| ::.
Semânticas
da educação popular[1] |
ERENILDO JOÃO CARLOS (UFPB)
Depois do reconhecimento de que a produção
do conhecimento sobre o mundo é mediado pela
linguagem, é difícil pensarmos a construção
de categorias explicativas sobre os fenômenos
sociais, tal como a educação, sem considerarmos
seriamente a necessidade de uma reflexão que
inclua o complexo social da linguagem como constitutivo
do conhecimento e da visão que temos sobre as
coisas, sobre o mundo[2].
Bourdieu (1998) é um exemplo
de pesquisador que reconheceu e trabalhou essa questão.
Nessa perspectiva, ao discutir sobre a linguagem como
constitutiva do conhecimento do campo das ciências
sociais, o sociólogo em tela tece a seguinte
consideração (Idem:81):
A ciência social lida com realidades
já nomeadas e classificadas, portadoras de nomes
próprios e de nomes comuns, de títulos,
signos, siglas. Sob o risco de retomar por conta, sem
o saber, atos de constituição cuja lógica
e cuja necessidade ela ignora, a ciência social
deve tomar como objeto as operações sociais
de nomeação e os ritos de instituição
através dos quais elas se realizam. Contudo,
num nível ainda mais profundo, a ciência
social precisa examinar a parte que cabe às palavras
na construção das coisas sociais, bem
como a contribuição que a luta entre classificações,
dimensão de toda luta de classes, traz à
constituição das classes, classes de idade,
classes sexuais ou classes sociais, clãs, tribos,
etnias ou nações. (O grifo é nosso)
Nessa passagem, Bourdieu não
assevera só a relação signica entre
as palavras e as coisas, ou melhor, entre o mundo simbólico
e o social. Destaca, sobretudo, o fato de que os atos
de nomeação e de classificação
dos eventos e processos sociais se configuram como objetos
de disputa e de luta. Em outros termos, há um
embate social em função do domínio
do poder simbólico de designar, representar,
classificar, enfim, significar o mundo social.
Foucault (1996:8-9), ao abordar a problemática
da linguagem como discurso, defende tese semelhante
quando afirma que “em toda sociedade a produção
do discurso é controlada selecionada, organizada
e redistribuída por certos número de procedimento
que tem por função conjurar seus poderes
e perigos, dominar seus acontecimentos aleatórios,
esquivar sua pesada e temível materialidade”.
Ora, esse fato histórico é
um indicativo da razão pela qual a linguagem
(assim como o discurso) é objeto de luta social.
Discorrendo mais sobre isso, o filósofo francês
(Idem:10) alega que ‘o discurso (...) não é
simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo;
é, também, aquilo que é o objeto
do desejo”. Segundo o autor em tela “o discurso não
é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou
os sistemas de dominação, mas aquilo por
que e pelo que se luta, o poder do qual nos queremos
apoderar”.
Poderíamos continuar trazendo
a baila enunciados dos mais diversos matizes, oriundos
de diferentes estudos e abordagens[3] a fim de demostrar
a relevância efetiva da problemática da
linguagem para várias áreas do conhecimento
e práticas sociais. No entanto, apesar da pontualidade
de nossas colocações, consideramos que
o que dissemos seja suficiente para situar o lugar do
qual escrevemos o presente texto, a saber: o da linguagem..
Precisamente, desejamos revisitar e
discutir algumas semânticas da expressão
educação popular (EP); além de
pontuar algumas relações entre essas semânticas
e as lutas sociais das classes populares. Para cumprir
esse telos, começaremos desenhando o lugar de
onde falamos. Depois, analisaremos o adjetivo ‘popular’
e a expressão EP, propriamente dita. Logo após,
concluiremos o texto tecendo algumas considerações
a partir do já exposto.
Situando o horizonte da análise
Entendemos que ao refletirmos e investigarmos
sobre um determinado objeto, a exemplo da EP, podemos
nos defrontar com três caminhos: o que parte da
centralidade dos enunciados já formulados, produzidos
sobre a questão que estamos tratando; o que se
assenta na premissa da busca do conhecimento preciso
sobre a coisa propriamente dita transformada em enunciado;
e o que se adentra nas possíveis relações
estabelecidas entre o dizer e a coisa dita. Para cada
caminho existe uma preocupação especifica,
a saber: a linguagem, o mundo objetivo e a relação
linguagem/mundo objetivo.
O primeiro caminho nos situa especificamente
no campo da linguagem[4], seja ela entendida como possibilidade
de representação do objeto conhecido;
seja ela entendida como possibilidade de constituição
do próprio conhecimento acerca do objeto conhecido.
Em outros termos, esse caminho ora é marcado
pela compreensão da linguagem como meio de representação,
expressão e registro do conhecimento adquirido
sobre o mundo; ora pela compreensão de que ela
é constitutiva do próprio conhecimento
sobre o mundo conhecido. Nesse itinerário, as
questões formuladas se preocupam com a centralidade
dos conceitos, dos significados ou dos sentidos contidos
nas proposições, nas frases, expressões
e enunciados formulados como dispositivos de memória
e de produção do conhecimento.
O segundo caminho nos remete ao mundo
objetivo. Nesse caso, nossa preocupação
não se assenta no dizer ou no dito, mas no objeto
real exterior ao dito e ao dizer, que, ao mesmo tempo
se configura como independente do dito e do dizer e
como possibilidade objetiva a partir da qual o dito
e o dizer se constitui. Ou seja, sem o qual nada pode
ser enunciado.
Aqui não nos referimos a um mundo
transcendental e inefável, que embora existindo
como condição de possibilidade última
e primeira do dito e do dizer, sobe o qual jamais poderíamos
formular um dito ou um dizer. Ou seja, diante do qual
só restaria o silêncio. Não. Não
é essa condição de possibilidade
do dito e do dizer a respeito do qual nos referimos.
Pensamos aqui no mundo existente como condição
de possibilidade objetiva do dizer e do dito, sobre
o qual se pode dizer algo. Nesse itinerário,
as questões são formuladas sobre o mundo
existente, a partir do qual o conhecimento é
produzido e o dizer é constituído.
O terceiro, é o caminho da relação
linguagem/mundo objetivo. É a via da imbricação
recíproca das duas esferas em tela. Esse é
o itinerário que percorreremos. Porque partimos
do pressuposto de que as duas primeiras vias se cruzam,
entrecruzam, entendemos que somente mediante uma investigação
situada nesse cruzamento poderemos conhecer melhor os
dois complexos relacionados, ou seja, o do mundo objetivo
e o complexo do mundo dos dizeres e dos ditos sobre
ele. Sem esse situar-se no caminho do cruzamento, pensamos
que nossa capacidade de compreensão se torna
reduzida, fragmentada, fraturada e, até mesmo,
fetichizada. Em outras palavras, a formulação
de qualquer enunciado só é possível
graças a existência objetiva da linguagem,
no interior da qual produzimos enunciados; e do mundo
objetivo, sobre o qual os enunciados falam.
Sobre a polissemia do adjetivo popular
Ao percorrermos a via escolhida, tomamos
como ponto de partida o dicionário a fim de verificarmos
o significado do termo ‘popular’. Como era de se esperar,
nos deparamos com o registro de vários significados.
Logo percebemos que um olhar superficial sobre essa
pluralidade semântica, a luz de uma ótica
unívoca e totalizante, poderia gerar a idéia
de imprecisão e de indefinição
do significante ‘popular’.
Entendemos que, no fundo, o levantamento
do problema da imprecisão ou indefinição
do termo ‘popular’ não se encontra, precisamente,
na existência polissêmica do termo, mas
nos pressupostos recorridos para sua análise,
na matriz acionada para mediar nosso relacionamento
e enfrentamento com o diverso e o diferente, também
presentes na linguagem. Esse enfrentamento, quando assentado
na matriz do discurso metanarrativo[5] - seja ele de
natureza epistemológica, que subsume a pluralidade
do real na unicidade do conceito[6]; seja ele de natureza
ideo-política, que alinha-se a uma determinada
visão unitária de mundo e a um projeto
totalitário de sociedade -, poderá ser
marcado por uma posição de abstração,
redução, restrição e exclusão,
que se refletirá, evidentemente, na escolha absoluta
de um significado em detrimento dos demais.
Preocupado com a possibilidade da eliminação
da polissemia da linguagem pelo dispositivo epistêmico
da univocidade do conceito, precisamente no campo da
ciência, Lukács (1981:78-79) chama a atenção
dos seus leitores para esse problema:
Podemos apenas assinalar que, por um
lado, a univocidade – sempre relativa – do uso científico
das palavras é uma questão vital para
a atividade e existência da ciência; mas
que, por outro lado, a tentativa de eliminar completamente
a polivalência da linguagem desembocaria na renúncia
à comunicação lingüística
como tal, na renúncia à existência
da linguagem como linguagem.
Nessa linha de raciocínio, discorre
também Bakhtin que não é próprio
da linguagem um estado de onisignificação.
Nesses termos, o referido filósofo da linguagem
(1995:130) argumenta que “se um complexo sonoro qualquer
comportasse uma única significação
inerte e imutável, então esse complexo
não seria uma palavra, não seria um signo,
mas apenas um sinal. A multiplicidade das significações
é o índice que faz de uma palavra uma
palavra”.
Ora, a convenção da associação
de um significado ‘x’ à um significante ‘y’,
a fim de ferir-se a um objeto ‘z’, é uma coisa.
Outra, de natureza diversa, é pensarmos uma relação
necessária entre um determinado significado ‘x’
e o significante ‘y’; e, entre eles e um objeto ‘z’.
Vale lembrar que produzimos certas convenções
para facilitar[7] nossa relação comunicativa
sobre algo dito sobre o mundo humano e natural. Na relação
estabelecida entre as palavras e as coisas, não
se deve confundir esta com aquela. Palavra é
palavra, coisa é coisa. Desse entendimento resulta,
portanto, a tese de que toda tentativa de univocizar
o signo se configura, no mínimo, como um absurdo.
Com efeito, o dicionário é
um dos lugares textuais, uma das formas simbólicas
sociais de registro da memória polissêmica
da linguagem. Esse fenômeno lingüístico
pode ser verificado, por exemplo, no dicionário
Aurélio (19..:1115), quando, ao referir-se sobre
o adjetivo ‘popular’ (que se origina do termo latino
populare), associa o significante ‘popular’ à
idéia do que é ‘próprio do povo’,
do que é ‘feito para o povo”, do que é
“agradável ao povo” ou ainda do que é
“vulgar, trivial, ordinário”. Significados similares
podem ser encontrados no Dicionário Etimológico
de Machado (1977:1853), que registra ‘popular’ como
‘o que se relaciona com o povo, que convêm ao
povo, feito para o povo; amado pelo povo, agradável
ao povo, devotado ao povo”.
Nota-se, portanto, que o traço
semântico comum dos dois dicionários é
o de que o significante ‘popular’ é posto como
referência ao povo (sobre o qual nos deteremos
um pouco mais adiante). No entanto, o adjetivo contêm
algumas possibilidades de associações
distintas e mesmo contraditórias. Isto é,
‘popular’ pode ser tanto ‘o que é próprio’
como ‘o que é destinado’ ao povo.
Se analisarmos mais detidamente as expressões
‘o que é feito para’ e ‘o que é próprio
de’, notaremos que elas não são correspondentes.
Existe entre elas uma diferença fundamental.
A primeira expressão contêm a idéia
de exterioridade, de algo que é ‘atribuído
a’. A segunda, por sua vez, traz a idéia de interioridade,
ou seja, indica elementos constitutivos do ser da coisa.
Dito de outro modo, o termo ‘próprio’ nos remete
às características inerentes, imanentes
ao ser da coisa, dizem sobre estas características,
sem as quais determinadas coisas não poderiam
existir como tal. Vejamos alguns exemplos que nos ajudam
a explicitar melhor a idéia do termo ‘popular’
na segunda perspectiva semântica.
No caso da natureza inorgânica,
é incontestável a afirmação
de que faz parte do modo de ser da água a possibilidade
de variação do seu estado: de líquido
para gasoso ou para sólido, de gasoso par líquido
ou sólido, ou ainda, de sólido para gasoso
ou líquido. Por outro lado, é sujeito
a contestação uma proposição
que afirme ser próprio da natureza inorgânica
reproduzir-se. Isto porque, esse fenômeno é
uma peculiaridade da natureza orgânica, do ser
vivo. A reprodução é inerente ao
fenômeno da vida; sem ela não haveria a
perpetuação das espécies.
Mais um exemplo. No campo da formação
social, podemos dizer que é próprio do
sistema capitalista o trabalho assalariado e o valor
de troca. Ou seja, é impossível a existência
do sistema capitalista sem o trabalho assalariado e
o valor de troca.
Poderia soar como verdadeira, afirmações
do tipo: a variação de estado foi feita
para a água; a reprodução foi feita
para o ser vivo; ou, ainda, que o trabalho assalariado
foi feito para o capitalismo. Ora, nenhuma dessas alternativas
estão corretas, pois se fundamentam numa premissa
de exterioridade, não de propriedade. Em nenhum
dos referidos casos a questão se trata de ‘ser
feito para’, mas de ‘ser constitutivo de’.
Nota-se, portanto, que o simples uso
do dicionário como um recurso de entendimento
do caráter ‘popular’ da educação
dita ‘popular’, nos remete ao posicionamento de refutação
da idéia de um único modo de se conceber
e de se fazer a educação dita ‘popular’[8].
Nossa a hipótese, como já dissemos, é
a de que essa idéia resulta de uma leitura ou
posição inspirada numa ordem discursiva
de caráter gnosiológico univalente ou
ideo-político totalitário, que faz com
que, no fim e ao cabo, o indivíduo (ou organização)
escolha a semântica mais adequada aos fins estabelecido
por ele. No entanto, independente dessa ou daquela fonte
de inspiração onisignificativa, é
um fato que, mesmo etimologicamente, o termo popular
é marcado pela polissemia.
Esse caráter de indeterminação
do significado do termo ‘popular’ nos remete a uma das
características fundamentais da linguagem, a
saber sua polissemia: a possibilidade de variação
semântica dos significantes. Dito de outra forma,
o mesmo termo pode ter vários significados que
dependerá da referência a qual se associa.
A partir de Machado, poderíamos dizer que a variação
da semântica ‘popular’ depende do emprego que
fazemos do significante povo. No seu dizer, o termo
‘popular’ associa-se ao “que se relaciona com o povo”.
Em outras palavras, a significação de
um determinado termo depende do uso que façamos
dele. De certa forma, é essa a premissa subjacente
às formulações postas nos dicionários
de Aurélio e de Machado.
Ora, como a ‘educação
popular’, indica um modo específico de se fazer
educação, qual seja, um modo ‘popular’,
deriva-se, a partir do já exposto sobre esse
termo, a premissa de que a semântica da ‘educação
popular’ também não pode ser monovalente,
unívoca. Ao contrário, deverá ser
polissêmica, plurivalente. Isto por conta dos
dois aspectos já mencionados: por um lado, devido
à riqueza da linguagem como possibilidade de
captar os vários modos de efetivação
de um dado evento; por outro, devido à dinâmica,
à transformação e à diversidade
da própria realidade social e natural.
De acordo com o caminho analítico
que escolhemos, não concebemos a plurisignificação
da linguagem sendo gestada autônoma e exclusivamente
no âmbito da própria linguagem. Como se
fosse possível que ela produzisse em si e a partir
de si a polissemia; como se fosse possível o
signo fundar a si mesmo. Partilhamos a compreensão
de que, não obstante vermos a linguagem como
um complexo social portador de uma legalidade própria,
as várias possibilidades semânticas de
uma dada frase e expressão, a exemplo da ‘educação
popular’, somente seja possível na sua interação
efetiva com o que ela refere, ou seja, o mundo objetivo
do qual ela fala.
Esse entendimento pode ser muito bem
explicitado se recorrermos ao caráter quaternário
constitutivo do signo, a saber, o significante, o significado,
a referência e o significador. Vale dizer que
o significante consiste nas marcas utilizadas pelo sujeito
significador para representar uma determinada coisa.
O significado é a idéia que se tem da
coisa representada. A referência é a coisa
que o significante representa. E o significador é
o sujeito proferidor do enunciado que aciona o emprego
de certos pares de significantes e significados para
se referirem, de uma maneira determinada, à certas
coisas[9].
A fim de explicitarmos melhor esse ponto
de nossa discussão, tomaremos como exemplo as
possibilidades semânticas do termo ‘povo’ analisada
por Wanderley. O referido autor faz uma discussão
elucidativa do que estamos tratando. Sem querer repetir
o já dito por ele, bem como repetir sua lógica
de exposição, nos apropriaremos de alguns
elementos semânticos desenvolvidos por ele, resignficando-os
na ótica do esquema quaternário a que
nos referimos no parágrafo anterior.
Wanderley oferece a possibilidade de
formulação de vários significados
(idéias) por determinados sujeitos (o significador)
sobre o significante (marca, escrita, som) ‘povo’, a
partir da possibilidade de utilização
de várias referências (elite, nação,
classe social, etc). Vejamos três dos cinco significados
desenvolvidos por ele.
Se recorrermos à referência
sócio-política da cidadania, no que tange
à especificidade das lutas dos indivíduos
pela efetivação dos seus direitos sociais,
‘povo’ poderá significar, conforme Wanderley
(1994:52) “o conjunto dos cidadãos, iguais de
uma dada sociedade que tem interesses comuns, conflitando-se
apenas por pequenas diferenças de somenos, como,
por exemplo, de status social pessoal, etc.”.
Se, recorrendo à outra referência,
considerarmos a centralidade da nação
como critério semântico, evidentemente,
produziremos formulações enunciativas
diferentes acerca do significante ‘povo’. Nesse caso,
a semântica funcionará como um dispositivo
lingüístico que buscará delimitar
as fronteiras de pertencimento dos indivíduos
e dos interesses, sempre vinculando-os aos processos
de luta nacionais. Assim, diz Wanderley (1994:52) que
o termo ‘povo’, quando utilizado, poderá se referir,
por exemplo, a “todos aqueles que lutam contra o colonizador
na implantação da nacionalidade, organizados
numa ampla frente democrática nacional”. De modo
que nessa ótica semântica, continuando
com o supra citado autor, “as elites e os grupos nativos
que se aliam com o exterior e constituem o braço
estendido do colonizador no âmbito interno não
se amalgamam com o povo e são combatidos por
ele -, transformam-se no não-povo”.
É comum também, em se
tratando da questão da EP, uma ordem enunciativa
pautada na classe social como referência; mais
precisamente, naquela compreensão de classe social
alinhada à visão marxista de sociedade.
Nessa ordem de semantização, o já
mencionado autor Wanderley (1994:54), diz que o ‘povo’
é “identificado com as classes populares, classes
subalternas, tendo como referência básica
o proletariado como classe típica desse modo
de produção, em oposição
às classes dominantes, basicamente referidas
à burguesia”.
Esses três exemplos nos ajudam
a entender que o sujeito proferidor pode produzir diferentes
significados para o mesmo significante. Essa ordem argumentativa
nos permite galgar o entendimento de que a semântica
de um dado termo ou expressão (significante)
depende, por uma lado, da alternativa semânticas
escolhida pelo sujeito formulador da enunciação;
e por outro, do próprio objeto enunciado.
Diga-se de passagem, que, não
obstante a existência de várias alternativas
semânticas possíveis de serem acionadas
no campo da língua e de vários objetos
existentes concretamente no mundo humano e natural,
que podem ser referidos na enunciação,
somente a partir da existência objetiva da língua
e do referente, o sujeito proferidor pode produzir algum
significado. Dito de outra forma, a produção
arbitrária de significados para determinados
significantes por determinados sujeitos só é
possível graças a existência objetiva
da linguagem e do objeto que ela designa e significa.
Do exposto, podemos afirmar que o ato
de semantização presente no ato de enunciação
de um sujeito significador não é um ato
livre de condicionantes, como se pudesse ser produzido
mágica e exclusivamente por sua mente criativa
e inventiva. Toda constituição semântica
somente é possível no seio do tecido sóciolingüístico
existente num dado momento do desenvolvimento de nossa
história.
Sobre a semântica da expressão
educação popular
Tendo, pois, exposto a questão
da polissemia da linguagem a partir das possibilidades
etimológicas da palavra ‘popular’, vejamos agora
alguns desdobramentos oriundos dessas variantes semânticas
no campo da educação. A fim de cumprir
essa tarefa, partiremos da semântica centrada
na referência da classe social, ou seja, como
prática voltada exclusivamente para os interesses
de classe – da classe trabalhadora e/ou suas frações.
A escolha dessa semântica se baseia
no fato de que a classe social é uma referência
recorrente na literatura que trata da questão
em tela[10]. Um caso exemplar disso é a análise
que Manfredi (1987) fez, a partir de Gramsci. Para a
citada autora, Gramsci oferece um legado teórico-metodológico
que nos permite efetivar a tarefa de pensar a EP como
uma prática vinculada aos interesses e necessidades
concretas das classes subalternas. Isto tanto num plano
teórico como prático.
Aventa Manfredi que, na literatura pertinente
sobre a EP, podemos encontrar vários trabalhos[11]
ilustrativos de análises que priorizam a relação
da EP como prática advinda do governo, objetivando
atingir as camadas populares. Práticas estatais
sempre vinculadas à manutenção
dos interesses econômicos, políticos, sociais
e culturais próprios da classes hegemônica.
Com relação à essas análises,
Manfredi se coloca contrariamente. É o que podemos
verificar logo na introdução de suas reflexões.
Desse modo, se posiciona Manfredi (1987:40):
No nosso entender, a perspectiva apreendida
em Gramsci parece indicar uma linha de reflexão
e de análise que centraria sua atenção
na EP enquanto processo, que permitiria às classes
subalternas elaborar e divulgar uma concepção
de mundo organicamente vinculadas aos seus interesses
e não, simplesmente, como um instrumento ideológico
empregados pelas classes dominantes para a conquista
ou manutenção de sua hegemonia. Quando
se aceita essa outra possibilidade, parece necessário
repensar a história da educação
popular à luz dos interesses próprios
das classes subalternas, história esta que não
está desvinculada daquela das classes dominantes,
mas que justamente se constrói a partir do embate
ideológico-político constante travado
entre essas classes enquanto pólos antagônicos.
(O grifo é nosso)
Ao situar sua análise no quadro
teórico gramsciano, Manfredi pontua alguns dos
elementos desse esquema analítico e prático.
Segundo ela, um dos aspectos centrais desse quadro teórico
diz respeito à centralidade da luta de classe;
luta que determina o tom do estabelecimento de todas
as práticas e relações sociais
constituídas no seio de todas as formas históricas
presentes na formação social capitalista[12].
A partir dessa ótica, dois aspectos são
significativos: a relevância histórica
do proletariado como classe subalterna essencial e o
redimensionamento da luta do campo estrutural para o
superestrutural.
Sobre a posição central
do proletariado na luta de classe, destaca Manfredi
(idem:49) que “esta preocupação com uma
cultura e uma educação proletária
advém do fato de que Gramsci considera possível
e necessário que o proletariado prepare sua hegemonia
futura, mesmo antes da tomada do poder do Estado”. No
que tange ao desdobramento da luta também para
o campo superestrutural, a autora argumenta ainda que
“a análise de Gramsci perpassa desde as diferentes
instâncias da superestrutura – o Estado e os aparelhos
de Estado – até chegar ao estudo das instituições
educacionais e à função dos intelectuais”.
Ora, não obstante, Gramsci alargar
os horizontes de compreensão dos processos históricos
de luta no contexto da sociedade capitalista italiana,
ao considerar a possibilidade de seus desdobramentos
nas trincheiras do Estado[13], Manfredi acaba por limitar
suas análises na esfera da ‘sociedade civil’.
E mais, priorizando aquelas zonas civis ligadas às
classes subalternas.
Ao defender essa posição,
Manfredi (idem:49) alega, por um lado, que Gramsci não
só tinha a preocupação de “desmascarar
o caráter ideológico de classe e de seus
propósitos” mais também descobrir “vias
alternativas de educação” que viabilizassem,
continua a autora, a “organização e a
difusão de uma cultura articulada a partir das
bases: círculos, clubes e associações,
diretamente coordenadas com a organização
política da classe operária italiana –
sindicatos e partidos, ou seja, daquilo o que mais adiante
associamos à idéia de educação
popular”. Por outro, destaca que as diferentes agências
que compõem o campo das organizações
culturais e políticas da sociedade civil são
extremamente conservadoras. A exemplo, frisa a autora
em tela (Idem:53), das “escolas, associações
culturais, bibliotecas, clubes, agências jornalistas
e publicitárias, igrejas, comitês, partidos,
etc.”. Desse conjunto, Manfredi sublinha que para Gramsci,
somente o partido possuiria as condições
necessárias para se efetuar o trabalho de construção
da consciência de classe no seio do proletariado.
Além dessas reduções,
a análise de Manfredi sobre a EP aciona uma semântica
pautada na possibilidade da existência de um estado
de pureza ideológica das classes subalternas.
O que, de certo modo, contradiz o paradigma gramsciano
que entende a cultura proletária como uma composição
heterogênea de concepções de mundo
subalternas e dominantes. Essa contradição
pode ser notada na passagem seguinte, quando Manfredi
(Idem:55), ao mesmo tempo que aponta a heterogeneidade
da ideologia das classes subalternas, propõe
uma ideologia livre das marcas ideológicas da
classe dominante.
Se aceitamos as premissas gramscianas
de que a maior parte dos organismos culturais, principalmente
a escola, assegura a transmissão de uma concepção
de mundo que permite a hegemonia da classe dominante
sobre as demais classes, e que a concepção
de mundo das classes subalternas é por essência
heteróclita (pois constitui um amálgama
de concepções de mundo da qual também,
e, principalmente, fazem parte elementos da ideologia
dominante), uma prática educativa que pretenda
ser um veículo de contra ideologia deveria caracterizar-se
por ser uma prática independente e autônoma
do ponto de vista ideológico. (O grifo é
nosso)
Com efeito, esse modalidade de entendimento
conduz Manfredi à formulação de
enunciados que envolveriam três dimensões
da EP, a saber, (a) como um conjunto de práticas
sociais classistas constitutivas do desenvolvimento
de um fazer independente e autônomo ideologicamente;
(b) como um saber-instrumento composto por métodos,
conteúdos e sujeitos cognoscíveis peculiares
ao mundo sócio-cultural das classes subalternas;
e (c) como exercício efetivo da capacidade dos
seus membros dirigirem as instâncias políticas
do Estado de forma competente e conseqüente.
Não é do nosso interesse
analisar as peculiaridades das dimensões enunciativas
formuladas por Manfredi. Não obstante, consideramos
suas formulações paradigmáticas
no que concerne a discussão sobre as semânticas
da EP. Nos satisfaremos, por hora, e mesmo assim com
o risco de ser repetitivo, em dizer, resumidamente,
que, a partir de Gramsci, Manfredi emprega uma semântica
da EP associada à luta pela hegemonia entre as
classes fundamentais; associada às lutas situadas
na esfera da sociedade civil e, precisamente, relacionadas
ao campo de atuação das classes subalternas;
bem como associada à possibilidade de uma identidade
popular despida das marcas do signo ideológico
dos grupos e classes dominantes.
Posicionamento diferente encontramos
em Paiva (1987), cuja análise desenha-se em torno
de uma crítica a essa modalidade semântica
(e de suas implicações sociais) que coloca
a EP nos limites restritos e exclusivos das instâncias
civis sob o controle das classes populares. Para a referida
autora, uma das reduções que essa modalidade
discursiva acarreta, é uma visão de Estado
que se configura ora como ausente e monolítico,
ora como conservador e corruptor dos interesses das
classes subalternas. Dessa ótica, não
poderia se esperar outra conclusão senão
a de que a EP “não pode ser realizada pelo Estado,
que, afinal, aparece como inimigo, na medida que se
dá por suposto uma perfeita identidade entre
ele e as classes dominantes, entre ele e o capital (Paiva:82)".
No ver de Paiva, essa semântica
associada à relação Estado-EP (e
suas políticas públicas educacionais voltadas
para as camadas populares) foi constituída, sobretudo,
a partir de um fator teórico e outro histórico.
Sublinha a mencionada autora que depois
das enunciações teóricas formuladas
por Louis Althusser, na década de 70, acerca
da constituição repressora e ideológica
do Estado capitalista, vários educadores e pesquisadores
incorporaram e adotaram a concepção da
escola como um aparelho ideológico do Estado,
portanto, como uma instância exclusivamente reprodutora
dos interesses e da ideologia burguesa. A partir de
então, a educação escolar e informal,
promovida sobre a direção do Estado, passaram
a ser signos do capital e de sua reprodução.
O fator histórico apontado por
Paiva, que consolida a visão de um Estado comprometido
com a reprodução do capital e, consequentemente,
com a eliminação de práticas de
resistência e práticas revolucionárias
produzidas na sociedade civil, diz respeito a conjuntura
histórica vivenciada pelo país após
o golpe militar de 64. Diga-se de passagem, uma conjuntura
marcada pela ditadura e autoritarismo, onde a cidadania
foi cassada e os que faziam oposição à
ordem vigente foram calados, exilados, torturados e
assassinados. Ademais, destaca Paiva (idem:82) que
as características da atuação
desse Estado no campo educacional contribuíram
para provocar e/ou fortalecer, entre os educadores que
buscavam alternativas de atuação estritamente
no âmbito do movimento popular, a aceitação
mais ou menos pacífica de uma visão não-dialética
da educação por ele promovida.
Na visão de Paiva, essas seriam
as duas razões fundamentais para o descrédito
no Estado e de tudo que provenha dele. Entretanto, não
obstante a realidade objetiva dos dois fatores mencionados,
Paiva considera que a absolutização dessa
visão elimina as contradições existentes
no seio do capitalismo e, particularmente, do próprio
Estado. Ao perdermos de vista as contradições
imanentes do capital e do Estado, é óbvio
que só podemos satanizar o Estado. De modo que
a EP só poderá ser vista como possível
de acontecer fora de suas fronteiras e, evidentemente,
pelas mãos dos próprios agentes das classes
subalternas. Nesse sentido, argumenta Paiva (Idem:80):
Ora, se vemos o Estado como um instrumento
nas mãos das classes dominantes, que atua de
maneira a assegurar a reprodução das relações
de produção e de exploração,
e se define a educação popular como somente
aquela que está voltada para os interesses últimos
das classes a que se destina, parece consequentemente
considerar que somente essas classes podem realizar
sua educação – eventualmente com a ajuda
de alguns ‘intelectuais orgânicos’- e que ao Estado
não cabe nenhum papel, a não ser o de
perturbar, prejudicar ou mesmo evitar a educação
popular.
Recolocando a problemática da
relação Estado e EP dessa maneira, Paiva
compartilha não somente da dúvida sobre
os pressupostos que subjazem a rejeição
do Estado como uma região possível de
promoção da EP, como também colabora
para tecer teoricamente a produção de
um deslocamento e de uma fissura na centralidade mesma
do significado da expressão EP. Deslocamento
que atinge, basicamente, duas dimensões que poderíamos,
assim, assinalar e formular: a EP é exclusividade
das classes subalternas? Não haveria possibilidade
do Estado desenvolver uma EP na perspectiva mesma dos
interesses das classes subalternas? Vejamos essa questão
nas palavras da própria autora (idem:80).
Tendemos hoje a considerar a educação
popular, definida como aquela que atende aos interesses
das classes populares, é uma educação
que se passa fora do sistema formal de ensino, sendo
– portanto – basicamente educação de adultos
(seja aquela que visa à aprendizagem de conteúdos
específicos diversos, vinculados aos anseios
e iniciativas da população e à
sua educação política, seja a que
se realiza através de diferentes formas de luta
social: luta pela terra, pelos terrenos urbanos para
habitação, luta sindical, etc.). Acredito
que boa parte dos presentes – incluindo-me entre eles
– estaria de acordo em privilegiar esta forma de educação
popular, ou seja, aquela que ocorre no bojo do movimento
popular. Isto, porém, não nos deve impedir
de ver que a educação popular não
se restringe a ela, mas engloba toda a educação
que se destina às classes populares: a que se
vincula ao movimento popular de forma direta, mas também
a que é organizada pelo Estado, incluindo-se
aí o ensino através do sistema de educação
formal destinadas aos jovens e adultos e também
a população em idade escolar. (O grifo
é nosso)
Nota-se que Paiva trabalha com uma semântica
mais lata de EP, ou seja, a EP se configura como uma
prática que “engloba toda a educação
que se destina às classes populares”. Essa semântica
de horizonte alargado acarreta modificações
significativas tanto no plano das formulações
enunciativas como das relações efetivas
das classes populares entre si e com o Estado.
Nos parece que esse horizonte mais alargado
se tornou, gradativamente, o signo das décadas
de 80/90. Muitas vozes produziram a mesma enunciação.
Gadotti (1982), por exemplo, acentua o fato de que o
Estado não é somente contraditório,
mas complexo e plural. Graças a isso, ele se
configura como uma instância demandatária
de políticas públicas de todas as ordens;
que precisa ser explorada adequadamente pelas classes
populares em função de seus interesses
concretos. Nessa perspectiva, aventa o autor (Idem:65)
em tela que
A educação popular implica
não só a formação consciente
do cidadão – sua função conscientizadora
– mas também o fortalecimento das organizações
do controle público, popular e comunitário
sobre o Estado – sua função organizadora.
Só o controle político da sociedade civil,
altamente organizada, sobre o Estado, pode garantir
as conquistas democráticas e o socialismo, o
qual também pressupõe as conquistas democráticas
como o pluralismo político e o Estado de direito.
Ao nosso ver, tanto Paiva como Gadotti
(dentre outros) recolocam a luta social dos movimentos
sociais e populares no eixo gramsciano, ao reconstituir
o elo perdido da sociedade política como uma
das esferas do Estado portadora de contradição,
complexidade e pluralidade. Nesse novo horizonte semântico
não se busca mais enfatizar a idéia de
um Estado ‘ausente’ e satanizado; de uma sociedade civil
desligada da sociedade política; ou da absolutização
da idéia de uma vanguarda proletária como
motor central da transformação social.
Algumas
considerações finais
Nos
parece que existe, atualmente na América Latina,
uma tendência de ampliação do campo
semântico bem como dos espaços de efetivação
da EP[14], mesmo no seio daquelas práticas educativas
centradas na ideologia da defesa dos interesses das
classes populares. Nesse sentido, concordamos inteiramente
com Puiggrós (1994:19) quando afirma que
la
lucha por lá educación pública
comienza a ser asumida hasta por los educadores populares
más radicalizados, que la hubieram rechazado
una década antes. La dicotomía que identificaba
educación popular con educación no escolar,
frente a la educación burguesa antipopular con
‘escolarización’, resulta cuando menos caduca.
Hoy viejos y denostados principios pedagógicos
modernos, tales como la universalidad de la educación
básica, se transforman en metas para la educación
popular.
Vislumbra-se,
nas últimas décadas do final do século
XX, portanto, um novo contexto semântico e sócio-histórico
para as lutas dos movimentos sociais e populares. Conforme
aludimos ao longo de nossa exposição,
entendemos que essa possibilidade de semantizações
se encontra, por um lado, na existência indeterminada
da própria constituição signica
da linguagem; por outro, no desenvolvimento e na dinâmica
existentes no próprio complexo social da educação,
de um modo geral, e da EP, de um modo particular. É
nesse pressuposto que assentamos a tese central da discussão,
a saber: os vários desenhos semânticos
produzidos pelas diferentes, diversas e, mesmo, antagônicas
formulações enunciativas e discursivas
sobre a EP, indicam que, indubitavelmente, a expressão
seja marcada pela polissemia. Ou em outros termos, tudo
nos leva a crer que não há um sentido
único para a expressão EP. Na verdade,
o que existem são semânticas da EP.
Com
efeito, as recentes semantizações da expressão
EP, relacionadas às lutas contemporâneas
dos movimentos sociais e populares, fazem com que o
pêndulo do embate perca, mais uma vez, sua fixidez
referencial. Somente vislumbrando os novos itinerários
em que o pêndulo semântico e prático
da EP se movimenta, o deslocamento que realiza por novos
campos e trincheiras, poderemos entender a proliferação
das lutas pela ampliação do número
de vagas, escolarização em todos os níveis
e melhoria da qualidade do ensino. Lutas pela formação
e remuneração adequada dos professores,
metodologias mais críticas e democráticas.
Lutas pela gestão escolar e financiamentos de
práticas educativas diretamente ligadas às
necessidades objetivas das classes subalternas. Lutas
pela constituição de novos espaços
e práticas educativas. Lutas pela inclusão
curricular da cultura de minorias como a indígena
e a negra; a inclusão de questões éticas,
ecológicas, religiosas, de gênero, de sexualidade,
etc. Enfim, disseminam-se lutas que buscam efetivar
a concretização da relação
educação/cidadania nos diferentes territórios
e matizes da sociabilidade contemporânea.
Enfim,
conforme fala Calado (1998:142), “a cada dia faz menos
sentido lidar com a categoria (no nosso caso, a semântica)
‘classes popular’ descolada daquelas categorias (no
nosso caso, referências) , ou pelo menos de algumas
delas”. Em nossos termos, parafraseando o referido autor,
não deixa de ser absurdo, no cotidiano da história
do mundo contemporâneo, a existência de
uma semântica (e de uma prática) de EP
que desconsidere uma gama de outras referências,
por vez, diferentes e mesmo antagônicas, mas possivelmente
tão relevantes quanto as referências de
classe e de luta pela hegemonia ideo-política
do Estado.
Referências
bibliográficas
BAKHITIN,
Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem – problemas
fundamentais do método sociológico na
ciência da linguagem. Trad. Michel Lahud e Yara
Frateschi Vieira. 7. Ed., São Paulo: Editora
Hucitec, 1995.
BOURDIEU,
Pierre. A economia das trocas lingüísticas:
o que falar quer dizer. 2. Ed. – São Paulo: Editora
da Universidade de São Paulo, 1998.
CALADO,
Alder Júlio Ferreira. Reproblematizando o(s)
conceito(s) de Educação Popular In: COSTA,
Marisa Vorraber (org.). Educação popular
hoje. - São Paulo: Edições Loyola,
1998. P. 123-150.
FERREIRA,
Alberto Buarque de Holanda. Novo dicionário de
língua portuguesa. 1. Ed., Rio de Janeiro: Editora
Nova Fronteira, 19 --.
FOUCAULT,
Michel. A ordem do discurso. Trad. Laura Fraga de Almeida
Sampaio. 2. Ed. São Paulo: Loyola, 1996.
LUKÁCS,
György. La reproduzione sociale In: Per una ontologia
dell’esserre sociale. Trad.preliminar Sérgio
Lessa.- Roma: Editora Riuniti, 1981. Cap. 2, V.2. (Texto
digitado).
MACHADO,
José Pedro. Dicionário Etimológico
de Língua Portuguesa. 2. Ed., V. III. Lisboa:
Editorial Confluência. 1977.
MANFREDI,
Silvia Maria. A Educação popular no Brasil:
uma releitura a partir de Antônio Gramsci. In:
BEZERRA, Aída e BRANGÃO, Carlos Rodrigues
(Orgs). A questão política da educação
popular. 7. Ed., - São Paulo: Brasiliense, 1987.
p. 40-61.
PAIVA,
Vanilda da P. Estado e educação popular:
recolocando o problema. In: BEZERRA, Aída e BRANGÃO,
Carlos Rodrigues (Orgs). A questão política
da educação popular. 7. Ed., -São
Paulo: Brasiliense, 1987. p. 79-87.
POIGGRÓS,
Adriana. História y prospectiva de la educación
popular latinoamerica. In: GADOTTI, Moacir e TORRES,
Carlos Alberto (Orgs). Educação Popular:
utopia latino-americana. - São Paulo: Cortez:
Editora da Universidade de São Paulo, 1994. p.
13-22.
WANDERLEY,
Eduardo W. Formas e orientações da educação
popular na América Latina. In: GADOTTI, Moacir
e TORRES, Carlos Alberto (Orgs). Educação
Popular: utopia latino-americana. - São Paulo:
Cortez: Editora da Universidade de São Paulo,
1994.
Fortaleza,
fevereiro de 2002.
--------------------------------------------------------------------------------
[1]
Esse texto surge no bojo da revisão que fazemos
sobre a literatura pertinente ao estado da questão
acerca da educação de jovens e adultos,
realizado no curso de doutorado do Programa de Pós-Graduação
em Educação Brasileira da FACED/UFC; durante
o qual investigaremos a formação do discurso
sobre a educação de jovens e adultos no
município de João Pessoa/Pb, na década
de 1990.
[2]
A propósito dessa discussão, ver OLIVEIRA,
Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática
na filosofia contemporânea. São Paulo:
Edições Loyola, 1996. (Coleção
filosofia)
[3]
Encontramos esse reconhecimento em diferentes estudos
e abordagens sobre o objeto linguagem. Vejamos alguns
exemplos: CHOMSKY, Noam. Reflexões sobre a linguagem.
Trad. de Carlos Vogt... (et al.). - São Paulo:
Editora Cultrix, 1980. SAUSSURE, Ferdinad. Curso de
lingüística geral. 12. Ed. Trad. Antônio
Chelini (et al.). – São Paulo: Editora Cultrix,
1996.GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método: traços
fundamentais de uma hermenêutica filosófica.
Trad. Flávio Paulo Meurer. Rev. Ênio Paulo
Giachini. - 3. Ed., Petrópolis, RJ: Vozes, 1997;
SEARTLE, John R. Os atos de fala – um estudo de filosofia
da linguagem. Coimbra: Livraria Almeida, 1981; BAKHITIN,
Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem – problemas
fundamentais do método sociológico na
ciência da linguagem. Trad. Michel Lahud e Yara
Frateschi Vieira. 7. Ed., São Paulo: Editora
Hucitec, 1995; VIGOTSKI, L. S. A construção
do pensamento e da linguagem.- trad. Paulo Bezerra.
– São Paulo: Martins Fontes, 2000; PÊCHEUX,
Michel. Semântica e discurso: uma crítica
a afirmação do óbvio. Trad. Eni
Pulcinelli Orlandi (et. al.), 2. Ed. - Campinas, SP:
Editora UNICAMP, 1995.
[4]
Esclarecemos que nosso entendimento sobre a linguagem
ultrapassa as zonas da lingüisticidade, ou seja,
o campo saussuriano circunscrito ao par língua-fala.
Entendemos que a língua e a fala são formas
de ser hegemônica da linguagem. O signo lingüístico
é apenas uma das formas de ser da linguagem.
Lembramos que a imagem, o desenho, a escultura, o teatro,
a dança, o cinema, etc. também são
formas simbólicas do modo de ser da linguagem.
No entanto, ao longo desse texto, quando empregarmos
o termo linguagem estaremos nos referindo especificamente
ao signo lingüístico.
[5]
Sobre a questão do discurso metanarrativo ver
Carlos, Erenildo João. Discurso metanarrativo:
um discurso em processo de rejeição. In:
Revista Temas em Educação. N. 6, Centro
de Educação – Programa de Pós-graduação
em educação da UFPB, João Pessoa/Pb:
Editora Universitária, 1997. P. 52-81.
[6]
Não é demais dizermos que, embora, o conceito,
em última análise, seja uma proposição
constituída por signos lingüísticos,
se configura como uma enunciação que objetiva
precisão na tarefa de designar e representar
o real. Daí a idéia corrente de que um
conceito deva se referir única e exclusivamente
a um e único objeto, elemento, evento, processo,
campo, etc.. Nesse sentido, um conceito não pode
ser, simultaneamente, conceito de duas ou mais coisas.
Por isso, a exigência de precisão e definição,
o que significa, por fim e ao cabo, uma operação
cognitiva de redução máxima da
polissemia dos termos empregados, sobretudo, quando
não for possível sua eliminação
completa. Esse é um problema crucial da ciência
e de todas as áreas afins que recorrem a mesma
racionalidade. Um exemplo desse telos de precisão
da linguagem científica é o Tractatus
de Wittegenstain.
[7]
É evidente que embora esse seja um horizonte
desejado, pautado numa práxis que objetiva o
desenvolvimento da humanidade no homem, as relações
quer comunicativas (entre os próprios homens
que buscam entender-se) quer gnosiológicas (entre
homens que buscam conhecer algo sobre o mundo natural
e humano) nem sempre é de natureza consensual.
[8]
Por entender essa dificuldade no campo da constituição
histórica da EP, Paludo (2001) emprega ao invés
da expressão educação popular a
expressão educação do popular,
que seria mais abrangente uma vez que significaria todo
tipo de educação destinada às classes
populares. Nesse sentido, a EP seria uma modalidade
de Educação do popular. Sobre a discussão
que a referida autora faz, ver: PALUDO, Conceição.
Educação popular em busca de alternativas:
uma leitura desde o campo democrático e popular.
Porto Alegre: Tomo Editorial, Camp, 2001.
[9]
Usamos o termo significador a fim de diferenciá-lo
do termo enunciador, cujo emprego é recorrente
no campo da análise do discurso e da semiológica.
Enquanto que o termo enunciador se refere ao sujeito
produtor e/ou veiculador de sentido; o termo significador
nos remete aos significados empregados pelos sujeitos
nas suas formulações enunciativas.
[10]
Um exemplo mais recente se encontra nos estudos, já
referidos, de Paludo onde podemos encontrar, recorrentemente,
o enunciado da EP como uma das práticas da educação
do popular que se constitui, especificamente, como “uma
das concepções político-pedagógicas,
em correntes desdobradas, que orientam as páticas
educativas realzadas juntos às classes populares”
(Paludo, op. cit. p.153)
[11]
Os livros mencionados pela autora são: BEISIEGEL,
Celso de Rui. Estado e educação popular:
um estudo sobre a educação de adultos.
São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1974; MANFREDI,
Silvia Maria Política: educação
popular. São Paulo: Edições Símbolo,
1972; PAIVA, Vanilda. Educação popular
e educação de adultos. (contribuição
à história da educação brasileira).
São Paulo: Edições Loyola, 1973;
FREITAG, Bárbara. Escola, Estado e Sociedade.
São Paulo: Livraria Editora Adart, 1977; CUNHA,
Luiz Antônio. Educação e desenvolvimento
social no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria Francisco
Alvare Editora, 1977; e JANUZZI, Gilberta martino. Confronto
pedagógico: Paulo Freire e Mobral. São
Paulo: Cortez & Moraes, 1979.
[12]
Em suas conclusões finais, Paludo (op. cit.:203)
afirma que “a expressão Educação
Popular, deste modo, não se revela conceitualmente
adequada para designar a concepção de
Educação popular , pelo menos no que diz
respeito ao Brasil e às práticas por ela
orientadas. Melhor falar-se em educação
do popular e compreender a concepção de
Educação Popular como uma das concepções
presentes nas práticas educativas realizadas
junto às classes populares”.
[13]
O Estado gramsciano é composto de duas esferas,
a saber as esferas política e a ideológica.
A possibilidade de luta nessas duas zonas aponta a superação
da visão unilateral, estrutural e reprodutivista
que acaba por negar as contradições existente
no seio da própria superestrutura.
[14]
A propósito da discussão sobre a Educação
Popular na América Latina, sugerimos a leitura
do artigo Educação popular na América
latina no novo milênio: impactos do novo paradigma,
de Maria Gloria Gohn, disponível na página
da Anped.
|