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Memória
Educativa dos professores de escolas Inclusiva |
Ana
Beltrão
Pedagoga e psicopedagoga
E-mail:
a-beltrao@uol.com.br
INTRODUÇÃO
O artigo ora apresentado tem por objetivo propor questionamentos
de caráter reflexivo quanto à influência
de aspectos subjetivos e a memória educativa
dos professores que estão trabalhando em escolas
regulares com proposta de inclusão. A discussão
do tema é resultado de uma pesquisa e abrange
questões importantes para que se compreenda as
dificuldades e/ou facilidades de alguns profissionais.
Muitas vezes a situação esbarra em questões
que vão além de metodologias e práticas
pedagógicas inadequadas, portanto, o conteúdo
desse artigo busca trazer fundamentos que possam estar
explicando como ocorrem essas interferências.
Por se tratar de um tema pouco comentado no meio acadêmico,
o artigo exigirá do leitor uma disposição
prévia em estar sendo exposto a pensamentos e
idéias pouco discutidas e abordadas no contexto
pedagógico. A seqüência em que os
capítulos estão ordenados sugere a compreensão
de como é possível atrelar questões
de ordem subjetiva ao trabalho objetivo que o professor
exerce todos os dias em sua sala de aula, passando por
sua relação direta e, por vezes, indiretas
com os alunos.
OBJETO DE ESTUDO
Esse estudo justifica-se pela necessidade de abrir um
novo horizonte frente aos questionamentos que por vezes
não conseguem sair de um "senso comum".
Buscar novas maneiras de "olhar" este professor
que se insere num processo, o qual não consegue
romper devido às barreiras que sua condição
de sujeito lhe impõe diante da realidade proposta.
"O professor é a pessoa e uma parte importante
da pessoa é o professor" (Jennifer Nias,
1991) (Nóvoa, Antônio. Vidas de Professores.
Porto, Portugal. Porto Editora. 2ª Edição)
Indaga-se: como o professor, com suas múltiplas
ações dentro e fora da sala de aula, torna-se
a cada dia o vínculo mais importante no processo
de inclusão?
Cabe aqui, verificar suas atribuições,
tanto no tocante à sua metodologia e formação
profissional, quanto na sua relação com
o outro. Esses, num sentido mais subjetivo, onde sua
memória educativa, com uma vasta extensão
de fatores intrínsecos e, por vezes, inconsciente,
poderá tornar-se a base para possíveis
respostas a estas barreiras que se levantam entre professores
e alunos, aprendentes e ensinantes. "A construção
de identidades passa sempre por um processo complexo
graças ao qual cada um se apropria do sentido
da sua história pessoal e profissional."
(Diamond, 1991) (Nóvoa, Antônio. Vidas
de Professores. Porto, Portugal. Porto Editora. 2ª
Edição).
Outros questionamentos são ainda mais pertinentes
para compreender estas relações e em que
circunstâncias acontecem suas construções.
À medida que este professor é notado,
percebido, como alguém que já foi ou ainda
é parte de um outro contexto, seja social, afetivo
ou mesmo profissional, passa-se a questionar quem será
ele frente a este novo contexto e como ele vai usufruir
destes fragmentos adquiridos ao longo de sua vida para
posicionar-se em uma classe de escolas inclusivas. "A
transferência encontra-se também presente
na relação professor-aluno e nos permite
refletir sobre o que possibilita ao aluno acreditar
no professor e chegar a aprender. È, portanto,
um poderoso instrumento no processo ensino aprendizagem."
(Carrara, Kester. Introdução à
psicologia da educação - Seis abordagens,
São Paulo: Ed. Avercamp, 2004).
Assim, serão trabalhadas algumas hipóteses
de ordem reflexiva, deixadas previamente como questionamentos:
"Pré-conceitos, amor, afetividade, descrença
no outro, dentre tantos outros conceitos abstratos e
subjetivamente parte de nossas vidas pessoais são
deixadas fora da sala de aula no momento certo? Ou seja,
é possível desvincular tais sentimentos?"
Para responder tais questionamentos, será necessário,
então, entender como e o quanto esses fatores
são determinantes na inclusão. Em determinados
momentos incutamos tantos estigmas no outro, fazemos
inúmeros julgamentos; outrora acreditamos em
tantas outras, e depositamos uma esperança naquilo
que nem sabemos como explicar - hoje a educação
inclusiva tem um peso muito maior em questões
de ordem subjetiva, e seus resultados são o fruto
destas ações.
O objetivo deste artigo é retomar a discussão
a respeito do papel do professor no processo de inclusão,
fazendo alusão às suas experiências
anteriores, observando sua condição de
sujeito co-autor e participante ativo de sua própria
história e nas relações que ele
constrói dentro e fora do contexto escolar. Este
trabalho pode nortear uma nova concepção
de escola inclusiva, ser mais objetivo quanto às
questões subjetivas, e pode utilizar-se de instrumentos
fidedignos já existentes, com profissionais conscientes
e convictos de sua importância.
Outro objetivo não menos importante é
informar à comunidade escolar que a inclusão
não começa na inserção da
criança especial em uma escola regular, mas quando
esta escola e seus ensinantes/professores sabem exatamente
o que possuem em si para dar ao outro. Do contrário,
a superficialidade embutida em determinados métodos
e técnicas continuarão a ser o meio mais
fácil de receber estes aprendentes. "Hanna
Arendt (1972) coloca como condição fundamental
para a constituição do sujeito sua apropriação
do passado, a posse da herança e dos legados
deixados pelas gerações anteriores, entendendo
essa possibilidade de apropriação como
um busca ativa na qual tais tesouros possam ser apreendidos,
renomeados, ressignificados e postos a serviço
da orientação do sujeito no seu tempo."
(Carrara, Kester. Introdução à
psicologia da educação - Seis abordagens,
São Paulo: Ed. Avercamp, 2004, p. 81)"
Teoricamente, a proposta é, também, a
de tomar pontos específicos na compreensão
de alguns aspectos ao tema sugerido. São eles:
- Investigar a formação acadêmica
de professores inseridos neste contexto da inclusão;
- Com isso, Incutir a necessidade de mais cautela, na
contratação dos mesmos;
- Gerar na comunidade escolar a necessidade de rever
as ações que o professor vem tomando frente
sua realidade, buscando saber um pouco mais de seu passado,
presente e futuro;
- Entender até que ponto tais considerações
são pertinentes na relação do professor/aluno.
CAPÍTULO I - Inclusão
A inclusão baseia-se em dois importantes argumentos
- ela mostra ser benéfica para a educação
de todos os alunos, pois ambos aprendem independentemente
de suas habilidades ou dificuldades; e ela baseia-se
em conceitos éticos de direitos e deveres de
todo cidadão - escolas são construídas
para promover acima de tudo cidadania e quebrar paradigmas
pré-estabelecidos. A aprovação
da Lei de Diretrizes e Bases - LDB (Lei 9394/96) estabeleceu,
entre outros princípios, o de "igualdade
e condições para o acesso e permanência
na escola" e adotou nova modalidade de educação
para "educandos com necessidades especiais".
Desde então, a temática da Inclusão
vem rendendo, tanto no meio acadêmico quanto na
própria sociedade, novas e acaloradas discussões,
embora ainda carregue consigo sentidos distorcidos.
Quando a lei dita igualdade educacional em escolas regulares,
ela está involuntariamente abrindo um caminho
para reflexão sobre questões que transcendem
à sala de aula - falar de inclusão é
instigar questões que socialmente estão
entranhadas em nossa vida cotidiana. "A inclusão
social é o processo pelo qual a sociedade e o
portador de deficiência procuram adaptar-se mutuamente
tendo em vista a equiparação de oportunidades
e, consequentemente, uma sociedade para todos. A inclusão
( na sociedade, no trabalho, no lazer, nos serviços
de saúde etc) significa que a sociedade deve
adaptar-se às necessidades da pessoa com deficiência
para que esta possa desenvolver-se em todos os aspectos
de sua vida". (Profª Drª Leny Magalhães
Mrech. Educação Inclusiva: Realidade ou
Utopia? http://www.educacaoonline.pro.br/art_ei_realidade_ou_utopia.asp.)
A aprovação desta veio concretizar um
fato emergencial e isto, sem dúvida, não
deve ser descartado - não é mais possível
ignorar a existência das pessoas ditas "especiais"
simplesmente as segregando em espaços educacionais
específicos para elas. No entanto, apenas a lei
fundamentar este fato não significa que as transformações
serão imediatas; pelo contrário, como
citado no parágrafo acima, esta é uma
mudança que não se restringe ao espaço
escolar, socialmente ainda estamos presos a modelos,
padrões estereotipados - seja de beleza, comportamento
ou mesmo educacionais. Aquilo que é belo está
sempre atrelado a algo que não difere, que não
destoa do ideal que a própria sociedade determina.
Os comportamentos são pré-vistos e desejados,
esperasse que as crianças evoluam conforme as
"teorias de desenvolvimento" e, o mais contundente,
são os padrões educacionais onde a escola
"insere a todos mas não as inclui".
Citando Galeano: "Um sistema de desvínculos:
para que os calados não se façam perguntões,
para que os opinados não se transformem em opinadores.
Para que não se juntem os solitários,
nem a alma junte seus pedaços. O sistema divorcia
a emoção do pensamento como divorcia o
sexo do amor, a vida íntima da vida pública,
o passado do presente. Se o passado não tem nada
para dizer ao presente, a história pode permanecer
adormecida, sem incomodar, no guarda-roupas onde o sistema
guarda seus velhos disfarces. O sistema esvazia nossa
memória, ou enche a nossa memória de lixo,
e assim nos ensina a repetir a história ao invés
de fazê-la. As tragédias se repetem como
tragédias." (Galeano, Eduardo. O livro dos
abraços, Porto Alegre: L&PM, 1991).
Felizmente, a inclusão, em termos legais, deixou
de ser uma proposta utópica e passou a ser real,
ela existe e já urge uma reformulação
de seus ideais propostos. Em 1994, na Espanha, a assinatura
da "Declaração de Salamanca"
contribuiu de maneira decisiva para o avanço
deste debate, abordando questões que embora privilegiassem
a educação, não deixavam de mencionar
o aspecto social. "...Escolas regulares que possuam
tal orientação inclusiva constituem os
meios mais eficazes de combater atitudes discriminatórias
criando-se comunidades acolhedoras, construindo uma
sociedade inclusiva e alcançando educação
para todos; além disso, tais escolas provêem
uma educação efetiva à maioria
das crianças e aprimoram a eficiência e,
em última instância, o custo da eficácia
de todo o sistema educacional." (Declaração
de Salamanca, 1994).
A "educação para todos" tem
uma abrangência muito maior do que levar crianças
especiais para dentro de escolas regulares, todos temos
o dever e por que não dizer, o direito de conhecer
o novo. Quando uma criança especial entra numa
escola de classe regular, ambas (especiais e "normais")
estão aprendendo - cada uma está satisfazendo
sua necessidade enquanto pessoa; estão se tornando
parte de um universo que passa a ser compartilhado e
não mais específico de cada um. A inclusão
é ambivalente - uma criança com necessidades
especiais está também auxiliando na construção
ou, quem sabe, "desconstrução"
de uma sociedade fechada e, por vezes, pré-conceituosa.
Não é raro ver dentro do ambiente escolar
a presença de pessoas/profissionais que, com
uma visão estereotipada, determinam o "destino"
de muitas crianças que não se enquadram
no ideal que a escola supostamente havia previsto. A
prática de classificar e categorizar crianças,
nitidamente baseada nas "faltas", reforça
o fracasso e perpetua a desigualdade entre os indivíduos.
Conforme Galeano: "Somos um mar de fogueirinhas
(...) Cada pessoa brilha com luz própria entre
todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais.
Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras
de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que
nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche
o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não
alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com
tamanha vontade que é impossível olhar
para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo."
(Galeano, Eduardo. O livro dos abraços, Porto
Alegre: L&PM, 1991).
Importante ressaltar que a inclusão não
acontece por acaso, muito esforço deve ser depositado
para que ela seja efetiva, a diversidade só inclui
quando todos se sentem integrados.
Finalmente, cabe lembrar que tais esforços já
permitem a abertura de espaço para essas mudanças,
muito já se alcançou. Atualmente as escolas
não negam seus esforços para atender ao
que a lei determina, porém, um longo percurso
ainda precisa ser trilhado e percorrido para que se
atinja completude de direitos humanitários tão
desejados por essas pessoas especiais.
A inclusão não está apenas exigindo
acesso à escola regular, não devemos esquecer
que é lá onde a criança começa
a exercer valores de cidadania e respeito pelo outro.
Exercitar este relacionamento proporcionará no
futuro uma quebra de paradigmas, e re-significará
os relacionamentos, o papel da escola inclusiva não
se encerra no conteúdo que ela explora, este
é apenas uma pequena parcela de seu papel. "...às
vezes me reconheço nos demais. Me reconheço
nos que ficarão, nos amigos abrigos, loucos lindos
de justiça e bichos voadores da beleza e demais
vadios e mal cuidados que andam por aí e que
por aí continuarão, como continuarão
as estrelas da noite e as ondas do mar. Então,
quando me reconheço neles, eu sou ar aprendendo
a saber-me continuado no vento." (Galeano, Eduardo.
O livro dos abraços, Porto Alegre: L&PM,
1991, p. 269.)
CAPÍTULO II - O professor
2.1. O professor enquanto profissional
Historicamente, a figura do professor sempre representou
a materialização do saber, alguém
com autonomia suficiente para ministrar conhecimento.
Era ele o responsável pela estruturação
social, pois através do conhecimento adquirido
na escola era possível estabelecer divisões
de poder e cultura. Com isso, sua importância
esteve vinculada, por um longo tempo, a uma autoridade
suprema diante do saber almejado. "Certamente houve
um tempo em que o professor era venerado como representante
legítimo do conhecimento. O conhecimento era
então um bem escasso, mas, além de tudo,
seu valor vinha dado pela confiança em seu poder
na hora de transformar o mundo natural e social e levá-lo
a metas de progresso previamente planificadas."
(Veiga, Ilma passos. Caminhos da profissionalização
do magistério. Campinas-SP: Papirus Editora.
1998. p. 31).
O professor atendia a uma demanda social, seu papel
era bem definido e a escola exercia uma função
específica de transmitir conhecimentos com objetivos
bastante característicos ao contexto, ou seja,
inculcar necessidades que estavam vinculadas a valores
pré-existentes na hierarquização
dos papéis sociais - sejam para gerar alunos
submissos/ trabalhadores com capacidade de agregar na
mão de obra, ou para formar líderes, capazes
de governar em favor de sustentar o monopólio
do poder.
No entanto, não é possível limitar-se
à atuação do professor em seu contexto
passado. Sem que isso possa representar um descaso com
a história já construída ao longo
desses anos, o fato é que ocorreu um verdadeiro
evento de re-significação do papel do
professor nos dias atuais. Como descrito anteriormente,
a figura do professor tinha uma representação
de grande supremacia, porém, os anos se passaram
e a sociedade sofreu transformações, algumas
positivas e outras nem tanto. Atualmente observa-se
a figura do professor como alguém capaz de superar
suas próprias forças, um batalhador persistente.
Isso porque vive-se num período onde a sociedade
gera demandas sucessivas, urgentes - é a era
do mundo globalizado, onde tudo é compartilhado,
mas nada é dividido.
A escola passou a ser um espaço de socialização
em massa - todos têm direito a escola, e todos
que conseguem, o tem. O professor, ao contrário
de outras épocas, passou a ser desvalorizado,
continuou detendo um conhecimento, mas deixou de ser
o único, e com isso perdeu sua identidade.
Numa sociedade onde são diminuídos os
valores sociais e familiares, aumenta-se a carga imposta
à escola, a qual passou a delegar funções
multifacetadas ao professor. Neste sentido, percebe-se
que a figura do professor passou a ter uma importância
ainda maior, sua atuação deixou de ser
restrita ao conteúdo previsto por seus dirigentes.
Contextualmente, este deixou de estar apenas em sala
de aula, suas atividades passaram a estar direcionadas
para vários momentos no âmbito escolar;
suas horas de trabalho não são contadas
juntamente com seu salário, e seu desempenho
exige mais de sua profissionalização.
Por este motivo, sua posição está
socialmente além daquela estabelecida pela escola,
ou seja, apenas "dar aula" deixou a muito
tempo de ser sua única atribuição.
O professor passou a ser um agente de transformação,
alguém capaz de promover mudanças e permitir
renovações em seus alunos. "O professor
socializa, inculca modos de ver a vida, proporciona
e reforça a identidade nos alunos a qual, como
se sabe, é antes de mais nada social." (Veiga,
Ilma passos. Caminhos da profissionalização
do magistério. Campinas-SP: Papirus Editora.
1998. p. 37).
Este sujeito/professor vem recebendo encargos cada vez
maiores com o passar dos anos, pois a sociedade evolui
com velocidade. É possível perceber então
seu crescimento exacerbado e que vem contribuindo para
o surgimento de inúmeras lacunas, que vão
desde uma reorganização familiar até
o aparecimento de uma tecnologia em favor de interesses
"pseudo-globalizantes".
A família deixou de ser a estrutura fundamental
na construção de valores, educar filhos
antes era tarefa específica das mulheres, que
por sua vez, não trabalhavam, hoje já
não ocorre mais. Com a entrada da mulher no mercado
de trabalho, muitas mudanças foram geradas.
O tempo passou a ser o grande rival neste contexto -
trabalha-se mais, convive-se menos. Mesmo as crianças
já são inseridas neste ritmo, desde cedo
aprendem que é necessário inúmeras
atividades extra-curriculares, sejam elas para acrescentar
num "currículo" futuro, ou porque precisam
de uma atividade integral para preencher seu "tempo"
enquanto seus pais trabalham.
O professor passou a ser o companheiro nessa jornada
do aluno e os pais, mesmo quando não falam diretamente,
esperam isso do professor - que ele possa ser alguém
"suficiente" aos seus filhos, tanto para ensinar
quanto para inculcar valores.
E esse é o novo papel do professor - ser alguém
capaz de ministrar conhecimento, mediar informações
e, sobretudo, estabelecer vínculos capazes de
educar além da sala de aula. "...O professor,
diz um autor espanhol, não é um dentista,
nem um comandante de avião, ou seja, um dominador
de destrezas relacionadas a um aparelho. Deve enriquecer
se cada vez mais, além do `saber fazer` com outras
duas dimensões profissionais: a pessoal e a sócio-cultural."
Apud (Lopes Herrerías, 1989, p.160) (Veiga, Ilma
passos. Caminhos da profissionalização
do magistério. Campinas-SP: Papirus Editora.
1998. p.36).
2.2. O professor enquanto sujeito
Vivenciamos uma sociedade carente de afeto, de uma estrutura
familiar sólida, referenciais pessoais e com
isso, a busca por satisfação é
constante. Um paradoxo que intriga - nunca foi tão
fácil o acesso a informações e,
com o advento da tecnologia/internet, o mundo encurtou
distâncias e a vida parece não ter mais
limites. "O paradoxo social contemporâneo
é convivermos o dia a dia com tanta gente e ao
mesmo tempo sentirmos solitários. Muitas são
as situações geradoras de solidão:
existe a solidão gerada pelo próprio poder,
a solidão decorrente da riqueza, a solidão
dos bem e mal casados, a solidão imposta pelo
trabalho atomizado, a solidão da criança
cujos pais são egoístas ou inafetivos,
a solidão dos velhinhos rejeitados com suas memórias
e muitas vezes abandonados nos asilos onde se tornam
esquecidos dos familiares, a solidão das crianças
órfãs, abandonadas ou que são obrigadas
a viverem em instituições repressivas,
a solidão da loucura, a solidão dos internos
dos hospitais psiquiátricos, a solidão
dos enfermos hospitalizados, a solidão do excluídos
no topo do mercado de trabalho, a solidão do
desempregado, a solidão do operário que
deixou família para trabalhar na cidade grande,
a solidão do estigmatizado, a solidão
da morte, etc, etc." (http://www.espacoacademico.com.br/034/34ray.htm)
A teoria psicanalítica aborda diversos conceitos
relevantes para este estudo, tais como inconsciente,
espelhismo , subjetividade. Alguns desses serão
abordados para fundamentar parte desse estudo, pois
são bastante pertinentes para a compreensão
de atitudes e ações com significados abstratos,
podendo assim, dar seqüência às explanações
sobre as transformações sociais e ilustrando
suas conseqüências aos indivíduos.
Percebe-se que os papéis sociais não estão
claros, principalmente para as crianças. Atualmente,
o multiculturalismo, juntamente com a possibilidade
de inserção nos espaços antes pré-estabelecidos,
desencadeia uma "mistura" de funções
que vem arraigar valores que transcendem à prática
do real concreto. Sentimentos e atitudes inconscientes
passam a ser mais evidentes na falta e são denunciados
através desses atos, os quais geram situações
de desconforto e hostilidade, denotando uma necessidade
de rever conceitos e atribuições que antes
exerciam uma função harmônica no
desenvolvimento das crianças e jovens. "É
bom lembrar que a criança de nossa época
é também obrigada conviver com a solidão
em famílias, por vezes, inafetivas ou 'afetivamente
desligadas, ou cujos pais excessivamente seguem o modo
de vida estético ou de solteiro, segundo Kierkegaard.
As crianças, obrigadas desde cedo a conviver
com a indiferença, o desamparo ou o abandono
dos pais, estão se formando futuros solitários
e até mesmo personalidades anti-sociais."
(http://www.espacoacademico.com.br/034/34ray.htm).
Wallon acredita que o sujeito se constitui através
de sua interação afetiva com o meio, é
por intermédio destas construções
que as crianças buscam referenciais positivos
para agregar seus valores. O indivíduo passa
então a ser sujeito, passa a receber e doar inúmeras
informações de si, estabelecendo trocas,
modificando e re significando sua história.
Com tanta novidade muito se perdeu, o paradoxo referido
acima fez-se ainda mais angustiante, pois num mundo
com tantas aproximações nunca se falou
tanto em solidão. Pessoas sem referenciais ou
com estes distorcidos, crianças e jovens insatisfeitos
e com atitudes desenfreadas. A escola passou a ser lugar
de desabafo, tanto de pais quanto de alunos - pais que
buscam respostas as atitudes de seus filhos e alunos
que procuram espelhos* para construção
de suas identidades. "O professor, enquanto tipo
humano, representa o espelho no qual o aluno se mira
para se reconhecer ou rejeitar as imagens de si e de
seu mundo ali refletidas." (Carrara, Kester. Introdução
à psicologia da educação - Seis
abordagens, São Paulo: Ed. Avercamp, 2004. p.95).
Com o vislumbre deste quadro, a relação
professor-aluno passou a ser algo ainda mais intenso,
pois deixou de ser uma relação fragmentada
e tornou-se algo explicitamente dual. "A figura
do professor na sala de aula funciona como a dos pais
no grupo familiar. É a partir dela que se constituem
os lugares específicos de cada aluno e é
por ela que passam os vínculos afetivos e os
relacionamentos estabelecidos entre os alunos."
(Carrara, Kester. Introdução à
psicologia da educação - Seis abordagens,
São Paulo: Ed. Avercamp, 2004. p.100).
Cabe ressaltar que a aprendizagem ocorre quando esse
processo está sadio, do contrário teremos
uma relação ameaçada e fadada ao
fracasso. Uma relação que não se
sustenta, onde se estabelecem apenas regras de convivência,
não pode ser considerada inclusiva - relacionar-se
tem um sentido mais profundo, não é tão
simples, mas deveras transformador. "Para Wallon,
a integração entre a formação
da pessoa e a sua inserção na coletividade
asseguraria a realização da educação."
(Werebe, 1986, p.63) (Carrara, Kester. Introdução
à psicologia da educação - Seis
abordagens, São Paulo: Ed. Avercamp, 2004).
Conseqüentemente, a educação não
age de maneira isolada quando procura por intermédio
de metodologias e didáticas estabelecer normas
de aprendizado. Um conjunto de fatores contribui para
que este processo seja realmente algo real e positivo.
Considerando que todo esse processo é antes de
mais nada constituído por indivíduos,
articulados por professores que são sujeito inscritos
na sociedade com histórias e contextos pessoais
diversificados, não faria sentido ater-se apenas
a formas enigmáticas e revolucionárias
de aprendizagem. Não convém ignorar toda
essa construção, e a ação
do professor neste sentido é sem dúvida
reveladora.
Quando o aluno chega à escola e procura ocupar
seu espaço, não vem sozinho. Todas as
suas construções o acompanham permanentemente,
dando origem a suas atitudes e ações de
intencionalidades sejam elas diretas ou indiretas, a
si mesmo ou em relação ao outro. "Tais
lugares não somente devem permitir a expressão
do sujeito, como ainda, na rede de relações,
devem existir lugares vazios, a semelhança das
casas vazias que permitem a circulação
das peças num jogo de xadrez, para que o sujeito
possa circular...." (Carrara, Kester. Introdução
à psicologia da educação - Seis
abordagens, São Paulo: Ed. Avercamp, 2004. p.98).
Com o professor não é diferente. A escolha
por esta profissão faz parte de uma história.
Em algum momento este indivíduo se posicionou
por está exercendo este ofício, muitas
vezes uma escolha positiva, outras casualmente negativa.
Daí essas informações serem tão
relevantes quando entendemos que ser professor é,
a priori, ser sujeito num processo ativo e constante
de relacionamento com o outro.
Conseqüentemente, visto que de antemão estas
relações se referem a sujeitos - sujeito
aluno e sujeito professor - faz-se mister entender em
que circunstâncias estão acontecendo estas
construções, e quais são as possíveis
interferências inerentes a cada um que está
movendo este processo de ensino e aprendizado, no seu
amplo sentido, não somente no tocante aos conteúdos.
Aspectos objetivos são facilmente diagnosticados
e/ou reconhecidos no outro, contudo, não são
apenas estes que abastecem esta relação,
fatores subjetivos, ou seja, aqueles que ficam inscritos
em nossa personalidade são transferidos para
nossa relação com o outro. Estes por sua
vez tornam-se ainda mais relevantes quando nos referimos
ao professor das classes inclusivas. Quando se fala
de sujeitos, não é possível ficar
preso a um único sentido de sua completude, antes,
deve-se compreendê-los como indivíduos
de pequenas construções que vão
de um nível social até psíquico.
Neste sentido, o homem é resultado de várias
combinações, histórico, social,
cultural, psíquica. Por este motivo, suas construções
são marcadas pelo poder de transformação
e de resignificação.
Ao nascer, é puramente biológico, independente
de sua constituição física ou mental,
simplesmente homem, dotado da condição
de buscar tornar-se sujeito. À medida que se
desenvolve, passa na relação com o outro
a construir sua própria existência. "Ele
precisa encontrar a prescrição de sua
existência no mundo e como o biológico
não lhe dá receita nem bula, terá
que procurá-la no contato com o outro."
(Carrara, Kester. Introdução à
psicologia da educação - Seis abordagens,
São Paulo: Ed. Avercamp, 2004. p..79).
Partindo desse raciocínio, é indescritível
a maneira como o homem adquire consciência da
importância de sua existência, pois é
por meio dessa teia de relações que ele
busca responder as suas angústias. O homem passa
então a ser herdeiro dos desejos* dos outros,
isto é, a construir sua história com referenciais
que o outro lhe dará. "Para Lacan, a relação
com o outro passa pelo desejo, pois o desejo do homem
seria o desejo de se fazer reconhecer pelo desejo do
outro." (http://www.nucleosephora.com/laboratorio/laboratorio1/disc5_desejo.html)
Tais constatações nos conduzem à
compreensão de um homem social e culturalmente
estabelecido, fazendo com freqüência, um
movimento entre o seu desejo e o que querem que ele
deseje. Sendo assim, o professor, que tem por objetivo
profissional mediar um determinado conhecimento, passa
a exercer outra atividade enquanto sujeito inserido
num contexto social repleto de lacunas.
Após ter vislumbrado tais considerações,
importante retomar a questão central deste trabalho
- o professor enquanto sujeito nas escolas inclusivas.
Pois, considerando as explanações feitas
até o presente momento, tem-se como ponto inicial
a relação que vem sendo estabelecida desse
professor frente a especificidade dessas crianças.
Não é raro ver sentimentos de insegurança,
rejeição, pena, amor, dentre tantos outros,
pairando o cotidiano destes professores.
Mas porque estes sentimentos são tão marcantes
nestas relações? É importante saber
como este professor se sente frente a esta nova condição
e entender que seus desejos podem refletir expectativas,
moldar atitudes ao qual são inerentes somente
à sua história. Silenciosamente o professor
transmite suas intenções em relação
ao outro, aquilo que não é dito traduz
o que ele espera e como o vê.
A condição em que a criança especial
se insere no mundo está vinculada a uma série
de informações que já lhe foram
passadas. Quando inicia sua vida escolar, muito de sua
existência já lhe foi pré-dita e
transmitida pelo seu núcleo de relacionamentos.
E a partir daí, quando entra na escola e aumenta
seu círculo de relações, tendo
o professor como imagem central no espaço educativo
é que ela vai iniciar um novo processo de relação
com o aprender, com o saber.
A história deste professor passa a ser integrante
nesta relação. Todas as suas construções
serão expostas perante este relacionamento, neste
momento ele passa a confrontar a si mesmo, e a ser co
responsável pela inserção deste
sujeito na escola e na sociedade. Partindo dessa citação,
decorre o fato de que o olhar direcionado para as crianças
é tido como nosso objeto de desejo, aquela que
é capaz de me fornecer algo suficiente para que
o "Eu" se complete. Isto ocorre por que sempre
se está em busca de preencher os espaços
vazios da história de cada um e, como dito anteriormente,
é nessa relação com o outro que
será possível disparar esta busca.
Sendo assim, a criança, que é especial,
não por uma boa condição, mas pelo
fato de receber um termo específico para sua
condição já a coloca num outro
patamar, alguém que merece ter este "título"
para ser identificada. Isto faz-se aparentemente necessário
por ser diferente do padrão esperado, o que conduz
ao seguinte raciocínio: quem num nível
inconsciente, deseja, ou mesmo, de fato acredita poder
receber algo destas crianças? Será que
algum professor, enquanto pai ou mãe de fato
deseja ter um filho "especial?" Porém,
o que se encontra é uma grande máscara,
ainda que sem a intenção, para remediar
esta relação.
Algo que não é restrito apenas aos professores
das classes inclusivas, mas que está impregnado
na nossa sociedade e alimentando nossas construções
psíquicas. Passa-se a desejar aquilo que é
saudável aos olhos, imita-se o que é instituído
belo, separa-se o diferente, ou inclui permitindo que
lhe console por sua condição. Este tipo
de situação gera as "esteriotipias",
os pré-conceitos, as rejeições,
dentre tantos outros títulos que carregamos e
incutimos nos outros.
Assim como se deseja aquilo que possa completar a cada
um, todos estão sujeitos a rejeitar aquilo que
não lhes agrega. "Os lugares psicossociais
já estão dados previamente na estrutura
das relações que configuram a escola e
vão sendo preenchidos por aluno e professor na
sala de aula. Assim, os personagens que habitam a sala
de aula vão ocupando posições ou
assumindo papéis-função que estão
disponíveis, adaptando ou modelando na estrutura
da escola predisposições constituídas
a partir de cristalizações de modos de
ser e agir do indivíduo, decorrentes de seus
relacionamentos anteriores ou daqueles estabelecidos
em outros espaços." (Carrara, Kester. Introdução
à psicologia da educação - Seis
abordagens, São Paulo: Ed. Avercamp, 2004. p.102).
Esta afirmação revela o que é importante
ressaltar neste parágrafo - todos têm "cadeiras"
reservadas na escola e na sociedade. Isso porque, o
que se deseja está prontificado a determinar
e estabelecer normas e condutas. Tais posturas, como
já mencionado, estão na maioria das vezes
num nível inconsciente, o que autoriza determinadas
atitudes. Por isso muitas vezes depara-se com uma sala
de aula tão demarcada. E estas demarcações
não se fazem apenas num espaço físico,
são cadeiras que ficam reservadas em cada professor.
Reserva-se espaço para o bagunceiro, o inteligente,
o desatento, e agora com a inclusão, para o deficiente.
Isso por que é aprendido que para cada sujeito
uma construção se fez específica
- se o deficiente entra nesse espaço, espaço
pessoal, algo deverá ser dado.
As entrelinhas desse relacionamento é que vão
traduzir o que está guardado, o que o professor
pode ser, enquanto pessoa, para o outro. Embora não
seja claramente exposto, estas crianças especiais
são um grande confronto para os professores -
elas acionam um mecanismo de angústia que as
permitam perceber suas fragilidades frente aquilo que
não conhecem. O inconsciente é muitas
vezes desconhecido de cada sujeito e neste contato ele
torna-se mais ativo.
Wallon expressa perfeitamente essa construção
do "eu" frente ao outro, ele assim diz: "As
pessoas do meio nada mais são, em suma, que ocasiões
ou motivos para o sujeito exprimir-se e realiza-se.
Mas se ele pode dar-lhes vida e consistência fora
de si, é por que realizou, em si, a distinção
do seu "eu"e do que lhe é complemento
indispensável: esse estranho essencial que é
o "outro". A Distinção [...]resulta
de uma bipartição mais intima entre dois
termos que não poderiam existir um sem o outro,
ainda ou porque antagonistas, um que é a afirmação
da identidade consigo próprio e o outro que resume
aquilo que é necessário expulsar dessa
identidade para conservá-la." (1986,p.164)
(Carrara, Kester. Introdução à
psicologia da educação - Seis abordagens,
São Paulo: Ed. Avercamp, 2004, p.56).
Então, quando a criança encontra um professor
que se sente constrangido, ou mesmo eufórico,
em trabalhar com sua especificidade, deixa-se de questionar
em que momento de sua vida é remetido este episódio,
a ponto de tal sentimento se fazer tão presente.
2.2.1. Sujeito
O conceito de sujeito é amplo, e sua abordagem
sugere um estudo bastante aprofundado e minucioso. No
entanto, esse sub-item buscará fazer algumas
reflexões pertinentes ao tema sugerido e buscará
não perder sua profundidade, mas se atendo a
explanações sólidas para fundamentar
esta pesquisa.
Os fundamentos da psicanálise postos por Freud
trazem muitas contribuições, porém,
devem ser abordadas com um certo nível de criticidade,
o que não descaracteriza sua fundamentação
mas possibilita uma abrangência maior dos conceitos.
Como afirma Birman (1999): "O fato de que a psicanálise
seja meu referencial fundamental de leitura e minha
bússola teórica para viajar nas tormentas
da atualidade, contudo não significa que pretendo
utilizá-lo de maneira linear e aplicada, isto
é, de forma cega e obtusa. Pelo contrário,
minha intenção é também
demonstrar como o domínio doutrinário
de certas concepções vigentes no campo
psicanalítico funcionam como obstáculo
crucial para escuta de novas formas de subjetividade
que o cenário contemporâneo nos oferece."
(Rey, Fernando González. Sujeito e subjetividade.
São Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning, 2003.
p.24)
Em continuidade, para Freud este sujeito traduz um sentimento
de liberdade, pois é ele quem liberará
o individuo dele mesmo. Contudo, a abordagem da sexualidade
como princípio de prazer em seu caráter
biológico fundamentou toda essa trajetória
de novos conceitos - esta abordagem causou impacto e
proporcionou discussões acaloradas para sua época.
De acordo com Rey. "Freud compreende a sexualidade
como desejo, mas um desejo baseado em uma pulsão
orgânica que se legitima na substancialização
da sexualidade na libido." (Rey, Fernando González.
Sujeito e subjetividade. São Paulo: Ed. Pioneira
Thomson Learning, 2003. p.26.).
Sendo assim, o corpo representaria a base de sustentação
na formação desse sujeito, pelo qual todas
as suas experiências seriam canalizadas e conduzidas
pelo princípio do prazer sexual incutidas na
formação biológica de cada indivíduo.
A subjetivação deste corpo frente às
pulsões libidinais passa a ser encarregada de
formar este sujeito. O corpo, para Freud, traz o desejo
capaz de na alteridade favorecer a subjetivação.
O sujeito passa a ser algo independente que se constrói
por intermédio de pulsões residentes no
id e buscando no ego subsídios para manifestações
do indivíduo. As colocações de
Freud merecem ser analisadas e questionadas no sentido
de ampliar a concepção de construção
do sujeito. Para Rey, "O corpo não é
uma fonte universal de desejo; este se organiza também
socialmente sobre a base das emoções experimentadas
pelo sujeito em seu diferentes sistemas de relações.
O corpo é um sistema histórico de relações
do sujeito. Separar o prazer corporal de outras motivações
de natureza social representaria a conservação
da dicotomia cartesiana psique-corpo." (Rey, Fernando
González. Sujeito e subjetividade. São
Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning, 2003. p.26.)
Isso significa que estreitar um pensamento do qual exclui
o caráter social das construções
é possibilitar um armazenamento de condutas conservadoras
e positivistas, como citado anteriormente, a intenção
é chegar o mais próximo de uma concepção
mais elucidativa e que não fragmente o assunto.
Mais uma vez, cabe ressaltar que a teoria por Freud
fundamentada merece ser reverenciada e colocada em local
de destaque para tal estudo. Os pensamentos de Freud
são tão enriquecedores que proporcionaram
a outros estudiosos relerem suas obras e a partir daí
contribuírem também com novas e importantes
concepções. O francês Jacques Lacan
foi um desses seguidores que trouxe sua contribuição,
muito embora tenha também sido alvo de críticas
por re conceituar elementos que Freud configurou em
sua teoria. Resumidamente, três conceitos básicos
de sua obra são a chave para compreensão
de suas idéias: o imaginário, o simbólico
e a ordem real.
De uma maneira sucinta, tais conceitos apresentam as
seguintes características de acordo com as definições
de Rey (Rey, Fernando González. Sujeito e subjetividade.
São Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning, 2003.):
" Imaginário - "O imaginário
define o reino em que não existe divisão
entre sujeito e objeto" (p.36). Significa dizer
que nesta fase o sujeito não se diferencia do
objeto de seu desejo, uma "unidade" pois,
faz com que essa separação não
exista e portanto não consiga distinguir de sua
imagem aquilo que é dele daquilo que é
do outro. "O si-mesmo, como produção
imaginária, é fonte de fragmentação,
distorção e alienação."
(p.36). É nesta fase que a criança começa
a estabelecer uma "ilusão narcísica",
pela qual buscará nessa relação
indissolúvel entre ela (sujeito) e objeto perceber
a "falta" e a incapacidade de integrar-se
com ela mesma. "A Criança na medida que
se identifica com a sua imagem especular, experimenta
a falta, ao não poder apropriar-se de sua imagem,
ao não poder experimentar em si mesmo a integração
que a imagem traz consigo." (p.36)
" Simbólico - "A linguagem é
um elemento essencial na definição do
simbólico. Lacan coloca a configuração
do psíquico e do inconsciente no nível
do simbólico" (p.37). Para Lacan, a linguagem
representa a base sólida de seu pensamento e
através dela o sujeito poderá organizar
o seu universo psíquico, compreendendo assim,
ao contrário de Freud, o inconsciente como linguagem.
" Ordem Real - "O sujeito de Lacan está
totalmente incapacitado para seguir o princípio
da realidade, sendo um sujeito de ficção"
(p.38). Neste sentido, Lacan coloca o real como algo
fictício, sujeitado a linguagem, vinculado ao
desejo. "No real se expressa e recicla de forma
permanente um desejo que o sujeito nunca pode gratificar"
(p.38.)
Embora tais explanações tenham apresentado
conceitos breves sobre o assunto, é possível
compreender um pouco sobre o que Lacan deixou de conhecimento
sobre a constituição do sujeito. Para
ele, a linguagem permite o acesso do sujeito a uma outra
dimensão de realidade, construída pelo
desejo e pelo anseio de re significações.
Faz se mister lembrar que sua obra tem outras proposições,
uma dimensão maior de seus conceitos de fundamentos,
no entanto para os devidos propósitos no momento
tais conceitos foram resumidos.
Visto anteriormente duas diferentes concepções
de sujeito, Freud e Lacan, convém finalizar este
subitem com uma terceira abordagem não menos
importante, a qual busca dar um enfoque mais contemporâneo
a constituição de sujeito. "O sujeito
é sujeito do pensamento, mas não de um
pensamento compreendido de forma exclusiva em sua condição
cognitiva, e sim e um pensamento entendido como processo
de sentido, ou seja, que atua somente por meio de situações
e conteúdos que implicam a emoção
do sujeito." (Rey, Fernando González. Sujeito
e subjetividade. São Paulo: Ed. Pioneira Thomson
Learning, 2003. p.235).
Neste momento, Rey discorre de uma nova abordagem, esta
por sua vez não ignora as concepções
anteriores, nas revela um sujeito o qual busca também
subsídios sociais e culturais para sua estruturação.
O sujeito elabora sua subjetividade ao utilizar-se de
vários aspectos, mesmo as atribuições
cognitivas passam por um clivo de inconsciência
pré-concebidas e instauradas na sua constituição.
Segundo Elliot (1997), "O sujeito contemporâneo,
em plena pós-modernidade, parece cada vez mais
consciente de existência de um campo inconsciente
de contingência representacional que, se é
objeto de uma adequada interpretação e
reflexão, pode ser usado de múltiplas
maneiras na fabricação de significado
e sentido" (Rey, Fernando González. Sujeito
e subjetividade. São Paulo: Ed. Pioneira Thomson
Learning, 2003. p.191).
Este entendimento é importante para compreensão
de que neste vasto campo de estudo, muitas das considerações
passadas continuam gerando novas descobertas e sendo
a elas agregadas outras perspectivas de compreender
a complexidade de sua formação. O sujeito
contemporâneo é também alimentado
por aspectos sociais e culturais, e cultiva emoções
que abarcam as relações de sua realidade.
Uma visão de sujeito histórico-social
traz consigo a compreensão de fatores que estão
incluídos em diversos momentos do indivíduo,
pois este, ao pertencer a um determinado espaço
social, está também construindo condições
que favoreçam sua própria condição
de sujeito. Dessa maneira, percebe-se que a medida que
o individuo se inscreve na sociedade, acrescenta um
pouco mais à sua história pessoal e constitui-se
cada vez mais sujeito atuante e participador de sua
subjetividade.
Com essa participação efetiva do indivíduo
na sociedade, sua prática social passa a ser
cada vez mais desenvolvida, que requer um aprimoramento
de suas expressões no sentido de estar constantemente
modificando e agregando a sua formação
enquanto sujeito, criando assim condições
de alternâncias para que possa também se
adequar a diferentes contextos sociais. "O sujeito
tem uma função auto-reguladora (Morin,1980),
que eu vejo não só na organização
de sistemas de estratégias que lhe permitam integrar
'zonas diferentes' de suas práticas sociais,
zonas estas que se expressão em diferentes espaços
sociais e que co-existem em tempos diferentes."
(Rey, Fernando González. Sujeito e subjetividade.
São Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning, 2003.
p.239).
Finalizando, a concepção de sujeito histórico
social também favorece o confronto, pois por
meio das condições dispostas na sociedade,
este sujeito necessitará encontrar nele mesmo
respaldo para se adaptar e assim se adequar da melhor
maneira possível, buscando sempre sentir-se confortável
para lidar consigo mesmo.
Tais momentos revelarão por hora situações
de desconforto, angústia ou mesmo contentamento,
no entanto são essas construções
que permitirão se aproximar do ideal de perfeição
assim idealizado para sua plenitude. Como cita Dreier
(1999. p.34): "Em diversas formas, a participação
na prática social implica elementos de compreensão,
orientação e coordenação
entre as pessoas, como parte de contextos sociais particulares
e como viajantes por meio deles. Porém, isto,
de nenhuma forma elimina a necessidade 'do diálogo
consigo mesmo' que chamamos de reflexão. De fato,
de múltiplas formas, os diálogos entre
pessoas alimentam os diálogos intra-pessoais
e vice-versa."
2.2.2. Subjetividade
Dando seqüência às explanações
anteriores, sujeito e subjetividade são temas
que não se separam. No entanto, as diversas concepções
é que tornam possíveis as diferentes formas
de construir a subjetividade. Freud, como visto anteriormente,
concebe o indivíduo enquanto sujeito em sua esfera
biológica, resultando a construção
de uma subjetividade reducionista, que isenta o caráter
social de participar desta construção.
"Não foi por acaso que, entre os seguidores
de Freud, um dos pontos de divergência maior com
o mestre fosse o lugar do social no desenvolvimento
da psique, que apareceu com uma força maior naqueles
autores que desenvolveram movimentos alternativos na
família das teorias psicanalíticas."
(Rey, Fernando González. Sujeito e subjetividade.
São Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning, 2003.p.31).
Isso significa dizer que as concepções
psicanalíticas deixaram marcas, no entanto, foram
necessárias outras visões para que pudesse
estar alçando novas concepções
e quebrando paradigmas. A subjetividade não se
restringe a um determinado conceito, e por este motivo,
consegue descrever situações e traduzir
os sentimentos e emoções que fazem parte
de todo sujeito. Em busca de ampliar o entendimento
deste conceito foi que a subjetividade social surgiu
com grandes contribuições "O conceito
de subjetividade social foi introduzido em um momento
histórico de busca, contradição
e auge da psicologia latino-americana, que se caracterizou
pela tentativa de estabelecer uma psicologia própria,
comprometida com a vida e as práticas sociais
em nossos países (década de 1980), o que
acentuou a ênfase da na psicologia social."
(Rey, Fernando González. Sujeito e subjetividade.
São Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning, 2003.p.199).
A Identidade social de cada sujeito reflete um pouco
de sua história pessoal, é neste momento
que a subjetividade social traz uma grande contribuição
na compreensão deste processo de construção.
A subjetividade é um coletor de informações
e exerce uma função vital no tocante a
canalização e releitura das ações
de seus sujeitos. Cada momento passa ser único
e deve ser relido de maneira bastante específica,
compreendendo que a subjetividade tem suas características
própria, peculiar a cada sujeito e/ou contexto.
Cada conhecimento individual compartilha de uma compreensão,
de uma realidade singular, ou seja, o real passa a ser
subjetivado a medida do conhecimento/relacionamento
pessoal com o objeto desejado. A subjetividade caracteriza-se
pela possibilidade dos sujeitos através das várias
formas de expressão, concretizar o abstrato,
conforme Rey, "Na subjetividade humana, experiências,
significados e sentidos de procedências diferentes
perdem sua localização no tempo e no espaço
em que foram produzidos e passam a ter uma presença
em configurações subjetivas diferentes,
nos espaços e tempos definidos dentro da mesma
configuração subjetiva na qual se integram."
(Rey, Fernando González. Sujeito e subjetividade.
São Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning, 2003.
(Rey, Fernando González. Sujeito e subjetividade.
São Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning, 2003.
p.220)
A compreensão da subjetividade sustenta a tese
de que o sujeito é muito mais do que ele pode
mostrar em suas ações, transcende a sua
realidade e encontra espaço em uma intimidade
sublimada pela suas emoções.
2.2.3. Alteridade
Neste item, a proposta é discorrer sobre a importância
da consciência do outro.A alteridade é
representa aqui por essa necessidade de reconhecer a
importância do outro na construção
do Eu . Para Maria Tereza, "Teorias da inspiração
sócio-histórica enfatizam o outro como
presença necessária e preponderante para
a construção do sujeito. Modelos sócio-construtivistas
optam pela interferência decisiva do outro no
desenvolvimento e constituição do sujeito
sem, contudo, desconsiderar o trabalho individual."
(Simão, Lívia Mathias. O outro no desenvolvimento
humano. São Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning.
2004. p.61).
É essa relação entre os sujeitos,
onde a alteridade, ou seja, a capacidade de se colocar
na posição do outro, permite a troca de
informações essenciais a relação
de desenvolvimento estabelecido por ambas as partes.
"Quando o ser humano volta-se para o outro como
um outro ou como uma pessoa particular e específica,
e tenta entrar em comunicação com ele
pela linguagem ou pelo silêncio, alguma coisa
acontece entre eles que não aconteceria de outra
forma na natureza. Este encontro acontece na esfera
do"entre" (Hodes, 1973 apud Smith, 2000) (Simão,
Lívia Mathias. O outro no desenvolvimento humano.
São Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning. 2004.
p.109)
A alteridade revela essa importante comunicação,
onde no diálogo com o outro, expressa a necessidade
e possibilidade de compreender o seu ponto exato de
aproximação. Neste sentido, rege a importância
de estar atento a oportunidade que o outro oferece,
para que se estabeleça vínculos, para
que se conquiste o espaço dentro de uma relação.
"É na relação face a face
entre o eu e o outro que se estabelece a proximidade,
cujo sentido primordial e último é a responsabilidade
do eu pelo outro. Nesta responsabilidade constitui-se
a subjetividade do sujeito". (Apud Mance, 1999)
(Simão, Lívia Mathias. O outro no desenvolvimento
humano. São Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning.
2004. p.107).
Vygotsky, quando fala de Zona de desenvolvimento proximal,
traz uma contribuição importante para
entender essa relação de atenção
para com o outro, principalmente no tocante a relação
de ensino aprendizagem, quando o professor se posiciona
de maneira mediadora e ao mesmo tempo exercendo uma
função essencial na vida de seus alunos,
possibilitando por meio da alteridade, uma relação
transcendente à própria sala de aula,
estando sempre atento, próximo e ao mesmo tempo
inserido neste contexto de atuação. "Se
assim é, temos o ímpeto em afirmar que
os sujeitos que ensinam e os sujeitos que aprendem percorrem
esse caminho muitas vezes sem perceber o impacto que
causam um no outro.Portanto, a responsabilidade que
precisariam assumir no encontro cotidiano, muitas vezes,
fica aquém das necessidades mútuas."
(Simão, Lívia Mathias. O outro no desenvolvimento
humano. São Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning.
2004. p.107).
Em educação a necessidade de mudança
urge por transformações significativas,
neste caso, entender as particularidades de cada um
junto as suas singularidades e especificidades renova
a visão de educar. Conforme cita Bartholo, "Ensinar,
verdadeiramente, não comporta, portanto generalizações;
significa antes de tudo, o voltar-se para o diferente,
o particular, o singular; o reconhecimento da alteridade
do outro e sua irredutibilidade; 'o zelo pela preservação
da alteridade do Outro' (Bartholo Jr., 2001, p. 87)
(Simão, Lívia Mathias. O outro no desenvolvimento
humano. São Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning.
2004. p.53).
De uma maneira bastante transformadora, pensar o outro
permite abrir espaço para compreender as necessidades
subjetivas e intrínsecas de cada um, até
por que agir nesse intuito, involuntariamente implica
em reconhecer a si próprio, se perceber e a partir
do outro perceber a fragilidade de cada um em sua existência.
"Assim, o Eu não existe em si mesmo, nem
a partir do outro, como um desdobramento do outro(ou
outros) em si. O Eu só existe com o outro, o
Eu é impossível sem o Tu. E isso é
definitivo. Ou, ainda, não é sujeito a
chance primordial do Ser, mas sim nossa vulnerabilidade
à alteridade" (Bartholo jr., 2001,p.9) (Simão,
Lívia Mathias. O outro no desenvolvimento humano.
São Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning. 2004.
p.55).
Por fim, é possível perceber que tais
considerações apontam para uma concepção
de relação baseada em diálogos
subjetivos, uma perspectiva diferente do habitual, cabe
a compreensão deste.
CAPÍTULO III - Relação
professor/aluno
A relação professor aluno deverá
elucidar novas práticas de relacionamento. As
transformações sociais e comportamentais
geram práxis diferenciadas e isso repercute em
um novo tipo de envolvimento entre professores e alunos.
Significa que a sala de aula deixou de ser o espaço
destinado apenas a dar aulas - o relacionamento entre
os integrantes da comunidade escolar passou a dar novos
rumos a educação e a aprendizagem.
Por meio desse movimento a aprendizagem foi re-significada.
De acordo com Pedro Morales, "O modo como se dá
nossa relação com os alunos pode e deve
incidir positivamente tanto no aprendizado deles, e
não só das matérias que damos,
como em nossa própria satisfação
pessoal e profissional..." (Morales, Pedro. Relação
professor-aluno - O que é e como se faz. Ed.
Loyola. p.10).
Essa relação entre professores e alunos
vai além do que é possível transmitir
num relacionamento de prática didática
direta, muito se transmite direta e indiretamente, de
maneira que as marcas dessa relação podem
abrir ou fechar todo um percurso do educando. Quanto
a isso, Hillal (1995) cita: "o primeiro professor
de uma criança tem muito grande importância
na atitude futura desse educando, não só
durante a sua fase de aprendizagem, mas na sua relação
com os sucessivos professores." (Morales, Pedro.
Relação professor-aluno - O que é
e como se faz. Ed. Loyola. p. 19).
Professores e alunos participam de momentos diferentes
em suas vidas, cada qual, enquanto sujeitos, pertencem
a espaços sociais, dimensões de individualidade
e subjetividade distintas, cada um carrega uma identidade
própria, o que significa dizer que ao se encontrarem
em um espaço comum de sala de aula, seus papeis
que já estão pré-estabelecidos
socialmente, passam a ganhar outra função,
o professor deverá exercer o ofício, que
já está designado, de ensinar e seus alunos
aprender, e é neste momento que as relações
se cruzam. Isso significa que a relação
entre professor e aluno pode definir o percurso de todo
um aprendizado o que conseqüentemente pode ter
um resultado positivo e/ou negativo na trajetória
deste educando. É importante destacar neste item
que, independente de como seja esse professor, ele será
sempre alguém para ser lembrado, um referencial
que deixará marcas na vida de seus alunos - independente
do que sua profissão estabeleça, não
é por ela que será lembrado. Paulo Freire
diz: "O professor autoritário, o professor
licencioso, o professor competente, sério, o
professor incompetente, irresponsável, o professor
amoroso da vida e das gentes, o professor mal-amado,
sempre com raiva do mundo e das pessoas, frio, burocrático,
racionalista, nenhum deles passa pelos alunos sem deixar
sua marca." (FREIRE, 1996, p.73) (http://www.conteudoescola.com.br/site/index.php?option=com_content&task=view&id=132&Itemid=31).
É por esse motivo que a relação
deve ser bem estabelecida, amparada por bons princípios
de lealdade, cumplicidade, respeito e acima de tudo
tolerância. A sala de aula não traduz mais
os conteúdos didáticos puro e simplesmente
- exemplos comportamentais e afetivos estão sendo
cada vez mais presentes nesta relação
entre professores e alunos. Grisi deixa isso claro quando
afirma: "Toda aula, em resumo, seja qual for o
objetivo a que vise, e por mais claro, preciso, restrito,
que este se apresente, tem sempre uma inelutável
repercussão mais ou menos ampla, no comportamento
e no pensamento dos alunos." (1971, p.91) (http://www.conteudoescola.com.br/site/index.php?option=com_content&task=view&id=132&Itemid=31).
A relação professor aluno precisa ser
revista e analisada com cautela, pois, por intermédio
deste vínculo é possível estabelecer
um outro nível de cumplicidade com o saber e
com o conhecimento. Este passa a ser objeto de desejo
e torna-se saudável sua aquisição.
E quando o professor retira de si a imagem de alguém
superior e deixa de ostentar seu saber pode promover
uma relação de troca, onde ambos são
construtores e cooperadores no aprendizado. Segundo
Gadotti (GADOTTI, 1999, p.2): "Para por em prática
o diálogo, o educador não pode colocar-se
na posição ingênua de quem se pretende
detentor de todo o saber; deve, antes, colocar-se na
posição humilde de quem sabe que não
sabe tudo, reconhecendo que o analfabeto não
é um homem "perdido", fora da realidade,
mas alguém que tem toda a experiência de
vida e por isso também é portador de um
saber.."
Por fim, o ato de aprender é um fato atrelado
a relação que se estabelece entre professores
e alunos, o que significa dizer que despertar a curiosidade,
aguçar o desejo de aprender está basicamente
preso ao comportamento do professor. Proporcionar o
bem estar nessa comunicação pode refletir
positivamente numa quebra de paradigmas, desfazendo
a visão homogênea da salas de aula. "Cada
pessoa traz uma herança cultural significativa,
experiências e práticas, valores, características
e formação específica para o exercício
de suas funções e para o viver de sua
própria existência, e isso determina a
comunicação que trava no seu cotidiano,
em todos os níveis e dimensões. Estamos
falando de relações que se dão
entre sujeitos que decidem construir contextos e processos
de aproximação, de conhecimento recíproco
e de interação. Relações
que produzem mudanças em cada indivíduo,
favorecendo a consciência de si e reforçando
a própria identidade. Sobretudo, [que] promovem
mudanças estruturais nas relações
entre grupos. Estereótipos e preconceitos - legitimadores
de relações de sujeição
ou de exclusão - são questionados, e até
mesmo superados, na medida em que sujeitos diferentes
se reconhecem a partir de seus contextos, de suas histórias
e de suas opções." (Fleuri, 2001:55-56)
(http://www.paulofreire.org/t_pad5.html).
3.1. Sujeito/sujeito
Conforme visto nos capítulos anteriores, as relações
se constroem de forma integrada, onde os indivíduos
coletivamente exercem funções uns sobre
os outros. "Cada pessoa traz uma herança
cultural significativa, experiências e práticas,
valores, características e formação
específica para o exercício de suas funções
e para o viver de sua própria existência,
e isso determina a comunicação que trava
no seu cotidiano, em todos os níveis e dimensões.
Estamos falando de relações que se dão
entre sujeitos que decidem construir contextos e processos
de aproximação, de conhecimento recíproco
e de interação. Relações
que produzem mudanças em cada indivíduo,
favorecendo a consciência de si e reforçando
a própria identidade. Sobretudo, [que] promovem
mudanças estruturais nas relações
entre grupos. Estereótipos e preconceitos - legitimadores
de relações de sujeição
ou de exclusão - são questionados, e até
mesmo superados, na medida em que sujeitos diferentes
se reconhecem a partir de seus contextos, de suas histórias
e de suas opções." (Fleuri, 2001:55-56)
(http://www.paulofreire.org/t_pad5.html).
É com essa visão que professores e alunos
tornam-se sujeitos em interação, passam
a trocar individualidades, trocar subjetividades, isso
"trans-forma" o rumo das relações.
Neste momento deixam de ser aluno dialogando com o professor
e passam a ser sujeitos interagindo com outro sujeito.
Dessa maneira a relação entre sujeitos
passa a ter uma profundidade ainda maior, pois é
quando ambos passam a compartilhar fragmentos de suas
personalidades, de suas histórias. Tudo isso
permite que ambos possam fazer uma leitura de suas emoções,
mesmo que de forma inconsciente. Essas emoções
são representadas em forma de incompatibilidades
, afinidades, resistências e tudo mais de sentido
abstrato onde, de uma maneira bastante sutil, é
trocado com o outro. "O sentido subjetivo da emoção
se manifesta pela relação de uma emoção
com outras em espaços simbolicamente organizados,
dentro dos quais as emoções transitam.
Desta unidade entre simbólico e o emocional,
sem que um desses momentos seja 'reduzido' ao outro,
se define o sentido subjetivo." (Rey, Fernando
González. Sujeito e subjetividade. São
Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning, 2003. p.243)
Essa relação entre sujeitos representa
muito, pois são estas as mais sinceras, no tocante
a necessidade de compreender os espaços que cada
um representa, e para entender esses espaços
faz se mister ser sujeito, dotado principalmente de
suas emoções como 'molas' propulsoras
de suas ações. Para Davidov (1999), "A
função geral das emoções
é que elas capacitam as pessoas a montar uma
certa atividade vital;mas isto é a metade do
trabalho. A questão mais importante é
que as emoções capacitam a pessoa para
decidir desde o começo de uma atividade se os
meios físicos, espirituais e morais de que ela
necessita para realizar a tarefa estão disponíveis"
(p.46) (Rey, Fernando González. Sujeito e subjetividade.
São Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning, 2003.
p.244).
O relacionamento entre sujeitos compreende essa integração
de emoções e ações sujeitadas
a uma necessidade que está condicionada ou não
ao querer de cada indivíduo - isso passa também
a servir de parâmetro para as relações
em grupo ou não. Em todos os momentos sujeitos
são induzidos por suas necessidades e conduzidos
por suas emoções para que interajam entre
si dando, assim, sentido às ações.
3.2. Aprendizagem
Em todo tempo o ser humano está aprendendo, isto
por que sua condição de sujeito inserido
em culturas e espaços sociais diferentes permite
essa constante mutação. Segundo Vygotsky,
"...As funções psíquicas humanas,
como a linguagem oral, o pensamento, a memória
o controle da própria conduta, a linguagem escrita,
o cálculo, antes de se tornarem internas precisam
ser vivenciadas nas relações entre as
pessoas: não se desenvolvem espontaneamente.
Não existe no indivíduo como uma potencialidade,
mas são experimentadas inicialmente sob a forma
de atividade interpsíquica (entre pessoas) antes
de assumirem a forma intrapsíquica ( dentro da
pessoa)." (Carrara, Kester. Introdução
à psicologia da educação - Seis
abordagens, São Paulo: Ed. Avercamp, 2004, p.
141)
A Aprendizagem surge neste momento como sendo algo que
transcende a sala de aula, aprender vai muito além
de adquirir conteúdos metodológicos e/ou
didáticos, a aprendizagem apresentada aqui ilustra
uma constante aquisição de vivências,
dentro e fora da sala de aula, mediante um outro, capaz
de auxiliar nesse processo. É nesse sentido que
a aprendizagem ganha uma dimensão muito maior
de aquisição de conhecimento, a partir
da compreensão de que a necessidade do "saber"
estimula a curiosidade de praticar o aprendido, quando
o educador percebe que é possível dividir
esses eixos de interesses pode estar abrindo um novo
caminho para uma aprendizagem mais significativa. "O
fazer compartilhado entre o educador e a criança
é a garantia para que ela mantenha uma atitude
ativa em relação ao conhecimento e que,
ao mesmo tempo, conheça o novo." (Carrara,
Kester. Introdução à psicologia
da educação - Seis abordagens, São
Paulo: Ed. Avercamp, 2004, p.148/149)
A aprendizagem deve proporcionar avanços no desenvolvimento,
deve significar acréscimo no crescimento dos
sujeitos, do contrário não haverá
aprendizagem. Em continuidade ao raciocínio,
determinadas situações devem ser ligadas
ao assunto, principalmente quando se trata de uma escola
com o caráter de integradora. É importante
compreender que cada vez mais o espaço educacional
está sendo preenchido por crianças de
diversas condições culturais e intelectuais,
isso permite que o educador reformule sua concepção
de aprendizagem, saindo de uma posição
estática para compreensão de que indivíduos
são sujeitos com especificidades diferentes.
Esse entendimento proporciona mudanças, quebra
paradigmas e permite ao educador compreender uma nova
estratégia, que representa muito em termos de
obter uma escola capaz de verdadeiramente proporcionar
aprendizagem, desenvolvimento e bem estar dos sujeitos.
Aprendizagem requer tempo, requer pré-disposição,
tanto de professores quanto de alunos, sobretudo aprender
é conhecer o fundamental, o que é essencial
na existência de cada ser humano, Rubem Alves
traduz em trecho tal sentimento com muita beleza: "Que
a aprendizagem seja uma extensão progressiva
do corpo, que vai crescendo, inchando, não apenas
em seu poder de compreender e de conviver com a natureza,
mas em sua capacidade para sentir o prazer, o prazer
da contemplação da natureza, o fascínio
perante os céus estrelados, a sensibilidade tátil
ante as coisas que nos tocam, o prazer da fala, o prazer
das estórias e das fantasias, o prazer da comida,
da música, do fazer nada, do riso, da piada...
Afinal de contas, não é para isto que
vivemos, o puro prazer de estarmos vivos?" (http://www.angu.net/feijao/escfuturo.htm).
3.3. Inclusão na sala de aula
A inclusão, que num sentido bastante amplo, deverá
conduzir ao questionamento e à reflexão
do real significado deste novo modo de enxergar a escola.
Ao abordar o tema inclusão na sala de aula, é
necessário entender o que vem a ser inclusão.
Para Aranha (2001), a inclusão escolar "...prevê
intervenções decisivas e incisivas, em
ambos os lados da equação: no processo
de desenvolvimento do sujeito e no processo de reajuste
da realidade social (...)". Assim, "além
de se investir no processo de desenvolvimento do indivíduo,
busca-se a criação imediata de condições
que garantam o acesso e a participação
da pessoa na vida comunitária, através
da provisão de suportes físicos, psicológicos,
sociais e instrumentais." (Grifos da autora) (http://www.educacaoonline.pro.br/art_politicas_publicas_de_inclusao.asp)
Neste sentido, a inclusão representa a plena
integração dos sujeitos em uma escola
que possa, por sua vez, estar atendendo às suas
necessidades.em vários níveis de desenvolvimento.
A inclusão em sala de aula demonstra um passo
de grande evolução para estes sujeitos,
pois atualmente é praticamente impossível
ignorar a existência e a permanência em
escolas regulares de sujeitos portadores de necessidades
especiais. Mais que uma necessidade, a inclusão
em sala de aula tem se tornado essencial ao pleno desenvolvimento
desses cidadãos.
Aranha (2001), referindo-se especificamente aos portadores
de deficiência, advoga que: "... cabe à
sociedade oferecer os serviços que os cidadãos
com deficiência necessitarem (nas áreas
física, psicológica, educacional, social
e profissional). Mas lhe cabe, também, garantir-lhes
o acesso a tudo de que dispõe, independente do
tipo de deficiência e grau de comprometimento
apresentado pelo cidadão." (http://www.educacaoonline.pro.br/art_politicas_publicas_de_inclusao.asp).
Tudo isso representa uma nova perspectiva de mudança,
tanto em termos de escolarização quanto
de humanização. A inclusão em sala
de aula não se restringe apenas a inserção
de alunos "especiais", mas conduz a todos
a uma mudança de postura e comportamento frente
os novos paradigmas. A proposta de mudança que
a inclusão permite refletir, representa uma possibilidade
de reconstruir o pensar sobre a concepção
de um mundo estereotipado e preconceituoso, e isso torna-se
mais efetivo quando iniciado pelas próprias crianças.
Exista ainda uma grande dificuldade em sala de aula,
tanto dos alunos quanto do professor - esses, em especial,
pelo fato de estarem frente a algo que poderá
despertar algum tipo de desconforto. Pois ao perceber
o outro ele se percebe enquanto sujeito\ profissional
incompleto nas suas próprias necessidades e desejos
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