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::. PSICOPEDAGOGIA E VIOLÊNCIA: ESTUDO DE CASO
José de Faria Filho
Professor do IBMR - Instituto Brasileiro de Medicina e Reabilitação; Integrante da Equipe do NOAP- PUC-Rio; Psicopedagogo (CEPERJ); Especialista em Recursos Humanos (FGV); Especialista em Educação e Reeducação Psicomotora (UERJ); Especialista em Atendimento à Criança e Adolescente Vítimas de Violência Doméstica (PUC-Rio).

INTRODUÇÃO
Este é um estudo de caso, em que o olhar à distância do processo terapêutico psicopedagógico de um cliente trouxe-me a "convivência" com autores de diferentes áreas do saber, que, de várias maneiras, deram-me sustentação para a feitura do trabalho realizado. Refiro-me às contribuições extraídas da psicanálise, da psicomotricidade, da clínica da violência e obviamente da própria psicopedagogia. As vicissitudes enfrentadas pelo cliente, neste caso, são, ainda hoje, fonte de significativo aprendizado.
APRESENTAÇÃO DO CASO
Historicidade e Observações Diagnósticas
A criança, que aqui chamarei de Felipe, me foi encaminhada para atendimento, junto ao NOAP (Núcleo de Orientação e Atendimento Psicopedagógico)-PUC-Rio.
Felipe era uma criança de 10 anos, pertencente à classe de baixa renda, encaminhado por uma escola da rede pública, com a queixa de "dificuldade na leitura". Ele negava esta afirmativa, dizendo-me que sabia ler e que apenas gaguejava.
Pude constatar que Felipe não conseguia, por si só, ler qualquer texto, apesar da competência na leitura de palavras isoladas.
A historicidade de Felipe revelava episódios dramáticos. Sua mãe tinha 16 anos quando ele nasceu e já era mãe de outro filho de dois anos de idade. Veio grávida para o Rio, omitindo este fato para o segundo "companheiro". Com este homem teve mais um filho, um ano após o nascimento de Felipe. Aos dois anos e meio Felipe foi "dado para cuidar" a um casal sem filhos. Aos dez anos soube da falsa informação a respeito de sua paternidade. Nesta mesma ocasião perde contato com o irmão imediatamente mais novo, pelo fato de sua mãe tê-lo doado a terceiros, enquanto o mais velho (12 anos), após desentendimento com ela, torna-se criança de rua. Estes fatos causaram-lhe profundo sofrimento com crises de choro até mesmo no colégio.
Felipe estava envolvido com duas famílias que guardavam entre si valores divergentes e conflitantes. Na família biológica ocorriam negligências, abandonos, abuso psicológico e abuso físico (bater). As relações conjugais em que a mãe se envolvia eram sempre acompanhadas de brigas e discussões de toda sorte. Sua vida, marcada por relacionamentos com pessoas que de alguma forma traziam o seu difícil estilo de comportamento, resultava em desenlaces e sofrimentos a sua volta.
Indagando acerca do uso de um objeto transicional, recebi a informação que Felipe elegera o sutiã da mãe e que este lhe fora bruscamente retirado pelo companheiro dela.
No seu dia-a-dia, com a família de adoção, o importante era não brigar, não discutir e até mesmo não falar se possível fosse. Havia pouca circulação da comunicação no núcleo familiar.
Os "tios" estavam sempre pontuando os desacertos da mãe biológica. Diziam a Felipe que "ela (a mãe) é maluquinha, mas vai melhorar". Temiam os seus desatinos e colocavam "panos quentes", em busca de uma convivência pacífica. Ocupavam boa parte de seu tempo vivendo nos bastidores da vida desta mãe.
No espaço da intercessão entre as duas famílias havia sofrimento e dor. Permitiam-lhe visitar a mãe, mas à custa de grande sofrimento para a "tia". Havia o fantasma de que a mãe, a qualquer momento, poderia exigir-lhe o filho de volta. Desta forma o espaço entre estas duas casas era nebuloso, ameaçador e, a Felipe, melhor lhe parecia não fazer sua leitura.
O desejo de "tomar Felipe para cuidar" é mencionado a partir da percepção, por parte dos "tios", dos maus tratos sofridos por Felipe. Os "tios" falaram de um ato de caridade, porém demonstraram emoções que revelavam encantamento, amor e medo pela adoção. As vicissitudes até então enfrentadas pelos "tios" deixam clara a importância desta criança para o casal. Paralelamente, evidenciavam que o medo os impedia de assegurar a Felipe uma confiabilidade continuada.
Nas provas operatórias, realizadas com Felipe, constatei sua capacidade em classificar, fazer dicotomias e seriar, mas verifiquei que ele se confundia quando os elementos a trabalhar incluíam dados familiares. Felipe não fazia intercessões e inclusões de classes de elementos. As flutuações da atividade lógica e dos conteúdos nocionais indicavam não uma total ausência de construção, mas uma dificuldade essencial em chegar a uma estruturação lógica definitiva, como se permanecessem ligados a processos espaço-temporais que impedissem o sincronismo do raciocínio lógico-matemático. Funcionava atribuindo a cada ação produzida uma determinada significação causal, que o impedia de criar coordenações necessárias. Faltava-lhe a coordenação e equilibração entre o mecanismo de assimilação e o de acomodação. Ao expor o pensamento a forças de destruição, provocava algo no lugar de uma pausa que permitisse ao pensamento "tomar fôlego", antes de continuar adiante. Assim, apagando as representações e os pensamentos anteriores e posteriores instalava uma impossibilidade de leitura de um texto.
Sendo inusitado uma criança escolher o sutiã da mãe como objeto transicional, admiti ter havido alguma interrupção abrupta da amamentação e daí a decorrente fixação neste objeto tão próximo ao seio, primeiro objeto parcial. A escolha do sutiã da mãe remetia à fixação na área das sensações olfativas, algo bastante primitivo na ligação com o objeto. O sutiã da mãe foi-lhe retirado com o acréscimo da codificação imposta de objeto indecente. Diante deste fato questionei se a forma drástica da retirada de seu objeto transicional não justificava seu modo superficial de contatar os objetos do conhecimento e mesmo sua limitada capacidade imagética.
A partir das informações disponíveis pressupus que, de alguma forma, algo grave acontecera com Felipe num momento precoce de seu desenvolvimento (onde se inclui inclusive a ida para um novo lar). Estava evidente que ele estivera exposto a diversas situações de violência doméstica, que, conforme Sluski1 , quando persistentes, sempre geram distorções cognitivas, independente de sua intensidade.
Uma busca mais acurada poderia dar conta do que representava o porte de Felipe. O zelo pelas questões do corpo o diferenciava das crianças de sua classe social. Seu modo de vestir-se era detalhadamente ajustado, das meias dos pés ao cabelo; seus movimentos eram sempre dentro da exata medida para cada situação, como se tudo isto lhe fosse indispensável à sustentação de seu próprio sentimento de existir. Sua postura sempre "alerta" o diferenciava muito das crianças com dificuldades na aprendizagem.
Quando da realização da Entrevista Operativa Centrada na Aprendizagem, face à dificuldade de confirmar seu interesse por um livro que apanhara sobre a mesa, derrubou uma caixa de lápis de cor, que se espalhou pelo chão. Desculpando-se, movimentou-se com desenvoltura, recolheu todos os lápis e fisicamente não mais se voltou para o livro. Diante das dificuldades na leitura seu corpo não se alterava, assumindo que apenas gaguejava. De alguma maneira sempre mostrava um corpo hábil para contornar situações de conflito.
A historicidade que o caso trazia, acrescida dos resultados das provas operatórias e projetivas, orientavam para as implicações de um falso self, que segundo Winnicott 2 "ao pesquisar a etiologia do falso self, estamos pesquisando o estágio das primeiras relações objetais." Continua Winnicott: "A mãe que não é suficientemente boa não é capaz de complementar a onipotência do lactante, e assim falha repetidamente em satisfazer o gesto do lactente". Os indícios apontavam para uma atuação precoce e excessiva de Felipe frente às impossibilidades de sua mãe em fornecer os cuidados devidos.
A seu modo, esta criança, não deixava transparecer suas limitações, até que a dificuldade com a leitura de texto foi percebida e evidenciada na escola e em casa.
Os resultados das testagens forneciam indícios de estruturas cognitivas defasadas e uma pobreza na estruturação interna que em muito contrastava com sua aparência.
Os minuciosos cuidados com seu visual, apresentados pelo porte físico, na maneira de vestir e mesmo na fala pronta e comedida, indicavam um ego pouco estruturado, a serviço de uma modalidade de aprendizagem comprometida.
No aqui e agora esta criança era amparada por uma família amedrontada, com limitações enquanto ambiente solicitador dos conteúdos cognitivos, porém contatada com o seu desamparo e a procura de apoio para lidar com Felipe.
Felipe atuava com o modelo hipoacomodativo/hiperassimilativo.
Compreendendo os conceitos da hipoacomodação e da hiperassimilação a partir das respectivas falas de Fernàndes,A 3 e Pain,S 4 temos: "Hipoacomodação: pobreza de contato com o objeto, dificuldade na internalização de imagens, a criança sofreu a falta de estimulação ou o abandono", "que aparece quando o ritmo da criança não foi respeitado, nem sua necessidade de repetir muitas vezes a mesma experiência. Sabemos que a modalidade da atividade do bebê é a circularidade, mas esta não pode ser exercida no caso de perder-se o objeto sobre o qual se aplica; isto por sua vez atrasa a imitação adiada e, portanto, a internalização das imagens. Assim, podem aparecer problemas na aquisição da linguagem, quando os estímulos são confusos e fugazes." "Hiperassimilação: "pode dar-se uma internalização prematura dos esquemas, com um predomínio lúdico, que ao invés de permitir a antecipação de transformações possíveis, desrealiza negativamente o pensamento da criança." e "predomínio da subjetivação, desrealização do pensamento, dificuldade para resignar-se."
De fato tratava-se de uma criança com pobreza de contato com o objeto e sua predominante subjetividade se referia uma subjetividade de estruturação empobrecida graças a esquemas adquiridos precocemente, que não lhe permitiam antecipações e realizações de pensamentos mais elaborados.
PROPOSIÇÕES E ATUAÇÕES TERAPÊUTICAS
Propus o atendimento individual de duas vezes por semana, incluindo a presença dos "tios" no último atendimento de cada mês.
Pautava-me na busca de uma atuação psicopedagógica "suficientemente boa", de forma a possibilitar "enfrentamentos" sem organizações de defesa apresentadas num falso self.
A esperança foi um marco desde os nossos primeiros encontros.
Trabalhar neste caso trouxe-me, por diversas vezes, mesmo diante de evidentes manifestações de resultados positivos, a sensação de perda do fio condutor traçado para o atendimento ou mesmo da consistência no atendimento.
O olhar à distância de como se desenvolveu o processo terapêutico de Felipe encontra recortes que evidenciam a representatividade das interações terapêuticas realizadas, que no aqui e agora puderam dar lugar a elaborações de questões arcaicas.
O atendimento com o grupo familiar
Uma certa expectativa cercou o primeiro encontro com todos os elementos do grupo. Felipe vivencia minha inclusão em um ambiente, com o qual ele mesmo lida com dificuldade. Iniciava-se a construção de um espaço transitório, propulsor de atividades compartilhadas.
Começamos devagar, pelas histórias de cada um. Os "tios" falaram de suas infâncias, lembradas com simplicidade, certo saudosismo e mesmo alegria. Foi um ótimo modo de começar: deu certo. Ainda neste encontro usamos um baralho, que propiciou classificações das cartas, organizando-as para que pudessem ficar mais bem contidas em nossas mãos (eram muitos conteúdos para serem contidos em suas próprias mãos). Tudo prosseguiu fluindo naturalmente. Continuamos brincando e fortalecendo a crença de poder propiciar um movimento voltado à construção e enriquecimento dos componentes do grupo.
O jogo com varetas
Durante o jogo de varetas a "tia" diz que um primo de Felipe o incentiva a se rebelar e que ela já se preocupava, pois ele estava começando a "colocar as manguinhas de fora".
Esta fala da tia se relacionava com as regras, pré estabelecidas pelo grupo, para uma maneira específica do jogo com varetas, ora em andamento. Nestas regras as cores estavam assim relacionadas: azul => fonte de negociação, verde => fonte de autorização, amarela =>espírito de cooperação, vermelha =>expressão de amor, preta => expressão de raiva. Assim ela podia, garantida pela maior pontuação com a cor preta, colocar seu mal-estar com o primo de Felipe. Foi pela fala da tia, sem medo do ataque, que o grupo pode evidenciar e avançar na aceitação de mudança de Felipe.
Ele de fato apresentava conquistas. Seu corpo dava mostras de momentos de relaxamento e o cuidado com a aparência tomava novos rumos. As novidades trazidas pelo grupo eram explicitadas e tomadas como novos pontos de partida em busca de outros avanços.
Um atendimento em área externa
Felipe me encontrou na área externa alguns minutos antes da sessão e veio sorrindo em minha direção. Sentou-se ao meu lado e ali conversamos um pouco, ancorados por uma natureza aprazível.
Convidei-o a andarmos juntos pela área. Lá existem várias placas indicativas entre diversos caminhos curtos, indicando nomes de prédios e instalações culturais. Sugeri que juntos saíssemos lendo estas placas. Ele me olhou reticente e creio que também receoso. Disse-lhe: que o mundo é também escrito. Ele sorriu concordando. Fomos parando, lendo, por vez nomes próprios estrangeiros, encontrando várias novidades. Em dado momento sugeri que cada um tomasse um caminho diferente e que nos encontrássemos em um ponto um pouco à frente.
Felipe há algum tempo frequentava aquele local e trafegava por ali só, sem risco de se perder e sem medos. Por essa razão me chamou atenção o fato de Felipe ao distanciar-se, buscar-me com o olhar, como se temeroso de me perder de vista. Ao me reencontrar, corria alegre em minha direção, como uma criança pequena, temerosa de ser abandonada por sua mãe. Ali, ouvia-me dizer-lhe: "é isso aí ... vamos de novo ... o mundo é assim: cheio de palavras, de frases, de falas, de sentimentos." Novos caminhos foram desvendados naquele espaço. Ampliamos distâncias, em tempos suportáveis, garantidos pela confiança dos reencontros. Outros atendimentos foram realizados na área externa, aumentando a quantidade e daí à qualidade.
Valendo-se de "pistas" para treino da leitura
Certa vez, tive a idéia de fornecer a Felipe dois envelopes com duas "pistas" escritas, sendo que a primeira tão só o levaria ao segundo envelope e neste outra "pista" propiciaria acesso a materiais que poderiam ser utilizados naquele atendimento.
Estas pistas eram sempre redigidas com poucas frases e de forma bastante simples. A primeira "pista" era colocada sobre a nossa mesa de trabalho e a segunda em local indicado pela primeira. As leituras de ambas eram suportadas pelo meu dedo. Assim, ele ia deslizando ou parando o dedo em conformidade com o desenvolvimento de sua leitura.
Nas sessões seguintes parei de colocar as "pistas", mas as reintroduzi, atendendo ao pedido dele. Novamente estava seguro da utilidade de meu dedo. Tomava-o como possessão de seu próprio corpo. Somente com o passar de meses descobriu que poderia usar o seu próprio dedo, aumentando a autonomia rumo à sua capacitação para a leitura.
Segundo Safra, G.5 "O objeto subjetivo é fruto da criatividade primária e da onipotência do bebê, possibilitando o aparecimento da experiência de ilusão que funda o acontecer humano."
Certo dia Felipe leu em voz alta os dizeres de uma placa fixada longe do alcance de seu dedo. Ao chegar o final do ano conseguia ler frases, mesmo na minha ausência, conforme relatos dele, da escola e dos "tios".
O livro "O frio pode ser quente?
Em Gayotto, M.L.C temos:
"A inibição não aparece ligada a uma situação de ambivalência (o que é específico de outras situações depressivas nas quais já aparecem integrados o objeto e o vínculo, reconhecidos em sua dupla condição, em sua contraditória realidade gratificante e frustrante)"
A necessidade de avançar rumo à constituição de um pensamento menos rígido levou-me ao livro "O frio pode ser quente?", que reconheço ter sido um valioso instrumento de trabalho.
Este livro e outros eram emprestados e, com isso, de alguma maneira, as atividades encontravam uma continuidade, o que se comprovava pelos comentários anexados com as suas devoluções nos encontros subsequentes.
O livro "O frio pode ser quente?" foi amplamente utilizado e não raro relembrado como referencial a diversas situações. Neste livro há situações dissociadas e com sentidos opostos, o que implica a existência de um "espaço entre" duas posições e, portanto, propiciador de momentos de espera que são necessários para o processamento de ativações mentais.
Apoiado e sem medo das contradições, Felipe seguia elaborando mecanismos rumo à ambivalência.
Diante da rigidez de pensamento, resultante dos "medos" de Felipe, este livro foi de grande valia e esteve quase sempre visível em nossa mesa de trabalho.
Reproduzindo seu Corpo em Folha de Papel
Felipe aceitou a proposta de ter o contorno de seu corpo desenhado sobre um papel, desde que se mantivesse calçado. Enquanto fazia o contorno de seu corpo com a caneta, Felipe me alertava para que não o sujasse. Ao ver seu tamanho real surpreendeu-se e mostrou uma expressão de felicidade. Estava diante de uma figura materializada de si mesmo.
A seguir recortou figuras de revistas, que lhe agradavam e que poderiam ser coladas sobre o desenho de seu corpo. Limitou-se a poucos recortes: um cérebro humano, um relógio de pulso, uma paisagem campestre, uma caixa de bombons e um carro de corrida.
Colou o cérebro na cabeça, o relógio no braço direito, a caixa de bombons de fora do corpo, na altura do peito. Não utilizou a paisagem e o carro, jogando-os na lixeira. Utilizou a caneta e desenhou uma camiseta, bermuda, tenis, meias e um colar. Fez o desenho rapidamente e disse-me: "pronto, tá completo agora". Disse-me também que o cérebro e as pernas são as partes mais importantes do corpo, porque permitem os movimentos. Depois começou a ver que tudo o mais era também importante.
Diversos comentários foram trazidos a partir desta atividade. Perguntou-me por desenhos similares de outras crianças que atendo; comparou seu tamanho com o meu, a partir do seu olhar à distância; criou histórias de corpos exóticos (corpos que paravam de crescer; corpos solitários e tristes que um dia encontravam seu "duplo" para darem conta de suas vidas solitárias; etc.)
Passado algum tempo ele reencontrou este trabalho. Disse-me: "Já estou maior. Posso colocar mais figuras, mas agora não precisa mais".
O Pedido de Guarda
Felipe não poderia estar com esses "tios" sem a documentação referente à sua guarda, de acordo com o Art. 28 do Estatuto da Criança e do Adolescente que assim diz:
"A colocação em família substituta far-se-á mediante guarda, tutela ou adoção, independentemente da situação jurídica da criança ou adolescente, nos termos desta lei".
Os "tios" conscientizados da exigência legal se mobilizaram, mediados pelo Escritório Modelo de Advocacia da PUC-Rio.
O processo de pedido de guarda surtiu efeitos psicológicos positivos, verificados, principalmente na "amarração" da função paterna, que só agora ganhava uma posição de sustentação, frente a todos os integrantes do grupo familiar.
CONCLUSÃO
O comportamento materno, oscilante e sem regularidade, contribuía para uma situação de invasões repetidas e continuadas. Felipe nunca sabia o que esperar e assim foi marcado por um viver sobressaltado, que sempre o afastava das necessárias tentativas rumo ao desconhecido. Considerei também que uma interrupção abrupta da amamentação e a retirada do objeto transicional foram expressões de abuso físico e abuso psicológico contra a criança. Por estas razões este caso demonstra que violências domésticas, expressas na negligência, abandono, abuso psicológico e no bater, podem prejudicar a própria constituição do ser enquanto sujeito, face ao interjogo dos obstáculos afetivos e cognitivos resultantes destas ações.
De fato toda violência doméstica é uma traição ao direito do ser humano de viver e deixar viver em segurança e proteção, por parte de quem tem a responsabilidade social e legal de cuidar e preservar de maneira apropriada. Assim foi o caso de Felipe.
A trajetória de Felipe nos leva a pensar sobre algumas manifestações, que nos aparecem na clínica psicopedagógica, que indicam ter sua origem em um espaço de tempo situado na época da formação das primeiras imagens, anteriores ao aparecimento da linguagem.
Inicialmente Felipe tomava-me como parte de si mesmo. Com o andamento do seu processo terapêutico foi paulatinamente dando espaço ao seu verdadeiro self e assim, usando de forma diferenciada os objetos e enriquecendo sua estrutura cognitiva, avançando em uma leitura sem medo de tropeços.
De minha parte, procurava garantir a ele um ambiente de segurança, onde, ousando sem medo, adquiriu novas possibilidades cognitivas e emocionais.
Felipe preservou a afetividade pela mãe biológica sem prejuízo de seus sentimentos pelos "tios".
Segredos foram desfeitos e assim rompida as suas funções paralisantes, tornando possível o trabalho de conhecimento de si próprio e o encontro de sua identidade. Tornou-se possível transitar livremente pelas duas casas, fazer a inclusão e interseção de classes e também a leitura fluente.
Após dois anos de atendimento individual foi conveniente incluí-lo em atendimento grupal, onde permaneceu por mais um ano.
O caso de Felipe aponta para outras reflexões, que na impossibilidade de discuti-las no momento, passo pelo menos a citar algumas, na esperança de que em outra oportunidade sejam ventiladas:
· A construção do lugar do pai pela díade mãe/filho e as repercussões da imagem do pai apresentada pela mãe ao filho (pai desconhecido, pai distante, pai morto, pai desqualificado) nas modalidades de aprendizagem.
· As condições propiciadoras para uma mãe exercer a sua função de maneira suficientemente boa e, por analogia, o traçado do perfil do psicopedagogo suficientemente bom.
· As articulações da psicopedagogia com outras áreas do saber, tendo em vista a circularidade e as reciprocidades de seus efeitos.
· A interpretação e os processos inconscientes na "interação terapêutica psicopedagógica".


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
1.- SLUSKI, C. - Violência Familiar e Violência Política: Implicações Terapêuticas de um Modelo Geral - In SCHNITMAN, D.F. 1996- Novos Paradigmas, Cultura e Subjetividade Ed. ArtMed - p.229-243.
2.- WINNICOTT, D.W. - 1982 - O ambiente e os processos de maturação p. 130.
3.- PAIN, S. - 1992 - Diagnóstico e Tratamento dos Problemas de Aprendizagem - Ed.ArtMed, p. 47.
4.- FERNÁNDES, A.- 1991 - A Inteligência Aprisionada - Ed. Artes Médicas, p.110. 99.
5.- SAFRA,G. -1999-A Clínica em Winnicott - In Revista "Natureza Humana", nº 1 Vol I - 1999, p.99.
6.- GOYOTTO, M.L.C. -A Psicologia de Enrique Pichon-Rivière - Publicação do Grupo de Psicologia Social - PUC-SP, p. 40.

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