A
teoria vygostyana e a prática psicopedagógica
Janete Leony Vitorino
Graduada
em História pela Universidade do Estado de Santa
Catarina-UDESC, pós-graduada em Psicopedagogia
pela Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL,
pós-graduanda em Educação Infantil
e Séries Iniciais pela Faculdade de Educação
de Joinville. Atualmente é Professora Mediadora
do Centro Integrado de Educação do SESI,
desenvolvendo trabalho com alunos que apresentam dificuldade
de aprendizagem.
Email: janetepsicopedagoga@yahoo.com.br.
Resumo
O presente artigo analisa, teoricamente
e através de pesquisa bibliográfica, a
prática psicopedagógica dentro da teoria
vygotskiana. O trabalho do psicopedagogo apresenta-se
nos processos normais de aprendizagem, atuando de forma
preventiva nas instituições educacionais,
como também na percepção das dificuldades
de aprendizagem que já se apresentarem instaladas,
atuando no diagnóstico e nas terapias psicopedagógicas.
O profissional da psicopedagogia tem assumido diariamente
contornos diferenciados, pois toda criança antes
de chegar na escola já possui uma pré-história
escolar.
Palavras-chave
Trabalho psicopedagógico; Processos
de aprendizagem; Pré-história escolar.
Abstract
The present article analyses the Psichopedagogic
practice inside the Vygotskyana theory, being of theoretical
character, bibliographical research character. The Psichopedagogic
work present itself inserted in the normal learmimg
process, acting as a prevention of the educational imstitutions,
as well as im the perception of the learmimg difficulties
already set up, actimg im the diagnosis and im the psichopedagogic
therapies. The psichopedagogic professional bas assumed
differemtia ted outlines daily, specialies an broad
regardimg the question related im the learning process
has a school prehistory.
Psicopedagogo é o profissional
que auxilia na identificação e na resolução
dos problemas no processo do aprender. Este profissional
está capacitado a lidar com as mais diversas
dificuldades de aprendizagem, um dos fatores atuais
que leva uma boa parcela de alunos à multirrepetência,
ao fracasso escolar e, conseqüentemente, à
evasão.
Weiss (2001) entende como fracasso escolar uma resposta
insuficiente do aluno a uma exigência ou demanda
da escola. Se o aluno não corresponde a esta
demanda "exigida" pela unidade escolar, algo
deverá ser investigado, num envolvimento global,
onde todos os profissionais que fazem parte desta organização
caminhem juntos ao encontro e no repensar de suas posturas
pedagógicas.
O fracasso escolar pode ocasionar problemas sociais,
que também perpassam por esta trajetória
de marginalização e exclusão social.
A identificação dos problemas de aprendizagem
necessita de um novo olhar a partir das organizações
educadoras.
Para Vygotsky (1989), a aprendizagem da criança
começa muito antes da aprendizagem escolar que
nunca parte do zero. Toda aprendizagem da criança
na escola tem uma pré-história.
O profissional da psicopedagogia detém um conhecimento
científico específico oriundo da articulação
de várias áreas envolvidas nos processos
e caminhos do aprender. Cabe a ele intervir, visando
a solução dos problemas de aprendizagem
e tendo como foco o aluno ou a organização
educadora (escola).
Realizar o diagnóstico e a intervenção
psicopedagógica também é uma atitude
que poderá ser efetivada através de métodos,
instrumentos e técnicas próprias da psicopedagogia,
sendo relevantes as questões ligadas à
prevenção.
Envolver-se em pesquisas e estudos científicos
acerca dos problemas e processos de aprendizagem é
de fundamental importância no trabalho do psicopedagogo,
pois é através de novos enfoques que poderão
ser alcançadas importantes considerações
a respeito da aprendizagem, bem como obtidos argumentos
concretos para o reconhecimento da profissão.
O psicopedagogo deve ter a consciência de observar
o indivíduo como um todo: coordenação
motora ampla, aspecto sensório-motor, dominância
lateral, desenvolvimento rítmico, desenvolvimento
motor fino, criatividade, evolução do
traçado e do desenho, percepção
espacial e viso-motora, orientação e relação
espaço-temporal, aquisição e articulação
dos sons, aquisição de palavras novas,
elaboração e organização
mental, atenção e coordenação,
bem como, expressões, aquisição
de conceitos, e, ainda, desenvolvimento do raciocínio
lógico-matemático.
Através destes complexos ambientes de observação,
procuramos entender o processo de aprendizagem segundo
a abordagem vygotskyana, partindo do pressuposto que
são várias as razões que determinam
o sucesso ou o fracasso escolar de uma criança.
A prática psicopedagógica é entendida
como o conhecimento dos processos de aprendizagem em
seus mais diversos aspectos: cognitivos, emocionais
ou corporais.
O trabalho psicopedagógico está inserido
no processo ensino-aprendizagem, atuando primordialmente,
junto aos profissionais comprometidos nas instituições
escolares de forma preventiva, detectando os momentos
de dificuldades e prevendo questões que seriam
motivo de tratamento futuro na vida educacional dos
aprendentes, como também, interagindo com o organograma
escolar quando os problemas de dificuldades de aprendizagem
já estiverem instalados, trabalhando nos diagnósticos
e nas terapias psicopedagógicas.
Segundo Vygotsky (1982), a atividade criadora é
uma manifestação exclusiva do ser humano,
pois só este tem a capacidade de criar algo novo
a partir do que já existe. Através da
memória, o homem pode imaginar situações
futuras e formar outras imagens. Sendo assim, a ação
criadora reside no fato da não-adaptação
do ser, isto é, de não estar acomodado
e conformado com uma situação, buscando
através do imaginário e da fantasia, um
equilíbrio, bem como a construção
de algo novo.
É mediante este pressuposto, que o trabalho psicopedagógico
se faz atuante. É descobrindo no aprendente suas
capacidades e desenvolvendo atividades que o auxiliam
na ordenação e coordenação
de suas idéias e manifestações
intelectuais.
A especificidade do tratamento psicopedagógico
consiste no fato de que existe um objetivo a ser alcançado,
a eliminação dos sintomas. Assim, a relação
psicopedagogo/aprendente é medida por atividades
bem definidas cujo objetivo é solucionar os efeitos
nocivos dos sintomas.
Como exemplo, podemos apontar os casos de problemas
de aprendizagem em relação à leitura,
motivo bastante freqüente de consultas psicopedagógicas.
É possível que uma criança não
aprenda a escrever porque lhe faltam recursos intelectuais
para elaborar e testar suas hipóteses acerca
desse novo objeto de conhecimento. É possível,
também, que uma criança cercada de recursos
possua dificuldades em relação à
ordenação das idéias e não
consiga organizar e construir seu conhecimento.
Ao psicopedagogo cabe, indiscriminadamente, trabalhar
as duas variantes aprendentes: de forma preventiva para
que sejam detectadas as dificuldades de aprendizagem
antes que os processos se instalem, como também
na elaboração do diagnóstico e
trabalho conjunto com família e escola frente
às intercorrências advindas das dificuldades
no processo do aprender.
Partindo da idéia de que toda criança
aprende, o profissional da área psicopedagógica
terá que encontrar entre as diversas teorias
educacionais a que mais se enquadra em cada caso diagnosticado.
Não se pode falar em aprendizagem sem, portanto,
considerar todos os aspectos relevantes na vida desse
sujeito que se relaciona e troca, a partir da criação
de vínculos.
No diagnóstico psicopedagógico, não
se pode desconsiderar as relações entre
produção escolar e as oportunidades reais
que a sociedade dá às diversas classes
sociais. Muitas vezes, os alunos de baixa renda ainda
são classificados como deficientes nas questões
do aprendizado.
Na realidade, faltam-lhes oportunidades de crescimento
cultural, de rápida construção
cognitiva e desenvolvimento de linguagem, o que, certamente,
aumentaria suas chances de êxito escolar.
A escola não pode ser vista isolada da sociedade,
pois o sistema de ensino, seja público ou privado,
reflete sempre a sociedade na qual está inserido.
Na verdade, não existem culpados, o que precisamos
é trabalhar, concomitantemente, para amenizar
a exclusão educacional e social.
O trabalho de conscientização e de prevenção
iniciado e proposto por um profissional da psicopedagogia
é muito bem-vindo em instituições
educacionais que possuem quadros de exclusão
semelhantes ao acima citado.
Portanto, pode-se afirmar que a absorção
de conhecimento pelo aluno depende da maneira pela qual
as informações lhes foram ensinadas, que,
por sua vez, dependem das condições sociais
que determinarão a qualidade deste mesmo ensino.
Professores em unidades escolares desestruturadas e
sem nenhum apoio material ou pedagógico não
terão como tornar real e atraente um conhecimento.
É preciso que o professor, competente e valorizado,
encontre prazer em ensinar para que possibilite o prazer
de aprender.
São abordagens como essas, que espelham nossas
realidades educacionais, que o profissional da psicopedagogia
considera diariamente.
Quando um psicopedagogo chega à instituição
escolar, muitas pessoas acreditam que ele vai solucionar
todos os problemas da escola, sejam eles de aprendizagem,
indisciplina, evasão, exclusão, desestímulo
docente entre outros. O trabalho é minucioso
e abrangente, pois o profissional da psicopedagogia
não trabalha isolado. Toda estrutura educacional
necessita estar envolvida e ciente das metas estabelecidas
no Plano Político Pedagógico (PPP).Por
isso o trabalho psicopegagógico se depara com
desafios e habilidades tais como: competência,
visão de mundo e conhecimento teórico/prático
que determinarão o sucesso deste trabalho.
Com o aluno (aprendente), o trabalho investigativo está
em saber se este quer aprender, se deseja ou não
aprender, se deixa seu desejo se manifestar a partir
da sua vontade e construir seu mundo de significados.
Com a instituição educadora (escola),
a investigação perpassa desde o organograma
até a conversa, em particular, com cada professor
em suas especificidades disciplinares, sem esquecer
de abordar o trabalho em conjunto onde todos queiram
alcançar um único objetivo: o sucesso
escolar dos alunos.
A aprendizagem refere-se a um confrontamento objetivo
e uma motivação: para aprender; é
necessário um vínculo e para que este
vínculo se instale ela passa, também,
pelo afeto.
Segundo Pichon, (1980), a aprendizagem é uma
estrutura dinâmica em contínuo movimento,
que funciona acionada ou movida por motivações
psicológicas.
Delors (1999), cita os quatro pilares essenciais para
um novo conceito de educação quais sejam:
aprender a conhecer, aprender a viver juntos, aprender
a fazer e aprender a ser.
Um desses pilares reflete uma postura amadurecida com
relação ao aluno:
... aprender para conhecer supõe, antes de tudo,
aprender a aprender, exercitando a atenção,
a memória e o pensamento. O processo de aprendizagem
do conhecimento nunca está acabado, e pode enriquecer-se
com qualquer experiência. A educação
primária pode ser considerada bem sucedida se
conseguir transmitir às pessoas o impulso e as
bases que façam com que continuem a aprender
ao longo de toda vida, tanto na escola como fora dela.
(DELORS, 1999, p.92).
É neste momento que a intervenção
psicopedagógica alcança seu maior grau
de desempenho, fazendo com que o aluno exercite, através
de estímulos, a atenção, a memória
e o pensamento lógico-crítico. Cabe ao
profissional da educação proporcionar
aos seus alunos oportunidades para que o conhecimento
para a vida aconteça.
Como o saber jamais se dará como acabado, o papel
do psicopedagogo terá uma ampla área de
atuação, fazendo com que seus aprendentes
descubram qual a melhor forma de reconhecer e desenvolver
suas capacidades intelectuais.
É na prática psicopedagógica que
a teoria vygotskyana pode ser vivenciada no enfoque
sócio-histórico-cultural. Partindo-se
do pressuposto que a criança, ao chegar à
unidade educadora (escola), já possui uma vasta
bagagem informativa proveniente do meio em que vive,
é papel dos educadores orientar e conduzir o
conhecimento a partir de uma prática vivenciada
e correlacionada à realidade da criança.
Para que o conhecimento se construa de fato, a relação
do educador/aprendente também passa pela afetividade
e pelo vínculo.
O educador que se compromete com a educação
deseja que seu aluno (aprendente) construa o conhecimento
para a vida. O professor é apenas um mediador
de um processo muito maior, que é o aprendizado.
Para Vygotsky, a relação entre o pensamento
e a palavra é um processo contínuo.O pensamento
não é simplesmente expresso em palavras,
mas, por meio delas, ele passa a existir.
A prioridade no ensino diz respeito, também,
às aptidões, às qualidades pessoais,
à cultura, à comunicação,
enfim, à valorização do conhecimento
que o aluno já possui e, a partir da sua visão
de mundo, o desenvolvimento de uma prática pedagógica
que estimule a pensar, criar, dialogar e participar
ativamente na construção de novos conhecimentos.
Considerações Finais
Na ótica vygotskyana, que nos
fornece subsídios para uma prática fundamentada
na construção do indivíduo como
pessoa, é fundamental que ele se insira num determinado
ambiente cultural, que tanto pode ser formado a partir
do seu grupo familiar, como, escolar, religioso, esportivo,
de manifestação folclórica etc.,
pois é esse grupo que fornece instrumentos que
irão possibilitar sua maturidade intelectual.
Poderíamos, então, observar que, a cada
dia, o objeto de estudo da psicopedagogia tem assumido
contornos diferenciados, específicos e amplos.
Não se trata do sujeito epistêmico de Piaget,
do sujeito do inconsciente de Freud, do sujeito cindido
de Lacan, do sujeito e suas zonas de desenvolvimento
de Vygotsky, entre tantos outros teóricos da
educação. Estamos tratando de resgatar
um sujeito completo. Não apenas a soma, mas a
articulação desses sujeitos em suas especificidades.
Nesta variante de teorias educacionais, somos ainda
aprendentes e, no caminhar de nossa especialização,
vamos nos identificando com alguns autores sendo o sóciointeracionismo
a corrente teórica que mais se assemelha ao nosso
pensar, não deixando, por isso, analisar e conhecer
todos os autores que contemplam a educação.
Cabe a cada profissional a maturidade e a consciência
de identificar qual teoria se enquadra a cada caso tratado.
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