãs, abandonadas ou que são obrigadas
a viverem em instituições repressivas,
a solidão da loucura, a solidão dos internos
dos hospitais psiquiátricos, a solidão
dos enfermos hospitalizados, a solidão do excluídos
no topo do mercado de trabalho, a solidão do
desempregado, a solidão do operário que
deixou família para trabalhar na cidade grande,
a solidão do estigmatizado, a solidão
da morte, etc, etc." (http://www.espacoacademico.com.br/034/34ray.htm)
A teoria psicanalítica aborda diversos conceitos
relevantes para este estudo, tais como inconsciente,
espelhismo , subjetividade. Alguns desses serão
abordados para fundamentar parte desse estudo, pois
são bastante pertinentes para a compreensão
de atitudes e ações com significados abstratos,
podendo assim, dar seqüência às explanações
sobre as transformações sociais e ilustrando
suas conseqüências aos indivíduos.
Percebe-se que os papéis sociais não estão
claros, principalmente para as crianças. Atualmente,
o multiculturalismo, juntamente com a possibilidade
de inserção nos espaços antes pré-estabelecidos,
desencadeia uma "mistura" de funções
que vem arraigar valores que transcendem à prática
do real concreto. Sentimentos e atitudes inconscientes
passam a ser mais evidentes na falta e são denunciados
através desses atos, os quais geram situações
de desconforto e hostilidade, denotando uma necessidade
de rever conceitos e atribuições que antes
exerciam uma função harmônica no
desenvolvimento das crianças e jovens. "É
bom lembrar que a criança de nossa época
é também obrigada conviver com a solidão
em famílias, por vezes, inafetivas ou 'afetivamente
desligadas, ou cujos pais excessivamente seguem o modo
de vida estético ou de solteiro, segundo Kierkegaard.
As crianças, obrigadas desde cedo a conviver
com a indiferença, o desamparo ou o abandono
dos pais, estão se formando futuros solitários
e até mesmo personalidades anti-sociais."
(http://www.espacoacademico.com.br/034/34ray.htm).
Wallon acredita que o sujeito se constitui através
de sua interação afetiva com o meio, é
por intermédio destas construções
que as crianças buscam referenciais positivos
para agregar seus valores. O indivíduo passa
então a ser sujeito, passa a receber e doar inúmeras
informações de si, estabelecendo trocas,
modificando e re significando sua história.
Com tanta novidade muito se perdeu, o paradoxo referido
acima fez-se ainda mais angustiante, pois num mundo
com tantas aproximações nunca se falou
tanto em solidão. Pessoas sem referenciais ou
com estes distorcidos, crianças e jovens insatisfeitos
e com atitudes desenfreadas. A escola passou a ser lugar
de desabafo, tanto de pais quanto de alunos - pais que
buscam respostas as atitudes de seus filhos e alunos
que procuram espelhos* para construção
de suas identidades. "O professor, enquanto tipo
humano, representa o espelho no qual o aluno se mira
para se reconhecer ou rejeitar as imagens de si e de
seu mundo ali refletidas." (Carrara, Kester. Introdução
à psicologia da educação - Seis
abordagens, São Paulo: Ed. Avercamp, 2004. p.95).
Com o vislumbre deste quadro, a relação
professor-aluno passou a ser algo ainda mais intenso,
pois deixou de ser uma relação fragmentada
e tornou-se algo explicitamente dual. "A figura
do professor na sala de aula funciona como a dos pais
no grupo familiar. É a partir dela que se constituem
os lugares específicos de cada aluno e é
por ela que passam os vínculos afetivos e os
relacionamentos estabelecidos entre os alunos."
(Carrara, Kester. Introdução à
psicologia da educação - Seis abordagens,
São Paulo: Ed. Avercamp, 2004. p.100).
Cabe ressaltar que a aprendizagem ocorre quando esse
processo está sadio, do contrário teremos
uma relação ameaçada e fadada ao
fracasso. Uma relação que não se
sustenta, onde se estabelecem apenas regras de convivência,
não pode ser considerada inclusiva - relacionar-se
tem um sentido mais profundo, não é tão
simples, mas deveras transformador. "Para Wallon,
a integração entre a formação
da pessoa e a sua inserção na coletividade
asseguraria a realização da educação."
(Werebe, 1986, p.63) (Carrara, Kester. Introdução
à psicologia da educação - Seis
abordagens, São Paulo: Ed. Avercamp, 2004).
Conseqüentemente, a educação não
age de maneira isolada quando procura por intermédio
de metodologias e didáticas estabelecer normas
de aprendizado. Um conjunto de fatores contribui para
que este processo seja realmente algo real e positivo.
Considerando que todo esse processo é antes de
mais nada constituído por indivíduos,
articulados por professores que são sujeito inscritos
na sociedade com histórias e contextos pessoais
diversificados, não faria sentido ater-se apenas
a formas enigmáticas e revolucionárias
de aprendizagem. Não convém ignorar toda
essa construção, e a ação
do professor neste sentido é sem dúvida
reveladora.
Quando o aluno chega à escola e procura ocupar
seu espaço, não vem sozinho. Todas as
suas construções o acompanham permanentemente,
dando origem a suas atitudes e ações de
intencionalidades sejam elas diretas ou indiretas, a
si mesmo ou em relação ao outro. "Tais
lugares não somente devem permitir a expressão
do sujeito, como ainda, na rede de relações,
devem existir lugares vazios, a semelhança das
casas vazias que permitem a circulação
das peças num jogo de xadrez, para que o sujeito
possa circular...." (Carrara, Kester. Introdução
à psicologia da educação - Seis
abordagens, São Paulo: Ed. Avercamp, 2004. p.98).
Com o professor não é diferente. A escolha
por esta profissão faz parte de uma história.
Em algum momento este indivíduo se posicionou
por está exercendo este ofício, muitas
vezes uma escolha positiva, outras casualmente negativa.
Daí essas informações serem tão
relevantes quando entendemos que ser professor é,
a priori, ser sujeito num processo ativo e constante
de relacionamento com o outro.
Conseqüentemente, visto que de antemão estas
relações se referem a sujeitos - sujeito
aluno e sujeito professor - faz-se mister entender em
que circunstâncias estão acontecendo estas
construções, e quais são as possíveis
interferências inerentes a cada um que está
movendo este processo de ensino e aprendizado, no seu
amplo sentido, não somente no tocante aos conteúdos.
Aspectos objetivos são facilmente diagnosticados
e/ou reconhecidos no outro, contudo, não são
apenas estes que abastecem esta relação,
fatores subjetivos, ou seja, aqueles que ficam inscritos
em nossa personalidade são transferidos para
nossa relação com o outro. Estes por sua
vez tornam-se ainda mais relevantes quando nos referimos
ao professor das classes inclusivas. Quando se fala
de sujeitos, não é possível ficar
preso a um único sentido de sua completude, antes,
deve-se compreendê-los como indivíduos
de pequenas construções que vão
de um nível social até psíquico.
Neste sentido, o homem é resultado de várias
combinações, histórico, social,
cultural, psíquica. Por este motivo, suas construções
são marcadas pelo poder de transformação
e de resignificação.
Ao nascer, é puramente biológico, independente
de sua constituição física ou mental,
simplesmente homem, dotado da condição
de buscar tornar-se sujeito. À medida que se
desenvolve, passa na relação com o outro
a construir sua própria existência. "Ele
precisa encontrar a prescrição de sua
existência no mundo e como o biológico
não lhe dá receita nem bula, terá
que procurá-la no contato com o outro."
(Carrara, Kester. Introdução à
psicologia da educação - Seis abordagens,
São Paulo: Ed. Avercamp, 2004. p..79).
Partindo desse raciocínio, é indescritível
a maneira como o homem adquire consciência da
importância de sua existência, pois é
por meio dessa teia de relações que ele
busca responder as suas angústias. O homem passa
então a ser herdeiro dos desejos* dos outros,
isto é, a construir sua história com referenciais
que o outro lhe dará. "Para Lacan, a relação
com o outro passa pelo desejo, pois o desejo do homem
seria o desejo de se fazer reconhecer pelo desejo do
outro." (http://www.nucleosephora.com/laboratorio/laboratorio1/disc5_desejo.html)
Tais constatações nos conduzem à
compreensão de um homem social e culturalmente
estabelecido, fazendo com freqüência, um
movimento entre o seu desejo e o que querem que ele
deseje. Sendo assim, o professor, que tem por objetivo
profissional mediar um determinado conhecimento, passa
a exercer outra atividade enquanto sujeito inserido
num contexto social repleto de lacunas.
Após ter vislumbrado tais considerações,
importante retomar a questão central deste trabalho
- o professor enquanto sujeito nas escolas inclusivas.
Pois, considerando as explanações feitas
até o presente momento, tem-se como ponto inicial
a relação que vem sendo estabelecida desse
professor frente a especificidade dessas crianças.
Não é raro ver sentimentos de insegurança,
rejeição, pena, amor, dentre tantos outros,
pairando o cotidiano destes professores.
Mas porque estes sentimentos são tão marcantes
nestas relações? É importante saber
como este professor se sente frente a esta nova condição
e entender que seus desejos podem refletir expectativas,
moldar atitudes ao qual são inerentes somente
à sua história. Silenciosamente o professor
transmite suas intenções em relação
ao outro, aquilo que não é dito traduz
o que ele espera e como o vê.
A condição em que a criança especial
se insere no mundo está vinculada a uma série
de informações que já lhe foram
passadas. Quando inicia sua vida escolar, muito de sua
existência já lhe foi pré-dita e
transmitida pelo seu núcleo de relacionamentos.
E a partir daí, quando entra na escola e aumenta
seu círculo de relações, tendo
o professor como imagem central no espaço educativo
é que ela vai iniciar um novo processo de relação
com o aprender, com o saber.
A história deste professor passa a ser integrante
nesta relação. Todas as suas construções
serão expostas perante este relacionamento, neste
momento ele passa a confrontar a si mesmo, e a ser co
responsável pela inserção deste
sujeito na escola e na sociedade. Partindo dessa citação,
decorre o fato de que o olhar direcionado para as crianças
é tido como nosso objeto de desejo, aquela que
é capaz de me fornecer algo suficiente para que
o "Eu" se complete. Isto ocorre por que sempre
se está em busca de preencher os espaços
vazios da história de cada um e, como dito anteriormente,
é nessa relação com o outro que
será possível disparar esta busca.
Sendo assim, a criança, que é especial,
não por uma boa condição, mas pelo
fato de receber um termo específico para sua
condição já a coloca num outro
patamar, alguém que merece ter este "título"
para ser identificada. Isto faz-se aparentemente necessário
por ser diferente do padrão esperado, o que conduz
ao seguinte raciocínio: quem num nível
inconsciente, deseja, ou mesmo, de fato acredita poder
receber algo destas crianças? Será que
algum professor, enquanto pai ou mãe de fato
deseja ter um filho "especial?" Porém,
o que se encontra é uma grande máscara,
ainda que sem a intenção, para remediar
esta relação.
Algo que não é restrito apenas aos professores
das classes inclusivas, mas que está impregnado
na nossa sociedade e alimentando nossas construções
psíquicas. Passa-se a desejar aquilo que é
saudável aos olhos, imita-se o que é instituído
belo, separa-se o diferente, ou inclui permitindo que
lhe console por sua condição. Este tipo
de situação gera as "esteriotipias",
os pré-conceitos, as rejeições,
dentre tantos outros títulos que carregamos e
incutimos nos outros.
Assim como se deseja aquilo que possa completar a cada
um, todos estão sujeitos a rejeitar aquilo que
não lhes agrega. "Os lugares psicossociais
já estão dados previamente na estrutura
das relações que configuram a escola e
vão sendo preenchidos por aluno e professor na
sala de aula. Assim, os personagens que habitam a sala
de aula vão ocupando posições ou
assumindo papéis-função que estão
disponíveis, adaptando ou modelando na estrutura
da escola predisposições constituídas
a partir de cristalizações de modos de
ser e agir do indivíduo, decorrentes de seus
relacionamentos anteriores ou daqueles estabelecidos
em outros espaços." (Carrara, Kester. Introdução
à psicologia da educação - Seis
abordagens, São Paulo: Ed. Avercamp, 2004. p.102).
Esta afirmação revela o que é importante
ressaltar neste parágrafo - todos têm "cadeiras"
reservadas na escola e na sociedade. Isso porque, o
que se deseja está prontificado a determinar
e estabelecer normas e condutas. Tais posturas, como
já mencionado, estão na maioria das vezes
num nível inconsciente, o que autoriza determinadas
atitudes. Por isso muitas vezes depara-se com uma sala
de aula tÿØÿà
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