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humanismo de Jacques Maritain e a Educação |
Roberto Carlos Simões Galvão
Graduado em Direito pela Universidade Norte do Paraná,
Pós-graduado em Filosofia Moderna e Contemporânea
pela Universidade Estadual de Londrina, Mestrando em Educação
pela Universidade Estadual de Maringá.
E-mail:
rcsgalvao@bol.com.br
Na segunda metade do século XIV surgiu na Itália
um movimento estético, literário e filosófico
denominado Humanismo. Tal movimento exaltava o valor
humano como meio e finalidade. O Humanismo difundiu-se
por toda a Europa e caracterizou o início da
cultura moderna.
Para o pensamento humanista o valor fundamental de uma
doutrina é o homem, seu sentimento, sua originalidade
e sua superioridade sobre os outros animais. O homem
passa a ser visto como um ser que pode construir seu
próprio destino, um ser que constitui o centro
do universo.
Conforme leciona Abbagnano (2003),
O Humanismo foi um aspecto fundamental do Renascimento,
mais precisamente o aspecto em virtude do qual o Renascimento
é o reconhecimento do valor do homem em sua totalidade
e a tentativa de compreendê-lo em seu mundo, que
é o da natureza e da história.
É possível identificar
três fases distintas do movimento humanista,
a saber: entre os anos de 1304 a 1374 houve a fase
precedente, que prenunciava o Humanismo na sua versão
mais primitiva e pouco pragmática. Nesta fase,
na Itália, viveu Francesco Petrarca (1304-1374).
Considerado o "Pai do Humanismo".
Giovanni Bocaccio (1313-1375) também se sobressaiu
escrevendo "Decameron", sua obra-prima,
precursora da literatura humanista.
Entre os anos de 1374 a 1494 houve a fase intermediária
marcada pela queda de Constantinopla e pela morte
do filósofo Pico della Mirândola (1463-1494),
que distinguiu-se pelo seu saber enciclopédico.
"De omni re scibili" era a divisa de Pico
della Mirândola. Sempre buscando o conhecimento
sobre todos os ramos das ciências humanas, o
humanista italiano defendeu dezenas de teses na área
filosófica e teológica.
Entre os anos de 1494 a 1564 tem-se o período
áureo do Humanismo. Marca seu término
o Concílio de Trento, que dá ensejo
à Contra-Reforma.
O Humanismo, sobretudo no seu aspecto literário,
caracterizou-se pela ênfase dada à cultura
antiga em contraposição à escolástica
da Idade Média. O culto ao classicismo dos
tempos da antiga Grécia e de Roma marcou a
literatura de então.
Na Holanda o filósofo Erasmo de Roterdam (1466-1536),
"príncipe do humanismo", como era
chamado, escreveu "O Elogio da Loucura",
obra na qual teceu duras críticas à
Igreja dogmática. Havia naquela época
uma batalha ideológica sobrepondo o homem aos
dogmas. Erasmo de Roterdam, sem dúvida, contribuiu
para o ensejo da Reforma Protestante.
Na Alemanha o movimento humanista promoveu a valorização
do homem e de sua liberdade de consciência.
O livre-arbítrio, em oposição
ao determinismo, era defendido por muitos pensadores.
A Bíblia passou a ser interpretada de forma
diversa daquela tradicionalmente imposta pela Igreja
Católica. Isso representava uma tentativa de
restabelecer contato com as fontes originárias
do cristianismo.
A renovação religiosa trazida pelo Renascimento
impôs a existência de um Homo religiosus
livre e consciente. As novas idéias trouxeram
consequências, como a Reforma protestante de
Martinho Lutero.
Na Inglaterra, Thomas More foi o maior vulto humanista.
Escreveu "Utopia", onde expôs o sonho
de uma sociedade democrática, sem guerras e
sem disputas de classe.
Em França, Michel de Montaigne (1533-1592),
filósofo cético e avesso a qualquer
dogmatismo, foi um grande moralista e julgava que
a arte de viver deve fundamentar-se na sabedoria cautelosa,
inspirada pelo bom senso e pelo espírito de
tolerância. Foi autor de "Ensaios",
sua melhor obra.
A história contemporânea evidencia a
existência de humanistas oriundos das mais diversas
vertentes filosóficas. Para o pensador alemão
Karl Marx, o humanismo deve ser entendido sob o prisma
de uma sociedade igualitária e livre da exploração
capitalista.
Jean-Paul Sartre, pai do existencialismo contemporâneo,
afirmou ser o existencialismo um humanismo. Segundo
Sartre, o existencialismo ateu entende o homem como
sendo o único responsável por sua existência.
Não há um Deus, logo não há
essência a priori: a existência precede
a essência. O homem cria a sua própria
moral e se define como homem em razão das escolhas
que faz.
Outros pensadores consagraram-se como cristãos
humanistas. Pierre Teilhard de Chardin, Jean Guiton
e Jacques Maritain são alguns exemplos. No
Brasil, Alceu Amoroso Lima e André Franco Montoro
são nomes que se sobressaíram.
Atualmente, o Humanismo pode ser entendido como qualquer
movimento filosófico que tome como fundamento
a natureza humana ou os limites e interesses do homem.
Segundo Abbagnano (2003), humanismo significa "qualquer
tendência filosófica que leve em consideração
as possibilidades e, portanto, as limitações
do homem, e que, com base nisso, redimensione os problemas
filosóficos".
Ser humanista significa, portanto, valorizar o ser
humano, defendendo-o das injustiças sociais
impostas pela ordem vigente. Significa, ainda, colocar
o homem e sua dignidade acima de tudo na complexidade
das relações sociais. É o homem
sobrepondo-se aos dogmas, preconceitos e instituições
injustas.
Jacques Maritain, um dos maiores humanistas da história,
descrevia o verdadeiro humanismo como aquele sistema
capaz de fazer florescer no âmago do ser humano
todas as suas virtudes, que lhes são próprias
enquanto filho de Deus.
Jacques Maritain nasceu na cidade de Paris em 18 de
novembro de 1882, oriundo de família protestante.
Converteu-se ao catolicismo apenas em 1906, quando
então fora batizado. A influência da
formação católica fez Maritain
aprofundar-se nos estudos filosóficos de Santo
Tomás de Aquino, tornando-se mais tarde um
dos maiores intérpretes do chamado neotomismo.
Maritain estudou na Universidade de Paris (Sorbonne)
onde concluiu o curso de licenciatura em filosofia
no ano de 1905. Estudou também biologia entre
os anos de 1906 e 1908 na Universidade de Heidelberg,
Alemanha. Frequentou ainda o Collége de France
onde conheceu Henri Bergson, seu professor cuja influência
marcou o início do pensamento filosófico
de Jacques Maritain.
Além de Bergson, Spinoza e Driesch formaram
a base do pensamento do filósofo humanista,
antes que se aprofundasse em Tomás de Aquino,
isto em 1909.
Em 1910, Maritain que se tornaria autor de inúmeras
obras célebres, publicou seus primeiros escritos
versando sobre ciência moderna e razão.
Jacques Maritain foi professor de filosofia no Instituto
Católico de Paris, entre os anos de 1914 e
1939. Lecionou também no Instituto de Estudos
Medievais em Toronto, Canadá, a partir de 1932.
Os cursos no Canadá eram anuais de modo que
Maritain não se desligou de Paris, nem do Institut
Catholique.
Durante treze anos o filósofo morou nos Estados
Unidos, tendo sido professor na Universidade de Princeton
e na Universidade Columbia.
Entre os anos de 1945 e 1948, Maritain foi embaixador
da França junto ao Vaticano. Nesta época
o humanista destacou-se como um dos mentores da Declaração
Universal dos Direitos Humanos, promulgada pela Organização
das Nações Unidas (ONU) em 10 de dezembro
de 1948.
A obra de Jacques Maritain continua sendo alvo de
inúmeros debates e pesquisas acadêmicas
em universidades de todo o mundo, graças a
seu caráter contemporâneo.
Entre as obras publicadas por Maritain temos: Elementos
de Filosofia (1923), Distinguir para unir ou Os graus
do saber (1932), Humanismo Integral (1936), De Bergson
a Thomas de Aquino (1944), Princípios de uma
Política Humanista (1944), O Homem e o Estado
(1951), O Camponês de Garona (1966). Esta última
obra destacou-se devido à oposição
que fazia ao Concílio Vaticano II e suas medidas
extremistas. No ano de 1961 a Academia Francesa de
Letras premiou Maritain pela importância de
suas obras.
Durante boa parte de sua vida, Jacques Maritain foi
casado com a judia Raissa. Ambos se conheceram em
Paris nos tempos em que estudavam na Universidade
Sorbonne. Raissa Maritain viveu entre 1883 e 1960,
tendo sido grande colaboradora na extensa produção
filosófica de seu marido.
Maritain defende a essência de Deus como primazia
no universo real. O tomismo de Maritain distingue
o saber racional do supra-racional. Enquanto o saber
supra-racional concentra-se na experiência religiosa,
o saber racional parte da objetivação
do real, confrontando-o à luz da razão.
Em Maritain os instintos são guiados pela sabedoria
cristã, enquanto que à razão
deve-se o guia das atitudes intelectuais.
Maritain crê numa revolução moral
que altere a consciência social, favorecendo
o espírito de comunhão e trazendo paz
e justiça social aos homens. Dizia: "a
obscura esperança de milhões de homens
se encontra em trabalho nos subterrâneos da
história". Segundo Maritain o homem tem
o livre-arbítrio para construir uma sociedade
justa, ou para fazer deste mundo um universo de injustiças.
As artes, a pedagogia e a moral também fizeram
parte dos estudos de Jacques Maritain. O filósofo
via com preocupação o fato de a educação
não ser valorizada em muitos países,
considerando ser ela o melhor caminho para a libertação
do homem. Para o filósofo a educação
deve visar essencialmente libertar a pessoa humana.
"As democracias estão conscientes hoje
de sua negligência em defender e afirmar nas
escolas seus próprios princípios e suas
próprias razões de ser intelectuais
e morais". (MARITAIN, 1968, p.160). O célebre
humanista defendeu a democracia social cristã.
As relações sociais foram um dos temas
mais privilegiados pelo humanista em seus estudos.
Maritain acreditava na relação existente
entre cristianismo e democracia. Para o humanista
a política tem por função alcançar
o bem comum da população, sem privilegiar
camadas, assegurando o equilíbrio econômico-social.
O essencial é democratizar os benefícios
sociais fazendo das riquezas econômicas não
um fim em si, mas um meio de promover a construção
de uma sociedade justa.
Maritain pode ser entendido como um democrata liberal.
Defendia uma sociedade de classes integradora e libertadora.
Defendia ainda o direito de propriedade. Condenava
a hegemonia partidária, que poderia trazer
o regime totalitário. O pensador advogava a
importância de a classe política dirigente
atuar de forma concreta em prol do bem comum. Nunca
propôs uma sociedade igualitária como
a pleiteada pelos comunistas, mas acreditava nas políticas
sociais que respeitam as diferenças individuais,
tratando cada um segundo seus méritos.
Defendia a igualdade de oportunidades para o comum
acesso ao desenvolvimento de todo o potencial humano.
Para Jacques Maritain a justiça social se fundamenta
numa igualdade cristã. Todos os homens são
iguais em essência, mas há a necessidade
de que alguns estejam no comando, enquanto outros
obedeçam. A fundamentação do
sentimento democrático traduz a idéia
de que a obediência, em última análise,
refere-se a valores de consciência. "A
autoridade política, esse direito de governar
e de ser obedecido em vista do bem comum, não
é oposta à liberdade humana, mas exigida
por ela". (MARITAIN, 1968, p.155).
Maritain foi um pensador católico liberal,
não via na educação um ato político,
dizia: "o fim último da educação
refere-se à pessoa humana na sua vida pessoal
e progresso espiritual, não nas suas relações
com o meio social". (MARITAIN, 1968, p.42).
Ressaltava o aspecto utilitário da educação.
Para o filósofo a finalidade da educação
está em
guiar o homem no desenvolvimento dinâmico no
curso do qual se constituirá como pessoa humana,
dotada das armas do conhecimento, do poder de julgar
e das virtudes morais, transmitindo-lhe ao mesmo tempo
o patrimônio espiritual da nação
e da civilização às quais pertence
e conservando a herança secular das gerações.
O aspecto utilitário da educação,
que quer tornar a criança apta a exercer mais
tarde um ofício e ganhar sua vida, não
deve ser menosprezado, pois, os filhos do homem não
forma feitos para o ócio aristocrático.
(MARITAIN, 1968 p.37).
Uma questão bastante debatida na atualidade
refere-se ao ensino do Criacionismo nas escolas. Para
os criacionistas o mundo e o homem foram criados por
Deus, como reza a Bíblia. De maneira geral
tem prevalecido o entendimento de que a escola laica
tem a incumbência de ensinar o Evolucionismo,
ou Teoria da Evolução de Charles Darwin,
enquanto à Igreja cabe o encargo de apresentar
a versão cristã da origem do mundo.
Maritain advogava o ensino facultativo da religião
nas escolas:
a formação religiosa deve se tornar
possível - não a título obrigatório,
mas como matéria de livre escolha - à
população estudantil de acordo com os
seus desejos e os de seus pais, e deve ser ministrada
por representantes dos diversos credos. (...) Não
compreendemos como se pode admitir que Deus tenha
menos direito de ocupar um lugar na escola, do que
os elétrons ou então Bertrand Russell.
(MARITAIN, 1968, p.230).
Com a morte de Raissa em 1960, Maritain passou a viver
na cidade de Toulouse, na França. Viveu seus
últimos anos em um convento católico,
vindo a falecer em 28 de abril de 1973. O humanismo
integral caracterizou o pensamento de Jacques Maritain,
fazendo deste pensador um dos maiores filósofos
católicos do nosso tempo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário
de filosofia, São Paulo: Martins Fontes, 2002.
LIMA, Alceu Amoroso. Pelo humanismo ameaçado,
São Paulo: Tempo Brasileiro, 1965.
MARITAIN, Jacques. Princípios de uma política
humanista, Rio de Janeiro: Agir, 1960.
_________________. Cristianismo e democracia, 4.ed,
Rio de Janeiro: Agir, 1957.
_________________. O Homem e o Estado, Rio de Janeiro:
Agir, 1952.
_________________. Rumos da educação,
5.ed., Rio de Janeiro: Agir, 1968.
MONTAIGNE, Michel de. Ensaios, São Paulo: Globo,
1961.
NOGARE, Pedro Dalle. Humanismos e anti-humanismos, 5.ed.,
Petrópolis(RJ): Vozes, 1979.
PICO DELLA MIRANDOLA, Giovanni. A dignidade do homem,
São Paulo: GRD, 1988.
SANTOS, Francisco de Araújo. Humanismo de Maritain
no Brasil de hoje, São Paulo: Loyola, 2000.
ROTTERDAM, Erasmo de. Elogio da loucura, São
Paulo: Martins Fontes, 2000.
www.maritain.org.br |
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