| ::. O
Substantivo (Da Série Professor Sofre) |
Poeta Professor Silas Correa Leite
Site pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm
E-mail - poesilas@terra.com.br
Poeta
Prof. Silas Corrêa Leite, Educador, Jornalista,
Escritor Premiado De Itararé-SP
Membro da UBE-União Brasileira de Escritores
Educador da Rede Pública e Particular de Ensino.
Pós-graduado em Educação, Literatura,
Relações Raciais e Inteligência Emocional.
Autor do Romance Virtual de sucesso ELE ESTÁ NO
MEIO DE NÓS, no site: www.hotbook.com.br/rom01scl.htm
A
Professora Miriam era fogo. Não dava moleza. Mal
chegando à sala de aula, na escola pública
da periferia sul da capital de São Paulo, deitava
falatório, distribuía lição,
livros, e cobrava atividades anteriores, trabalhos programados,
caderno em dia, essas coisas. Era craque na matéria
de português. Naquele dia de primeiro de abril,
na escola Paulo Colombo, ali no carente Parque Arariba,
periferia de São Paulo, não foi diferente.
Tinha que continuar a lição da aula anterior
que já havia passado, explicado, dando exemplos,
exercícios de fixação, portanto,
dentro da didática do processo ensino-aprendizagem,
podia cobrar, fazer uma necessária chamada oral,
sondando a classe, auditando valores, exercendo a avaliação
contínua e tudo mais. Assim, mal se sentou à
mesa, ao seu jeito cobrou da classe, uma sexta-série
meio maleixa em vontade de estudar a fundo e com afinco:
-Gente,
hoje vamos voltar a temática trabalhada na aula
passada, de segunda-feira e de ontem. Vamos lá.
Vamos lá. Pxiu gente! Sentem. Quietos. Aluno
Élio Maia, abra o caderno. Paloma, vamos, vamos!
E
prosseguiu, tez algo cor-de-rosa, ao seu jeito peculiar,
cobrando, tentando mudar aquela comunidade bem carente;
torná-los cidadãos, formá-los para
que servissem bem ao futuro do país, pelo menos
dominando a linguagem, a língua pátria:
-Gente,
o que é mesmo Substantivo?
Foi
como se tivesse falado grego em braile. Fez-se um inédito
silêncio por atacado na classe. Era como se ela
perguntasse quem tinha sido o E.T. do filme, ou o número
exato do erregê de Jesus Cristo.
Viu
que o pessoal tava “surtando”. Todos boiando na maionese.
Mudou
a retórica, pacienciosa, acostumada:
-Gente,
prestem atenção. Lembrem o que eu falei
antes de ontem e ontem, pois, afinal, macetamos a matéria
toda, o conteúdo inteiro, botando alguma coisa
da matéria de português na cabecinha de
vocês, Vamos lá, vamos lá!
-Paloma,
Maria Cebola - atiçou uma aluna topetuda, metida
a sebo - e cobrando alguma coisa da cachola aérea
dela:
-O
que é um CADERNO?
Paloma
coçou um piolho imaginário na cingapura
dos cachos de cabelos carapinhas, mas não se
deu ao conclamo de fazer soar sua voz de taquara rachada
com sotaque. Nem grunhiu uma vogal aberta sequer.
A
Professora Miriam ali, furor pedagógico de boa
empreita, de toleima, sondando o devir. Nervosa, mas
firme. Frustrada, mas insistindo. Então prosseguiu,
corajosa:
-Gente,
“Pelamordedeus”, O que é um Caderno?
E
inteirou, panca de querer ajudar, dar dica, pôr
os pingos nos is da situação:
-Vamos,
vamos? É um substantivo?
Nadica
de nadinha. Ninguém sacou bulhufas. Desligados.
Ninguém entendeu sequer o que era aquela bendita
palavra. Tavam alguns sonados, outros aéreos,
e um monte deles caçando calma pra se coçar.
Êta juventudezinha cainha de se dar pra retorno
e querer produzir conhecimento.
-Um
caderno é o quê? Um verbo? Um advérbio?
Um adjetivo? Vamos, falem, falem...
Um
coitado lá dos fundos, humildezinho da silva,
no vai-da-valsa, ouviu o galo cantar sem saber onde,
e destilou espaçoso, pegajento, viajoso, meio
aparecido:
-É
um Adjetivo fingido?
Silêncio
andaime.
A
classe toda sondou pra ver se, sendo a resposta certinha
faziam a algazarra de sempre contra o colega polaco
berebento e migrante noviço, ou se, no caso dele
estar erradinho como seria bem possível com suas
erranças naturais, tirarem um baita sarro, caindo
na gandaia da fuzarca aloprada, pois é o que
desejavam fazer mesmo, velejando, como sempre.
A
professora Míriam não acreditou. Será
o impossível? Tavam de brincadeira com ela? Tem
cabimento, pensou de si para si mesma.
Perguntou
pela última vez, na esperança de que o
bom Deus do céu soprasse um alento no cérebro
de um ou outro aluno bom que tivesse um cérebro,
mais atiçado que fosse, só podia, e ele
desse a resposta que valesse mais que o bendito miserê
do parco holerite-cebola que a gente rasga e chora.
Foi
então que ouviu o que não queria. Benza-Deus.
Marco
Paulo, todo trancham, panca de Tom Cruise depois da
dengue ou leptospirose, malemal viu a tiafessora prometer
um pontinho na prova para somar com a nota obrigatória
do bimestre letivo, respondeu, depressinha e na bucha,
se acreditando o escolhido por Deus - acreditando num
falso alento daquela respostinha brava que um passarinho
ruim lhe soprara:
-Professora
Míriam, eu sei, eu sei!
-Então,
filhinho, o que é mesmo um CADERNO? Muito bem,
vamos lá!
É
um verbo? Um adjetivo? Um substantivo?
DIGA,
O QUE É UM CADERNO!
E
o coitado respondeu, para gáudio geral - e o
enfim término da aula, já que o estridente
sinal soara:
-É
um castigo!
(FIM)
Silas
Corrêa Leite - Poeta, Jornalista, Educador, pós-graduado
em Literatura, Inteligência Emocional e Filosofia
Para Crianças
Texto
da Série: Inventários & Partilhas
- Prática Educacional Vivenciada
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