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::. O tão difícil rito de passagem
Lidia Maria Kroth
Pedagoga Orientadora Educacional - Escola Estadual de Ensino Fundamental Paraíba - POA - RS, Orientadora Educacional - Escola Estadual de Ensino Fundamental Tancredo Neves POA - RS, Professora de 2 série do Ensino Fundamental.

E-mail - lidiakroth@hotmail.com


Alguns professores, por exemplo, querendo inovar sendo mais democráticos, colocam-se no mesmo lugar do aluno. Este é um equívoco na interpretação de algumas teorias pedagógicas mais atuais, que pretendem uma educação libertária.
Partindo das observações realizadas em instituições de ensino, e, após tomar conhecimento das dificuldades encontradas pelos docentes, em relação ao tão conturbado rito de passagem, achei por bem, buscar subsídios para que eu como Orientadora Educacional, pudesse auxiliá-los nesta difícil caminhada, levando sempre em conta os aspectos psicosociais.
Assim sendo, farei algumas reflexões enfocando a questão da adolescência a fim de compreender o que ocorre de diferente na relação professor com o aluno adolescente; quais os processos conscientes e inconscientes, de ambas as portes, envolvidas neste relacionamento tão conturbado. Procurarei enfatizar como o adolescente coloca-se subjetivamente, perante o professor e vice-versa; que expectativas e possíveis frustrações tomam lugar e em que medidas vêm atrapalhar o processo de ensino e aprendizagem.
Buscarei respaldo teórico, no pensamento psicanalítico, pois tem desenvolvido material rico e importante para a compreensão da adolescência.
A adolescência é uma época de grandes transformações, desde a relação do indivíduo com seu próprio corpo até seu reconhecimento social. Estas transformações exigem grande adaptação por porte do sujeito e isto não ocorre sem conflitos. Adolescer é deixar de ser criança e tornar-se adulto, trocando heteronomia por autonomia, abandonando antigos padrões de relacionamento para desenvolver novas formas de relacionar-se, de vincular-se ao outro.
Ao alcançar este estágio de desenvolvimento, o sujeito, ainda um tanto imaturo, deve haver-se com questões que possam parecer-lhe complexos demais frente ao que ele reconhece com suas possibilidades. O adolescente depara-se com tarefas importantes e difíceis, como alcançar sua autonomia de pensamento, construindo um sistema próprio de valores; deve diferenciar-se da família e lançar-se na direção de um reconhecimento na sociedade que passa pelo reconhecimento no grupo de iguais - fazendo uma escolha profissional, encontrando um objeto de amor fora do seio familiar.
Também o corpo sofre grandes transformações nesta etapa da vida, tornando-se gradualmente mais sexuado: as diferenças entre meninos e meninas ficam cada vez mais evidentes, provocando o adolescente a questionar-se, a ater-se sobre sua sexualidade. Aqui é preciso diferenciar puberdade de adolescência: a primeira tem a ver com os processos do corpo, com a maturação sexual física (surgindo pêlos pubianos, crescimento dos seios, do pênis, mudança de voz, etc.), que ocorre acompanhado ou não da adolescência. Esta última tem mais a ver com a maturação psicológica e social e pode ter início antes, durante ou depois da puberdade.
Outra coisa que contribui para esta diferenciação é o fato de que a puberdade tem um período mais ou menos definido para começar e para concluir-se, que coincide em todos os povos e latitudes, com raras exceções.
Dois acontecimentos fortalecem o advento da puberdade: a menarca para a menina, e a primeira ejaculação para o menino, que devem ocorrer, em média, por volta dos 12 aos 15 anos.
Em contrapartida, não é possível definir um período em que deve ocorrer a adolescência. Este tempo varia conforme a cultura e o indivíduo: em algumas culturas, alguns ritos de iniciação, em um período de tempo muito pontual, dão conta de fazer esta passagem.
Atualmente, na sociedade ocidental em que nos inserimos, a adolescência tem sido cada vez mais prolongada. Isto fica claro se considerarmos a aquisição de autonomia financeira, sair da casa dos pais, ou exercício de uma profissão como critérios, por exemplo.

OSORIO (1989, p.30)
Afirma que podemos avaliar o término da adolescência a partir de algumas aquisições do indivíduo, tais como: o estabelecimento de uma identidade sexual; a possibilidade de estabelecer relações afetivas estáveis; a capacidade de assumir compromissos profissionais e manter-se economicamente; aquisição de um sistema de valores morais pessoais; a relação de reciprocidade como a geração precedente.

Mesmo com todo os determinantes muitos autores consideram que a puberdade que inaugura o processo adolescente.

ABERASTURY e KNOBEL (1992, p.63) têm esta postura, como se pode ver nas seguintes passagens:
"(...) a definição do papel feminino ou masculino na união e procriação e as mudanças corporais que acontecem durante este processo - aparecimento os caracteres sexuais secundários - são o ponto de partida das mudanças psicológicas e de adaptação social (...) também as modificações corporais incontroláveis como os imperativos do mundo externo que exigem do adolescente novas pautas de convivência são vivenciados, no começo, como uma invasão".

LEVISKY (1998: p.54)
Explica que o que impõe uma definição da sexualidade nesta fase é a representação social da aquisição da capacidade reprodutora. Também a transformação do corpo só pode chamar a atenção do jovem para as funções sexuais que pode então desempenhar, como para tudo o que diz respeito à sexualidade.

Ao mesmo tempo, a percepção do adolescente lhe diz que está cada vez mais parecido fisicamente com os adultos e cada vez menos parecido com as crianças, mudança que vai acontecendo muito rápido e é incontornável. Essa semelhança com o corpo dos adultos vem alertar o adolescente de que em um intervalo de tempo relativamente curto ele virá a ser um deles. Levisky também chama a atenção ao fator do tabu do incesto, que nesta fase pode deixar de ser fantasia, determinando a busca de um objeto de amor fora do seio familiar.
A semelhança com os adultos também lhe provoca a pensar em uma profissão, em um objetivo para sua vida na necessidade de encarregar-se do próprio destino. Enfim, precisa estabelecer uma identidade pessoal adulta. Até mesmo a sociedade logo vai lhe reconhecer o direito ao voto, vai considerar sua vontade, vai lhe dar voz de adulto, vai reconhecer-lhe a maioridade.
Todas essas transformações biopsicossociais não poderiam mesmo acontecer sem conflito. Longe disso, a adolescência é classicamente reconhecida por ser um período de intempéries. Ao mesmo tempo em que se vê forçado a dar conta de adaptar-se a todas essas novidades que se lhe apresentam, o adolescente precisa elaborar diversos lutos como a perda dos pais da infância, do corpo infantil, do próprio lugar de criança. Ele precisa deixar de ser quem é em prol de um vir a ser alguém que ainda não conhece, precisa desapegar-se de sua identidade infantil que já não dá conta de quem ele está se tornando. Em outras palavras, o adolescente já não é e ainda não é.
Geralmente, os questionamentos acerca do processo adolescente derivam dissertações sobre a tarefa do jovem em produzir uma identidade, que deve, ao termo dessa fase, tornar-se estável, como se isto fosse inerente ao adolescer. Ou seja, é de comum acordo entre os teóricos psicológicos que a grande tarefa do adolescente é dar conta de produzir uma identidade estável que lhe viabilize o ingresso no mundo adulto. Isto talvez ocorra em reação à instabilidade do adolescente à insistência com o adolescente não se deixa, muitas vezes, "grudar" por identidade nenhuma, preferindo "ser essa metamorfose ambulante", que se reflete nas rápidas mudanças de humor, de atitudes, de roupas, de idéias.
Isto acontece justamente na fase em que o sujeito alcança também a maturidade mental, ou seja, quando, por volta dos doze anos, inicia o estágio das operações formais, descrito por Piaget. O adolescente torna-se muito mais capaz de pensar em possibilidades além das coisas reais e concretas por ter atingido a abstração do pensamento. Também tem muito mais capacidade de observar suas aptidões, suas opções, etc., podendo pensar sobre profissões, sobre o futuro O adolescente vai poder sistematizar o pensamento, criando possibilidades, será capaz de imaginar-se em diversas situações pensando abstratamente. Esta mesma capacidade também pode facilitar-lhe as relações familiares e sociais, pois ele pode planejar suas ações prevendo as conseqüências e criando explicações alternativas para suas condutas.
As crenças do adolescente vão se modificando ao longo desse desenvolvimento cognitivo, à medida que o adolescente vai adquirindo uma visão mais crítica, que incide inclusive sobre suas próprias crenças. Outra característica do pensamento do adolescente é o relativismo: o adolescente levanta dúvidas a respeito de tudo. Suas próprias crenças estão sendo renovadas e ele coloca tudo à prova porque relativisa: nada é muito confiável; nada está tão certo que não possa ser questionado. Isto também é reforçado pela capacidade adquirida de debater um assunto, por ter clareza sobre o próprio pensamento e também por poder prever o que o outro está pensando, e saber ver uma mesma questão por diversos ângulos. Ou seja, um adolescente é capaz de discutir qualquer norma imposta, qualquer coisa que antes pensava ser inquestionável, irrevogável.
A intelectualização é também um recurso muito utilizado pelo adolescente, que tem muito mais conteúdo para subsidiá-la. Ele é capaz, por exemplo, de dar explicações teóricas sobre o próprio comportamento a fim de justificar-se, utilizando-se inclusive da capacidade de metaforizar.

ABERASTURY a KNOBEL (1995: p.38) tomam a intelectualização entre as defesas de que o adolescente lança mão para apaziguar seus conflitos internos e auxiliam na elaboração das situações de perda (de sua identidade infantil, dos pais, da infância, do corpo,...) tão dolorosas.
A adolescência é, sem qualquer dúvida, uma fase de transição, da infância à idade adulta, mas está muito longe de ser um hiato, já que seus processos são intensos, ainda que sejam na maioria internos, seria cabível considerar (e isto não é nada original) este estágio ao do casulo no ciclo vital da borboleta. A medíocre e feiosa larva, ao passar por um processo de transformações - tão intensas que pedem o isolamento do casulo - tem a chance de tornar-se uma bela borboleta, digna de todo reconhecimento, não apenas familiar, mas social inclusive.
Em troca da renúncia à fusão com a mãe, a criança recebe a promessa de um lugar futuro de gozo pleno, onde tudo lhe será possível, e do qual poderá usufruir quando crescer. O adolescente, crescido o bastante para utilizar-se da capacidade adquirida de abstração e crítica, frustra-se então ao perceber que a promessa era falsa, tratava-se de um engodo, e que o gozo pleno, na realidade, não existe O jovem pode perceber que nem seus pais têm acesso ao tal gozo que lhe foi prometido e pode deduzir que também ele jamais o alcançará: o adolescente constata que a castração é generalizada a todos, inclusive aos adultos. Certamente, um luto importante deve tomar lugar neste momento. É quando o adolescente constata que seus pais nunca foram de fato heróis, e, se ele seguir o caminho dos pais, também não o será.
Em função desta decepção, ter de abrir mão da infância em prol de um vir a ser adulto coloca o sujeito adolescente num lugar muito conflituado, por encontrar em si sentimentos e desejos muito ambíguos, ou mesmo contraditórios: quer tornar-se adulto a poder tomar as rédeas de seu destino, mas não aceita o modelo de adulto que tem e, ás vezes, prefere mesmo permanecer acomodado ao desejo dos pais, sem ter de responsabilizar-se por suas decisões, etc.
Considerando tudo isso, podemos concluir que o conflito é inevitável Conflito entre pulsões de fusão a diferenciação (desejos contraditórios), conflito entre as exigências do mundo externo e a realidade do mundo interno, vividos com tal intensidade pelo adolescente que terminam por provocar o que se denomina como a "síndrome da adolescência normal", muito bem caracterizada por ABERASTURY a KNOBEL (1992).

"Penso que a estabilização da personalidade não se consegue sem passar por um certo grau de conduta patológica que, conforme meu critério. Devemos considerar inerente à evolução normal desta etapa da vida. (...) As lutas e rebeliões externas do adolescente não são mais dos reflexos dos conflitos de dependência infantil que intimamente ainda persistem. Os processos de luto obrigam a atuações que têm características defensivas, de caráter psicopático, fóbico ou contrafóbico, maníaco ou esquizoparanóide, conforme o indivíduo e suas circunstâncias."(p.27)

Anna Freud (1995: ano V, n.11) chega mesmo a postular que a sustentação de um equilíbrio constante ao longo da adolescência é, por si mesma anormal, a que se espera que um adolescente saudável sofra uma quebra no crescimento pacífico. Ela coloca que, as manifestações comportamentais do adolescente que podem vulgarmente ser vistas como patológicas, na verdade, não são mais do que a externalização do conflito interno que o adolescente precisa elaborar.
A razão de ser de tamanho conflito é certamente a necessidade de uma grande adaptação, talvez comparável à que ocorre na ocasião do nascimento, e que muitas vezes o sujeito pode perceber-se incapaz de realizar. Adolescer é morrer em parte, como criança, e nascer como adulto. Isso que para a criança poderia constituir-se num ideal, para o adolescente está bastante longe disto, pois ele já descobriu que os adultos também não têm as repostas para suas questões, também eles são falhos.
Enfim, o adolescente vê-se impelido a assumir uma postura adulta, deixando sua condição infantil, o que lhe provoca conflitos muito importantes, inclusive em relação ao que realmente quer: Se for diferenciar-se dos pais, ou retornar ao ponto em que os conflitos ainda não existiam: o estado fusionado com o outro. Isto tudo ocorre, justamente. Quando o sujeito percebe que os adultos são falhos, são injustos, não sabem de tudo e, ainda assim, querem determiná-lo.
Em relação a isto, LEVISKY (1998) chama atenção para as contradições do mundo em que vivemos. Afirmando que estas só vêm acentuar os conflitos internos vividos pelo sujeito adolescente

"Fala-se de amor e faz-se a guerra, e através da guerra almeja-se a paz. Deseja-se a liberdade, fala-se de confiança, mas usa-se da repressão, da violência e do suborno. Defende-se o sexo como expressão sublime do amor e vende-se o corpo em anúncios de cigarro, de carros ou de outra coisa qualquer que possa ser consumida." (p.92).

Esta decepção com o mundo dos adultos vem juntar-se com o luto pelos pais da infância, que eram verdadeiros heróis e o adolescente os vê como fracassados. Quer então fazer diferente do que eles fizeram, e contesta-lhes toda e qualquer imposição, exige-lhes explicações para suas determinações e questiona tudo, aproveitando-se de sua desenvolvida capacidade mental para isto.
O adolescente vê a pior face de seus pais e a denuncia, revoltado. Passando também a questionar qualquer valor estabelecido por estes ou pela sociedade. Toda norma que antes tomava corno irrevogável, agora o adolescente põe em pauta, discute, debate, duvida, estando em plenas condições de fazê-lo com sucesso.

RASSIAL (1997, p.82) revela que, na relação com os pais e com todos os adultos, em função de tantas decepções já vividas, o adolescente estará sensível a toda contradição interna ao discurso, ou entre o discurso e o ato, e não será tolerante à constatação deste sintoma, podendo até mesmo parecer paranóico.


Uma das faces dessa revolta adolescente pode ser entendida como expressão da pulsão diferenciadora, gerando o que se convencionou chamar de "conflito de gerações".
Anna Freud (1995: Ano V n.11) considera normal que os pais sejam o primeiro alvo desta revolta adolescente, explicando:

"Como pelas identificações prévias, é justamente com os pais que a mente juvenil está mais ´fundida´, torna-se imperioso acentuar o confronto de idéias a nível familiar para que se facilite o processo discriminatório sem o qual a identidade permanece num estado caótico ou indiferenciado."

O processo de diferenciação a individuação é continuo desde o nascimento, contudo, na adolescência, o indivíduo encontra-se novamente em um momento crítico desse processo.
Segundo OSÓRIO (1989 p.64), este estágio adolescente está relacionado diretamente com os primórdios da individuação 'eu/não eu´ da primeira infância, que passa então por uma reedição que visa uma resolução em direção à autonomia psicológica.
Também o conflito vivido na fase edípica é reeditado na adolescência, quando o sujeito precisa resolver a fase fálica interrompida pela latência, a fim de ingressar na genitalidade madura. Neste momento, o incesto representa grande angústia para o adolescente, que se percebe em condições de concretizar suas fantasias infantis, de forma que, também por isto, sente a necessidade imperiosa de afastar-se dos genitores. Busca então o grupo de iguais, fora de seus laços sangüíneos, onde pode ter uma vivência semelhante à familiar, contudo sem o risco de incesto.
O adolescente estará menos interessado, e até mesmo intolerante, em relação ao contato com os pais. Em lugar desse apego infantil, o adolescente busca agrupar-se com outros adolescentes que vivenciam as mesmas angústias a com quem podem mais livremente trocar experiências afetivas.
Segundo BLOS (1996, p.52), os adolescentes agrupam-se naturalmente também devido à necessidade psicológica de diferenciarem-se dos adultos.
A psicanálise considera que é necessária certa dose de agressividade para alcançar-se qualquer diferenciação entre o sujeito e o objeto. Essa diferenciação entre sujeito e objeto, esse corte, só poderá ocorrer quando estiver presente a mesma agressividade que dá à mãe e ao filho a força necessária para o parto, em uma primeira separação. Porque separar-se psicologicamente do objeto implica em um novo nascimento: o nascimento como sujeito psicológico capaz de desejar, de posicionar-se de duvidar, etc.
A essa agressividade sadia, Freud nomeou Desejo Hostil Diferenciador, presente e atuante em qualquer ser humano.
WINNICOTT (1987), em acordo com Freud também reconhece: "A agressão está sempre ligada, desta maneira, ao estabelecimento de uma distinção entre o que é e o que não é o eu". (p.98).
No auge do processo de diferenciação, o adolescente normal é acentuadamente agressivo, o que muitas vezes determina sua participação em atos violentos, como nas guerras. Às vezes, sem a possibilidade de expressar sua agressividade de outra maneira (quando seus impulsos agressivos não são aceitos em seu grupo de convivência), o adolescente pode tornar-se delinqüente, praticando atos de vandalismo e mesmo de violência.
Essa agressividade diferenciadora vem agora incrementada pelas aquisições cognitivas alcançadas pelo adolescente. Contando com isto, ele pode ser muito mais contundente em suas críticas ao outro, ou aos pais em primeiro lugar. Toda essa revolta pode deixar os pais atônitos, sem poderem reconhecer na tal "metamorfose ambulante" seu amado filho. Considerando a posição dos pais frente ao fenômeno que ocorre com seu "filhinho" ao passar este pela adolescência. Anna Freud (1995) escreveu:

"Enquanto um adolescente permanece inconsciente e imprevisível em seu comportamento, ele pode sofrer, mas ele não me parece estar necessitando de tratamento. Penso que lhe deve ser concedido tempo e espaço para trabalhar sua própria solução. Ao contrário, podem ser seus pais os que necessitam ajuda e orientação para serem capazes de tolerá-lo. Há poucas situações na vida que são mais difíceis de enfrentar do que um filho adolescente." (ano V, n.11)

A adolescência do filho é um indício claro de que os pais estão envelhecendo - e isso é muito frustrante em uma sociedade tão obcecada pela juventude como essa em que vivemos. A sexualidade dos filhos, que se aproximam do máximo vigor físico e sexual, pode fazê-los questionar-se a respeito de sua própria sexualidade; o idealismo do adolescente pode fazê-los perceber que ainda não realizaram seus grandes sonhos.
Os pais também definem-se em função dos filhos e a iminência dos filhos saírem de casa provoca nos pais o questionamento de suas funções na família e mesmo de sua própria identidade: depois de abrirem mão de tantas coisas em prol da educação dos filhos, o que farão sem eles; o que serão sem eles.
Neste momento, a família precisa remodelar-se: o adolescente já não precisa dos mesmos cuidados de uma criança e também não mais aceita regras impostas ou arbitrariedades. Neste período, pais e filhos precisam estabelecer novos padrões de relacionamento, que estejam embasados no reconhecimento a no encorajamento das necessidades de independência dos filhos. Mas isto, para os pais, pode significar que eles em breve tornar-se-ão desnecessários e nem todo pai ou mãe está preparado para enfrentar tal situação. Assim, alguns pais seguem sendo autoritários com os filhos, não lhes reconhecendo a alcançada autonomia de pensamento.
Os pais precisam reinventar seu lugar, como coloca RASSIAL (1987 p.85), e devem separar-se do que lhes parecia parte de si mesmos. Eles também efetuam um trabalho de luto com a adolescência dos filhos. Este autor reflete também sobre a relação do casal de pais, que, frente à emancipação do filho, não poderão mais sustentar o casamento sobre as funções de pai e de mãe.
Outro fator importante a considerar é que os pais revivem sua adolescência na adolescência de seus filhos e todos os conflitos experimentados e não bem resolvidos podem fazer ressurgir a angústia que os atormentava em seu tempo adolescente.

O Adolescente e o Professor

O adolescente, em sua necessidade de diferenciar-se dos pais (e do mundo dos adultos), torna-se aguçadamente crítico na relação com os mesmos, não tolerando destes qualquer contradição no discurso ou na prática e contestando tudo que lhe parece arbitrário. Todo o comportamento de confronto do adolescente vem ainda incrementado pelos impulsos agressivos, tão característicos desta fase do desenvolvimento, e pelas aquisições cognitivas que lhe permitem explorar alternativas, debater posicionamentos, etc.
Da mesma forma que as crianças em fase de latência têm prazer pelo conhecimento, o adolescente, por sua vez, experimenta suas novas capacidades intelectivas com verdadeiro gozo. Ele surpreende-se com suas possibilidades e considera-se fantástico na originalidade de seus pensamentos. O adolescente quer pensar diferente do adulto e sente-se realmente capaz disto. Assim, além de sua natural e clássica tendência ao confronto com os adultos, o simples exercício de duvidar, questionar, propor alternativas (que vem consolidar tais aquisições), é realizado com imenso prazer.
O professor é o representante do mundo dos adultos na Escola, e é aquele responsável por permitir a passagem do laço familiar ao laço social (tarefa da adolescência), estando no lugar de figura de autoridade desempenhado primeiramente pelos pais dentro da família. Assim sendo, toda a agressividade diferenciadora dirigida aos pais, em casa também será direcionada ao professor, na Escola. Assim como o adolescente questiona, duvida e debate toda a norma proposta ou imposta pelos pais, também o fará com as proposições do professor, na esperança de que este possa escutá-lo e oferecer-lhe os limites à sua confusão interna com a coerência de um pensamento amadurecido.
Ainda em uma primeira fase, o adolescente pode tomar o professor como modelo, na esperança de que este possa representar a possibilidade de um vir a ser um adulto infalível. O adolescente ainda está em busca de um herói que possa colocar no lugar dos pais da infância, em busca de alguém perfeito em quem possa espelhar-se, e a quem possa ter como modelo O adolescente é idealista e pretende de si mesmo a perfeição: ele não quer ser falho como seus pais. É nada menos do que essa mesma perfeição que exige de seu mestre.
Sensível a toda contradição dos adultos, justamente por estar cm busca de um adulto sem falhas, logo o adolescente vai decepcionar-se também com seu mestre, sentindo-se novamente traído. Assim como despreza os pais por suas falhas, o adolescente também rechaçará seu mestre, questionando-o justamente na direção daquilo que nele é falho. O adolescente fere o professor na ferida narcísica, aberta em sua própria adolescência, pois também o professor já almejou de si mesmo a perfeição, também ele frustrou-se como os adultos fracassados e quis fazer uma diferença.
Ao sofrer o rechaço do adolescente, o professor esta justamente colocado no outro pólo desta díade: é ele quem fracassou. A adolescência do aluno proporciona ao professor a vivência do outro lado de sua adolescência: o lado dos adultos, e este pode então deprimir-se pelo sofrimento causado por ele a seus mestres. Sofrimento que ele vem a conhecer na própria pele, atualizado na relação com seu aluno.
E como os pais podem não estar preparados para este confronto (com o adolescente externo a com o adolescente interno), também o professor pode ficar um tanto perdido nesta relação com o aluno adolescente. Tal despreparo pode levá-lo a cometer diversos equívocos, como pude observar em minha experiência na Escola.
Alguns professores, por exemplo, querendo inovar sendo mais democráticos, colocam-se no mesmo lugar do aluno. Este é um equívoco na interpretação de algumas teorias pedagógicas mais atuais, que pretendem uma educação libertária.

KHOURI (1984), escreve neste sentido:

"No processo libertador, o educador e o educando colocam-se no mesmo lugar, à procura do conhecimento recriado e co-participado, o qual não detém a criatividade de ambos..." (p.5)

O que um adolescente realmente necessita é de um adulto em um lugar diferente do seu, capaz de assumir a posição de uma figura de autoridade que possa conter os impulsos e as angústias próprios da adolescência. Um adulto que esteja em outro lugar, que tenha sido bem sucedido em sua passagem pela adolescência e tenha já desvencilhado-se desta, pois é preciso acreditar que tanta confusão é parte de uma fase passageira da vida.
Ao deparar-se com um professor que, querendo ser "legal", apresenta-se como um igual para o adolescente, a confusão é ainda maior para este sujeito. À deriva de suas pulsões e de seu descontrole emocional, o adolescente vê-se novamente ameaçado pelo perigo de incesto, pois, a figura do professor, que deveria estar no lugar dos pais, quer estar no lugar de um igual. O resultado é um incremento no caos vivenciado pelo adolescente, que se vê forçado a rechaçar o professor mais intensamente ainda, num desesperado apelo, que poderia ser traduzido pela expressão: "vê se te enxerga!".
lsto daria conta de explicar algumas das aulas mais caóticas que tive ocasião de observar, em que a professora, mascando chicletes e vestindo-se de maneira sedutora, era menosprezada e mesmo ridicularizada pelos alunos, que gritavam e corriam pela sala de aula enquanto também ela gritava o "conteúdo" de sua "disciplina". Durante cinqüenta minutos permaneci nesta observação e, em todo este período, não houve um momento de tranqüilidade. Entendo que o caos naquela sala estava refletindo o caos vivido internamente por aqueles alunos adolescentes, angustiados por não encontrar continência ou contenção na figura do professor, mas sim o reflexo de si mesmos.
É preciso que o professor tenha bem resolvida sua própria adolescência para estar em condições de suportar a de seu aluno. Quando isto acontece, o professor pode realizar-se lecionando aos adolescentes, como ouvi de algumas professoras na Escola. Estas referiam que os adolescentes, sendo desafiadores as levavam a aprimorarem-se sempre mais e que os debates entre eles eram muito ricos a estimulantes. Isto só é possível se o professor está preparado para ser confrontado pela dura crítica do adolescente que é, muitas vezes impiedoso, ferindo a auto-estima de seu professor.
A este rechaço do adolescente, vem somar-se o descaso social à figura do professor, que muitas vezes percebe-se identificado com a adolescência de seu aluno pela impossibilidade de ter autonomia econômica, por exemplo. Assim como o adolescente reivindica de seus pais ou mestres, o professor vê-se na situação de reivindicar do governo que seja mais democrático, mais justo, menos falho. Na realidade, não é possível esperar do professor que, com tudo isto, ainda seja um herói.
Contudo, é preciso que exista sempre lugar para o diálogo, o que somente será possível se o professor conhecer o lugar a partir do qual seu aluno lhe fala. No caso da adolescência, um lugar de passagem, de descobertas, conflitos, de anseios e esperanças de que tudo isto passe um dia.
É preciso que o professor demonstre ao aluno adolescente que o mundo adulto é viável com suas faltas e apesar delas. É preciso que o professor permita-se falhar e não se condene por isto, para que o adolescente possa também aceitar-se com suas faltas, com suas impossibilidades, pois compreenderá que a perfeição é apenas um ideal a ser buscado, mas não alcançado; e que, apesar disso, poderá ser feliz, em alguma medida, no mundo que existe.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABERASTURY, Arminda e KNOBELL, Mauricio. Adolescência Normal. Porto Alegre: Artes Médicas, 1981.
BLOS, Peter. Transição Adolescente: questões desenvolvimentais. Porto Alegre. Artes Médicas, 1996.
FREUD, Anna. Adolescência. Em: Revista da Associação Psicanalítica. Porto Alegre. Adolescência. Porto Alegre, ano V, número 11, Novembro de 1995: Artes e Ofícios.
KHOURI, Ivonne G. Psicologia Escolar. São Paulo: E.P.U., 1984.
LEVISKY, David L. Adolescência e Violência: Conseqüências da realidade brasileira. Porto Alegre. Artes Médicas, 1997.
________. Desenvolvimento Psicossocial da Adolescente. Em Clínica Psicanalítica de Crianças e Adolescentes. Rio de Janeiro: Livraria e Editora Revinter, 1998.
OSÓRIO, Luiz C. Adolescente Hoje. Porto Alegre Artes Médicas, 1989.
RASSIAL, Jean-Jacques. A passagem Adolescente: da família ao laço social. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1997.
WINNICOTT, Donald W. - Privação e Delinqüência. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
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