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Movimentos
e mudanças: Questões afetas a uma
escola emancipatória |
Edwiges
Zaccur (UFF)
Tem pão velho?
Não criança,
temos
mísseis, satélites
computadores,
radares
temos
canhões, navios, usinas nucleares
mas não temos pão
Tem pão velho?
Não, criança
tem o pão que o diabo amassou tem sangue de índios
na rua e quando é noite
a
lua geme aflita
por
seus filhos mortos
(Genocídio, de Emmanuel Marinho)
Este
texto põe em discussão alguns encontros
em que se problematiza ainda e sempre a mudança,
através de práxis que se respondem: a
de Paulo Freire e as do MST. A primeira conjuga mudança
à esperança freireana o que se traduz
em não esperar na pura espera pois o tempo de
espera é um tempo de quefazer; a segunda deriva
de ações realizadas pelo MST, fazendo
acontecer o que os excluídos esperam. Em diálogo
com tais práxis, retomamos questões afetas
à formação do educador compromissado
com os oprimidos, radicalizando a compreensão
da educação como ato político.
Investir
no diálogo entre educadores do MST-RJ e a universidade
significa continuar problematizando que a escola que
queremos construir a favor daqueles que são historicamente
marginalizados. A oportunidade de estreitar o diálogo
se apresentou quando um grupo de educadores do MST-RJ
veio ter à Faculdade de Educação,
com a proposta de realização de um encontro,
visando discutir sua pedagogia em movimento. Buscavam
apoio para questões práticas: onde alojar
as pessoas, como alimentá-las, que espaços
poderiam ocupar. Por nosso lado, a direção,
além de oferecer a infra-estrutura necessária,
enfatizou a importância do diálogo entre
a Faculdade e o movimento.
Nos
encontros preliminares à realização
do Encontro Regional, pude recolher pistas de que operávamos
em lógicas distintas. Preocupava-nos entrar em
contato com nossos colegas, definir interlocutores para
os cinco dias do encontro, preparar o folder. Da parte
do MST tais questões tinham e não tinham
a mesma relevância. Qualquer que fosse o companheiro
indicado, a palavra e a ação coletiva
do movimento seriam a referência. Mesmo que o
folder fizesse constar um nome, se acaso houvesse substituição
não haveria problema e se o grupo achasse por
bem abrir uma fala a muitas, assim o faria. Era como
se nos levassem a pensar que a vida é movimento
e, assim sendo, por que fazer prevalecer o já
dado sobre o que está se dando?
Finalmente
o encontro preparado em mais ou menos de um mês
aconteceu na última semana de fevereiro, reunindo
algumas dezenas de educadores-educandos-militantes do
MST do Rio de Janeiro e professoras e professores, alunas
e alunos da FEUFF. Compreendo este encontro como uma
experiência formadora, por possibilitar uma aprendizagem
capaz de articular saber-fazer e conhecimentos, funcionalidade
e significação, técnicas e valores
num espaço-tempo que oferece a cada um a possibilidade
de uma presença para si (Josso, 1997, 31) . Subtraí
à citação o advérbio hierarquicamente,
por considerar que a possibilidade de uma presença
para si já pressupõe uma pluralidade de
possibilidades.
Do
diálogo com o MST, inclusive o diálogo
com a página escrita de suas produções,
emergiram questões que se entrelaçam aos
nossos desafios na universidade. O curioso é
que tendemos a olhar para fora, pesquisar o distante
e muito raramente nos voltamos para o que diretamente
nos afeta. Este texto faz um movimento de ir e vir constante
entre os desafios que o MST se coloca e os que nos confrontam
nas atividades de ensino, pesquisa e extensão,
quando se tem por horizonte a mudança.
O
que faz diferença na escola a favor dos muitos?
Uma
das últimas cartas escritas por Paulo Freire
enfatiza que, no movimento dos Sem Terra, ressoam a
rebeldia dos quilombos no passado remoto e a luta corajosa
das Ligas Camponesas no passado recente. Vai ainda longe
ao ressaltar o quanto devemos aos que fazem o movimento
e acenar com novas marchas:
A
eles e elas, sem terra, a seu inconformismo, à
sua determinação de ajudar a democratização
deste país devemos mais do que podemos pensar.
E que bom seria para a ampliação e a consolidação
de sua democracia, sobretudo para sua autenticidade,
se outras marchas se seguissem à sua. (...) A
marcha dos desempregados, dos injustiçados, dos
que protestam contra a violência, contra a mentira
e o desrespeito à coisa pública. A marcha
dos sem teto, dos sem-escola, dos sem-hospital, dos
renegados. A marcha esperançosa dos que sabem
que mudar é possível. (Paulo Freire)
Em
nota acrescentada à carta, Ana Maria Freire sublinha
a emoção de Paulo Freire, ao ver pela
TV a marcha dos 100.000 entrando pela Esplanada dos
Ministérios (1997). No diálogo que dirigiu
um pouco à sua mulher, um pouco a si mesmo e
aos que faziam a marcha, em seu entusiasmo, Paulo exortou-os
a prosseguir: é isso minha gente, gente do povo,
gente brasileira. (...) Esse país não
pode continuar sendo de poucos... Lutemos pela democratização
desse país. Marchem, gente de nosso país.
Ana Maria Freire, ressalta a humildade de Paulo, por
não mencionar que, naquela Marcha, ressoava sua
compreensão de educação libertadora.
Mas precisava? A sintonia entre Freire e o MST e vice-versa
estava explícita no tom emocionado daquele É
isso. Talvez intuísse que ia se alongando naqueles
homens e mulheres, jovens e crianças, lutadores
levando à frente o desafio de tornar possível
a mudança.
Se
compreendemos a educação como ato político,
vamos ao encontro de Freire que mesmo reconhecendo que
a escola sozinha não muda a sociedade, também
afirmava que a sociedade não muda sem a escola.
Não por acaso, no fazer-fazendo-se do MST a marcha
do movimento não pode prescindir de uma pedagogia
em movimento, tendo como objetivo produzir um revirão
análogo na escola, não aquelas sob a responsabilidade
do movimento – a intenção seria a de fazer
transbordar o movimento, como um grande rio fertilizando
as margens.
Mesmo
reconhecendo que os princípios direcionadores
de uma escola do povo e a favor do povo fazem uma diferença
radical, há que se atentar para os nós
que se apresentam no cotidiano:
1.
Um revirão da escola a partir de conteúdos?
Nesse
país ainda se conta hegemonicamente a história
dos vencedores, sob a sua lógica, imposta como
lógica única aos demais. E como se isso
não bastasse, se difunde a crença, entre
excluídos de que, se tanto lhes falta, é
conseqüência de falta sua (de cultura, de
conhecimento, de inteligência, de domínio
da linguagem escrita e até da informática
).
Há
que escovar benjaminianamente a história a contrapelo.
Recordo a presença inesquecível de um
índio convidado a falar num seminário
realizado em nossa faculdade em 1995. Quando lhe coube
tomar a palavra, falou pouco e pausadamente mas o que
disse calou fundo: Nosso povo índio precisa de
escola, mas escola com professor índio, ensinando
história de índio e conhecimento útil
para nosso povo. O branco português não
descobriu o Brasil, invadiu a terra dos índios.
Através
de suas ações e publicações,
o MST persegue o desafio de contar a história
da luta pela terra, resgatando a solidariedade como
valor e o trabalho coletivo como prática, antiga
por certo, porém forte o bastante para impulsionar
a humanização. Mas como trabalhar tais
questões, quando não se trata tão
somente de mudar a grade curricular? E sobretudo quando
se pretende levar essas discussões para além
dos assentamentos e acampamentos?
Muitas
vezes, mudanças curriculares a princípio
interessantes, se esvaziam no cotidiano onde o currículo
se refaz, segundo diferentes implicações
que vão da interpretação dos docentes,
à sintonia com a proposta por parte da escola
e seus sujeitos. Freqüentemente, parodiando o dito
popular o que vem de cima não nos afeta. Pela
escola passam os PCNs, como já passaram outras
tantas propostas, sem que a maioria dos professores
e professoras se envolva em discuti-los em profundidade.
Em
contraponto com tais práticas, vivemos recentemente
a experiência de constatar uma mudança
gestada pelo coletivo e não ditada de cima para
baixo. O Curso de Pós-graduação,
vinculado ao nosso grupo de pesquisa, viu-se diante
do desafio de abrir o currículo do curso às
discussões que surgiram naquele coletivo de professoras
e alunas. Logo ao início do curso, uma aluna
constatou com espanto a forte presença de afro-brasileiras
na turma: nunca vi tantas negras em uma turma de pós-graduação.
Esta observação valeu como uma denúncia,
instigando o pensamento a repensar o pensado. Depois
foi sugerida uma atividade cultural para que a turma
travasse contato com o grupo CRIOLA. Realizada a atividade,
tantas foram as perguntas e tal o interesse suscitado,
que se impôs abrir o último módulo
do curso ao diálogo com professores do Movimento
Negro.
O
que se viu nas palestras foi a descoberta de uma outra
história, onde os saberes trazidos pelos negros
em diferentes campos iam aparecendo. Comerciantes que
eram ao tempo da colonização, suas rotas
de comércio cortavam a África, alcançavam
o Atlântico e Mediterrâneo. O comércio
exigia deles falar idiomas de muitos grupos e desenvolver
sistemas de medida e cálculo. Até bibliotecas
havia em pleno deserto, antes que as guerras entre os
grupos os enfraquecesse e o tráfico de escravos
(muitos deles vencidos) se intensificasse para alavancar
a colonização do Novo Mundo por meio não
só de sua força de trabalho, mas sobretudo
de seus conhecimentos e técnicas em atividades
de mineração, agricultura e pecuária.
Foram surgindo suas múltiplas linguagens, sua
religião em sua enriquecedora diferença
e as alunas foram aprendendo a ter orgulho depois de
tantas experiências de negação,
em busca de ser como eles – os brancos.
Foram
compreendendo também como o conhecimento trazido
pelos negros lhes foi usurpado e em seu lugar o colonizador
disseminou a negação da língua,
da religião, dos costumes, dos saberes. O olhar
branco colonizador estigmatizou o negro e sua cultura,
minando assim sua identidade. O grupo compreendeu que
por trás da pretensa escola neutra e apolítica,
mantinha-se na invisibilidade a sustentação
do modelo herdado da colonização: muitos
para trabalhar, poucos para mandar e espoliar. Como
manter por tanto tempo um modelo tão injusto?
Somente disseminando a ideologia da superioridade do
branco, só possível quando construída
sobre a negação do outro, do diferente
no que representa a sua identidade, seus valores e tradições.
Apagada a língua, a memória, e o orgulho
da pertença está aberto o caminho para
solapar a cultura.
Algumas
alunas negras deram depoimentos emocionados a respeito
do esforço realizado pelo seu núcleo familiar
para fazê-las embranquecer. “Minha mãe
fazia questão de me trazer sempre bem arrumada
para não fazer feio na escola das brancas”. “Eu
não me via como negra!” “De repente, estou me
descobrindo resgatando minhas raízes”. Começavam
assim a escavar camadas de inculcação,
descobrindo as inscrições do branco no
corpo do negro, denunciada por Bhabha. Claro que o curso
as ajudava nesse movimento, à medida que trazia
nomes representativos do Movimento Negro para dialogar
e refazer, com elas, um percurso na contramão
de séculos de abafamento de uma cultura. Foram
se dando conta de foram necessários mais de quatro
séculos, para que o Movimento Negro recomeçasse
a escavar camadas sobre camadas de inculcação,
indagando, pesquisamos e resgatando vozes do passado,
reinventado sua história e reencontrando o orgulho
de suas raízes africanas.
Faz
toda diferença uma mudança que se fez
necessária para atender os interesses da turma
e uma mudança decidida em gabinetes. Por outro
lado, teria o mesmo impacto a leitura contra-hegemônica
da história, se os efeitos perversos da versão
hegemônica não fossem vividos ainda que
silenciados? Em vez de referendar a ideologia do mérito,
as alunas problematizavam a existência de uma
maioria negra nas penitenciárias e a maioria
branca nas universidades, o maior índice de escolaridade
nos bairros burgueses e os baixos índices de
escolaridade na favela, descobrindo as razões
históricas para tais evidências.
Visto
por essa perspectiva, até o que a escola entende
como indisciplina, não seria mais um grito desses
meninos e meninas que se defendem atacando, pois não
podem perder mais nada. Brigam concretamente por um
lápis de cor, uma revista, uma bala, mas simbolicamente,
brigam por tudo que lhes foi negado, dentro de uma ordem
injusta herdada do colonialismo e reforçada pelo
capitalismo selvagem que se alastra, não por
acaso, nos países do sul. Ressoam aqui as palavras
de Bhabha a respeito do espaço fantasmático
da posse, por trás do qual reside o sonho da
inversão de papéis, de despossuído
a possuidor.
Como
trabalhar na contramão da lógica capitalista?
Faz
toda a diferença preparar para o trabalho que
se dá na ordem capitalista marcada pela competição
e viver a experiência do trabalho coletivo impregnado
pela lógica da solidariedade. Vivendo a experiência
formadora de propor, discutir, fazer, o movimento dos
Sem Terra reflete sobre o realizado para tirar lições
sobre ações futuras. Como todos têm
voz, cada observação ajuda a pensar e
organizar. Cito um exemplo que nos foi contado. Em momentos
de encontros, os pais levavam suas crianças às
cirandas itinerantes que, deslocando-se com o movimento,
assumiam o trabalho educativo com crianças. O
levar e buscar fazia com que se atrasassem e saíssem
mais cedo. Vivendo isso, um pai sugeriu: por que não
fazemos uma ciranda para levar as crianças à
ciranda, alternando os pais nesta tarefa? Sugestão
dada, sugestão acatada pelos que estavam à
frente da organização naquele momento.
Educa-se assim todo o coletivo – tese insistentemente
defendida por Makarenko.
Mas
construir um espírito coletivo não é
tarefa fácil, sobretudo quando não se
tem um movimento que lhe dê sustentação.
Temos encontrado na universidade as mais diferentes
situações: turmas que se subdividem em
vários grupos que competem e se antagonizam em
diferentes graus, turmas que constituem um grupo em
que as relações de solidariedade e competitividade
se tensionam com predomínio de uma ou outra em
diferentes situações, turmas em que relações
solidárias se fazem predominantes. Quando as
condições, as histórias de vida,
as práticas nas escolas em que atuam e o trabalho
educativo desenvolvido no curso estão em sintonia
predomina a solidariedade.
Então
não basta o sucesso individual, mas se trata
de um envolvimento direcionado para o sucesso coletivo.
Foi o que aconteceu na turma 2000, do curso de pós-graduação
vinculado ao grupo de pesquisa de que sou parte. As
falas recolhidas em seminários de avaliação
dão testemunho dessa solidariedade “Se não
fosse o grupo eu tinha desistido do curso”. “A gente
se apoia, uma ajuda a outra diante das dificuldades
de leitura”. “Quando eu vi que a dificuldade não
era só minha fiquei menos mal “Quantas vezes
eu ligava para uma colega, quando tinha vontade de jogar
a toalha. “O engraçado é que um dia eu
dava força à alguém, outro dia
era a minha vez de receber apoio”. “Mesmo na greve,
a nossa corrente não se quebrou”. “Era um tal
de telefonar, de combinar coisas”. Se algo marcou aquela
turma foi o sentimento de pertença e o fazer
coletivo. A turma não foi a mais brilhante, nem
as monografias foram as melhores. Mas de modo análogo
ao filme Nenhum a menos, assistido e discutido pelo
grupo, todas se fortaleceram no desafio de construir
a monografia – nenhuma a menos - e todo o grupo cresceu
coletivamente, o que era uma preocupação
nossa, ainda que nem todas alcançassem o mesmo
nível acadêmico desejável.
Quando
religar faz a diferença?
Buscando
subsídios para dialogar com a pedagogia em movimento
do MST, mais se fortalecia o sentimento de uma familiaridade.
Seria a interlocução com Freire que via
subjacente àquelas práticas? Seria a presença
da gente que tem apego à terra, já que
nasci em fazenda arrendada e lá vivi enquanto
foi possível pagar pelo uso da terra? Seria a
recordação das casas de portas abertas
do interior de Minas, a vida compartilhada no rir e
chorar junto, no dar uma mãozinha ao vizinho
em apuros? Seria a admiração diante da
produção coletiva: das compotas e geléias
aos livros e revistas do Movimento? Seria o apelo sempre
novo da mudança que via amalgamados a valores
antigos na renovada solidariedade no MST?
Por
certo tudo isso, mas sobretudo, era como tudo isso se
fazia, fazendo-se no coletivo, de que o encontro de
educadoras e educadores do MST dera uma pequena amostra.
Eles iam chegando, ocupando o saguão fronteiro
ao auditório e começando a fazer coisas,
usando o chão como se fosse mesa. Sem se deter
diante dos imprevistos ou pelo que faltava, forjavam
o que iam usar. O caos como possibilidade criadora irrompia
no espaço da ordem. Nessa prática de fazer
coletivo, iam reinventando o espaço do auditório
a cada dia dos cinco previstos no encontro. Sobretudo,
fazia diferença a abertura dos trabalhos, havia
um ritual de acolhida preparado e realizado num clima
de re-ligare. As paredes recebiam grandes murais pintados
em morim, o palco se transformava, surpreendentemente,
quando o puxar de cordéis desenrolava princípios
do movimento, verdadeiras bandeiras de luta, ou quando
acolhia uma tenda, ou quando a mesa de discussão
se transmutava em roda onde todos tomavam a palavra.
Nesse
cenário, em meio a cantos, violão, poesias,
encenações, era vivida a mística
do MST. O que representa essa mística se fazendo
pre-sença? Em diálogo com Heidegger diria
que a pre-sença do humano vigora insistentemente
e vigora no movimento de ser-com. Na palavra do MST
a mística é a alma dos lutadores do povo,
o que energiza corações e mentes, animando
os militantes da família Sem Terra a prosseguir
na luta. A mística tem uma dimensão educativa
muito grande, ajuda os mais antigos a manter vivos os
valores, a história que anima a marcha, acolhe
os mais novos, incorporando-os ao movimento:
A
mística é aquele sentimento materializado
em símbolos, que nos faz sentir que não
estamos sozinhos e são os laços que nos
unem a outros lutadores que nos dão mais força
para prosseguir na construção de um projeto
coletivo.
Como
era percebida a mística pelos olhos dos alunos
e alunas que estavam dentro do auditório porém
mais ou menos fora do ritual de acolhida? Recolhi impressões
pelos corredores, nos banheiros e nas salas de aula:
“muito desorganizado, não?” “Eu gostei foi das
pinturas, lindas, quem será que fez”? “É
deste jeito que vamos mudar o Brasil? “Eu fiquei emocionada
com alguns poemas”. “Era para começar às
nove, já são quase dez e está tudo
atrasado”. “Eu só sei que quando der a minha
hora, eu saio mesmo. “Deviam ter começado pelo
pessoal do movimento”. “Só dois falavam muito
bem, os outros pareciam despreparados”. “Eles têm
um livro de cantos, igual na igreja, você viu?”
“E aquelas duas professoras, tão tradicionais
como a maioria que a gente encontra nas escolas”. “
Você me arranja aquela poesia do pão duro?”
“ Puxa, é cada experiência forte, não?
De repente não ter nada e ter de ir parar num
galpão de Sem Terra sem nem ao menos conhecer
as pessoas”?
Falas
distintas. Falas de quem se coloca fora e critica o
feito pelo que falta. Falas de quem se deixa tocar pela
emoção ao ouvir poemas denunciadores.
Falas de quem compara e hierarquiza, como acontece na
sociedade capitalista. Falas de quem não acredita
na organização dos esfarrapados... Falas
de quem experimenta a compaixão. Falas que evidenciam
o quanto a escuta da palavra é ideológica
mas também sensível ao que nos irmana.
Já
o depoimento de uma das militantes mostrou não
há fronteiras entre o pedagógico e o político
e que o sentido da experiência se abre quando
já preexiste um traço de união:
Eu me juntei ao movimento meio sem querer. Eu tinha
passado por problemas muito difíceis, não
tinha para onde ir com minha filha, e me abriguei no
galpão do MST. Foi a mística do movimento
que me tocou e fui ficando, aprendendo, fui me educando
no movimento, fui me fazendo educadora do movimento.
De
volta a sala, até onde me foi possível
intervir, tentei reforçar o sentido de um fazer
solidário, do formar-se no movimento e em movimento,
do assumir a palavra como direito de todos e não
de uns poucos, do aprender a fazer seja um encontro
seja uma produção fazendo, experimentando,
refletindo, aprimorando. Mas, analogamente ao crer para
ver (Von Foerster), é preciso estar ligado para
escutar. A escuta sensível (Barbier) já
pressupõe um envolvimento, um movimento interessado
para o outro.
Retomo
as reflexões no ponto nevrálgico de um
nó sempre revisitado entre o objetivo traçado
por nós, educadores, e o feed-back fornecido
pelos educandos. Queríamos acompanhar o movimento
com nossas alunas e alunos, no sentido que o próprio
movimento assinala: acompanhar em educação
é estar junto no processo de formação
ou de humanização de outras pessoas, mas
acompanhar para o movimento é também participar
do sentimento de alguém. E participar do sentimento
de alguém demanda uma empatia fundada em idéias
sentimentos, histórias e utopias que se enredam.
Estamos
nos avizinhando do mesmo nó com que nos defrontamos
nos diferentes cotidianos escolares, atravessados por
múltiplos cotidianos, eles também educadores,
formadores de opinião, de sentimentos enredando
histórias. Como são muitos os sujeitos
uma rede de subjetividades entretece uma grande variedade
de contextos cotidianos como nos sinaliza Boaventura
de Sousa Santos. Diante deste contexto movente e cambiante,
novas questões se colocam. Já não
é possível manter na invisibilidade as
diferenças que fazem a complexidade do cotidiano.
Como
acompanhar a escola sem atropelar as professoras?
Muitos
são os sentidos que recobrem o sentido próprio
do verbo acompanhar, permanentemente nos remetendo a
idéia de movimento que se dá no tempo.
Diz-se que algumas crianças não acompanham
a turma, que não seguem junto. Fala-se também
que determinado aluno precisa de acompanhamento. Nesse
caso, o sentido de acompanhar seria orientar, observar,
ajudar.
Quando
o movimento acompanha a escola se pergunta como fazê-lo?
Apesar de quase 20 anos de trabalho, há poucas
escolas de assentamentos e acampamentos. Os Sem Terra
querem uma escola sintonizada com a identidade e o projeto
do movimento. Mas isso não lhes basta: há
que fazer transbordar a correnteza do movimento para
fertilizar as margens, alcançando as escolas
mais próximas, interferindo em seus Projetos
Políticos Pedagógicos.
Como,
porém, levar o movimento como referência,
a escolas que recebem Sem-Terrinhas mas são escolas
de assentamento. Como fazer da escola reprodutora que
hegemonicamente temos a escola transformadora que queremos?
Os
educadores do movimento reconhecem a dificuldade, pois,
em muitas escolas as crianças do movimento são
discriminadas pelas demais e até pelo corpo docente.
São crianças questionadoras, que causam
tumulto, que não ouvem em silêncio, acostumadas
que estão a experiências de assembléias,
no interior de um movimento que vive a participação
para educar o coletivo. E, sobretudo, se propõe
a educar para cultivar valores que sustentam a luta
e a construção de um Projeto Popular.
Faz toda diferença um projeto que se abre em
tenda, tendas que se multiplicam para abrigar quem chega
e um projeto da ordem capitalista onde para que alguns
participem, outros precisam ser excluídos. Há
de ser diferente a relação entre educadores-educandos-militantes
que pressupõe pertença ao movimento, vivendo
lado a lado, militantes construindo a identidade Sem
Terra e Sem Terrinha, se educando juntos no movimento
e a relação entre docentes e discentes
nas escolas, mesmo levando em conta a proximidade existente
nas cidades do interior.
Como
acompanhar as escolas e intervir em seu projeto político-pedagógico,
quando a formação experiencial é
tão distinta? E feita a interferência,
como fazê-la sair do papel, povoar corações
e mentes e se traduzir em ações que favoreçam
o Projeto Coletivo?
O
acompanhamento das escolas esbarra nas diferenças
ideológicas embebidas no que é valor.
Ser honesto e bom pagador é um valor subjacente
à defesa do pagamento da dívida, sem que
tenha igual força quando se trata do pagamento
da dívida social. A primeira tem uma concretude,
a entrada de recursos advindos do ato de tomar empréstimo,
com data e assinaturas firmadas. A segunda se distende
no tempo, difusamente percebida, quase metafórica,
resultante de velhas promessas. O processo de que resultaram
uma e outra não são discutidos na escola,
tampouco a relação entre elas ganham visibilidade.
Diante do mesmo conteúdo - a discussão
da dívida externa, por exemplo, uma educadora
Sem Terra se colocaria de forma diferente de uma professora
que tende a despolitizar as práticas pedagógicas.
Chegamos
pois ao impasse da intervenção: um dos
interlocutores traz a formação experiencial
de um movimento que educa, os outros trazem experiências
outras, onde o questionamento político não
é uma prática corrente. Com a cabeça
sutilmente feita por pistas que perpassam a mídia
e os livros escolares, a ideologia hegemônica,
subliminarmente inculcada junto com os conteúdos,
constrói uma espécie de surdez à
mensagem que não a confirma.
Por
outro lado, Paulo Freire que nos alerta nesse impasse.
Não podemos exercer uma educação
bancária tendo por objetivo emancipar. A tentativa
de fazer abertamente outro discurso tanto pode convencer
a uns como a provocar resistência em outros, ou
ainda instalar um incômodo.
Voltamos
ao velho impasse já detectado por Dewey: desenvolvimento
de dentro X formação de fora. E novamente
à velha disjunção entre isto ou
aquilo se sobrepõe a conjunção
e. Para desconstruir é preciso viver uma experiência
que nos derrube como sinalizou Heidegger. Algo que nos
impacte, implica algo que nos demova, que comova a ponto
remover e/ou abalar pré-conceitos. Cada sujeito
singular pode situar, em seu percurso, acontecimentos
que fizeram diferença, que favoreceram rupturas
futuras, que mobilizaram para a mudança. Muitos
desses acontecimentos não puderam ser reconhecidos
do momento em que se deram. Do gérmen de um incômodo
primeiro ao incômodo crescente, demandando respostas,
pode se inserir um tempo de elaboração,
ou um insight aparentemente súbito, mas possivelmente
resultante de pistas anteriores.
Temos
em nós, o vezo do iluminismo: queremos levar
a boa nova seja ela religiosa ou política ou
pedagógica, mas também a política
e educativa e religadora - emancipatória. Temos
tanta pressa em transformar que não damos tempo
para que o sujeito se coloque questões. Revisitando
as idéias defendidas por Rousseau , talvez encontremos
pistas a partir do pensado em relação
às crianças para repensarmos o processo
de formação docente
“Será
possível guiar (a criança) um pouco, mas
muito pouco e sem que o perceba. Caso se engane deixe-a
fazer, não corrija seus erros, espere em silêncio
que ela esteja em condições de vê-los
e de corrigi-los ela própria.”
Muito
se criticou Rousseau e sua chamada filosofia naturalista
da educação, por enfraquecer o valor dos
livros (livros – que triste mobiliário, rapaz)
e a posição dos mestres. Porém,
uma leitura bakhtiniana de Rousseau nos leva a compreender
contra que(m) se batia o seu discurso, em pleno iluminismo,
quando a ênfase no conhecimento a transmitir,
que dois séculos antes já levara Rabelais
a criticar o ensino escolástico, se avolumaria
no enciclopédico. Sua questão não
era contrapor-se aos livros mas aqueles que o colocavam
precocemente nas mãos de quem ainda não
podia avaliá-lo como um tesouro. Em contraponto
à mera transmissão de conteúdos,
Rousseau enfatizava a experiência direta que,
por sua vez demandava que os sentidos estivessem extremamente
aguçados para perceber os detalhes, as pistas
mais sutis. Num largo período, o aluno seria
acompanhado de perto pelo mestre, instigando sua atenção
aos fenômenos da natureza, tornando-o curioso.
Mas esse tempo de espera era também um tempo
de descobertas e experiências. O Emílio
de Rousseau se tornaria um farejador, um caçador
faminto por aprender, desejoso de encontrar respostas
para suas questões.
Viver
a experiência, se tornar sensível aos fenômenos,
experimentar a curiosidade diante deles, atos que instigariam
a estudar, não para seguir uma prescrição
ditada de fora, mas em resposta ao desejo de conhecer.
Quem diria que estas não seriam ações
necessárias para que o cotidiano da escola se
faça desafiador para a professora no exercício
de seu trabalho?
Temos
também acompanhado alunas que assumem pela primeira
vez as suas turmas. O espanto, o sofrimento o susto
com se vêem atropeladas pelo cotidiano transparece
em seus relatos emocionados: Eu me vi como um chapeuzinho
vermelho cercado de lobos. Eu tive muito medo deles.
Eu pensava: bom eu estou terminando a faculdade, é
só aplicar as teorias, mas na hora nada dava
certo: a primeira aula foi um desastre! Acredito que
a partir dessa experiência, a aluna pode compreender
a necessidade do diálogo prática-teoria-prática
e a insistência de um grupo de pesquisadores em
defender que a prática não seja colocada
na parte final dos cursos mas que seja senão
o eixo da formação docente, uma transversal
que acompanhe o curso desde o momento inicial.
Quem
acompanha a professora inexperiente? Quem escuta o seu
desabafo e a ajuda a olhar e ver um mar de possibilidades
nas impossibilidades do momento primeiro? Também
aí vamos encontrar quem lhe dê respostas
prontas, cadernos repletos de planos repletos de exercício,
receitas que socorrem a insegurança de quem ensina:
Enche o quadro, não deixe ir ao recreio quem
não terminar todo o dever, mostre que é
você quem manda. Por esse caminho, a voz de uma
prática, centrada em quem ensina, vai moldando
outra sem instigar a sentir, a indagar, a buscar outros
caminhos voltados para quem aprende.
A prática traduzida como experiência profissional
ainda não é a experiência no sentido
visceral que vai se tornando cada vez mais rara, como
antecipara Benjamin. Tentando compreender por que isso
acontece, Larrosa encadeia uma conjunção
atropeladora de excessos: de informação
e de opinião, de trabalho e de aceleração.
Excesso de tecnologia, de tecnocomunicação
e, no entanto, falta de experiência e sentido.
Para que algo nos afete, há que se experimentar
um tempo de suspensão, um resgate de um tempo
lento para o sentir e o pensar: parar para pensar, parar
para olhar, parar, pensar mais devagar, olhar mais devagar
e escutar mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender
a opinião, suspender o juízo, suspender
a vontade, suspender o automatismo da ação.
(Larrosa, 2001; 5)
Voltamos
a questão: como acompanhar a escola, sem silenciar
as vozes das professoras, sem impor nossa voz às
demais? Como favorecer o acontecimento da experiência?
Não podemos tão somente cruzar os braços,
porque os meninos, que não podem perder nem esperar
mais nada, continuam a sentir que a escola não
os fortalece em suas lutas. Não podemos esperar
que desistam da escola que também já desistira
deles. Não podemos atropelar a professora, seja
como orientadoras, supervisoras e pesquisadoras. Já
vimos que isso resultou em partidos que cindem o coletivo
e joga uns contra os outros. Também as professoras
sabem muitas vezes o que não devem saber mas
lhes falta descobrir o que fazer?
Em
meio algumas questões, levanto algumas hipóteses
a partir de pistas disseminadas no texto. Quando uma
aluna pergunta: Você me arranja aquela poesia
do pão duro? - ela fornece uma pista que fala
a favor do emocionar, do (co)mover que se abre ao mover-se.
Quando outra comenta: Puxa, é cada experiência
forte, não? De repente não ter nada e
ir parar num galpão de Sem Terra sem nem ao menos
conhecer as pessoas- ela mostra a compaixão com
quem tem menos. Quando a militante fala que as místicas
a ajudaram a se engajar numa luta política que
antes não fazia sentido para ela, novamente a
emoção comove a apreender sentidos e a
mover-se em direção ao movimento emancipatório.
Quanto
à possibilidade de acompanhamento, ela pode surgir
do que se faz junto, assistindo a um filme, vivendo
místicas, fazendo e descobrindo. Sempre com o
cuidado de esperar e acolher o que o outro pensa, sem
lhe dar de antemão as respostas. Esta é
a questão mais difícil já temos
uma prática professoral de explicar o já
compreendido por nós em vez de instigar o outro
a falar e a compreender e compreender-se. Nesse ponto
a psicanálise vem em nosso socorro. O detentor
do conhecimento pouco fala, espera que analisando se
pronuncie, só então lança uma pista
emite uma pequena observação. Nós,
professores, falamos demais, explicamos demais, sistematizamos
demais pelo outro, apontamos o caminho para o entendimento,
quando há diferentes caminhos, apelamos pouco
para o poder de criação, empenhados que
estamos em não reinventar a roda. Até
insistimos em ensinar a professora a não fazer
nada disso com seus alunos, porém, sem o dizer,
dizemos: faça o que eu digo e não o que
faço.
Por
outro lado, uma pequena retrospectiva nos mostra os
choques sofridos pelo magistério: primeiro as
jornadas se acumularam para que se pudesse sobreviver
em contraponto com um tempo em que era proibido por
lei ter mais de uma matrícula no Estado. Paralelamente
cresceram os dispositivos de controle. No princípio
o corpo docente, para o bem e para o mal, gozava de
ampla autonomia. A auto-organização não
era alvo de discussão teórica, mas se
processava nas escolas através de conversas nas
salas de professores, nos portões, no caminho
para casa.
Veio
depois o tempo das orientações por série,
por disciplinas e, paralelamente, a exigência
de preenchimento de formulários a cada ano, envolvendo
vários aspectos da vida profissional. Acrescentem-se
as sucessivas reformas que obrigam as professoras e
professores a adotar e a abandonar pressupostos teóricos
sem chegar a compreendê-los. Como se isso não
bastasse, verifica-se uma perda da aura, minando a confiança
na escola pública. Por fim, o magistério
se vê compelido à formação
continuada como mais uma prova de que, além de
desvalorizado, é desqualificado.
Talvez
para acompanhar a escola, tenhamos que reaprender a
ouvir com o coração, a sentir de que mágoas
está povoado o cotidiano da escola, compreendendo
que a exemplo dos meninos que não podem perder
mais nada, também as professoras e professores
vêm sofrendo tantos e sucessivos golpes que já
não podem perder mais nada: o poder de reprovar,
o poder de ditar o que se deve ler e o que será
cobrado. Ameaçadas com sucessivas perdas, põem-se
na defensiva. É como se, de antemão, soubessem
que tudo o que disserem será tomado contra elas.
Então se calam, criam barreiras, defendem o pouco
que lhes cabe – a sala de aula, como última trincheira.
Acompanhar
a professora sem fazer nossa a dor da educadora, não
é acompanhar é atropelar. Portanto há
que lhe dar um tempo para sentir, um tempo para se emocionar,
um tempo para se (co)mover, para se colocar questões,
para viver experiências que provoquem rupturas.
Tudo isso, sem medo de uma palavra acusadora se volte
contra ela, apontando-a como a professora que não
sabe, que não tem compromisso. Então ela
buscará interlocutores e lerá os textos
com olhos de quem caça o alimento de que precisa
e compreenderá com Nóvoa que formar, é
sempre formar-se.
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