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O
tão difícil rito de passagem |
Lidia
Maria Kroth
Pedagoga Orientadora Educacional - Escola Estadual
de Ensino Fundamental Paraíba - POA - RS, Orientadora
Educacional - Escola Estadual de Ensino Fundamental Tancredo
Neves POA - RS, Professora de 2 série do Ensino
Fundamental.
E-mail
- lidiakroth@hotmail.com
Alguns professores, por exemplo, querendo inovar sendo
mais democráticos, colocam-se no mesmo lugar do
aluno. Este é um equívoco na interpretação
de algumas teorias pedagógicas mais atuais, que
pretendem uma educação libertária.
Partindo das observações realizadas em instituições
de ensino, e, após tomar conhecimento das dificuldades
encontradas pelos docentes, em relação ao
tão conturbado rito de passagem, achei por bem,
buscar subsídios para que eu como Orientadora Educacional,
pudesse auxiliá-los nesta difícil caminhada,
levando sempre em conta os aspectos psicosociais.
Assim sendo, farei algumas reflexões enfocando
a questão da adolescência a fim de compreender
o que ocorre de diferente na relação professor
com o aluno adolescente; quais os processos conscientes
e inconscientes, de ambas as portes, envolvidas neste
relacionamento tão conturbado. Procurarei enfatizar
como o adolescente coloca-se subjetivamente, perante o
professor e vice-versa; que expectativas e possíveis
frustrações tomam lugar e em que medidas
vêm atrapalhar o processo de ensino e aprendizagem.
Buscarei respaldo teórico, no pensamento psicanalítico,
pois tem desenvolvido material rico e importante para
a compreensão da adolescência.
A adolescência é uma época de grandes
transformações, desde a relação
do indivíduo com seu próprio corpo até
seu reconhecimento social. Estas transformações
exigem grande adaptação por porte do sujeito
e isto não ocorre sem conflitos. Adolescer é
deixar de ser criança e tornar-se adulto, trocando
heteronomia por autonomia, abandonando antigos padrões
de relacionamento para desenvolver novas formas de relacionar-se,
de vincular-se ao outro.
Ao alcançar este estágio de desenvolvimento,
o sujeito, ainda um tanto imaturo, deve haver-se com questões
que possam parecer-lhe complexos demais frente ao que
ele reconhece com suas possibilidades. O adolescente depara-se
com tarefas importantes e difíceis, como alcançar
sua autonomia de pensamento, construindo um sistema próprio
de valores; deve diferenciar-se da família e lançar-se
na direção de um reconhecimento na sociedade
que passa pelo reconhecimento no grupo de iguais - fazendo
uma escolha profissional, encontrando um objeto de amor
fora do seio familiar.
Também o corpo sofre grandes transformações
nesta etapa da vida, tornando-se gradualmente mais sexuado:
as diferenças entre meninos e meninas ficam cada
vez mais evidentes, provocando o adolescente a questionar-se,
a ater-se sobre sua sexualidade. Aqui é preciso
diferenciar puberdade de adolescência: a primeira
tem a ver com os processos do corpo, com a maturação
sexual física (surgindo pêlos pubianos, crescimento
dos seios, do pênis, mudança de voz, etc.),
que ocorre acompanhado ou não da adolescência.
Esta última tem mais a ver com a maturação
psicológica e social e pode ter início antes,
durante ou depois da puberdade.
Outra coisa que contribui para esta diferenciação
é o fato de que a puberdade tem um período
mais ou menos definido para começar e para concluir-se,
que coincide em todos os povos e latitudes, com raras
exceções.
Dois acontecimentos fortalecem o advento da puberdade:
a menarca para a menina, e a primeira ejaculação
para o menino, que devem ocorrer, em média, por
volta dos 12 aos 15 anos.
Em contrapartida, não é possível
definir um período em que deve ocorrer a adolescência.
Este tempo varia conforme a cultura e o indivíduo:
em algumas culturas, alguns ritos de iniciação,
em um período de tempo muito pontual, dão
conta de fazer esta passagem.
Atualmente, na sociedade ocidental em que nos inserimos,
a adolescência tem sido cada vez mais prolongada.
Isto fica claro se considerarmos a aquisição
de autonomia financeira, sair da casa dos pais, ou exercício
de uma profissão como critérios, por exemplo.
OSORIO (1989, p.30)
Afirma que podemos avaliar o término da adolescência
a partir de algumas aquisições do indivíduo,
tais como: o estabelecimento de uma identidade sexual;
a possibilidade de estabelecer relações
afetivas estáveis; a capacidade de assumir compromissos
profissionais e manter-se economicamente; aquisição
de um sistema de valores morais pessoais; a relação
de reciprocidade como a geração precedente.
Mesmo com todo os determinantes muitos autores consideram
que a puberdade que inaugura o processo adolescente.
ABERASTURY e KNOBEL (1992, p.63) têm esta postura,
como se pode ver nas seguintes passagens:
"(...) a definição do papel feminino
ou masculino na união e procriação
e as mudanças corporais que acontecem durante este
processo - aparecimento os caracteres sexuais secundários
- são o ponto de partida das mudanças psicológicas
e de adaptação social (...) também
as modificações corporais incontroláveis
como os imperativos do mundo externo que exigem do adolescente
novas pautas de convivência são vivenciados,
no começo, como uma invasão".
LEVISKY (1998: p.54)
Explica que o que impõe uma definição
da sexualidade nesta fase é a representação
social da aquisição da capacidade reprodutora.
Também a transformação do corpo só
pode chamar a atenção do jovem para as funções
sexuais que pode então desempenhar, como para tudo
o que diz respeito à sexualidade.
Ao mesmo tempo, a percepção do adolescente
lhe diz que está cada vez mais parecido fisicamente
com os adultos e cada vez menos parecido com as crianças,
mudança que vai acontecendo muito rápido
e é incontornável. Essa semelhança
com o corpo dos adultos vem alertar o adolescente de que
em um intervalo de tempo relativamente curto ele virá
a ser um deles. Levisky também chama a atenção
ao fator do tabu do incesto, que nesta fase pode deixar
de ser fantasia, determinando a busca de um objeto de
amor fora do seio familiar.
A semelhança com os adultos também lhe provoca
a pensar em uma profissão, em um objetivo para
sua vida na necessidade de encarregar-se do próprio
destino. Enfim, precisa estabelecer uma identidade pessoal
adulta. Até mesmo a sociedade logo vai lhe reconhecer
o direito ao voto, vai considerar sua vontade, vai lhe
dar voz de adulto, vai reconhecer-lhe a maioridade.
Todas essas transformações biopsicossociais
não poderiam mesmo acontecer sem conflito. Longe
disso, a adolescência é classicamente reconhecida
por ser um período de intempéries. Ao mesmo
tempo em que se vê forçado a dar conta de
adaptar-se a todas essas novidades que se lhe apresentam,
o adolescente precisa elaborar diversos lutos como a perda
dos pais da infância, do corpo infantil, do próprio
lugar de criança. Ele precisa deixar de ser quem
é em prol de um vir a ser alguém que ainda
não conhece, precisa desapegar-se de sua identidade
infantil que já não dá conta de quem
ele está se tornando. Em outras palavras, o adolescente
já não é e ainda não é.
Geralmente, os questionamentos acerca do processo adolescente
derivam dissertações sobre a tarefa do jovem
em produzir uma identidade, que deve, ao termo dessa fase,
tornar-se estável, como se isto fosse inerente
ao adolescer. Ou seja, é de comum acordo entre
os teóricos psicológicos que a grande tarefa
do adolescente é dar conta de produzir uma identidade
estável que lhe viabilize o ingresso no mundo adulto.
Isto talvez ocorra em reação à instabilidade
do adolescente à insistência com o adolescente
não se deixa, muitas vezes, "grudar"
por identidade nenhuma, preferindo "ser essa metamorfose
ambulante", que se reflete nas rápidas mudanças
de humor, de atitudes, de roupas, de idéias.
Isto acontece justamente na fase em que o sujeito alcança
também a maturidade mental, ou seja, quando, por
volta dos doze anos, inicia o estágio das operações
formais, descrito por Piaget. O adolescente torna-se muito
mais capaz de pensar em possibilidades além das
coisas reais e concretas por ter atingido a abstração
do pensamento. Também tem muito mais capacidade
de observar suas aptidões, suas opções,
etc., podendo pensar sobre profissões, sobre o
futuro O adolescente vai poder sistematizar o pensamento,
criando possibilidades, será capaz de imaginar-se
em diversas situações pensando abstratamente.
Esta mesma capacidade também pode facilitar-lhe
as relações familiares e sociais, pois ele
pode planejar suas ações prevendo as conseqüências
e criando explicações alternativas para
suas condutas.
As crenças do adolescente vão se modificando
ao longo desse desenvolvimento cognitivo, à medida
que o adolescente vai adquirindo uma visão mais
crítica, que incide inclusive sobre suas próprias
crenças. Outra característica do pensamento
do adolescente é o relativismo: o adolescente levanta
dúvidas a respeito de tudo. Suas próprias
crenças estão sendo renovadas e ele coloca
tudo à prova porque relativisa: nada é muito
confiável; nada está tão certo que
não possa ser questionado. Isto também é
reforçado pela capacidade adquirida de debater
um assunto, por ter clareza sobre o próprio pensamento
e também por poder prever o que o outro está
pensando, e saber ver uma mesma questão por diversos
ângulos. Ou seja, um adolescente é capaz
de discutir qualquer norma imposta, qualquer coisa que
antes pensava ser inquestionável, irrevogável.
A intelectualização é também
um recurso muito utilizado pelo adolescente, que tem muito
mais conteúdo para subsidiá-la. Ele é
capaz, por exemplo, de dar explicações teóricas
sobre o próprio comportamento a fim de justificar-se,
utilizando-se inclusive da capacidade de metaforizar.
ABERASTURY a KNOBEL (1995: p.38) tomam a intelectualização
entre as defesas de que o adolescente lança mão
para apaziguar seus conflitos internos e auxiliam na elaboração
das situações de perda (de sua identidade
infantil, dos pais, da infância, do corpo,...) tão
dolorosas.
A adolescência é, sem qualquer dúvida,
uma fase de transição, da infância
à idade adulta, mas está muito longe de
ser um hiato, já que seus processos são
intensos, ainda que sejam na maioria internos, seria cabível
considerar (e isto não é nada original)
este estágio ao do casulo no ciclo vital da borboleta.
A medíocre e feiosa larva, ao passar por um processo
de transformações - tão intensas
que pedem o isolamento do casulo - tem a chance de tornar-se
uma bela borboleta, digna de todo reconhecimento, não
apenas familiar, mas social inclusive.
Em troca da renúncia à fusão com
a mãe, a criança recebe a promessa de um
lugar futuro de gozo pleno, onde tudo lhe será
possível, e do qual poderá usufruir quando
crescer. O adolescente, crescido o bastante para utilizar-se
da capacidade adquirida de abstração e crítica,
frustra-se então ao perceber que a promessa era
falsa, tratava-se de um engodo, e que o gozo pleno, na
realidade, não existe O jovem pode perceber que
nem seus pais têm acesso ao tal gozo que lhe foi
prometido e pode deduzir que também ele jamais
o alcançará: o adolescente constata que
a castração é generalizada a todos,
inclusive aos adultos. Certamente, um luto importante
deve tomar lugar neste momento. É quando o adolescente
constata que seus pais nunca foram de fato heróis,
e, se ele seguir o caminho dos pais, também não
o será.
Em função desta decepção,
ter de abrir mão da infância em prol de um
vir a ser adulto coloca o sujeito adolescente num lugar
muito conflituado, por encontrar em si sentimentos e desejos
muito ambíguos, ou mesmo contraditórios:
quer tornar-se adulto a poder tomar as rédeas de
seu destino, mas não aceita o modelo de adulto
que tem e, ás vezes, prefere mesmo permanecer acomodado
ao desejo dos pais, sem ter de responsabilizar-se por
suas decisões, etc.
Considerando tudo isso, podemos concluir que o conflito
é inevitável Conflito entre pulsões
de fusão a diferenciação (desejos
contraditórios), conflito entre as exigências
do mundo externo e a realidade do mundo interno, vividos
com tal intensidade pelo adolescente que terminam por
provocar o que se denomina como a "síndrome
da adolescência normal", muito bem caracterizada
por ABERASTURY a KNOBEL (1992).
"Penso que a estabilização da personalidade
não se consegue sem passar por um certo grau de
conduta patológica que, conforme meu critério.
Devemos considerar inerente à evolução
normal desta etapa da vida. (...) As lutas e rebeliões
externas do adolescente não são mais dos
reflexos dos conflitos de dependência infantil que
intimamente ainda persistem. Os processos de luto obrigam
a atuações que têm características
defensivas, de caráter psicopático, fóbico
ou contrafóbico, maníaco ou esquizoparanóide,
conforme o indivíduo e suas circunstâncias."(p.27)
Anna Freud (1995: ano V, n.11) chega mesmo a postular
que a sustentação de um equilíbrio
constante ao longo da adolescência é, por
si mesma anormal, a que se espera que um adolescente saudável
sofra uma quebra no crescimento pacífico. Ela coloca
que, as manifestações comportamentais do
adolescente que podem vulgarmente ser vistas como patológicas,
na verdade, não são mais do que a externalização
do conflito interno que o adolescente precisa elaborar.
A razão de ser de tamanho conflito é certamente
a necessidade de uma grande adaptação, talvez
comparável à que ocorre na ocasião
do nascimento, e que muitas vezes o sujeito pode perceber-se
incapaz de realizar. Adolescer é morrer em parte,
como criança, e nascer como adulto. Isso que para
a criança poderia constituir-se num ideal, para
o adolescente está bastante longe disto, pois ele
já descobriu que os adultos também não
têm as repostas para suas questões, também
eles são falhos.
Enfim, o adolescente vê-se impelido a assumir uma
postura adulta, deixando sua condição infantil,
o que lhe provoca conflitos muito importantes, inclusive
em relação ao que realmente quer: Se for
diferenciar-se dos pais, ou retornar ao ponto em que os
conflitos ainda não existiam: o estado fusionado
com o outro. Isto tudo ocorre, justamente. Quando o sujeito
percebe que os adultos são falhos, são injustos,
não sabem de tudo e, ainda assim, querem determiná-lo.
Em relação a isto, LEVISKY (1998) chama
atenção para as contradições
do mundo em que vivemos. Afirmando que estas só
vêm acentuar os conflitos internos vividos pelo
sujeito adolescente
"Fala-se de amor e faz-se a guerra, e através
da guerra almeja-se a paz. Deseja-se a liberdade, fala-se
de confiança, mas usa-se da repressão, da
violência e do suborno. Defende-se o sexo como expressão
sublime do amor e vende-se o corpo em anúncios
de cigarro, de carros ou de outra coisa qualquer que possa
ser consumida." (p.92).
Esta decepção com o mundo dos adultos vem
juntar-se com o luto pelos pais da infância, que
eram verdadeiros heróis e o adolescente os vê
como fracassados. Quer então fazer diferente do
que eles fizeram, e contesta-lhes toda e qualquer imposição,
exige-lhes explicações para suas determinações
e questiona tudo, aproveitando-se de sua desenvolvida
capacidade mental para isto.
O adolescente vê a pior face de seus pais e a denuncia,
revoltado. Passando também a questionar qualquer
valor estabelecido por estes ou pela sociedade. Toda norma
que antes tomava corno irrevogável, agora o adolescente
põe em pauta, discute, debate, duvida, estando
em plenas condições de fazê-lo com
sucesso.
RASSIAL (1997, p.82) revela que, na relação
com os pais e com todos os adultos, em função
de tantas decepções já vividas, o
adolescente estará sensível a toda contradição
interna ao discurso, ou entre o discurso e o ato, e não
será tolerante à constatação
deste sintoma, podendo até mesmo parecer paranóico.
Uma das faces dessa revolta adolescente pode ser entendida
como expressão da pulsão diferenciadora,
gerando o que se convencionou chamar de "conflito
de gerações".
Anna Freud (1995: Ano V n.11) considera normal que os
pais sejam o primeiro alvo desta revolta adolescente,
explicando:
"Como pelas identificações prévias,
é justamente com os pais que a mente juvenil está
mais ´fundida´, torna-se imperioso acentuar
o confronto de idéias a nível familiar para
que se facilite o processo discriminatório sem
o qual a identidade permanece num estado caótico
ou indiferenciado."
O processo de diferenciação a individuação
é continuo desde o nascimento, contudo, na adolescência,
o indivíduo encontra-se novamente em um momento
crítico desse processo.
Segundo OSÓRIO (1989 p.64), este estágio
adolescente está relacionado diretamente com os
primórdios da individuação 'eu/não
eu´ da primeira infância, que passa então
por uma reedição que visa uma resolução
em direção à autonomia psicológica.
Também o conflito vivido na fase edípica
é reeditado na adolescência, quando o sujeito
precisa resolver a fase fálica interrompida pela
latência, a fim de ingressar na genitalidade madura.
Neste momento, o incesto representa grande angústia
para o adolescente, que se percebe em condições
de concretizar suas fantasias infantis, de forma que,
também por isto, sente a necessidade imperiosa
de afastar-se dos genitores. Busca então o grupo
de iguais, fora de seus laços sangüíneos,
onde pode ter uma vivência semelhante à familiar,
contudo sem o risco de incesto.
O adolescente estará menos interessado, e até
mesmo intolerante, em relação ao contato
com os pais. Em lugar desse apego infantil, o adolescente
busca agrupar-se com outros adolescentes que vivenciam
as mesmas angústias a com quem podem mais livremente
trocar experiências afetivas.
Segundo BLOS (1996, p.52), os adolescentes agrupam-se
naturalmente também devido à necessidade
psicológica de diferenciarem-se dos adultos.
A psicanálise considera que é necessária
certa dose de agressividade para alcançar-se qualquer
diferenciação entre o sujeito e o objeto.
Essa diferenciação entre sujeito e objeto,
esse corte, só poderá ocorrer quando estiver
presente a mesma agressividade que dá à
mãe e ao filho a força necessária
para o parto, em uma primeira separação.
Porque separar-se psicologicamente do objeto implica em
um novo nascimento: o nascimento como sujeito psicológico
capaz de desejar, de posicionar-se de duvidar, etc.
A essa agressividade sadia, Freud nomeou Desejo Hostil
Diferenciador, presente e atuante em qualquer ser humano.
WINNICOTT (1987), em acordo com Freud também reconhece:
"A agressão está sempre ligada, desta
maneira, ao estabelecimento de uma distinção
entre o que é e o que não é o eu".
(p.98).
No auge do processo de diferenciação, o
adolescente normal é acentuadamente agressivo,
o que muitas vezes determina sua participação
em atos violentos, como nas guerras. Às vezes,
sem a possibilidade de expressar sua agressividade de
outra maneira (quando seus impulsos agressivos não
são aceitos em seu grupo de convivência),
o adolescente pode tornar-se delinqüente, praticando
atos de vandalismo e mesmo de violência.
Essa agressividade diferenciadora vem agora incrementada
pelas aquisições cognitivas alcançadas
pelo adolescente. Contando com isto, ele pode ser muito
mais contundente em suas críticas ao outro, ou
aos pais em primeiro lugar. Toda essa revolta pode deixar
os pais atônitos, sem poderem reconhecer na tal
"metamorfose ambulante" seu amado filho. Considerando
a posição dos pais frente ao fenômeno
que ocorre com seu "filhinho" ao passar este
pela adolescência. Anna Freud (1995) escreveu:
"Enquanto um adolescente permanece inconsciente e
imprevisível em seu comportamento, ele pode sofrer,
mas ele não me parece estar necessitando de tratamento.
Penso que lhe deve ser concedido tempo e espaço
para trabalhar sua própria solução.
Ao contrário, podem ser seus pais os que necessitam
ajuda e orientação para serem capazes de
tolerá-lo. Há poucas situações
na vida que são mais difíceis de enfrentar
do que um filho adolescente." (ano V, n.11)
A adolescência do filho é um indício
claro de que os pais estão envelhecendo - e isso
é muito frustrante em uma sociedade tão
obcecada pela juventude como essa em que vivemos. A sexualidade
dos filhos, que se aproximam do máximo vigor físico
e sexual, pode fazê-los questionar-se a respeito
de sua própria sexualidade; o idealismo do adolescente
pode fazê-los perceber que ainda não realizaram
seus grandes sonhos.
Os pais também definem-se em função
dos filhos e a iminência dos filhos saírem
de casa provoca nos pais o questionamento de suas funções
na família e mesmo de sua própria identidade:
depois de abrirem mão de tantas coisas em prol
da educação dos filhos, o que farão
sem eles; o que serão sem eles.
Neste momento, a família precisa remodelar-se:
o adolescente já não precisa dos mesmos
cuidados de uma criança e também não
mais aceita regras impostas ou arbitrariedades. Neste
período, pais e filhos precisam estabelecer novos
padrões de relacionamento, que estejam embasados
no reconhecimento a no encorajamento das necessidades
de independência dos filhos. Mas isto, para os pais,
pode significar que eles em breve tornar-se-ão
desnecessários e nem todo pai ou mãe está
preparado para enfrentar tal situação. Assim,
alguns pais seguem sendo autoritários com os filhos,
não lhes reconhecendo a alcançada autonomia
de pensamento.
Os pais precisam reinventar seu lugar, como coloca RASSIAL
(1987 p.85), e devem separar-se do que lhes parecia parte
de si mesmos. Eles também efetuam um trabalho de
luto com a adolescência dos filhos. Este autor reflete
também sobre a relação do casal de
pais, que, frente à emancipação do
filho, não poderão mais sustentar o casamento
sobre as funções de pai e de mãe.
Outro fator importante a considerar é que os pais
revivem sua adolescência na adolescência de
seus filhos e todos os conflitos experimentados e não
bem resolvidos podem fazer ressurgir a angústia
que os atormentava em seu tempo adolescente.
O Adolescente e o Professor
O adolescente, em sua necessidade de diferenciar-se dos
pais (e do mundo dos adultos), torna-se aguçadamente
crítico na relação com os mesmos,
não tolerando destes qualquer contradição
no discurso ou na prática e contestando tudo que
lhe parece arbitrário. Todo o comportamento de
confronto do adolescente vem ainda incrementado pelos
impulsos agressivos, tão característicos
desta fase do desenvolvimento, e pelas aquisições
cognitivas que lhe permitem explorar alternativas, debater
posicionamentos, etc.
Da mesma forma que as crianças em fase de latência
têm prazer pelo conhecimento, o adolescente, por
sua vez, experimenta suas novas capacidades intelectivas
com verdadeiro gozo. Ele surpreende-se com suas possibilidades
e considera-se fantástico na originalidade de seus
pensamentos. O adolescente quer pensar diferente do adulto
e sente-se realmente capaz disto. Assim, além de
sua natural e clássica tendência ao confronto
com os adultos, o simples exercício de duvidar,
questionar, propor alternativas (que vem consolidar tais
aquisições), é realizado com imenso
prazer.
O professor é o representante do mundo dos adultos
na Escola, e é aquele responsável por permitir
a passagem do laço familiar ao laço social
(tarefa da adolescência), estando no lugar de figura
de autoridade desempenhado primeiramente pelos pais dentro
da família. Assim sendo, toda a agressividade diferenciadora
dirigida aos pais, em casa também será direcionada
ao professor, na Escola. Assim como o adolescente questiona,
duvida e debate toda a norma proposta ou imposta pelos
pais, também o fará com as proposições
do professor, na esperança de que este possa escutá-lo
e oferecer-lhe os limites à sua confusão
interna com a coerência de um pensamento amadurecido.
Ainda em uma primeira fase, o adolescente pode tomar o
professor como modelo, na esperança de que este
possa representar a possibilidade de um vir a ser um adulto
infalível. O adolescente ainda está em busca
de um herói que possa colocar no lugar dos pais
da infância, em busca de alguém perfeito
em quem possa espelhar-se, e a quem possa ter como modelo
O adolescente é idealista e pretende de si mesmo
a perfeição: ele não quer ser falho
como seus pais. É nada menos do que essa mesma
perfeição que exige de seu mestre.
Sensível a toda contradição dos adultos,
justamente por estar cm busca de um adulto sem falhas,
logo o adolescente vai decepcionar-se também com
seu mestre, sentindo-se novamente traído. Assim
como despreza os pais por suas falhas, o adolescente também
rechaçará seu mestre, questionando-o justamente
na direção daquilo que nele é falho.
O adolescente fere o professor na ferida narcísica,
aberta em sua própria adolescência, pois
também o professor já almejou de si mesmo
a perfeição, também ele frustrou-se
como os adultos fracassados e quis fazer uma diferença.
Ao sofrer o rechaço do adolescente, o professor
esta justamente colocado no outro pólo desta díade:
é ele quem fracassou. A adolescência do aluno
proporciona ao professor a vivência do outro lado
de sua adolescência: o lado dos adultos, e este
pode então deprimir-se pelo sofrimento causado
por ele a seus mestres. Sofrimento que ele vem a conhecer
na própria pele, atualizado na relação
com seu aluno.
E como os pais podem não estar preparados para
este confronto (com o adolescente externo a com o adolescente
interno), também o professor pode ficar um tanto
perdido nesta relação com o aluno adolescente.
Tal despreparo pode levá-lo a cometer diversos
equívocos, como pude observar em minha experiência
na Escola.
Alguns professores, por exemplo, querendo inovar sendo
mais democráticos, colocam-se no mesmo lugar do
aluno. Este é um equívoco na interpretação
de algumas teorias pedagógicas mais atuais, que
pretendem uma educação libertária.
KHOURI (1984), escreve neste sentido:
"No processo libertador, o educador e o educando
colocam-se no mesmo lugar, à procura do conhecimento
recriado e co-participado, o qual não detém
a criatividade de ambos..." (p.5)
O que um adolescente realmente necessita é de um
adulto em um lugar diferente do seu, capaz de assumir
a posição de uma figura de autoridade que
possa conter os impulsos e as angústias próprios
da adolescência. Um adulto que esteja em outro lugar,
que tenha sido bem sucedido em sua passagem pela adolescência
e tenha já desvencilhado-se desta, pois é
preciso acreditar que tanta confusão é parte
de uma fase passageira da vida.
Ao deparar-se com um professor que, querendo ser "legal",
apresenta-se como um igual para o adolescente, a confusão
é ainda maior para este sujeito. À deriva
de suas pulsões e de seu descontrole emocional,
o adolescente vê-se novamente ameaçado pelo
perigo de incesto, pois, a figura do professor, que deveria
estar no lugar dos pais, quer estar no lugar de um igual.
O resultado é um incremento no caos vivenciado
pelo adolescente, que se vê forçado a rechaçar
o professor mais intensamente ainda, num desesperado apelo,
que poderia ser traduzido pela expressão: "vê
se te enxerga!".
lsto daria conta de explicar algumas das aulas mais caóticas
que tive ocasião de observar, em que a professora,
mascando chicletes e vestindo-se de maneira sedutora,
era menosprezada e mesmo ridicularizada pelos alunos,
que gritavam e corriam pela sala de aula enquanto também
ela gritava o "conteúdo" de sua "disciplina".
Durante cinqüenta minutos permaneci nesta observação
e, em todo este período, não houve um momento
de tranqüilidade. Entendo que o caos naquela sala
estava refletindo o caos vivido internamente por aqueles
alunos adolescentes, angustiados por não encontrar
continência ou contenção na figura
do professor, mas sim o reflexo de si mesmos.
É preciso que o professor tenha bem resolvida sua
própria adolescência para estar em condições
de suportar a de seu aluno. Quando isto acontece, o professor
pode realizar-se lecionando aos adolescentes, como ouvi
de algumas professoras na Escola. Estas referiam que os
adolescentes, sendo desafiadores as levavam a aprimorarem-se
sempre mais e que os debates entre eles eram muito ricos
a estimulantes. Isto só é possível
se o professor está preparado para ser confrontado
pela dura crítica do adolescente que é,
muitas vezes impiedoso, ferindo a auto-estima de seu professor.
A este rechaço do adolescente, vem somar-se o descaso
social à figura do professor, que muitas vezes
percebe-se identificado com a adolescência de seu
aluno pela impossibilidade de ter autonomia econômica,
por exemplo. Assim como o adolescente reivindica de seus
pais ou mestres, o professor vê-se na situação
de reivindicar do governo que seja mais democrático,
mais justo, menos falho. Na realidade, não é
possível esperar do professor que, com tudo isto,
ainda seja um herói.
Contudo, é preciso que exista sempre lugar para
o diálogo, o que somente será possível
se o professor conhecer o lugar a partir do qual seu aluno
lhe fala. No caso da adolescência, um lugar de passagem,
de descobertas, conflitos, de anseios e esperanças
de que tudo isto passe um dia.
É preciso que o professor demonstre ao aluno adolescente
que o mundo adulto é viável com suas faltas
e apesar delas. É preciso que o professor permita-se
falhar e não se condene por isto, para que o adolescente
possa também aceitar-se com suas faltas, com suas
impossibilidades, pois compreenderá que a perfeição
é apenas um ideal a ser buscado, mas não
alcançado; e que, apesar disso, poderá ser
feliz, em alguma medida, no mundo que existe.
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LEVISKY, David L. Adolescência e Violência:
Conseqüências da realidade brasileira. Porto
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________. Desenvolvimento Psicossocial da Adolescente.
Em Clínica Psicanalítica de Crianças
e Adolescentes. Rio de Janeiro: Livraria e Editora Revinter,
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RASSIAL, Jean-Jacques. A passagem Adolescente: da família
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1997.
WINNICOTT, Donald W. - Privação e Delinqüência.
São Paulo: Martins Fontes, 1987. |
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