Simonne Ramain
Extraído do texto publicado em julho de 1963
em "A Informação Psicológica"
A criança é, muito cedo, lançada
no tumulto da vida, onde tudo lhe é oferecido
sem método, tudo se atropela, se agita, em desordem.
Nesse vasto conjunto disparatado, discordante, a criança
se debate, não sabe ao certo em que e em quem
confiar, em que fixar sua atenção, que
esforço lhe permitirá ajustar-se a esta
agitação constante.
Essa torrente turbulenta que se dispersa em todas as
direções, contém certamente os
elementos educativos que permitem estruturar solidamente
qualquer um que soubesse discerni-los, extrai-los, mas,
ao contrário, nada permite utilizá-los.
Os programas escolares tentam ajustar-se às
necessidades de um mundo em perpétua evolução,
mas não apresentam o elemento de segurança
de que a criança tem necessidade. Sua densidade,
sua diversidade, nem sempre permitem prever o tempo
de assimilação necessário, e as
matérias ensinadas justapõem-se ou diluem-se
rapidamente, deixando a criança fragmentada em
si mesma, apesar de seus esforços e de sua boa
vontade.
A atenção, solicitada de toda parte,
não chega a se fixar. Ela se disperça,
procura em vão em que se agarrar, depois se evade
em direção a horizontes longínquos
ou a sonhos fantásticos, que deixam a pessoa
cheia de ilusões ou desamparada, ansiosa, insatisfeita.
Devido a sua impotência em reagir corretamente,
muito cedo a criança se desinteressa das atividades
que lhe são propostas, os de aplicação
tornam-se inexistentes, e são possíveis
somente quando a disciplina ou a atividade está
em harmonia com o interesse do momento.
Os interesses são necessários e em volta
deles junta-se o esforço do indivíduo
com vistas à uma superação num
campo determinado. Tais interesses competitivos não
se revestem do aspecto educativo que permita o conhecimento
de si e mantenha o esforço de aplicação
em todos os campos. Eles tendem a abranger somente o
que lhes está diretamente ligado, filtram tudo
e ajustam os elementos percebidos às suas próprias
necessidades.
Esse comportamento inconsciente diminui a disponibilidade
que tende a desaparecer. Pouco a pouco, a criança
não percebe senão o que se relaciona com
seus interesses, com suas tendências naturais.
Como a atenção vagabundeia e não
se fixa, torna-se incapaz de fazer o mínimo esforço
e não aceita nenhuma contrariedade.
Os interesses que acarretam tais resultados poderiam
ser comparados a um imã que não adere
senão àquilo que pode ser captado por
sua irradiação e, na vasta escolha das
solicitações que se oferecem à
criança, este centro de atração,
chamado centro-de-interesse, limita o campo de percepção
a seus próprios imperativos, a seus próprios
desejos. Fora do campo de atração, segundo
seu temperamento, o indivíduo se interessará
de bom grado naquilo que for bem secedido. Entretanto,
naquilo que se lhe opõe, ora deixar-se-á
levar por um doce devaneio, ora será implicante
e insuportável.
Algumas vezes interesses diversos projetam-se em direção
a atividades múltiplas sem lhe permitir encontrar
o elo, a atitude que o faria utilizar harmoniosamente
esse conjunto. Lacunas, falhas, não permitem
nenhuma estruturação válida, apesar
dos esforços, da boa vontade e do saber dos educadores.
Aos interesses específicos por disciplinas dadas,
seria preciso juntar "a atitude de interesse",
a partir da qual o indivíduo toma consciência
da maneira que determinará e tornará possível
o esforço de aplicação em todos
os campos, mesmo os menos atraentes.
"Interessar-se pelo que se faz com o real desejo
de fazer bem feito, sem escolha preferencial, não
tem nada em comum com os interesses descritos anteriormente".
O interesse banal não pode ser considerado como
elemento educativo, porque aquele que só faz
o que lhe agrada, não faz nenhum esforço
voluntário de aplicação. O atrativo
que vê no objeto de seus desejos torna-se o elemento
motor que determina seu comportamento, pois o indivíduo
deixa-se levar sem nenhuma participação
voluntária. Esta forma de interesse é,
algumas vezes, desejável para facilitar certas
aprendizagens ou para preparar a educação
d e crianças difíceis ou inadaptadas,
sabendo-se que, enquanto durar esse modo de aproximação,
a educação propriamente dita não
começou.
O interesse indispensável à atividade
humana volta-se contra o indivíduo e impede toda
tomada de consciência, quando não é
originado de uma atitude de aceitação
voluntária, independente de qualquer escolha
(somente quando o desejo de fazer bem anima o indivíduo,
e resolutamente empreende a tarefa proposta sem quebrar
sua promessa, é que ele participa de sua própria
educação: isto ocorre em todas as idades).
A qualidade dominante do ser é, parece, "a
vigilância", a atitude de atenção
que faz com que presente em si próprio, se possa
também estar presente naquilo que faz. É
isto que é preciso educar, antes de qualquer
coisa. E não se deve parar de alimentar esta
atitude enquanto o indivíduo não for capaz
de assumir sozinho tal responsabilidade.
É necessário, portanto, procurar em tudo,
e por tudo o que desperte esta consciência, esta
presença. É preciso fazer nascer esta
atitude vigilante que engajará o ser na ação,
tornando-o lúcido naquilo que ele faz.
Ser o ser é consciência, desenvolvendo-a
é que se desenvolve o ser.
_____________________
* Artigo publicado na Labyrinthe nº 11, maio de 1992.